Iris

4 Another Tale


O dia raiava na aurora de Requiem, a grande cidade do reino arcano. Era um dia decisivo para muitos, principalmente aos aprendizes que transitavam por entre as abarrotadas ruas da capital de Somnium, pois o evento que marcava o fim dos estudos de cada Escola aconteceria nesta tarde. Os comerciantes festejavam o aumento significativo em suas vendas, as taberneiras alegravam-se ao ver seus estabelecimentos lotados de viajantes e os estalajadeiros penduravam as placas que indicavam não haver mais quartos disponíveis aos visitantes. A manhã transcorria agitada na capital, e era possível observar uma grande variedade de indivíduos, de todas as raças e trajando armaduras, tabardos e portando belas armas. Falavam-se diferentes línguas por todos os cantos, e a agitação era grande para a celebração que ocorreria mais tarde. Ouviam-se boatos e burburinhos em diversos locais da cidade, onde falava-se sobre as profecias, sobre os Arautos e também discutia-se sobre assuntos quaisquer, como o preço das belas montarias de guerra no leilão do reino. Foi neste ritmo que chegara a hora em que os sinos do castelo de Requiem badalaram, avisando a todos que os portais à plataforma flutuante acima da cidade estavam abertos, para que aprendizes, mestres, ou apenas curiosos fossem acompanhar as celebrações.

Na grande plataforma que pairava dentre as nuvens, cada Escola organizava-se em filas, onde todos os integrantes trajavam tabardos da cor correspondente à sua instituição. Os mestres postavam-se a frente de seus discípulos, e havia no centro da grandiosa cúpula um tablado, onde seriam feitas as entregas de medalhas e dedicações honrosas. Era possível ver que algumas escolas possuíam uma grande concentração de determinadas raças — como, por exemplo, a Escola Rubi, que em sua composição possuía uma grande parcela de anões guerreiros. Todos estavam ansiosos por receberem suas devidas medalhas, merecidas após dois anos de dedicação intensiva aos estudos e aprimoramento de habilidades. Após receberem suas condecorações, poderiam seguir o futuro que quisessem por entre os cinco reinos. Conversavam entre si diferentes indivíduos sobre seus propósitos, até que toda a conversa fora cessada com o segundo badalar dos sinos. Este, fora acompanhado com a grande dragonesa arcana descendo dos céus majestosamente. A anfitriã e governante de Somnium voava e impressionava a todos com suas belas cores arroxeadas e seu porte nobre. Em alguns momentos, pousou no centro do tablado e transformou-se em uma bela ninfa, com cabelos lilases e um longo vestido negro. Observou em volta, girando para poder olhar todas as escolas organizadas em torno de si e sorriu. Começou a exclamar seu discurso, que espalhava-se com a brisa e alcançava docemente os ouvidos de todos os presentes no momento.

–Bem vindos, todos vocês! Sou Astaroth, e é um imenso prazer recebê-los aqui, em meu reino. É uma honra ter todos os líderes das Escolas aqui e poder ver cada um de vocês, que um dia, acredito eu, serão ainda mais grandiosos do que já o são. Esta data é especial para cada um de vocês, e marcará o início do futuro de todos os aprendizes aqui presentes. Sinto-me lisonjeada de poder fazer parte deste momento na vida de vocês. Espero que façam bom uso de suas condecorações, e que com elas, consigam ainda mais vitórias dentre todos os cinco reinos.

A dragonesa sorriu, e todos os presentes passaram a aplaudi-la por seu discurso simples, mas com significados ímpares para cada um. O arquimago da Escola Ametista andou alguns metros e postou-se ao lado de Astaroth, e assim todos os outros líderes o fizeram. A dragonesa prosseguiu, para completar o que precisaria falar.

–Começaremos as condecorações pelos mais destacados discípulos de cada Escola, e após, uma grande festa será dada no grande castelo de Requiem. Peço, então, que cada líder comece a entrega das medalhas.

O Arquimago Ametista deu um passo a frente, e retirou um pequeno pergaminho de sua algibeira. Abriu-o e deu um breve sorriso, que fora o suficiente para que um baixo burburinho crescesse dentre seus alunos. O silêncio retornou à plataforma quando o arquimago começou suas declarações.

–Primeiramente, gostaria de dizer que foi uma honra ter conhecido cada um de vocês, meus aprendizes. Mas, em especial, uma pessoa destacou-se e surpreendeu-me, portanto, chamo primeiramente Orube, também conhecida como O Arauto da Noite.

Todos os olhares voltaram-se para a ninfa, que timidamente percorreu o caminho até a plataforma central, e postou-se ao lado da dragonesa. Encantou a muitos com sua beleza, e seu sorriso discreto que iluminava a delicada face. Recebeu sua medalha lilás, com o símbolo dos magos gravado no centro, e guardou-a em uma pequena bolsa. Juntamente com a medalha, recebeu de Astaroth uma carta selada com o símbolo do Pentágono, e guardou-a também, deixando para lê-la mais tarde, com calma. Os sussurros eram incontroláveis, mas cessaram assim que o Chefe Guerreiro Rubi começou a falar.

–De minha parte, sinto orgulho de ter lutado e dividido minhas experiências de batalha com os bravos guerreiros que aqui se encontram. Mas a grandeza de Vincent, o Arauto do Cataclismo, é a que mais lembrarei.

O humano, então, andou em direção ao tablado e sorriu ao encontrar seus olhares com a ninfa. Sua armadura dourada reluzia e os longos cabelos negros agitavam-se com o vento, atribuindo ao humano uma beleza ímpar. Recebeu sua medalha, tão vermelha quanto o brilho de seus olhos, e juntamente com ela, o pergaminho do Pentágono. Colocou-os em sua algibeira e, nervoso, parou ao lado da bela ninfa.

A cerimônia teve fim algumas horas depois, com o término das entregas de medalhas e um último discurso da dragonesa arcana. Um ancião encerrou completamente o evento, profetizando sobre o futuro imutável dos cinco reinos.


A calmaria há muito iniciou-se, com o Arauto que da vida abdicou-se

Mas agora, há muito a se temer, pois as trevas tendem a renascer

Cuidado com as ilusões, é nelas que habitam as prisões

Que consumirão suas almas ou aos reinos devolverão a calma.



–x-


A jovem ninfa retornou ao seu quarto na hospedagem, e tornou a pensar nas palavras do ancião. Relembrou-se do pergaminho que havia recebido de um desconhecido nos portões da Escola Ametista, e tornou a pegá-lo. Leu-o incontáveis vezes, e ainda não conseguia compreender o sentido daquelas palavras — acabou adormecendo da forma que estava. Acordou no início da noite, de sobressalto, ouvindo leves batidas na porta. Abriu-a, e inesperadamente, encontrou o belo humano com quem encantara-se na cerimônia, há algumas horas atrás.

–Bem... olá? — disse a ninfa, desconfiada e surpresa.

–Eu... só vim dizer oi. Queria lhe chamar para dar uma volta...

Os olhos vermelhos do humano deixavam Orube intrigada, e a beleza extraordinária da ninfa o deixavam encantado. Sem poder dizer-lhe um não, a ninfa aceitou o convite, timidamente. Caminharam por entre as ruas e observaram as belas estrelas que formavam o firmamento de Somnium, conversando por horas, sem cansar-se. O sol já nascia sobre uma colina afastada da cidade quando os dois despediram-se, com Vincent partindo para Glaciel, enquanto Orube precisava voltar à sua vila. Juraram encontrar-se novamente no anoitecer anterior a reunião dos Dragões, e assim, os laços de amizade cresciam timidamente entre os dois.