Iris

3 O Arauto do Cataclismo


Notas iniciais
Esta história se passa ao mesmo tempo que a anterior, o início da jornada de Orube.

Ainda era madrugada, e o céu escuro indicava que todos na cidade gélida dormiam — com exceção dos taberneiros e seus clientes beberrões. Porém, em uma das grandes casas da parte nobre da cidade, havia um humano acordado, nervoso. Relia pacientemente um pequeno pergaminho, que continha uma profecia. Tentara entender de todas as formas o que aquelas palavras dispostas no papel tentavam avisar-lhe, porém, em vão.

Levantou de sua cama e dirigiu-se até a janela, para observar o sol que começava a despontar no horizonte do reino Glaciel, na capital tecnológica Cellium. Vestiu sua armadura dourada com detalhes avermelhados e arrumou sua algibeira. Era hora de descobrir se estava pronto para ser aceito pela deusa Chaos, patrona da Escola Rubi, instrutora de guerreiros destemidos. A deusa era conhecida por ser deveras cruel com seus inimigos, tendo sido protetora de uma figura conhecida por todos os mundos — Vlad, o Empalador. Ainda assim, o humano sentia estar pronto para o que lhe esperava.

Desceu as grandes escadarias de sua casa e seguiu para o campo de treinamento em que encontrava-se o chefe guerreiro da Escola Rubi. O sol, a esta hora, já brilhava no céu anil de Cellium, e as grandes máquinas dos gnomos reluziam tanto quanto a armadura dourada do jovem. Atravessou os portões que davam para o pátio e seguiu até o final, passando por uma grande quantidade de guerreiros, cavaleiros e arqueiros, que travavam batalhas sangrentas. No final do pátio, havia um grande castelo, feito de blocos de pedra e decorado com estandartes vermelho-fogo. Logo que entrara, pudera ver armas e armaduras espalhadas entre as paredes. Haviam anões em todos os lugares, com belas armaduras poderosas que fariam estremecer qualquer inimigo; faziam parte da elite dos exércitos, os mais poderosos dentre os cinco reinos. Inspiravam no jovem uma incontrolável vontade de ser um dia assim também, um dos maiores dentre os maiores.

Em pouco tempo, chegara à última sala do castelo, ricamente decorada. Haviam guardas nas duas portas de entrada e, atrás de uma longa mesa, um anão sobressaía-se dentre todos os que vira. Em seu rosto, uma cicatriz cortava-lhe o olho esquerdo e a bochecha, e, somado com a pesada armadura com marcas de batalha, denunciava que era mais do que um veterano em guerras.

–Qual teu nome, jovem? Vieste aqui para o duelo, acredito eu.

–Meu nome é Vincent, chefe guerreiro.

–Tu acreditas estar pronto para seu desafio? — disse o veterano, com um olhar desconfiado. — Sabes o que pode te acontecer, não é mesmo?

–Eu estou pronto para qualquer coisa que precise fazer, se me permite dizê-lo — disse o jovem com absoluta certeza.

–Se assim o crês... vá em frente.

Vincent deu um passo e fora transportado até um grande bosque no mesmo instante. Um campo aberto, perfeito para grandes batalhas. Observou em volta, mas haviam apenas florestas a milhares de metros de distância, e mais ninguém.

"Então é você o destemido guerreiro que pretende lugar pela vida como protegido de Chaos?", entoou uma melódica voz. O vento propagava-a e agitava os longos cabelos negros de Vincent, bem como a baixa relva que espalhava-se no solo. "Eu vejo grandeza em você, humano. Prove-a, se você a possuir, neste campo de batalha. Comande este exército e mostre-se firme e vitorioso. É apenas o que lhe peço."

Em poucos instantes, um grande exército aproximou-se do rapaz, que, cheio de orgulho, exclamou:

–Eu sou Vincent, o humano que os liderará para a vitória!

