Iridescente

1 Khaire, Morpheus


Notas iniciais
Eu lembrava de ter visto uma pintura de Morpheus e Íris, certa vez. E como sou curiosa, fui atrás da pintura e da história em que eles apareceram juntos: estava aí o gatilho para o enredo e eu espero que seja agradável acompanhar! Boa leitura. ATENÇÃO: As palavras em negrito à direita são os pensamentos do Morpheus. Tipo o balão de fala gótico nas HQs kkk

Fascinantes. Horrendos.

Tão simples, tão diáfanos à memória

Ou agarram-se com força ao cérebro que desperta.

São sonhos. Pesadelos.

Que escorrem pelo mundo e viram monumentos,

Formam ruínas

E, ainda assim, começam a partir de um grão de areia

Em minhas pálidas mãos.

O vento soprava mais forte naquela tarde sem hora, naquela espécie de praia que não era lugar algum. Muitas coisas eram e deixavam de ser no Sonhar, embora seu rei mantivesse si próprio atado a regras antigas. Não era hora de pensar muito sobre isso, porém. Nem no que havia mudado recentemente. Ele agora contemplava parte do processo de sua função, de sua razão de existir. Também não tinha intenção de terminar nada, simplesmente sorvia os detalhes que sua nova obra pincelava em seus pensamentos.

Matthew, o corvo com mais personalidade do que tamanho, diria que Morpheus estava trabalhando. Lucienne, a bibliotecária, teceria um comentário mais elogioso e falaria que tratava-se de arte.

O Rei dos Sonhos não era grande devoto de abstrações, pois o ato era simples: criava um Pesadelo.

E, no momento, a solidão o satisfazia bem. Jamais havia dito com todas as palavras que não queria ser incomodado enquanto estivesse ali, local onde tornava a areia mais que grãos ao sabor da gravidade, mas pouco era interrompido. Para ser justo, os súditos do Sonhar sempre evitavam ser inconvenientes com Morpheus, ainda que tal fato levantasse outras questões pontiagudas. Era medo? Não confiavam nele? O fato é que, apesar de se esforçar para inspirar laços mais fortes entre Sonhos e Pesadelos, era grato pela solidão. E isso o surpreendia.

Acreditava que, após anos e anos relegado ao confinamento e ao silêncio, estaria enfim mais propenso à proximidade com os outros, a buscar barulho e contato. E ele não admitiria, mas estava sim um tanto transformado e olhos mais atentos captaram a mudança sutil, a mudança relutante. Por fim, Morpheus divagava se era esta a razão que o levava a procurar mais silêncio: a necessidade de compreender as metamorfoses em seu interior. O que o Rei dos Sonhos era, se não era mais o mesmo?

O vento e a areia não iriam responder, tampouco o Pesadelo em formação.

E por isso, não era hora de pensar com muita força sobre o que existia e o que já não havia mais. Os devaneios faziam bem, mas ele não se apressava em encontrar soluções. Silêncio, brisa e areia. Só.

Ou não.

Ele parou o que estava fazendo, aguçando os sentidos. Um som preenchia de leve os seus tímpanos, como se já estivesse ali há um tempo, mas Morpheus só notava agora. Era quase como… estática no ar. Uma música longe e indistinta. A sensação de familiaridade foi destilada em seu peito e ele não perdeu mais tempo. Antes que Matthew viesse grasnar notícias ou Lucienne lhe alertasse de algo, Morpheus deixou a criação do Pesadelo para trás e surgiu em seu palácio.

Nenhum de seus irmãos o invocava pela galeria. O sentimento era diferente. No entanto, ele não esperava observar um lume fraco no salão de trono, uma figura que sorria e conversava com a bibliotecária do Sonhar.

— Oh, mestre. — Lucienne virou-se, não exatamente surpresa por vê-lo ali de repente. Ainda assim, ofereceu uma breve explicação. — Eu já estava a caminho para avisá-lo de sua visita.

Quando a hóspede anuiu com um aceno leve da cabeça, a luz que atravessava os vitrais refratou no movimento de seus cabelos de base cinzenta, deixando o ambiente com mais cores. Em seguida, ela lhe ofereceu um sorriso frágil.

— Olá, Morpheus.

Íris. Já faz muito tempo.

Silêncio. Enquanto no olhar dela havia uma dose de nostalgia, o Perpétuo encarava a deusa com hesitação. Ele já havia visto o fim e o começo de impérios, pessoas, entidades. Tratava-se apenas do Tempo e da competência de sua irmã — a Morte — em sua função, e Morpheus estava ciente e resolvido com tais fatos. Mas ver Íris, a mensageira dos deuses, assim o obrigou a parar um momento.

