Iris
4 In My Life
Notas iniciais
Meu gato estava com a saúde perfeita, como eu tinha suspeitado, o que significava que o veterinário da cidade, Niklaus Mikaelson, apenas precisou colocar o osso de sua patinha no lugar e segurá-la com uma espécie de tala.
Como eu não tinha dinheiro suficiente para pagar a consulta, Klaus, como o próprio insistiu em ser chamado, aceitou o que eu tinha como garantia para uma próxima consulta.
Eu adorei ele. E também adorei seu sotaque britânico.
– Devemos levá-lo até um abrigo de animais? — Matt perguntou depois que voltei ao carro.
Encarei ele, irritada.
– Ficou maluco? — perguntei. — Ele não vai a lugar nenhum. Vou ficar com o gato.
O motorista me olhou brevemente, parecendo estar surpreso, então disse calmamente:
– Srtª Gilbert, se eu fosse você, o levaria para um abrigo.
– Por quê? — questionei.
Então ele trocou de marcha antes de me olhar de forma estranha.
– Porque os Salvatore odeiam animais.
Fiquei tão surpresa ao ponto de meu queixo cair. Então olhei para minha pequena bolinha de pelos pretos, o gato, que eu tinha certeza absoluta que era macho, me encarou de volta com seus enormes olhos cinzentos.
Como algum humano poderia odiar um ser tão puro?
– Não sei — Matt respondeu a pergunta que, sem perceber, eu havia feito em voz alta. — Jenna simplesmente não gosta de bichos soltando pelos pela casa, e depois que Caroline foi mordida por um cachorro, eles simplesmente afastam qualquer ser que ande em quatro patas.
Olhei novamente para meu mais novo bichinho de estimação, porque, nem se o papa viesse pedir pessoalmente, eu daria aquele gato para adoção. Ele era a única coisa boa que havia acontecido comigo desde a morte de meus pais. Os olhos dele eram tão grandes e meigos, e apesar de seu pelo ser preto, eu começava a associá-lo à luz... Sabe aquela luz no fim do túnel?
Sei que parece estupidez colocar tanta importância em um mero gatinho, mas quando eu olhava para aquele lindo e minúsculo gatinho, um sorriso tomava conta de meus lábios.
Um sorriso verdadeiro, quando eu não tinha nenhum motivo para sorrir.
– O gato vai ficar comigo — falei firmemente. — Se Jenna Salvatore não o quiser, acredito que eu não teria motivo para querer ficar com sua família também.
Matt Donovan então sorriu. Um sorriso amplo que dizia que ele, de alguma forma, havia gostado de mim.
– Então dê um nome ao seu gato — disse. — E eu estarei torcendo para que Jenna não implique com você por causa dele.
Assenti com a cabeça para ele, agradecida, mesmo não tendo certeza de que ele poderia ver por estar focado na estrada.
Eu não precisava pensar muito. Já sabia qual seria o nome perfeito para o gato.
Passamos o resto do caminho em silêncio, Matt o quebrando apenas algumas vezes para sibilar palavras desconexas como “atraso”, “despedido” e “festa”. Porém o ignorei, observando a paisagem ao meu redor.
Mystic Falls — apesar de ter aeroporto, museu e até uma faculdade! — era uma cidade pequena. Maior que Klamath Falls, é claro, mas ainda sim era pequena.
Cada casa era diferente e com aparência antiga, como se cada uma tivesse sua própria história. Não era como aquelas ruas em cidades maiores, em que todas as casas eram tão parecidas umas com as outras que você se perdia na esquina de sua própria rua.
Então eu a vi. A maior e mais bela casa que eu havia visto na vida. Se me perguntar, eu diria que era ainda mais bonita que a Casa Branca. Era uma mansão enorme, com um enorme jardim e com aparência completamente rústica, parecia uma construção moderna vinda do próprio século XIX.
Eu realmente esperava que ali morasse uma enorme família que pudesse aproveitar todo aquele espaço.
