Iris
2 O Arauto da Noite
O dia que raiava na aurora começava com uma grande responsabilidade para a jovem ninfa que, calmamente, despertava de um longo sono. Este era o dia em que toda a sua jornada se iniciaria.
Seu nome era Orube, e ela era uma bela ninfa — uma das poucas que sobraram de sua raça. No auge de seus 16 anos, possuía olhos violetas e um longo cabelo que brilhava da mesma coloração que seus olhos. Seu corpo, levemente rosado, possuía curvas que estonteavam até mesmo as espécimes mais recatadas. Vestia-se comumente com longos vestidos de linho leve, que marcavam sua silhueta e deixavam-na livre para usar suas habilidades — afinal, Orube havia escolhido estudar as artes da magia e seguir para a Escola Ametista. Este era o dia em que seu destino finalmente seria selado, pois era a data em que as escolas faziam seus torneios e criavam novas oportunidades para aprendizes.
Seus pais, dois humanos camponeses que a criavam desde pequena amavam-na muito, e sabiam da importância deste dia para ela. A despedida fora um momento triste, mas extremamente necessário. Orube rumava para a cidade-estado de Somnium, que situava-se perto do vilarejo em que morava, para ser levada de encontro ao diretor da Escola Ametista. Sempre fora uma exímia maga, tendo estudado tudo o que pode durante este tempo, e possuía uma habilidade nata com a magia pura.
Enquanto traçava seu caminho até a capital Requiem, Orube podia observar várias outras pessoas tomando a mesma direção. Orcs, humanos, anões e até mesmo um alado chegou a cruzar a estrada dentre o campo de visão da ninfa. Alguns trajavam armaduras, outros vestiam longas vestes detalhadas, como a de Orube, e ainda havia quem usava nada mais do que uma túnica, meramente simples. A diferença entre os indivíduos de cada vilarejo era visível, e todos procuravam por um futuro melhor, esperavam ter seus nomes gravados nas dedicatórias das grandes cidades-estado, nas listas de grandes heróis e heroínas que fizeram de Somnium uma grande nação.
Era a primeira vez que a ninfa adentrava os muros de Requiem. Observava detalhadamente tudo e, com um mapa em mãos, tentava encontrar a localização do tão conhecido Arquimago Ametista. Os olhares de muitas pessoas da cidade voltavam-se para a garota, pois havia muito tempo que uma ninfa não atravessava as ruas da cidade. Eram conhecidas por sua beleza extraordinária, e tidas como lendas para muitos dos cidadãos comuns. Assim, não fora difícil para a garota encontrar seu destino: suas roupas entregavam seu destino e, com algumas dicas de transeuntes, rapidamente chegara à torre que precisaria estar.
Logo que subira as longas escadas espiraladas, Orube entrara em uma grande sala, ricamente decorada com objetos místicos. A atmosfera naquele lugar era leve, tranquilizante, e havia uma suave música sendo entoada de uma lira mágica. O arquimago estava observando por uma grande janela e, antes que a ninfa dissesse algo, impressionara-na.
–Bem vinda, criatura intrigante. Você é diferente dos que estiveram aqui... Espero que esteja pronta. A Escola Ametista não é a mais procurada pelos jovens, mas a mais seletiva.
–Eu estou confiante, Arquimago.
–Muito bem, minha jovem. Os testes que lhe esperam já reprovaram muitos indivíduos, mas creio que não será o seu caso. Boa sorte.
Em um simples piscar de olhos, já estava em uma grande plataforma que flutuava dentre as nuvens. Era feita de mármore branco e lapidada de forma que brilhava tanto quanto os raios solares que incidiam nas colunas. A cúpula no topo da plataforma circular possuía um grande afresco com a representação da deusa Nix. A atmosfera era deveras agradável naquele local, e o vento soprava fracamente contra a bela ninfa. Observava as alvas nuvens que situavam-se abaixo de si, e ouvira uma linda e melódica voz proferindo palavras à si.
"Havia tempos que uma ninfa não passava por esta plataforma, meu adorado ser. Sinto que você guarda muito para compartilhar, Orube. Espero que passes pelo meu simples teste. Quero que apenas responda-me: o que é magia?"
A ninfa parou, um tanto surpresa com a pergunta. Imaginou ser algum tipo de brincadeira, mas não ousaria duvidar da veracidade das palavras da deusa.
–A magia, minha deusa? — fez uma pequena pausa, ainda confusa. — Bem, isto é algo surpreendente. Eu nunca pensei em defini-la, amada.
A doce voz voltou a ressonar pelos céus, livrando a ninfa de quaisquer preocupações.
"Apenas diga-me o que sentes. É o necessário, para mim."
–Pois bem... em minha concepção, a magia é o que rege nossa vida. É necessária em cada ser, para que haja o equilíbrio; é ela quem dá-nos vida e quem harmoniza o bem e o mal neste universo. É a essência de cada indivíduo, e manifesta-se de uma forma indiscutivelmente bela para nós, os mortais: é chamada de amor, pelos mais leigos.
"Eu sabia que tu entenderias, minha pequena ninfa. O amor é a mais pura representação da magia neste mundo. O dia que tu o sentires, Orube, entenderás que não há barreiras para ele, nem mesmo existem sacrifícios que sejam suficientes. E sinto em ti que há muita grandeza em seu ser; seu coração é puro e suas intenções são inocentes. És a mais apta neste universo a receber minha bênção; serás meu Arauto, e tu estás fadada a ter uma história heroica."
–Se assim o desejas, minha deusa...
"Leve este amuleto consigo, Arauto, e minha marca difundirá-se em você. Por todos os lugares que passares, saberão que és o Arauto da Luz. Mas tenha cuidado!"
Logo a frente da ninfa, pairava no ar uma bela pedra, que brilhava em todos os tons possíveis. Confundia os olhos de Orube com seu magnetismo e, assim que a tocara, fora trazida de volta à sala do arquimago, em Requiem. Assim que o mesmo pusera seus olhos na garota e no artefato em mãos, o Arquimago Ametista surpreendera-se.
–Este amuleto... seus olhos... a energia arcana transborda seu ser de maneira não menos do que bela. A marca de Nix está em você, Orube. Seus olhos emitem um intrigante brilho violeta, próprio dos abençoados pela nossa patrona.
–Eu não entendo...
–Você será muito bem vinda em minha escola, ninfa. Leve esta medalha e, por favor, quero que leve este pergaminho também. Guarde-o consigo, pois no futuro, talvez ele o auxilie em momentos de trevas.
–Obrigada, arquimago.
–Que as estrelas lhe guiem.
E assim a garota chegara aos portões da Escola Ametista. Enquanto atravessava as longas escadarias, fora observada com surpresa por vários Alados, guardiões e alunos. Ouvira sussurros sobre o arauto da deusa e também sobre uma criatura que mudaria os rumos dos cinco reinos. Fora interrompida antes de atravessar os portões, por um estranho indivíduo que entregou-lhe um pergaminho amassado e saíra tão rapidamente quanto chegara. O pergaminho contia algumas palavras minimamente desenhadas, e também os cinco símbolos de cada reino.
"Ninfa, seu caminho está traçado. Você encontrará seu destino durante uma tempestade, e a neve não cessará até que você entenda sua natureza. A magia lhe guiará, mas você deverá ser sábia, pois existem caminhos que não possuem volta, e a sabedoria sempre residirá no arcanismo mais puro que conhecemos."
Orube guardou o pergaminho com cuidado em sua algibeira, e seguiu para o futuro naquela Escola. Havia muito o que passar durante os dois anos de estudo incessante, para que fosse a maga que deveria ser.
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