Neste instante, ela trajava um vestido simples, reto e lilás por debaixo de uma camisa transparente — e iridescente. Não podia ser mais diferente do que as roupas que ela usava durante o apogeu da cultura helênica, mas não era isso que o incomodava.

Onde está sua luz, Íris?

Ele sentiu o peso do olhar de Lucienne, um peso ainda mais forte por encará-lo por cima da lente dos óculos. A bibliotecária pigarreou de leve e, antes de partir com elegância, mencionou que os dois tinham muito o que atualizar um ao outro. Saiu.

E Íris havia notado seu longo — e talvez assombrado — olhar sobre si.

— Lamento não estar do jeito que um dia já fui, embora isso não seja algo muito novo. — Ela suspirou, depois encolheu os ombros. Era o perfeito retrato da resignação. — As coisas mudam. Mas eu não deveria lecionar isso a você, não? Até Lucienne estava diferente da última vez que a vi.

— Você está certa. Mudanças ocorrem. E nem todas são fáceis.

As mais importantes mudanças não são.

Íris piscou devagar, em seguida deu dois passos para mais perto dele com suavidade. Parecia quase querer averiguar se aquilo era real.

— É bom vê-lo, Morpheus. De verdade. — Uma breve pausa, na qual ele viu um lampejo diferente nos olhos dela. — Lucienne comentou que estava criando um Pesadelo. Me diga, é mais simples criar um Pesadelo ou um Sonho?

O Perpétuo ignorou a impressão de que Íris tinha outra motivação além da curiosidade para realmente pensar em uma resposta. Não era sempre que surgia a oportunidade de explicar o processo de criação de Sonhos e Pesadelos, portanto foi necessário um momento a mais para colocar algo que era tão natural para si em palavras.

— Ambos têm sua particularidade. É simples criar um Pesadelo, se você unicamente refletir em sua forma e vilania. Mas qual é sua particular função? Quais medos ele deve inspirar? Já os sonhos são mais fáceis de fisgar para que servem. Eles mantêm as pessoas vivas. — Resumiu, lembrando-se de ter explicado o mesmo para John Dee, aquela pobre alma que havia tentado roubar o Sonhar e todos os seus poderes. — Mas qual será sua forma, afinal? Como se apresenta a cada um?

— E todos começam com um grão de areia. Não é?

A face dele se suavizou um pouco.

— Digamos que sim.

— Quando penso em um grão de areia... Penso nisso. — Ela levou a mão esquerda a orelha, mostrando um brinco pequeno: uma esfera de reflexo leitoso e furta-cor no fim de uma fina linha de prata. — Em pérolas. No mecanismo de defesa de certas ostras, camada por camada, transformando algo tão pequeno… Em algo lindo.

— É uma forma de pensar sobre Sonhos e Pesadelos. Um mecanismo de defesa para as angústias do Mundo Desperto.

Ela sorriu mais uma vez e quem se flagrou tomado pela curiosidade foi Morpheus.

— E qual seria a razão da sua visita, Íris?

— Sei que não somos tão próximos. Mas… — Ela desviou o olhar para encarar os vitrais acima e, de novo, mais cores se retrataram de seus cabelos lisos. Por um instante, ele se questionou se Delírio a conhecia, pois sua irmã gostaria daquelas matizes suaves. O pensamento logo se desfez quando notou a voz embargada de Íris. — Muitos já se partiram ou estão desaparecendo, então é bom ver um rosto conhecido. Não, é claro, que isso seja uma surpresa. — Voltou-se para ele. — Você é Perpétuo.

— Isso não me poupa de severos infortúnios.

— Oh, sim. Também sei disso. Tentei ajudar Jessamy há cem anos. Depois Calliope. — Íris deu de ombros, piscando rápido para não deixar as lágrimas caírem. E era bom que continuasse falando, pois a voz faltou a Morpheus. — Mas estou fraca e já não há a quem recorrer, não importa onde o arco-íris alcance. Soube que voltou por causa de um trabalho recente que fiz. Depois pela musa. E ouvi sobre luzes no Sonhar.

Uma pausa.

Cem anos. Há cem anos, Íris tentou ajudá-lo. Ele tentou se recordar de algum indício, algum vislumbre para confirmar a informação. Sabia apenas que chovia periodicamente no idílico local onde estava a mansão de Roderick Burgess e, quem sabe, arco-íris surgissem durante a tarde. Imaginou também Calliope olhando pela janela um arco-íris fraco da mansão de Erasmus Fry ou do apartamento de Richard Maddock.