Eu odiava aquelas pessoas egoístas que compravam uma mansão, ou um apartamento enorme, e moravam sozinhas. Era como se essas pessoas zombassem dos mais desafortunados, que tinham que cuidar de três filhos em um quartinho, ou um porão minúsculo porque não tinham condições de morar em um lugar melhor.
Naquele momento, Matt Donovan virou a limusine na direção daquela mansão, e não foi até ele passar com o carro pelo portão que a ficha caiu.
Jenna Salvatore e seus quatro filhos moravam naquela mansão enorme que dava para abrigar todo o exército do Paquistão.
Eu ia morar em um lugar onde teria espaço para construir um foguete para a NASA.
Matt então parou o carro na frente do lance de porta dupla da mansão e meu queixo ainda não havia voltado para o lugar.
Céus, eu sabia que eles eram ricos... Mas àquele ponto?
– Chegamos! — o motorista anunciou. — Venha, vou te ajudar com as malas.
Porém eu só saí do meu transe, quando Matt rodeou o carro e bateu no vidro do lado em que eu estava sentada.
Sacudi a cabeça para ordenar meus pensamentos e saí do carro, segurando meu gato cuidadosamente, para não machucá-lo mais.
Matt segurava todas as minhas malas.
Quando ele havia pegado elas?
– Já escolheu o nome dele? — perguntou, se referindo ao meu gatinho, que ronronava levemente em meus dedos.
– Escolhi — respondi, segurando o gato melhor em uma mão e pegando uma das malas da mão de Matt para ajudá-lo. — Licht.
O motorista me olhou de forma estranha enquanto analisava o nome esquisito que eu havia escolhido.
– Litch? — repetiu.
– Licht — corrigi. — É “luz” em alemão.
Matt pareceu se divertir com minha explicação.
– Deu o nome de “luz” para um gato preto? — perguntou.
– Não seja tão racista — retruquei.
Então ele riu.
Riu de verdade, um som alto e estranho que me fez querer rir também.
– Acho que gostei de você, Elena — disse ele. — Com certeza levantará esse lugar.
Então ele acenou com a cabeça para a mansão antes de começar a andar com minhas malas na direção da mesma.
– Você também não é ruim — falei o seguindo. — E seria bom ter um amigo aqui.
– Está se saindo bem — disse, parando em frente ao lance de porta dupla. — Até agora tem dois. Eu e Luz.
Fiz uma careta, preferindo mil vezes aquele nome em alemão.
Matt estendeu sua mão livre e pegou de volta a minha mala que eu havia pegado dele.
Abri a boca para reclamar, mas ele me cortou:
– Boa sorte — falou.
Então entrou na casa, me deixando para trás.
Mas que maravilha de amigo que eu havia arranjado.
Então quando estendi a mão para a maçaneta, me lembrei de Matt balbuciando a palavra “festa” dentro da limusine.
Era isso, não era? Eles haviam feito uma festa de boas-vindas para mim.
Gemi internamente ao pensar nisso.
Deus, por favor, não permita que tenha muita gente lá dentro, nem que tenha balões ou faixas de boas-vindas. Deus, não permita...
E eu abri a porta.
Suspirei aliviada a não ver nenhum tipo de balão ou faixas com frases espalhadas pela sala, que era enorme.
Olhei ao redor, procurando por Matt, mas ele já havia sumido com minhas bagagens.
O barulho de alguém limpando a garganta na minha esquerda me faz saltar assustada, então eu viro e os vejo. Quatro pessoas sentadas em um imenso e confortável sofá, me encarando.
Tem uma quinta pessoa. Um rapaz alto e extremamente bonito, em pé a apenas poucos metros de mim.
Eu tinha certeza de que era ele quem havia limpado a garganta.
Tentei fazer uma associação rápida de nomes, tentando adivinhar quem era quem.
A mulher mais velha, porém muito bonita e com o cabelo loiro escuro, um pouco puxado para o ruivo, com toda certeza era Jenna Salvatore, minha nova guardiã legal.
