Iris
10 Do I Have To Say The Words?
Notas iniciais
Elena
– Quem te deu o direito de entrar no meu quarto? — ele perguntou, irritado.
Bufei alto.
– Engraçado você perguntar isso — retruquei, fazendo um gesto amplo com a mão, para mostrar que ele fazia o mesmo.
Damon ignorou completamente o meu comentário, caminhando para cima de mim como um trem bala e apontando sua famosa agenda na minha cara.
– Quem você acha que é para mexer nas minhas coisas e ferrar com a minha vida? — acusou.
Rolei os olhos, quebrando a distância entre nós e fazendo o possível para encará-lo diretamente nos olhos.
– Em primeiro lugar — comecei, — não se começa uma “guerra” — fiz aspas no ar com os dedos — se não está disposto a conviver com as consequências. E em segundo lugar, a única vida que eu ferrei foi a sua vida sexual, porque pelo o que eu vejo, você continua respirando... Infelizmente. E em terceiro lugar — levantei um dedo e enfiei em seu peito, — a menos que queira acordar em uma banheira cheia de gelo na Bélgica e descobrir que seus órgãos foram vendidos para o mercado negro, é melhor me deixar em paz. Entendeu o recado, ou precisa que eu desenhe?
Então eu me afastei, a aproximação me incomodado um pouco.
Damon me encarou com mais ódio, se é que aquilo era possível, e eu quase podia enxergar fumaça saindo por suas narinas. Será que se eu o irritasse mais ele cuspiria fogo?
– Sim, você arruinou minha vida sexual — ele concordou irritado, — e quero que você saiba que vai ter volta, e que aquela brincadeirinha com a pimenta não é nem um terço do que está por vir para você.
Eu ri da cara dele.
– Não se preocupe, acho que estou preparada para suas “brincadeirinhas” — voltei a fazer aspas com os dedos.
Damon segurou meus braços com força e me empurrou contra a parede.
– Está? — ele questionou. — Porque além delas, acho que deveria me recompensar, sabe? Falta de vida sexual não faz o meu estilo — ele parou e me analisou com aqueles enormes olhos claros. — E você não é tão feia assim.
Então ele se inclinou sobre mim, como se pretendesse me beijar.
Eu podia aguentar Damon próximo de mim. Podia até mesmo aguentar ele me prendendo contra uma parede. O que eu não podia aguentar era ele sobre mim, me fazendo ter uma desnecessária consciência de seu tamanho.
Naquele momento todas as aulas de defesa pessoal que tive sumiram de meu cérebro, e como sempre acontecia quando um cara se aproximava demais... Eu tive um ataque de pânico.
De repente eu não estava mais em meu quarto com Damon sobre mim, fazendo brincadeiras sem graças e me impulsionando à raiva. Não. Eu estava em um lugar que eu havia obrigado meu cérebro a esquecer e que eu só lembrava em meus pesadelos.
De repente não era Damon ali. Era ele.
Então eu chutei e me sacudi. Minha visão ficou negra e eu estava em pânico. Não lembro como, mas no próximo minuto eu estava no chão, ainda me sacudindo e tentando me livrar das mãos quentes que sentia em mim.
Alguém conversava comigo, mas as palavras soavam distantes demais.
Logo todos os ruídos foram embora, e como sempre, a falta de ar tomou conta dos meus pulmões.
Junto com a falta de ar a consciência e a raiva. Eu detestava aquilo. Odiava não poder controlar meu próprio corpo e ainda ter medo, apesar de ter tomado todas as precauções possíveis contra isso.
Senti mãos macias novamente em meu ombro.
Levantei o olhar e encontrei aqueles olhos cor de prata derretida que eu havia passado a conhecer tão bem.
Ele parecia tão preocupado que por um momento não o reconheci.
– Eu estava só brincando — Damon disse, tentando se redimir. — Você está bem?
Abri a boca, ainda lutando por ar.
– Eu... — ofeguei — não... consigo...
– Não consegue respirar? — terminou a frase por mim.
Assenti, como se não fosse óbvio.
