Irreal

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Avisando que essa história é uma baderna na minha mente, e a cada momento, eu mudo o rumo dela.

A biblioteca tinha um silêncio sepulcral, ás vezes interrompido por um farfalhar de folhas. Seus dedos batucavam a mesa de madeira, enquanto ela tentava se concentrar no “O Primo Basílio”. Mas as palavras giravam, e se embaralhavam, e dançavam sobre o papel; as palavras eram borrões e manchas, e brincavam de esconde-esconde com a compreensão de Lucy. O silêncio incomodava, e ela não sabia por que.

Por que estava enlouquecendo, talvez.

Por que a garotinha ruiva não saía de sua cabeça. Por que sempre que tentava se concentrar no livro, relembrava o sangue, meu Deus, o sangue, aquele tanto de sangue, e o vestidinho rosa de babados.

Ela se lembrava do dia em que usara aquela roupa, lembrava-se de quando tirou o retrato com os pais. Aquele dia. O último dos dias. Naquela mesma noite, o pai havia sido abordado na rua e assassinado, e seus pertences haviam sido levados. Naquela noite, a mãe havia deixado de ser quem sempre fora. As viagens começaram, e a relação boa que as duas tinham foi interrompida.

Desesperada, Lucy deitou a cabeça no livro, uma desculpa silenciosa á Eça de Queirós. O triste era não poder levar o livro consigo. Fechou os olhos, imaginando que diabo havia sido aquilo. Alucinações. Ora, nunca dera para alucinar antes! Era uma criatura imaginativa, mas delírios saudáveis, delírios que nunca haviam ultrapassado as paredes de sua mente.

Apesar da agitação, apesar do desespero; seus olhos pesaram. Dormiu por dez ou onze minutos, até alguém cutucar seu braço irritantemente.

Um garoto pálido de cabelos negros escorridos, vestindo jeans surrado e camisa xadrez, assomava sobre ela. Ele usava um crachá, no qual estava escrito “Eduardo”; e estava com uma sobrancelha arqueada, como quem diz “Vamos, não tenho o dia inteiro”. E na verdade, era isso mesmo o que ele dizia.

— O quê? O quê você está fazendo?! — Lucy o fuzilou com os olhos. Ele nem pareceu notar. Havia um fone de ouvido em torno de seu pescoço, e ela conseguia ouvir a música que vinha de lá.

— O meu trabalho. Eu sou o zelador. Zelo pelos livros, e você está babando num deles neste exato momento. Preciso devolvê-lo a prateleira, se você já terminou — e estendeu a mão.

Ela olhou aturdida a pequena poça que se formava sobre o livro. Lembrou-se do sangue na rua. Estremeceu. Levantou os olhos em direção ao Eduardo, e ia pedir desculpas, quando reconheceu a música que emanava dos fones.

— Isso é The Who? — os olhos castanhos se arregalaram, e ela abriu um sorriso de criança. Isso desestabilizou o garoto por um bom tempo.

— É... É sim.

— Nossa, eu adoro The Who! Sabia que é uma das minhas preferidas?! Gosto muito de rock clássico em geral, mas The Who arrasa e... — ele não viu a mão dela deslizar sobre a mesa. Ela puxou o livro mais rápido do que ele.

— Ei! Volta aqui! Esse livro não é para empréstimo! — ele gritou enquanto ela saía correndo pela sala, e descia as escadas, dando risada e gritando “Obrigada, obrigada, obrigada!”.

Ele a observou pela janela, a observou atravessar a rua, abraçando o livro contra o corpo. Sorriu.

Virou as costas, e ouviu o grito. Lá embaixo, ela deixava cair o livro, abaixava-se e tampava os ouvidos com as mãos. Gritava como se os sete infernos estivessem sobre ela.