Iris
5 Over The Rainbow
Notas iniciais
Quando encontrei meu novo quarto, havia uma senhora ali dentro, arrumando algumas coisas fora de lugar.
Ela levantou seus olhos e sorriu ao me ver.
O sorriso fez com que pequenas rugas se acumulassem nos cantos de seus olhos.
– Você deve ser a menina Gilbert — ela disse amavelmente, sua voz contendo um sotaque que a princípio eu não reconheci. — Meu nome é Magda, sou empregada da família Salvatore. Estava apenas terminando de arrumar seu quarto. Antes ele era do menino Damon, ele o utilizava para pintar, por isso você pode acabar achando uma ou outra mancha de tinta no chão, mas não se preocupe, te garanto que esse é um dos melhores quartos da casa. A vista é maravilhosa!
Pisquei rapidamente, um pouco perdida por conta de seu breve discurso.
– Olá — consegui falar.
Ela caminhou até mim e me analisou minuciosamente.
– Você é tão bonita! — exclamou, como se estivesse surpresa — um pouco magra, mas incrivelmente bonita! — então ela se aproximou de mim e me puxou pelo braço — Venha, venha! — chamou — Vou te mostrar a vista!
Então ela me levou a uma incrível porta dupla que levava a uma magnífica sacada.
Mas eu tinha que admitir, aquela senhora agitada de cabelos grisalhos e sotaque esquisito (que eu estava começando a suspeitar que fosse alemão) tinha razão.
A vista era perfeita. Eu tinha uma visão ampla de todo o jardim da mansão e árvores ao longo da cidade, onde casas iam se estendendo, porém nada disso era o que me impressionava... Havia um lago ali, um lago grande o suficiente para se nadar e uma rústica ponte se estendia ao longo dele, ao meio da ponte uma pequena parte com telhado e um lindo balanço no meio.
Era tão diferente, mas tão bonito.
– É maravilhoso — falei.
Magna sorriu, como se estivesse satisfeita com minha opinião.
– O menino Damon gosta — então ela parou e se corrigiu rapidamente: — gostava, de pintar aqui por causa da vista. Nenhum outro quarto da casa tem vista para o lago.
– Damon pinta? — perguntei apenas para ter certeza.
Era difícil imaginar aquele homem cheio de si e arrogante parado em frente a uma tela, pintando quadros delicadamente. Era impossível, na verdade, e eu nem havia trocado uma palavra com ele.
A senhora ampliou ainda mais seu sorriso, se é que isso era possível, e falou com orgulho:
– Claro que pinta! Tem quadros dele espalhados pela casa inteira! — então seus olhos brilharam — O menino é tão talentoso.
Eu sorri para ela, tentando lembrar se eu havia olhado para qualquer quadro que estivesse na casa.
A alegria de Magda era contagiante e, apesar de ela ser um pouco estranha, eu havia gostado dela.
Litch começou a se mexer em meu braço e olhei rapidamente para a porta para constatar se estava fechada e poder colocá-lo no chão.
Ele pareceu muito feliz ao se encontrar livre e mesmo com a pata machucada correu mais rápido do que eu podia pensar.
Magda sorriu para o gato.
– Que lindo animalzinho — ela disse. — Sempre falei a senhora Salvatore que faltava vida nessa casa e que ela deveria trazer um bichinho para cá, mas ela nunca me ouviu. Fico feliz que tenha ouvido você!
Meu sorriso aumentou. Ela gostava de animais.
Já tinha minha simpatia.
– Trabalha aqui a quanto tempo, Magda? — perguntei, curiosa.
Ela deu de ombros, como se o tempo não importasse.
– Muito tempo — disse. Então olhou ao redor e franziu o cenho. — Espero que goste do quarto — disse, parecendo realmente sincera. — Faz algum tempo que tentamos ajeitá-lo para você, mas como pode ver ainda há um pouco de tinta espalhada e algumas caixas do menino Damon ali no canto — ela apontou para as tais caixas.
Segui seu olhar e percebi que eram apenas algumas caixas de tinta, pincéis e que havia umas poucas telas espalhadas.
Porém isso era tão pouco comparado ao tamanho do quarto, que também era maravilhoso, tinha uma cama enorme no meio, um imenso guarda-roupa, uma televisão tão grande que ocupava metade da parede e duas portas, uma provavelmente levava a um banheiro, a outra eu não fazia a menor ideia.
– Mas está melhor que antes — Magda continuou falando, — porque não havia nada aqui além dos quadros e das tintas. Agora tem móveis! E olha essa TV! — ela apontou sorridente para a parede com a mini tela de cinema. — Mas não se preocupe com essas caixas e nem com as manchas de tinta no chão, até amanhã eu terei arrumado tudo — prometeu solenemente.
Eu olhei brevemente para Litch que lutava contra uma mancha azul no chão, então olhei para Magda.
– Não precisa — falei. — Eu não me importo com as manchas e, se Damon não se importar, eu gostaria de ficar com as tintas e os pincéis que estão aqui. Diga a ele que depois comprarei mais para ele.