Tentei puxar ar com mais força, o que fez com que eu engasgasse.
– Aju... — ofeguei mais alto — ajuda...
Seus lindos olhos se arregalaram, como se ele não soubesse o que fazer.
Eu tinha certeza que Damon nunca havia passado por uma situação parecida, porque em seguida ele fez o que seria a última coisa que eu pensaria para ajudar em um ataque de pânico...
Ele me beijou.
O que é realmente irônico, porque foi quase isso o que ocasionou o ataque, e agora ele esperava que fosse o que iria pará-lo.
Mas devo dizer que, por incrível que pareça, funcionou.
No momento em que Damon tocou meus lábios com o seu, um choque gostoso passou daquele ponto para todo o meu corpo, esquentando partes de mim que eu nunca acharia possível... E naquele momento, eu parei de respirar.
Ar simplesmente deixou de ser necessário.
Impulsionei mais do meu corpo para frente, buscando mais de sua boca, e tentando evitar que ele ficasse por cima de mim novamente.
Porém, o beijo durou muito menos do que eu queria, e logo Damon estava tocando meu pescoço e afastando o meu rosto do dele.
Ele me checou rapidamente com olhos preocupados, mas isso só durou um segundo, antes de ele voltar a mascarar a preocupação.
Qual é o problema desse cara com as emoções?
– Ok — ele disse, porém uma rouquidão nada característica abalou sua voz. — O que diabos foi isso?
– Um beijo — respondi o óbvio, detestando o fato de que minha voz estava mais rouca que a dele.
Damon revirou os olhos, mas vi um quase sorriso saltar de seus lábios.
– Obrigado, Capitã Óbvia — disse. — Mas eu estava falando do ataque de pânico.
Gemi internamente, fechando os olhos e em seguida observando o chão.
Eu realmente não queria falar sobre aquilo.
– Não sei — menti. — Nunca tinha acontecido antes — menti novamente.
Suas sobrancelhas arquearam, como se ele duvidasse de minhas palavras.
Damon ainda tinha sua mão em meu pescoço, onde acariciava distraidamente. Contive uma vontade estranha de fechar os olhos e aproveitar seu toque, por mais mínimo que fosse.
Qual diabos era o meu problema?
– É frequente? — questionou, parecendo genuinamente curioso.
Era a primeira vez que ele não me olhava com ódio e que dirigia palavras para mim cheias de ameaças e raiva, e por algum motivo, meu coração estava um pouco descompassado com isso.
Eu sabia que os olhos dele eram lindos, mas quando foi que ficaram tão intensos?
Prestei atenção em sua pergunta e me forcei a respondê-la honestamente, afinal ele estava se esforçando para ser gentil comigo.
– Só quando me sinto presa ou sufocada... por alguém .
Não iria especificar, dizendo que acontecia apenas com homens, porque então ele provavelmente me acharia louca.
– É uma espécie de claustrofobia? — tentou.
Eu ri, inclinando o rosto involuntariamente para onde sua mão permanecia em meu pescoço.
– Quase isso — confirmei, apesar de ser diferente.
Damon pareceu notar o que fazia com os dedos, porque afastou a mão de mim.
– Por isso seus pais te mandaram para cá? — perguntou — Vai receber algum tipo de auxílio médico?
Meu maxilar travou quando ele citou meus pais.
– Não preciso de auxílio médico — retruquei.
Seus olhos se estreitaram.
– Só estou me certificando de que minha mãe não trouxe uma louca para nossa casa — explicou, a frieza característica tomando posse de sua voz aveludada.
Afastei-me completamente dele, ficando de pé e o encarando de cima.
– Porque você tem que estragar tudo? — acusei.
Damon se levantou também. Encarando-me com a mesma intensidade que eu.
– O que eu estraguei? — perguntou.
– Tudo! — explodi — Quando finalmente paramos para ter uma conversa civilizada, você vem e faz esses comentários inúteis — reclamei. — E eu não sou louca! E mesmo que eu fosse, não consigo enxergar o porquê de isso ser da sua conta.
Foi a vez de seu maxilar travar e ele me olhar com raiva.
