Iridescente
2 Oinichoe
Notas iniciais
Qualquer um que gostasse de um clima ameno e, ainda assim ensolarado, diria que aquela tarde estava perfeita: sol, poucas nuvens, brisa. Nada escaldante, nada muito frio. E, embora a maioria das pessoas preferissem roupas leves ou no máximo um cardigã, havia uma figura caminhando com um sólido casaco preto: Morpheus.
As pessoas não o notavam, porém. Se era porque estavam todas muito ocupadas com suas rotinas ou porque o Perpétuo não queria atrair atenção, a multidão jamais saberia. O fato é que o Rei dos Sonhos prosseguia em passos despreocupados pela calçada, sem um caminho fixo em mente. Íris havia dito que seria fácil encontrá-la e ele não duvidava disso, mas achar um deus sempre tinha suas particularidades. Buscá-los de forma ávida, sedenta ou urgente parecia somente afastá-los — Isto é, se aquele deus não tivesse questionável vaidade. E quando não se é chamado por um, é mais fácil topar com um deus ao acaso.
Por isso, Morpheus não teve muito critério para escolher aquela cidade ao visitar o Mundo Desperto. Nem mesmo escolheu algo específico para olhar ali. Só perambulou e enfim chegou a uma praça bem arborizada e com uma fonte não muito nova — e certamente de design não muito original — ao centro. Ele se aproximou, encarando no fundo as moedas que os mortais jogavam como se a água fosse atender seus pedidos; depois, observou seu reflexo. E mesmo depois de pensar um pouco, não conseguiu formular um pedido para si.
Sentou-se na beirada da fonte, no local designado para qualquer um vir e observar o nada. Pareceu-lhe apropriado seguir essa sugestão não dita.
Justamente observando o nada, no entanto, ele enxergou a si próprio.
Por que eu, o Rei dos Sonhos, não sonho ou
sequer imagino um pedido para mim?
Era um devaneio tolo. E podia ser deveras significativo. Lembrou-se da conversa com a deusa mensageira, de súbito notando que era mais fácil imaginar Pesadelos para si — em sua totalidade, forma e função — do que sonhos. O que deveria ser absurdo, é claro. Ele era o Sonho.
— Hey, Morpheus. Apreciando a música?
Ele piscou e saiu de seus pensamentos. O mundo voltou a ter cor, a ter som. Um grupo de pessoas mais a frente assistia um grupo pequeno tocar uma canção agradável, havia mais gente conversando. Íris estava sentada perto dele, encarando-o com o queixo apoiado por uma das mãos, o cotovelo no joelho. Desta vez, estava vestida com um casaco leve de cores pastéis sobre uma blusa rosa e uma saia preta. Já os cabelos de reflexos coloridos estavam presos com uma caneta.
— Na realidade, eu não estava prestando atenção.
— Oh. É uma música dos anos 60. — Íris franziu a testa encarando a banda, depois voltou-se a Morpheus. — Por acaso você fica confuso com as coisas que… Bem, que não acompanhou esses anos todos?
Embora sua expressão não tenha se alterado muito, Morpheus achou graça da pergunta. Não tinha ouvido uma pergunta semelhante desde que tinha alcançado a liberdade, mas achava que poderia ser algo questionado por um corvo deveras falastrão.
— Não. A essência dos humanos não mudou tanto assim e, já que muitos sonham todas as noites, não foi complexo me manter a par do que mudou no último século através dos sonhos das pessoas. Também… pude notar certas coisas enquanto me mantiveram cativo.
— Ah, sim. Faz sentido. Você tem cara de quem escutaria The Cure e Depeche Mode.
— Quem?
— É bom te ver de novo. — Ela continuou, quase sorrindo. — Independente da sua decisão.
Morpheus deixou a referência indistinta daquelas bandas passar.
— Acredito que minha visita seria melhor se eu trouxesse uma resposta positiva ao seu requerimento, correto?
— “Requerimento”. — Íris repetiu, fazendo um gracejo tolo da formalidade. — Confesso que sim, seria melhor. E você trouxe essa resposta positiva?
— Sim. Qual é a primeira mensagem que deverá ser enviada em sonho, Íris? E para quem?
