Iridescente

6 Kalispéra, Morpheus


Notas iniciais
O último pedido de Íris!

Para aquela ocasião, Morpheus recebeu um convite elegante: um papel mais espesso, de superfície iridescente com apenas algumas informações gravadas — o seu nome e um endereço. Não foram necessários dados adicionais para compreender qual era o evento e, se ainda lhe sobrassem dúvidas, a expressão de Lucienne ao entregar o convite já lhe dizia tudo:

Íris morreria naquele dia.

Ele estava esperando por tal coisa desde que a deusa anunciou a proposta: “Meu caduceu, meu jarro, meu manto. Por duas mensagens e um sonho, Morpheus. É tudo o que peço.”

E ele tentou não questionar muito suas próprias emoções para o evento. Mesmo que já tivesse visto impérios ruírem e sóis nascerem, a indiferença não chegava ao seu coração — apenas ao seu rosto. Portanto, ele soube lidar com a situação e seguiu com seus afazeres corriqueiros até o momento de encontrá-la. O Sonhar, quando o deixou, jazia em névoa densa.

O local do convite era o terraço de um prédio no centro de uma cidade e, quando Morpheus botou seus pés no lugar, uma brisa fresca e úmida o recebeu. Seus passos fizeram som contra as poças d’água, fato que enfim chamou a atenção da deusa sentada mais à frente, na beirada do prédio e balançando as pernas no ar. O manto colorido que ela esticara na praia agora era um longo cachecol quase sem peso, serpenteando no ar.

— Você chegou bem na hora. — Disse ela, como se fossem dar uma volta no quarteirão naquele final de tarde — Parou de chover há pouco.

O Rei dos Sonhos assentiu com as mãos no bolso, sem proferir um único som. Somente agachou-se para sentar-se ao lado de Íris e tentava juntar as palavras certas quando notou uma expressão jocosa no rosto dela. Seus lábios pintados comprimiam-se enquanto cerrava um pouco os olhos maquiados. Morpheus não entendeu a piada.

— O que foi?

— Hoje você está com roupas muito apropriadas para a ocasião.

Quase riu.

Aparentemente, estou sempre

vestido para o luto.

— Então é mesmo o fim?

Ela suspirou e voltou seu olhar para o horizonte.

Sim.

— E seu último pedido é um sonho, Íris?

Outra confirmação.

— E, em troca… Meu manto. — Tateou o longo cachecol em seu pescoço, que ainda ondulava ao vento. Um fragmento de luz atingiu o rosto de Íris, trazendo-a tona a fragilidade de seu humor. Morpheus não era o único que trazia sentimentos mais pesados no peito do que expressados em sua face; a diferença era que Íris desabrochava em sorrisos. — Posso apenas… contar algo antes, Morpheus?

Por que eu diria não?

— Lembra-se quando eu disse que a história sobre minhas asas era pra outra hora? É agora. — Ele aguardou um tanto tenso, um tanto curioso. O vestido que ela usava deixava parte de suas costas nuas e era impossível não notar um par de cicatrizes. De novo, ela parecia ter sido atravessada por uma flecha devido à simples menção da história e agora se esforçava para falar mesmo com tamanha dor. — Eu tinha uma irmã. Uma outra irmã, mensageira também. — Adicionou rápido, para que ele não a confundisse com as harpias. — O nome dela era Arke e eu a amava da mesma forma que o fogo precisa de oxigênio para acender.

Morpheus assentiu com calma.

— Quando os deuses e os titãs guerrearam, nós lutamos em lados opostos porque… — Deu de ombros, um pouco chorosa. — Porque uma de nós precisava viver. Calhou de ser eu. Arke teve as asas arrancadas e foi lançada ao Tártaro. Mas de tudo isso você já sabia, correto?

Na época, ele não prestou atenção na dor daquela guerra, não quis. Já estava saturado depois de tanto, ainda que aqueles deuses ainda estivesse em sua tenra aurora de existência. Observar agora a dor de perto, suas ramificações tão pessoais, trazia mais perspectiva. Não era confortável.

— Eu não tinha a dimensão do quanto vocês se amavam.

Ela suspirou, resoluta. Sim, elas se amavam. Para o mundo, não importava — por mais que isso significasse, ironicamente, o mundo para as duas. Até mesmo naquele instante, não havia cerimônia ou o mínimo de solenidade pela inexistência da deusa. Abaixo e acima de Íris e Morpheus, nas calçadas e andares de prédios próximos, o dia corria como qualquer outro dia com chuva e sol.

