Iris
2 Ironic
Notas iniciais
Estava chovendo.
Quase ri. A vida era realmente irônica.
Não basta você estar desmoronando por dentro, o céu tem que desabar sobre sua cabeça também.
“Mas depois da chuva, vem o arco-íris”, minha mãe dizia.
Não, mãe. Quando a chuva acabar, começará um vendaval.
– Está pronta, Elena?
Tirei meus olhos da janela que a chuva insistia em castigar e me virei para Alaric Saltzman, o melhor amigo de meu pai e o advogado da família.
– Acho que nunca estarei — respondi.
Então olhei para o espaço que antes era meu quarto. Ali parecia enorme demais sem meus móveis... Parecia vazio.
Sem alma.
Alaric sorriu amplamente para mim e veio na minha direção.
– Essa é a noite em que o seu mundo começa novamente — disse.
Eu ri, cansada.
– Não sei se quero um recomeço — reclamei.
Ric se aproximou mais e tirou o cabelo do meu olho, exatamente como ele fazia quando eu era criança e vinha chorando em seu colo.
– Vai ser bom para você, criança — disse. — Jenna Salvatore é uma boa mulher e sua mãe a adorava.
Bufei alto.
– Se ela a adorava tanto — questionei, — porque eu nunca a conheci?
Alaric sorriu para mim.
– A vida é irônica — respondeu. — Ela tem um jeito engraçado de nos atrapalhar.
Contive a vontade de bufar novamente.
– Concordo — falei. — E ainda não me conformo em ter que sair da minha casa.
Ric acariciou de leve meu braço, temendo que eu desmoronasse e voltasse a chorar. Porém isso não aconteceria.
Eu estava cansada de chorar.
– Eu sei, Elena — falou, — mas não pode ficar na casa. Já te expliquei isso. Deve ir morar com Jenna e sua família, ela é sua nova tutora. A casa ainda será sua perante a lei, e poderá vir para cá quando completar 18 anos. Até lá, a casa será aluguel para outros moradores e o dinheiro ficará retido junto com sua herança...
– Até eu completar a maioridade — completei. — Eu me lembro, não sou estúpida, tio Ric. Apenas não me conformo.
Ele sorriu.
– Serão apenas dois anos — disse. — Você vai ver que passa rápido.
– Não quero que passe rápido — reclamei, — quero que fique lento. Tão lento que o tempo volte uma semana.
Então ele suspirou pesadamente.
– Eu também quero.
*****
Não é todo dia que atravessamos o país para conhecer uma nova família, porém eu dificilmente me sentia empolgada com isso.
O caminho de Klamath Falls, minha cidade, em Oregon, até Mystic Falls em Virgínia, infelizmente era longo demais para ser percorrido de carro.
Então eu estava atravessando os EUA em um avião.
Acho que preciso deixar claro uma coisa: Eu tenho medo de altura.
Mentira, é mais que isso... Eu tenho fobia.
E nem Alaric dormindo ao meu lado no avião me impedia de suar frio e saltar no banco com o menor movimento que o avião fazia.
Deus me livre de o piloto anunciar uma turbulência, era capaz de eu ter um infarto.
Encostei-me no banco e tentei fazer o mesmo que Alaric, dormir, porém sempre que fechava meus olhos parecia que o avião se mexia e o desespero me mantinha de olhos abertos.
Fobia estúpida.
Ric sabia do meu medo e havia se voluntariado para sentar na janela, pois segundo ele “gostava de apreciar a vista”.
Homem louco.
“Você vai amar Mystic Falls” ele havia dito antes de cair no sono, “é uma cidade maravilhosa”.
Bufei, duvidando de suas palavras.
Nenhum lugar que me coloque dentro de um avião pode ser “maravilhoso”.
Um som alto soou em todo avião, me fazendo saltar novamente.
– Senhores passageiros — o piloto disse, — por favor, coloquem seus cintos, passaremos agora por uma pequena turbulência. Fiquem calmos, já chegaremos ao nosso destino.
Apertei ainda mais meu cinto e comecei a rezar.
– Pai nosso que estás no céu...
Alaric se mexeu do meu lado, ele próprio ajeitando o cinto e me olhando preocupado, com os olhos ainda sonolentos.
– Elena? — chamou.
Fechei os olhos com força enquanto o avião começava a balançar um pouco.
– Santificado seja o vosso nome... — continuei rezando. O avião deu um solavanco. — Eu não quero morrer! — gritei — Me tira daqui! Eu quero descer!
– Elena — Ric voltou a chamar.
– Eu não quero morrer! Sou jovem demais!
Senti uma mão no meu braço.
– Elena, se acalme — Ric pediu.
Segurei sua mão com força.
– Não mande eu me acalmar! — berrei — Vamos todos morrer! — ouvi algumas risadas vindas de bancos mais afastados, mas os ignorei. — Não posso morrer, não posso morrer, não posso morrer, não...
Minha cabeça rodava e eu começava a soar frio.
Deus, por favor, me tira daqui. Juro que nunca mais reclamo da minha vida, serei uma boa pessoa, irei para a igreja todos os domingos, ajudarei as pessoas, não falarei mais palavrão e...
– Já passou, criança — Ric disse, fazendo com que eu parasse meus resmungos de súplica. — A turbulência acabou, já estamos pousando.
Abri os olhos.
O avião havia parado de balançar e em poucos minutos o piloto havia anunciado que havíamos pousado em Virgínia.
Tive que me conter para não saltar do banco e começar a beijar o chão.
– Me lembre de nunca mais pegar um avião na minha vida — pedi para Ric.
Ele sorriu para mim.
– E como pretende voltar para Oregon quando atingir a maioridade? — perguntou.
Fiz careta para ele, soltando meu cinto e pegando minhas bagagens de mão.
– Irei andando — retruquei, — posso chegar lá depois de um ano e com os pés sangrando, mas vai ser melhor do que entrar em um monstro de metal desses de novo.
Alaric riu, se levantando e pegando suas bagagens de mão também.
– Isso era uma coisa que eu pagaria para ver — disse.
Mostrei minha língua para ele, então caminhei para acompanhar o fluxo de pessoas que saiam do avião.
Depois de pegarmos todas as malas e etc, nos dirigimos até a ala de desembarque, onde, segundo Ric, haveria um motorista com uma plaquinha com meu nome que me levaria para minha nova vida.
Alaric não poderia ir junto comigo, então me deixou seu telefone e seu endereço de Mystic Falls antes de sumir na multidão.
Eu não tinha muitas malas, o que facilitava meu movimento, fazendo com que eu passasse a procurar qualquer plaquinha que estivesse escrito o meu nome.
Depois do que me pareceu uma eternidade, eu finalmente vi: Um homem de terno segurando uma placa, escrito “Elena Gilbert. Bem vinda a Mystic Falls!”.
Uma placa enorme... E digitada.
Ok, vida nova, pode vir. Estou pronta.
Fale com o autor