O sorriso dela quase compensou a sua falta de luz. Ao invés de lhe passar mais informações, porém, a deusa mensageira levantou-se e alisou a saia. Depois, fez um gesto rápido com a cabeça, indicando uma direção.
— Primeiro, nós vamos a uma livraria de segunda mão. Acho que vai entender melhor, antes das… Formalidades. Tudo bem?
O Perpétuo não teve muita escolha. Já havia concordado com as condições dela. Portanto, só lhe sobrou a alternativa de levantar-se da beirada da fonte e segui-la pela cidade, caminhando ao seu lado.
Estranha jornada.
Enquanto ele atravessou desventuras para reaver seus próprios artefatos — o saco de areia, o elmo e o rubi, que já não mais existia — agora, Morpheus auxiliava a deusa das mensagens e arco-íris a desfazer-se daquilo que a pertencia. E por mais que estivesse satisfeito por ajudar, havia um sabor amargo na tarefa. Algo que ele não sabia colocar em palavras.
— Íris, — Ele começou, cauteloso, enquanto viravam a esquina. — Me permite a vez de fazer perguntas?
A deusa encarou-o com uma expressão dividida entre genuína surpresa e desconfiança. Mas seus lábios, por fim, não mentiram:
— Na verdade, fico até feliz por isso.
— Diga-me, como você tem entregado mensagens nos últimos séculos?
Ambos andaram um punhado de passos até que ela respondesse:
— As mensagens para os imortais não mudaram muito. Bem, exceto alguns pontos evidentes: minha falta de asas e a falta de deuses a quem entregar recados.
— Mas você fez uma entrega recentemente.
Afinal, disse que soube do meu retorno
através de um trabalho, através de uma musa e
por saber de eventos do Sonhar.
— Oh, sim. E você conhece a remetente: Johanna Constantine. — Ele parou e depois de mais dois passos, Íris parou também. Ela deu de ombros e se pôs a explicar. — Sim, foi sobre a morte de uma amante dela. Pobre moça, ficar assim por um mero descuido… — Sacudiu a cabeça de leve, triste. Porém, não atribuindo culpados para aquela infelicidade. — Eu entreguei a mensagem sobre a morte dela para o pai da melhor maneira que pude. Ele ficou em paz.
— Tem entregado muitas notícias fúnebres, Íris.
— Aparentemente, foi o que sobrou. Encontro com frequência sua irmã.
Íris voltou a andar, enquanto Morpheus estacou na mesma posição, sem se mexer. Mas antes que se afastassem muito, ele apertou o passo para ficar ao seu lado depressa. Tinha interesse em entender como as duas — Íris e Morte — se esbarravam no Mundo Desperto.
Uma expressão pragmática, porém pesarosa, dominava o rosto da deusa.
— Que ironia, não? — Ofereceu-lhe um olhar de esguelha, saboreando o azedume das circunstâncias. Encontrava-se com a Morte, sabendo que não seria levada por ela. A despeito disso, Íris não demorou-se tanto na própria dor. — O fato é que alguns desejam deixar as últimas palavras antes de partir. Não é sempre que posso ouvi-los, isso é verdade. Mas eu os ouço antes de irem para as Terras sem Sol. E sopro no ouvido de quem as almas endereçaram a mensagem. É bom, sabe? Acho que acalma o coração de quem ficou.
Agora, com as mãos dentro dos bolsos externos do casaco de cores pálidas, a deusa mensageira admirou a fachada estreita de uma livraria antiga. Era tão indistinta que poderia ser enfiada entre outros prédios ou construções quaisquer, sendo as únicas características marcantes um toldo com o nome da livraria e as vitrines quadradas. E estava localizada em uma rua igualmente estreita, embora tomada por outros estabelecimentos maiores e mais chamativos. Quem entrasse naquela livraria tinha duas razões muito opostas para tal coisa: Ou estava especificamente procurando-a, ou entrara nela sem querer.
— Mas, tudo isso não significa que não tento criar oportunidades para algo mais… Você sabe. Algo mais vivaz. Vamos entrar.