Sua frase fora pontuada com gritos de veneração, e seguiram todos até o campo, onde o exército inimigo esperava-os. Vincent montara em um belo cavalo negro e desembainhara sua espada, atacando todos os orcs que ousavam atravessar seu caminho. Inspirava seus companheiros humanos com sua determinação ímpar e sua fúria explosiva. Provava não ser apenas um bom guerreiro, mas também um ótimo líder: após horas de luta sangrenta, quando notava-se que os corpos dos companheiros do jovem criavam pilhas maiores que as dos orcs, pouco a pouco seu exército decaía. Não foi o suficiente para fazê-lo desistir: dentre toda a batalha que travava-se, exclamou para todo o seu exército ouvir, para que seus companheiros humanos o escutassem e se inspirassem em seu clamor.

Fazemos isso pela nossa deusa, Chaos, então por que é que estamos falhando? Não nos renderemos para estes orcs, e nem para inimigo qualquer que ouse atravessar nosso caminho. Lutem, honrem suas armas, honrem sua deusa, façam com que sofram, pois não há espaço para a piedade em um campo de batalha. Há apenas o próximo inimigo a derrubar-se, pois esta é a vontade de Chaos. Sejam fiéis aos desejos de nossa divindade guerreira!

O exército órquico fora massacrado após este discurso inspirador. A ilusão criada pela deusa logo acabara, e todos os corpos pelo chão, bem como os humanos que lutaram ao lado de Vincent subitamente se foram. Sobrara, então, apenas o humano e uma bela elfa, alguns passos a frente. Seus cabelos eram de tom flamejante, bem como seus olhos que assemelhavam-se a rubis, e contrastavam com a armadura prata da elfa. Havia na face dela um belo sorriso de satisfação, que era direcionado para o jovem humano.

–Sim, és tu quem eu procurava. Dentre todos os que passaram por este campo, apenas tu tiveras um desempenho tão... nato.

Estupefato com a beleza da deusa, não pudera deixar de sorrir. A divindade observou o horizonte, pensativa. Virou-se em direção às árvores e tornou a caminhar, com Vincent seguindo-a.

–Há tempos eu procurava alguém com tuas habilidades, meu jovem humano. Este teste... tu fizeras algo impossível. Ele fora criado para que ninguém que comandasse este exército saísse vitorioso. Um desafio para que eu conhecesse a essência de cada um; é na derrota que conhece-se o caráter de alguém, não na vitória. Mas tu... tu fizestes algo que ninguém nunca imaginaria. Surpreender-me-ei contigo ainda mais.

–Minha amada Chaos, eu apenas fiz o que julguei necessário.

–Tu, a partir de hoje, és meu Arauto. — desembainhou uma grande espada de lâmina dupla, que emitia uma fraca aura de tom rubi — E este é meu presente para você.

A deusa entregou a grande espada ao jovem, deu-lhe um sorriso sincero, e transformou-se em uma bela fênix — a mesma que caracterizava o cabo da espada. E enquanto observava a divindade cruzando os céus, fora trazido de volta à sala do chefe guerreiro da Escola Rubi.

O anão ficara deslumbrado quando pôs os olhos na espada de Chaos. Era visível que não esperava que Vincent pudesse nem mesmo passar pelo desafio da patrona, e agora estava ali, com a marca da divindade guerreira em seus olhos — seus belos olhos azuis foram substituídos por uma marca de fênix em tom vermelho, com detalhes lilases. Atribuía ao jovem um olhar ainda mais enigmático.

–Então, é isso, meu rapaz? Com isto que tu trouxeras... É bom ter-lhe na minha escola, Arauto do Cataclismo.

Vincent sorrira, e o chefe guerreiro dera-lha um sorriso de canto. Seriam longos anos de treino e dedicação, mas ele estava pronto. E, logo que chegara como aprendiz, todos os integrantes da Escola não puderam deixar de comentar que o Arauto do Cataclismo estava ali, entre eles. E estava mais preparado do que nunca.