– Claro que é da minha conta! — retrucou — Você está debaixo do meu teto. Comendo da minha comida e vivendo com a minha família. Quero saber o que você fez para que seus pais lhe mandassem embora! Quero saber se você não é perigosa para essa casa.
Meu peito se apertou novamente quando ele mencionou meus pais.
– Saia do meu quarto — grunhi, tentando manter minha voz baixa e estável com muita dificuldade.
Por algum motivo meus olhos ardiam.
– Achei que tivesse deixado claro que esse quarto não é seu — Damon disse. — Que nada nessa casa é seu.
Senti lágrimas perigosamente perto de se derramarem de meus olhos. Céus, eu ia chorar e nem sabia o motivo direito.
Peguei a primeira coisa que eu vi e joguei contra o homem desprezível na minha frente.
– Sai daqui! — berrei. Então joguei outra coisa nele. E outra. E outra. — Você acha que eu queria estar aqui? — desabafei — Que eu não preferia estar na minha casa? Com os meus pais? — balancei a cabeça, tentando afastar o maldito arder dos meus olhos — Mas não dá! Quer saber por quê? Quer saber por que eu estou aqui? Porque meus pais “se livraram” de mim? — voltei a fazer aspas com as mãos apenas para irritá-lo — Bem — me virei e peguei algumas tintas ainda fechadas e joguei nele, torcendo que acertasse naquele rosto perfeito, — acho que eles não tiveram muitas opções já que estão mortos!
Damon parou, catatônico. As tintas infelizmente passaram direto por sua cabeça e bateram contra minha parede.
– Seus pais morreram? — ele perguntou, sua voz saindo nada mais do que um sussurro.
Olhei para cima rapidamente, torcendo para que minhas lágrimas não derramadas secassem.
– Sim — confirmei. — Quer saber porque estou aqui? Agora já sabe. Não tenho mais para onde ir. Estou sozinha.
Damon continuou me encarando como se me visse pela primeira vez.
– Achei que fosse uma oportunista — disse.
Suspirei, passando por ele e tentando reorganizar as tintas que eu havia jogado pelo quarto no meu acesso de fúria.
– Acredite — murmurei, — a ultima coisa que quero é me aproveitar da sua família. Só preciso de um lugar para ficar até completar 18, então estarei livre para voltar para Klamath, e você nunca mais precisará me ver.
Damon suspirou, passando as mãos no cabelo e o bagunçando.
Detesto admitir, mas ele ficava sexy fazendo isso.
– Eu não fazia ideia, Elena — ele disse, parecendo ressentido consigo mesmo. — Se eu soubesse...
Bufei alto.
– Se você soubesse não teria feito muita diferença — comentei. — Você continuaria sendo o mesmo cara narcisista, egoísta e metido que você é. E não adianta ficar com raiva — acrescentei quando vi seu punho se fechar, — porque ambos sabemos que é verdade.
Damon não disse nada.
Passei por ele e peguei a última tinta no chão, dando graças a deus que ela não havia explodido e manchado meu quarto.
– Agora é só pedir desculpas por agir igual um idiota comigo, e deixamos todo esse dia para trás, que tal? — opinei.
Foi a vez de Damon bufar.
– Não peço desculpas — disse. — Nunca. Mas talvez você devesse.
Eu ri. Alto.
– É mesmo? — perguntei ironicamente — E posso saber por quê?
Damon me lançou um de seus belos sorrisos irônicos.
– Porque espalhou para toda Mystic Falls que eu tenho DST.
– E voltamos para a estaca zero — comentei, voltando a ficar irritada. — Bom — continuei, — acho que não sei pedir perdão também.
Seu sorriso irônico aumentou.
– Que perfeito! — disse — Ela não sabe pedir perdão e eu não sei perdoar — então ele deu meia volta e caminhou para a porta do meu quarto.
E eu sei que naquele momento eu deveria estar odiando aquele insensível narcisista, mas, por algum motivo, naquela noite sonhei com maravilhosos olhos de prata líquida e beijos quentes.
Fale com o autor