A menina pequena que se sentava quase no colo de Jenna, e que tinha o mesmo tom diferente de cabelo da mãe e enormes olhos cor de mel, só podia ser Claire.
A garotaloira bonita, com olhos verdes e cara de patricinha só podia ser Caroline.
Então restavam os dois garotos. Um que também era loiro e tinha olhos verdes como sua irmã e que pelo olhar gentil que tinha em seu rosto chutei ser Stefan.
E restava o último garoto. O mais diferente de todos ali. Ele era alto, tinha cabelos negros bagunçados que lhe caiam aos olhos e... Céus, que olhos eram aqueles? Tinha um tom misto que primeiramente pensei ser azul, mas que beirava perigosamente ao prateado. Não aquele cinza comum, mas prata líquida, como uma piscina de metal sob o sol.
Os olhos dele eram quase tão claros quanto o de Licht, que miava baixinho enquanto mordia de leve meu dedo.
Ele era sem sombra de dúvidas, o cara mais lindo que eu já havia visto — e se seu corpo fosse tão definido quanto sua camiseta negra denunciava ser, ele era o mais gostoso também.
Porém ele só podia ser Damon Salvatore. O arrogante e narcisista Damon Salvatore.
E pela cara de tédio que ele fez ao me checar de cima a baixo, percebi que ele não era tão perfeito por dentro quanto era por fora.
Uma pena, realmente.
– Olá — murmurei timidamente, cortando aquele silêncio constrangedor que havia se espalhado pela sala.
– Mamãe! — Claire, a pequena, saltou no sofá e apontou para mim — É um gato!
Então ela correu na minha direção e ficou olhando o pequeno em minhas mãos.
– O que é isso na patinha dele? — perguntou curiosa.
Eu sorri para ela. Provavelmente meu segundo sorriso verdadeiro daqueles dias.
Sempre adorei crianças.
Abaixei até ficar do tamanho dela e levantei Licht, para que ela pudesse vê-lo melhor.
– Isso é uma tala — respondi. — Ele está com a pata machucada e isso vai ajudar a sarar mais rápido.
Ela assentiu como se aquilo fosse a coisa mais interessante que já tivesse ouvido na vida.
– Qual o nome dele? — perguntou.
Meu sorriso ampliou.
– É Licht — falei, então ao ver sua cara de confusão, acrescentei: — É “luz” em alemão.
Ela assentiu novamente.
– Como ele se machucou? — quis saber.
Crianças e suas milhares de perguntas.
Parei para pensar um pouco.
– Não sei exatamente — respondi. — Quando o encontrei ele já estava machucado.
– Quando encontrou ele?
Eu ri.
– No caminho para cá. Quase o atropelamos, mas consegui parar o carro a tempo.
Claire abriu a boca para fazer outra pergunta, mas outra voz a cortou:
– Chega de perguntas, querida.
Fiquei de pé e olhei para Jenna, que era quem havia falado.
A pequena na minha frente obedeceu a mãe, voltando a se sentar no sofá em completo silêncio.
Jenna Salvatore se levantou e sorriu para mim.
Não acredito que o sorriso tenha chegado aos seus olhos.
– Seja bem-vinda, Elena — ela disse cordialmente. — Faz algum tempo que a esperamos. Queríamos te dar as boas-vindas formalmente.
Eles haviam esperado o tempo inteiro naquela sala?
Me senti realmente mal por ter atrasado.
– Sinto muito — falei, — a culpa foi minha.
Ela abanou a mão, como se dispensasse minhas desculpas.
– Não tem problema — disse, então olhou para a bolinha de pelos encolhida em meus braços. — Vejo que teve um bom motivo para atrasar, mas não acredito que seja boa ideia trazer um gato de rua para dentro de casa, afinal ele pode ter doenças ou...
– Ele não tem doença alguma — garanti, forçando um sorriso para ela. — O levei para o veterinário, por isso atrasamos. Licht recebeu todas as vacinas e não tem com o que se preocupar.
Jenna comprimiu a boca quase imperceptivelmente.
– Mamãe! — Claire voltou a se manifestar — A gente pode ficar com ele? Por favor, por favor, por favor...