— Quando tudo parou de fazer sentido e muitos de nós começaram a deixar de existir, eu fui até Arke. Ela não viveria muito. Foi esquecida. — Uma pausa. Íris respirou fundo, juntando forças, mas sua voz saiu aos cacos. De repente, seu controle esvaíra-se, permitindo que lágrimas brotassem em seus olhos. Pareciam gotas de cristais. — Dei minhas asas pra ela, Morpheus. Para que ela não se sentisse sozinha, para que ela pudesse voar uma última vez antes de desaparecer. É por isso que te peço hoje um sonho, que humanos possam sonhar com arco-íris. Comigo. Eu não quero ficar sozinha.

Então ela desatou a chorar.

O Rei dos Sonhos observava-a. Afagar ou tocar seus ombros e costas parecia impróprio pelo contexto, nem palavras serviriam para estancar seu agudo sofrimento. Portanto, ele lhe ofereceu a gentileza de sua paciência, seu silêncio e presença enquanto lágrimas ainda escorriam a face da deusa. Junto ao seu choro, havia o seu lamento, o som de sua respiração entrecortada e os soluços há tanto tempo estrangulados. Morpheus esperou até que a vazão de tristeza de Íris não passasse de um fôlego frágil, mas controlado; poupou-a de ouvir tentativas de consolo inúteis e de executar as formalidades de ritos maiores.

Ele levantou-se.

— Seu pedido será atendido, Íris. E mesmo que a Morte não possa lhe acompanhar hoje, você caminhará com o Sonho. — Estendeu a mão. — Isso a satisfaz?

Enxugando ainda o rosto com as costas das mãos e borrando um pouco sua maquiagem, ela lhe deu um sorriso quebrado e agradecido. Aceitou a oferta, segurando a mão fria dele, e ficou de pé ao lado do Perpétuo.

— Muito.

— Podemos começar quando estiver pronta.

Íris suspirou, entre o riso e de novo o choro. Deu de ombros. Não fazia mais sentido adiar o inevitável, então aos poucos ela tirou o cachecol do pescoço. Encarou bem o horizonte úmido e um tanto cinza, entrecortado pela cor laranja do sol poente, e enfim jogou o tecido no ar: um arco-íris desenrolou-se para o alto e adiante, além dos prédios.

Ainda de mãos dadas com Morpheus, puxou-o em direção às cores.

Ao colocar suas botas pretas sobre o arco, ele notou que era mais firme do que caminhar sobre as ondas, ainda que houvesse uma ligeira sensação inefável de flutuar. Eles seguiram em frente, passo a passo em sete cores, com um delicado silêncio. Quando chegaram ao ápice do arco, Morpheus sentiu Íris ficar mais tensa ao seu lado, segurando um pouco mais forte o seu braço com tremor. Daquele ponto em diante, só haveria a descida.

Mas ela continuou caminhando.

Quando se tornou possível ver o final do percurso, o topo deserto de outro prédio, a pressão sobre o braço de Morpheus aliviou-se um pouco, mas o tremor da deusa não. Ela respirou fundo e parou de andar, virando o corpo para o Perpétuo. Em sua face, não havia nada mais que o esforço de se manter firme e a confissão de que tal tentativa não tinha muito sucesso. Na realidade, Íris estava gradativamente menos sólida.

— Eu estou ansiosa, Morpheus. — Admitiu, agora segurando as duas mãos dele. Era o único ponto do corpo dela que parecia ter ainda força, pois sua voz tornou-se miúda e suas lágrimas já não eram tão nítidas. — Não quero sentir dor.

Com aquela frase, ele soube a resposta para a questão que ele não tivera a coragem de perguntar: sim, Íris estava com medo. Era natural, compreensível e esperado. E apesar da previsibilidade de tudo isso, tais afirmações da deusa quebraram-no.

— Estou aqui, Íris. E quem sabe, quando eu for nada mais que um pálido sonho, nós possamos nos ver de novo.

Outro suspiro forte, outro riso misturado com melancolia.

Mentiroso. — E novamente, aquela expressão espirituosa e grata. — Adeus, Morpheus.

E então ela desapareceu, cedendo lugar aos resquícios de luz laranja preencherem o espaço que ela ocupava antes.

O Perpétuo deixou o sol encostar em seus dedos frios por um tempo indescritível, sorvendo o dissabor da ausência definitiva. Encarou as próprias mãos, depois o horizonte pintado pelo ocaso. Por fim, desceu do arco-íris que também se extinguia, pisando o terraço do prédio seguinte. O arco-íris voltou a sua forma de longo cachecol, demorando-se no ar até pairar em direção ao seu novo mestre, o Rei dos Sonhos.

E, em respeito à inexistente deusa, ele contemplou o final daquele dia até a escuridão tomar conta dos céus. Ninguém naquela cidade prantearia por Íris, não seria um dia distinto ou memorável pelos mortais e não seria mencionado em nenhum livro que ela gostaria de ler. Mas, com um pouco de sorte, seria uma noite a ser lembrada devido aos sonhos em vívidas cores, em diferentes formas — pérolas, arco-íris, bandeiras, flores, cartas, aves, o mar, os céus — com um toque de um sorriso morno, outro de doce melancolia.