A sensação de impotência era dolorosamente familiar a Morpheus quando ele pensava no último século. Sozinho, sem seus itens, sem ideia de quando tudo aquilo iria acabar. Ver o mesmo sentimento sob outro ângulo em Íris mexeu algo dentro de si. No entanto, enquanto ele tinha a estranha e dúbia segurança de saber que os Perpétuos permaneceriam apesar de tudo, as entidades mais poderosas aos olhos de Íris jaziam reduzidas a uma fração de seu poder ou pior: Haviam partido, quem sabe para sempre.

E Íris?

Jamais tivera muita relevância dentro da miríade de figuras poderosas e histórias que resistiam ao tempo. E se antes sua luz iluminava o Sonhar em suas visitas esporádicas, hoje Íris não passava de lume brando.

Inúmeros devaneios orbitavam sua cabeça, mas poucas palavras subiram pela garganta de Morpheus.

— Eu não estava ciente disso.

— Não o culpo. Meus esforços foram em vão.

— Íris, — Ele começou com cuidado, seu rosto tenso. Previa algo ruim. — Onde estão suas asas?

Ela fechou os olhos com força, encolhendo os ombros de novo. Parecia ter sido atravessada por uma longa flecha no peito. Depois retomou o fôlego e abriu as pálpebras, controlando a voz.

— Essa é uma história para outro momento, senhor.

— Pois bem. Mas sinto que veio por algo mais importante do que simplesmente me ver.

Ela concordou.

— Um pedido. Uma oferenda. Libações e vinho à terra seriam mais apropriados, eu entendo. Mas há algo mais que preciso lhe ofertar, que preciso pedir. — O sorriso de Íris era triste. — Eu estou morrendo, Morpheus. E para criaturas como eu, não tenho tanta certeza de que será sua irmã que virá ao meu encontro. Será o nada. A inexistência.

A gentileza em hora tão funesta era especialidade da Morte, porém nem mesmo ela iria ao encontro da deusa quando chegasse o momento. O Sonho não quis entregá-la a Desespero, ainda que fosse seu Destino.

— Eu estou ouvindo.

— Meu caduceu, meu jarro, meu manto. Por duas mensagens e um sonho, Morpheus. É tudo o que peço.

— Íris...

— Sei que não terá uso desses itens, Morpheus. Mas quero deixá-los com alguém confiável que poderá cuidar deles para sempre. E eu não me ofendo com sua reação reticente. É um pedido ousado para quem não se vê há tanto tempo.

— Agradeço por me conceder tempo para considerar.

Ela anuiu com delicadeza.

— Independente do que escolher, me encontre no Mundo Desperto para falar sua decisão. Não será difícil me achar.

E ela se foi, deixando um eco de cores pálido no ar. Durou somente alguns segundos e a presença de Íris de súbito pareceu uma ilusão melancólica a ser esquecida por olhos que fossem mortais. No entanto, Morpheus entendia que a visita tinha sido bem real. A sensação familiar, a estática ou música que o atraiu para seu palácio, tornou-se apenas silêncio. E, embora não entendesse bem esse detalhe, agora compreendia a razão dela lhe perguntar sobre urdidura de Sonhos e Pesadelos: Íris desejava saber se seu pedido era possível.

No passado, Morpheus havia entregado mensagens com ela — de certo modo — e uma das ocasiões tinha sido o anúncio da morte de Ceyx à sua esposa, Alcione. Era outra época, quase um outro mundo. Ele ainda usava seu rubi, tinha esposa e um filho. Íris era ainda mais fulgurante e veloz pelo par de asas douradas.

Amarga ironia.

Ele não já não tinha mais nada do que era seu naquela Era, Íris tinha ainda menos. E mensagem fúnebre que veio anunciar era de si própria! Morpheus caminhou sem rumo definido pelo salão do trono, sentando-se nas escadarias. Entregar mensagens junto a ela era um pedido recorrente para a deusa fazer ao Senhor dos Sonhos, uma solicitação banal. Pedir um sonho, por sua vez, era um pedido notável — e mais do que possível: Era a especialidade dele.

Um anúncio, pedidos e morte. Nada que Morpheus não tivesse visto em sua existência. E, ainda assim, a sensação de mudanças fugazes acometia-o sem que pudesse parar. Era observar areia escorrendo pelas mãos: significava o início de Sonhos e Pesadelos. Ou o fim de algum deles.

Notas finais
Khaire é uma saudação mesmo, galera. E aí, como que foi ter mais 100 palavras de Morpheus? KASJKA me contem