Jenna comprimiu mais os lábios.
– Acredito que Elena vá levá-lo a um abrigo de animais, querida. Sinto muito.
A alegria de Claire evaporou e ela olhou para o chão, triste.
Eu não disse nada, não querendo iniciar uma briga com Jenna antes mesmo de me instalar na nova casa.
Na nova vida.
Com meu novo gato, que não iria embora de jeito nenhum.
Caroline saltou de onde estava sentada, se manifestando pela primeira vez, e talvez querendo quebrar o novo silêncio que se instalou ali.
– Eu sou Caroline! — disse animada. E juro que não sabia dizer se aquela animação era real ou falsa. — Essa é a Claire — apontou para a pequena, e começou a apresentar todos que estavam ali na sala, apesar de eu já saber o nome de todo mundo. — Esse é Stefan, meu gêmeo que absolutamente não se parece em nada comigo — segurou os ombros do irmão, que sorriu para mim. E realmente, eles não eram gêmeos idênticos. — E aquele rabugento no canto é Damon. A ovelha negra da família — Damon a ignorou, rolando os olhos. Caroline então se aproximou de mim e me analisou minuciosamente. — Se você quiser, depois vamos ao shopping fazer algumas compras. Vi que Matt passou com poucas malas suas, e eu sinto muito por isso, odeio quando o aeroporto extravia nossas malas, e essa roupa que está usando... — disse olhando minha camiseta do Led Zeppelin e minha calça jeans comum e então balançou a cabeça em forma de reprovação.
Isso realmente me irritou.
Tirando Claire e Stefan, que não havia dito uma palavra, mas que pelo menos havia sorriso para mim — ao contrário de seu irmão mal educado e esnobe — aquela família estava realmente me irritando.
– Não gosto de fazer compras — falei, tentando ao máximo continuar com a voz gentil, — lugares lotados como o shopping me dá agonia. Nenhuma mala minha foi extraviada, tenho roupas o suficiente e gosto das roupas que eu tenho — e eu deveria ter parado de falar nessa parte. Porém minha enorme boca deixou de obedecer ao meu cérebro e eu simplesmente continuei falando: — Na verdade, acredito que é hipocrisia ter roupas demais, porque, além de não usarmos todas, existem pessoas que usam trapos para se cobrir, ou que realmente precisam do dinheiro que gastamos com coisas inúteis para fazer coisas úteis, como comer. Não vejo utilidade em gastar mil reais em um vestido, como alguns ricos fazem, sendo que podem gastar esse dinheiro com coisas verdadeiramente necessárias — é ai que decido. Tenho que calar a boca. Todos já estão me encarando como se eu fosse louca. Elena, cale a boca, porém novamente eu não consigo: — E eu não vou dar Licht para um abrigo de animais. Vou ficar com ele.
Claire abriu um sorriso enorme, enquanto os outros continuavam simplesmente me encarando.
– Desculpem — falei, — mas estou realmente cansada. Morro de medo de altura, então imaginem o que passei dentro daquele avião... Se puderem me dizer onde é meu quarto, eu...
Jenna apontou para a escada.
– Terceira porta — disse baixo. — Final do corredor.
– Obrigada — agradeci, me virando para subir as escadas.
Porém Jenna me fez parar novamente, parecendo finalmente ter se recuperado do meu discurso desnecessário:
– Desça meio dia — disse. — Fizemos um almoço especial para você.
Eu assenti.
– Estarei aqui.
E antes de sair, meus olhos se cruzaram com o de Damon Salvatore, seus olhos excepcionavelmente claros me avaliando descaradamente, como se pudessem ver todos os meus segredos e inclusive como eu era por debaixo daquela roupa.
Odiei aquilo. Eu odiava a expressão arrogante que ele mantinha no rosto. Odiava ele me olhando daquela forma, tentando me medir para ver se eu era boa o suficiente para a família dele.
E eu odiei a forma como meu coração saltou quando meus olhos cruzaram com os dele daquela forma.
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