Ele anuiu. Em segundos, foi tomado pelo cheiro de livros antigos e pó. Íris guiou-o pelos corredores abarrotados, sem muita ordem evidente. Pelas pilhas e certos espaços vazios nas prateleiras, o Rei dos Sonhos poderia supor que havia alguém tentando organizar melhor as coisas ali, mas sempre chegavam mais livros e mais clientes: era, em resumo, um trabalho infrutífero. Surpreendia-o o fato da livraria ser tão comprida também. Não era fácil presumir que fosse deste modo só de olhar pelo lado de fora, nem imaginava que boa luz natural conseguia penetrar o local. Eles cruzaram o caminho com duas pessoas. Não viu funcionários. A possibilidade de que as pessoas podiam chegar, pegar os livros e só sair parecia plausível.
— Curioso, não? Encontrei esse lugar sem querer pela primeira vez. E até que gosto de descobertas feitas assim, sem estar buscando algo.
Enfim, Íris chegou onde desejava. Após alguns segundos encarando as lombadas dos títulos oferecidos, ficou nas pontas de seus sapatos e pegou um livro grosso, quem sabe mais antigo que os demais.
— Demos sorte, essa parte continua com os títulos de mitologia e contos de fadas. — Aproximou-se dele, em seguida abriu a capa para exibir uma das primeiras páginas. — Gosta de dedicatórias, Morpheus? Considero-as íntimas demais. E essenciais. Veja essa, é de um livro que cita nós dois.
Para alguém
tão nobre quanto Pentesileia
e com tanto discernimento quanto Lisístrata
A.M.F
6 de Fevereiro, 1941
— Sucinto.
— Sim. E passional, não? Poderoso. Imagino que a pessoa a amava muito. — Ela começou a folhear o livro, ao passo que os pensamentos de Morpheus viajavam para o passado longínquo. — Ah, aqui está a nossa parte. É curta e quase sem importância, mas estamos aqui, veja.
Lá estava a passagem, nada que ocupasse mais do que duas páginas: a visita de Íris ao Sonhar sob o comando de Hera, para que a mortal Alcione soubesse de sua atual condição de viúva. Algumas coisas eram diferentes do que acontecera, mas isso não o incomodou. Morpheus estava compreendia a fantasia, o irreal que na verdade é tão palpável. Os humanos não chamaram a sua morada de Sonhar; adicionaram o detalhe que adentrar tal local provocava o mais pesado sono e falaram de outras figuras que moravam ali na caverna. E, naquela cena, Íris estava fulgurante.
A deusa passou a ponta do dedo indicador sob uma linha, lendo em voz alta parte de um parágrafo sobre os supostos irmãos dele. Comentou que os irmãos verdadeiros — os Perpétuos — não podiam ser mais diferentes. No entanto, não foi isso que chamou a atenção do Rei dos Sonhos.
— Notei que não me chama por Oneiros, mesmo que esteja escrito.
Ela o encarou fundo.
— É um nome que remete a uma voz em especial, não? A uma dor em seu coração. Considerei mais… — Íris fechou o livro. — Sensível evitá-lo, Sonho.
Foi obrigado a concordar. Tratava-se da memória de uma voz harmônica, assertiva: a mais velha das musas. E era uma memória que ele preferia não visitar.
Íris, na sua velocidade de pensamento, compreendia que não era um tópico a ser explorado, por mais que tenha se explicado ao Perpétuo. Guardou o livro onde estava e conduziu a conversa para outra parte da livraria.
— Nos últimos séculos, tenho vivido… Não sei se essa é a palavra certa, mas tenho vivido aos fragmentos. É diferente do que antes, mas é uma forma de viver. — Ela tirou a caneta dos cabelos para prendê-lo de novo: foi aí que ele notou que a tal caneta era uma versão pequena do caduceu de Íris. — Gosto de ler coisas sobre antes de minha Era, sobre histórias de outrora. Ler sobre antes da minha chegada me dá um pouco mais de perspectiva. Mas você já estava lá, é engraçado perceber. Você deu sonhos a Enkidu.
Ele anuiu. Lembrava-se perfeitamente.
— Além disso, me sobra entregar mensagens dos mortos, solicitações de recados esporádicos… Minhas partes favoritas são as mais sutis, na verdade. Entregar mensagens pela coincidência de letras e significados de músicas é um recurso bem eficiente. Nada como encontrar uma canção que se encaixa naquele instante exato, certo? E soprar o ímpeto de mandar mensagens nos ouvidos de mortais. Ah, sim. Isso é bem empolgante!