Magda me encarou surpresa.
– A menina também pinta?
Eu ri, negando com a cabeça.
– Não muito bem — avisei. — Mas gosto de pintar, me distrai.
Ela pareceu imensamente feliz.
– Claro! — disse — Falarei com o menino Damon!
Então ela começou a andar até a porta, como se estivesse indo embora.
– Magda! — chamei, fazendo com que ela parasse e olhasse para mim novamente. — Será que tem alguma tinta de parede sobrando? — perguntei — Pode ser de qualquer cor.
Ela franziu o cenho, parecendo pensar por um minuto.
– Creio que não, menina Elena — então me olhou de forma estranha. — Não gostou da cor do quarto?
Eu sorri pra ela.
– Claro que gostei — falei. — Branco é sempre bom, mas eu gostaria de um pouco de cor, sabe? Para deixar o ambiente mais alegre.
Ela retribuiu meu sorriso, como se entendesse exatamente o que eu queria dizer.
Então como se uma luz tivesse se acendido acima de sua cabeça, seu sorriso aumentou.
– Esses dias Matt estava pintando a garagem, talvez tenha sobrado um pouco de tinta — disse feliz. — Conversarei com ele e trarei para a senhora.
Assenti, um pouco feliz por isso.
– Diga a ele que eu agradeço.
Ela acenou e saiu do quarto, fechando a porta logo em seguida.
Suspirando me virei para as malas que estavam empilhadas perto da porta e comecei o longo processo de organizar minhas coisas.
O guarda-roupa era enorme e estava completamente vazio, então todas as minhas roupas juntas ocuparam menos de duas portas e uma gaveta. Voltei a suspirar, naquele momento não pareceu tão bom ter tão pouca roupa. Eu também não tinha muitos objetos pessoais, então retirei uma foto que eu tinha de meus pais comigo e a coloquei na cômoda ao lado da minha cama.
Com essa tarefa terminada, passei a analisar o quarto, olhando tudo o que eu não tinha olhado ainda, como o banheiro e aquela outra porta que eu não sabia para onde levava.
O banheiro era enorme, e tinha tudo, desde chuveiro, banheira e até hidromassagem. Para que alguém precisaria daquilo tudo?
Voltei para o quarto e fui até a outra porta, me surpreendi ao dar de cara apenas com um simples armário. Ele era um pouco grande também, mas nada exagerado, e havia mais algumas caixas ali. Ao ler o que estava escrito nas laterais das caixas, descobri que eram telas de diferentes tamanhos.
Céus, eles esbanjavam até com isso.
Talvez se eu tirasse aquelas caixas de lá e tirasse a porta poderia ser um bom canto para Litch. O veterinário já havia me ajudado muito, me dando de brinde um saco de ração para filhotes, agora eu só precisaria de um travesseiro ou algo acolchoado para que ele pudesse dormir, um recipiente para alimento e água e uma caixa de areia. Eu tinha certeza que caberia tudo naquele armário e ainda ficaria bastante aconchegante para Litch.
Alguns minutos se passaram e Magda voltou ao meu quarto, ela se desculpou, me informando que a tinta que Matt havia usado para pintar a garagem também era branca.
– Me perdoe, menina Elena — ela disse, parecendo imensamente magoada por isso.
– Não tem problema, Magda — falei, forçando um sorriso para ela. — Eu acho que terei que improvisar.
Ela franziu o cenho diante do que eu disse, mas não falou nada, voltando para o corredor de onde havia vindo.
Quando ela sumiu eu fechei a porta e troquei de roupa rapidamente, colocando minha blusa favorita, que já estava arruinada de manchas de tintas, porém era extremamente confortável e um short jeans.
Olhei rapidamente a hora e descobri que eu ainda tinha tempo antes da hora do almoço.
Fui até a caixa com os pincéis, separei os que eu iria precisar e depois escolhi as cores que eu queria.
Se eu não podia pintar a parede inteira de outra cor, pelo menos eu iria deixá-la mais viva de outra forma.
Usando o preto como base, arregacei as mangas e comecei a rascunhar o que eu queria desenhado ali.
Comecei pela parede em frente da minha cama, onde ficava a porta da sacada, fiz o rascunho de minúsculas borboletas, que iam da extremidade inferior da parede e a atravessava, subindo e aumentando de tamanho, como se alçassem voo enquanto se aproximavam. Escureci meus rascunhos até estar satisfeita, depois procurei por uma tinta azul no tom que eu queria.
Ao achá-lo, passei a preencher cada borboleta com o tom perfeito de azul. Eu estava tão absorta no que fazia que mal ouvi quando a porta se abriu e alguém entrou como um trovão no meu quarto.
– O que acha que está fazendo com as minhas tintas?
Quando me virei, havia dois olhos cor de prata-líquida me encarando.
E o dono desses maravilhosos olhos parecia extremamente irritado.
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