Irreal

2 Capítulo 2


Notas iniciais
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Lucy adorava o bairro.

Perambular pelo Jardim Europa era algo mágico, mesmo naquela manhã chuvosa. Imaginava-se outro mundo, e a chuva que castigava seu rosto não a incomodava, nem o fato de seus pés chapinharem nas poças. Os casarões pareciam castelos, e as ruas, labirintos. Assobiando, virou a esquina, e de repente, parou. Seus pés se fincaram no chão, e um pânico irracional crescia dentro de si.

Não conseguia enxergar bem através da chuva, mas havia alguém ali, a poucos passos de distância. Lucy não costumava encontrar muitos vizinhos àquela hora: sua casa era umas das poucas residenciais, de uma rua cheia de estabelecimentos comerciais.

Era alguém pequeno. Uma criança. Lucy pensou ter vislumbrado uma garotinha ruiva, vestindo rosa, mas logo a tempestade transformou a visão num borrão, parado bem no meio da rua.

Por algum motivo, um pavor imensurável invadiu Lucy, e ela jogou longe o guarda-chuva, dando dois passos para trás. Abriu a boca para gritar, mas por um momento, nada saiu de seus lábios.

E quando o grito finalmente foi ouvido, o carro já havia avançado pela rua, e ela pensou ter escutado o grito da garotinha junto ao seu, e visto uma poça de sangue se formar no asfalto.

Piscou, e não havia mais ninguém ali. A garotinha havia sumido, e com ela, o sangue. Lucy observou a rua vazia, enquanto a chuva caía-lhe sobre a cabeça e o guarda-chuva era levado pelo vento.

Tempos depois, lembrar-se-ia de uma foto de família, um retrato que havia em sua casa: o pai e mãe; de mãos dadas no quintal da casa, enquanto a própria Lucy sorria; sentada na grama. Não sabia o porquê, mas o vestido que usava na foto também era rosa, e seu cabelo ruivo também estava em duas tranças.

Na verdade, a garotinha da rua era exatamente como ela há onze anos.