— Eu não tenho certeza se entendi.
Afinal, não parecia eficaz ela comunicar mensagens apenas por epifanias e coincidências. Vendo sua incredulidade, a deusa passou para um exemplo:
— Em 1949, eu sussurrei no ouvido de uma pobre autora um encorajamento e ela enfim mandou uma carta a uma livraria como essa. O nome dela era Helene, morava em outro país. Mas ela não fez só uma lista de livros ou recomendações do que estava procurando. Seu coração era mais sensível.
— Tipo a dedicatória que vimos?
A face dela transbordava a vontade de falar muito e a sabedoria de colocar cada palavra em seu lugar. Morpheus havia entendido que ela não era adepta a fazer muitos enigmas, mas que preferia desdobrar suas narrativas no tempo certo. Bastava acompanhá-la.
— Quase. Eram descrições sobre a sensação de abrir os livros, sua própria situação financeira, hábitos… No início, o dono da livraria respondeu só por educação. Depois, ele passou a responder por algo mais.
— E esse algo foi o que?
— Romance.
— E durou?
— Durou. Mas eles nunca se encontraram de verdade. — A expressão de Morpheus, ou a falta dela, foi suficiente para Íris se apressar mais um pouco o esclarecimento. — Não é a única história de amor epistolar. E também não é a única história de amor a acabar. Para eles, teve seu valor.
— E para você?
— Quase me fez sentir inteira de novo.
— Você não é Eros.
Nem Desejo.
— Ora, Sonho! Nem tenho intenção de ser. Muito menos tenho o poder. Os mortais fazem o que querem, eu lhe asseguro. Dou apenas uma sugestão extra para que enviem logo essas cartas, já que eles não me conhecem para que eu faça isso em seu lugar. Eles mal sabem da minha existência para pedir alguma coisa para mim, mas ajudá-los é sempre interessante. Hoje, costuma ser mais rápido, admito. — Ela riu. — Mas como tem gente que demora para teclar o enter! E é tão triste estar assim, na beirada de algo grandioso da vida comum. E ainda faltar coragem, só coragem.
— É o que vamos fazer hoje? Iniciar um… Romance epistolar?
O eco de sete cores brilharam pelos olhos dela. Sim. Ou quase. De sua boca, a súplica bem humorada.
— Por favor. — Passou a despachar a história. — Elas se conhecem já faz um tempo, de verdade. São colegas de trabalho e só toparam uma com a outra por acaso. Uma viu o botton de arco-íris na mochila da outra, entende? Basta um devaneio mais forte, ousadia, uma mensagem. Haverá uma parada em breve. Se for para ser, será.
Oferecer um item milenar em troca da ajuda de um Perpétuo para juntar dois corações. Morpheus custou a acreditar, mas achou a proposta adorável. Sua face permaneceria relutante se não fosse o sorriso contido e leve que escapou.
— Comecemos, então. Vai ser interessante conferir se sua intuição é precisa.
Os globos oculares de Íris se tornaram cristais retratando as sete cores e seus pés ficaram a poucos centímetros do chão. O tempo pareceu parar.
— Eu, Íris, a mensageira dos deuses. — Ela começou. — Invoco o Perpétuo. O Rei dos Sonhos, moldador de formas. Morpheus. Ajude-me a entregar uma mensagem e a tocar o coração de uma mortal, ó Sonho. E lhe ofereço de bom grado minha enócoa.
— Aceito as formalidades, deusa. — O Perpétuo tirou o saco de areia do casaco. — E fico ao teu auxílio.
Apesar do vento, cor e rastros de areia, nenhum mortal notou diferença na livraria. A luz se apagou dos olhos de Íris rápido quando ela voltou a tocar o piso, mas sorria. Aquele acontecimento seria tão indistinto quanto as histórias de Morpheus e Íris que não couberam no livro consultado antes. Andaram pouco e viram uma mulher sentada no chão, uma pilha de livros à sua esquerda e uma mochila à direita. Em seu colo, outra obra; em seus ouvidos, fones.