Na noite que atravessou o mundo, todos sonharam com Íris.

Lucienne não precisou convencer seu mestre a descansar quando o último grão de areia enfim se desbotou das sete cores da deusa mensageira. Não se tratava de desgaste físico, pois Morpheus era um Perpétuo e aquilo nada mais era do que executar sua função, trabalho ou arte com Sonhos em uma escala maior, talvez mais intensa ou colorida do que de costume. Afinal, atender a um pedido de uma deusa em troca de uma nobre oferenda exigia certa dedicação. Isso não significava, porém, ausência de desgaste de espírito.

Morpheus fechou as pálpebras e, para seu assombro após despertar, também sonhou com ela.

***

Era outro dia de clima agradável naquela cidade e o parque estava movimentado. Para o alívio de Morpheus, havia ainda muito espaço à fonte, onde ele havia sentado há algumas semanas. Daquele ponto, era possível enxergar a avenida onde ele antes testemunhara tantos mortais em justa celebração com bandeiras do arco-íris; havia muito som, muitos risos que ecoavam ainda na memória, por mais que o único som próximo naquele instante fosse só o gorgolejar da água.

Matthew foi com ele até aquela cidade e seus comentários a respeito de alguma discordância com Mervyn não conseguiram fisgar a real atenção do Perpétuo naquele momento. Talvez fosse algo sobre Goldie e o que diferenciava uma gárgula daquelas de um dragão.

Quem parasse para observá-los, veria apenas uma figura vestida de preto em um dia de sol e um corvo que curiosamente escolheu se empoleirar nos ornamentos da fonte. Mas Morpheus não podia dizer que a manhã foi inútil: escolheram um local novo na biblioteca para os artefatos de Íris, em uma seção que seria cuidadosamente selecionada por Lucienne, com obras que mencionavam a deusa ou que eram de seu interesse. Não era fisicamente possível colocar uma dedicatória em um gesto, entretanto agradava Morpheus pensar que no que diria:

Para quem tem sete cores e mil mensagens na boca,

Para alguém que merece não só ouvir, mas ser ouvida

E vista.

Após um intervalo de tédio, Matthew crocitou.

— E então, chefe… Estamos procurando alguma coisa?

— Não. — Disse, levantando-se. — Mas podemos encontrar algo.

O corvo não discutiu o significado daquela frase, nem grasnou algo quando uma expressão diferente desabrochou no rosto de Morpheus ao quase esbarrar com duas mulheres de mãos dadas. Era como se o Perpétuo as reconhecesse, embora elas não retribuíssem o olhar da mesma forma. E após um breve pedido de desculpas mútuo, elas seguiram seu caminho e Morpheus também.

Mas antes de retornar ao Sonhar, um som de estática fraco se fez presente. Ele demorou para notar o barulho sutil, o qual era abafado pelos seus próprios pensamentos e pelo ruído da cidade, mas logo seus ouvidos captaram aquele som e aquela sensação familiar. Era impossível, não? Era absurdo que ela surgisse ali, dando-lhe sempre a mesma dica ou sensação antes de aparecer do nada. Morpheus virou seu torso em direção às vibrações e enfim notou a origem do ruído — não a figura colorida de Íris, mas sim uma banda tocando certa música dos anos 60.

Ele ouviu. O peso em seus ombros tornou-se mais leve e seu peito bateu mais calmo. Quase ergueu um sorriso, para a confusão de Matthew.

O fato é que se tratava de uma coincidência. Quais eram as chances de escutar uma canção sobre cores, sobre uma mulher ser igual ao arco-íris? Não importava.

Era uma mensagem.

Notas finais
Eu não sabia muito bem da existência da Arke na mitologia até eu pesquisar mais sobre Íris. Achei muito... trágico. Mas talvez isso diga mais de mim do que a mitologia em si, já que não tem registros indicando que UAU, elas eram super próximas. O fato é que imaginei Íris sem asas e este é o porquê: foi seu último gesto de carinho para a irmã. E quem fez esse último gesto por Íris foi Morpheus. A última música é "She's A Rainbow", dos The Rolling Stones. Recomendo kkkj E sim, as mulheres que o Morpheus vê são o casal do segundo capítulo. Esse é o desfecho. *SPOILER DE SANDMAN* fico pensando se Íris poderia voltar de alguma outra forma, assim como o Morpheus voltou como Daniel Hall. Seria curioso ver os mesmos personagens se encontrando, iguais mas já diferentes. Mas isso é conteúdo para uma próxima fic ;) Obrigada por ter acompanhado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!