— Ali está uma delas. Ela vem para cá às quintas-feiras para buscar materiais diferentes para a revista em que trabalha. Eu li uma vez, é sobre literatura.
Ah, ela. Sei com quem ela sonha.
Naturalmente, o Rei do Sonhar saberia dos sonhos dos mortais. E havia sim uma boa dose de sentimentos coloridos e amáveis nos sonhos daquela mulher, que sonhava tanto com outra. Se seu humor permitisse, ele soltaria uma risada. Não havia escolhido com critério aquele lugar ou hora para encontrar Íris, mas não havia momento mais oportuno.
— E que conveniente. Ela está sonolenta.
— Basta um grão de areia para Sonhos começarem, não?
Ele ocupou os lábios em apenas assoprar a areia com delicadeza, já Íris reluziu. As imagens que se formavam aos olhos da mulher no chão eram sólidas, tanto que ela nem viu o sonho chegando. Estava na livraria, apenas sentada. Ouviu uma voz feminina chamá-la, mas não captou onde. Ao lado de Morpheus, os lábios de Íris moviam-se rápido e com o esboço de um sorriso, mas sem fazer um único som. Ou melhor, os ouvidos do Rei dos Sonhos não captavam as palavras exatas.
E de súbito um livro caiu da estante direto na cabeça da humana, parando aberto próximo de seus pés. Em sonhos, é comum que as letras estejam embaralhadas. E é mais comum ainda que os olhos de quem sonha consigam compreender exatamente o que significa.
Era um poema de uma poetisa antiga, a décima musa. Era um convite a um sim. A música nos ouvidos da mulher mudou para outra canção, a playlist em modo aleatório — e de significado tão propício. Oh, Hannah! Just look at me the same. I don't wanna be your friend, I wanna kiss your lips.
Mensagens fluíam em sete cores quando enfim ela acordou, o coração disparado.
A deusa e o Perpétuo aguardaram. Ela levou um tempo para notar que não havia um livro caído aos seus pés, nem nada ameaçava sua cabeça. Somente seu tórax resfolegava por uma dor contida e doce, a música ainda tocando nos fones.
Ela buscou o aparelho celular no bolso da mochila ao lado, logo a parte de tecido que exibia o botton arco-íris. Suspirou, fechou o aplicativo de músicas. Digitou algo rápido, mas então parou. Hesitou. Íris murmurou coisas ininteligíveis, como se estivesse na beira da absoluta alegria e não quisesse perder a oportunidade. Um instante mudo, e então a epifania. Enfim, enter.
Se você for na parada no sábado,
podemos nos ver :)
Os dois aguardaram mais um pouco, enquanto a pobre moça segurava o próprio rosto, a cor vermelha tingindo sua pele e o arrependimento ansioso tomando seu coração. Morpheus esperava algo mais… teatral, embora soubesse que nem toda magia reside em coisas grandiosas. Antes que Morpheus decidisse encerrar o assunto, veio o som de uma notificação no celular dela.
Eu estava pensando nisso ♥
— Finalmente!
Íris segurou a mão de Morpheus e deu um pulo. E quase gritou ao ver o sorriso da mulher crescer e crescer. Já o Rei dos Sonhos não reagiu muito. Se fosse sincero, diria que era difícil compreender a animação, mas se a Morte estivesse ao seu lado, ela o lembraria que mesmo os Perpétuos existiam pelos mortais. Ao fim do raciocínio, Morpheus concluiu que tinha receio de que Desejo e Desespero se envolvessem naquela história toda — era um receio constante, ainda mais no amor — no entanto, parecia que o Destino já tinha se assegurado de tudo.
Quem sabe essa história afinal durasse. Valor, já tinha.
Ambos observaram a mortal sair da livraria com um sorriso fixo, os dedos digitando no celular para sabe-se lá mais quem para contar as novidades. Pouco depois, os dois partiram dali também, voltando a caminhar pela calçada.
Durante alguns quarteirões, Íris se manteve calada, pensativa. E se antes as mil palavras que saiam dela o atordoavam, seu silêncio era pior. Assim que ele notou que estavam fazendo o caminho de volta para a praça — e já chegavam na fonte — a deusa mexeu na pulseira em seu braço esquerdo e dali tirou um berloque da corrente: era a miniatura de um jarro. E mesmo que tenha aumentado de tamanho após ser retirado da pulseira, o jarro não era tão grande assim: talvez um palmo de altura.
— Aqui está, Morpheus. Minha enócoa. Não imagino que vá servir vinho ou néctar dos deuses nela, mas… — A boca dela sorria. Os olhos, por sua vez, passavam outra mensagem. — Pode servir de decoração.
Ele recebeu a oferta com sobriedade, muito solene. Sua intenção verdadeira era não aceitá-la — não por despeito, não por descaso — e sim porque lhe soava como subtrair algo mais da deusa. Não era seu dever julgar, ao fim. Tratava-se de uma oferta e haviam protocolos a serem seguidos.
— E agora, Íris?
— Ainda estou pensando na minha segunda mensagem, Morpheus. Mas se quiser fazer algo diferente e ver os desdobramentos de um sonho virando realidade, você irá me encontrar depois de amanhã nessa cidade. Estará cheia de arco-íris.
— Muito bem. Veremos, então. Até breve.
Ele lhe deu as costas, segurando a enócoa. Não foi capaz de dar muitos passos sem olhar para trás: quando moveu o pescoço para checar a deusa, viu apenas um brilho colorido pairando na fonte d'água. Naquele ângulo, a luz da tarde formava-se um espectro de sete cores sobre as gotículas de água. Morpheus voltou ao Sonhar.
O tempo transcorreu rápido e sem oscilações.
Mervyn, o zelador, prosseguia com a boca ocupada com reclamações ou com cigarros; o Celestório estava em construção, Caim e Abel discutiam e os mortais continuavam sonhando. Ele, no entanto, evitou mexer no seu Pesadelo em progresso, pois queria desenvolvê-lo com os pensamentos limpos e agora só existiam marés em sua cabeça. Não sabia onde colocar seu desconforto, onde repousar sua atenção e muito menos em que lugar o jarro de Íris deveria ficar.
Mas a data chegou rápido. Morpheus soube que Íris estava certa antes mesmo do sábado, já que continuou a acompanhar os sonhos ansiosos e doces dos humanos, incluindo as duas mulheres envolvidas pelo romance e pela intervenção de entidades. Duas abençoadas. Mas quando foi até a cidade, na avenida perto da praça, de fato viu muitos arcos-íris.
E entre rostos pintados, glitter, sol e bandeiras coloridas na multidão, ele enxergou as duas mortais. Tímidas, de mãos dadas. Largamente sorridentes. Tão apaixonadas quanto em seus sonhos e tal visão mexeu algo dentro de Morpheus. É claro que ele era o Rei dos Sonhos, mas não estava acostumado a realizá-los.
Não tão diretamente.
— Agora você entende.
Os lábios dele se repuxaram fraco para os lados enquanto encarava Íris ao seu lado. De fato, Morpheus compreendera melhor e se recriminou por não ter cogitado algo tão simples antes: Íris era a mensageira dos deuses. Viu guerra, morte, tristeza, mas ainda era um trabalho importante. Agora que quase não restava ninguém, sua função diminuira, mas os sofrimentos prosseguiam. Não era de se estranhar que ela quisesse ser a portadora de boas-novas de vez em quando.
Trazer e levar algo mais do que dor.
Se sentir inteira.
— Mas você bem podia ter vindo com mais cor.
Ele ajeitou a gola do casaco preto, sem comentar a crítica. Já a deusa trajava uma camiseta branca com um shorts de tecido grosso — e ainda iridescente — com suspensórios de arco-íris. Morpheus mudou de assunto.
— E a segunda mensagem, Iris?
A deusa lhe ofereceu um sorriso convencido.
— Ainda estou trabalhando nela. Logo receberá notícias minhas.
— Bom. Aguardo, então.
Em sequência, ele tirou seus olhos da multidão e pretendia ver a felicidade refratada no rosto de Íris. A deusa não estava mais lá. As sete cores que era um dos seus símbolos, porém, inundavam o cenário, junto com música e falatório.
Morpheus admirou um pouco antes de retornar ao seu reino.
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