Irene Noturna E O Gay Que Não Sonhava
4 Capítulo quatro: As sombras
Capítulo quatro: As Sombras
Irene Noturna não sabia ao certo onde Marcio morava, o pai de Miguel. Mas ela tinha os búzios para descobrir. E acredite, ela podia descobrir qualquer coisa nos búzios. Pegou-os e fez suas preces, como sempre. Mas dessa vez ela assoprou neles enquanto ainda estava em suas mãos. Depois levou-os até a luz da lua. Depois que os dois saíram, ainda restava um pouco da noite para ajudá-la em sua tarefa. Foi na janela apresentar os búzios à noite. E o fez com a delicadeza de uma feiticeira. Gostava dessa denominação: Feiticeira Noturna.
Então jogou os búzios, com o bairro onde Marcio morava em mente. E os búzios logo se arrumaram, estranhamente, como um mapa, todas as pequenas peças em fileiras formando ruas, casas, calçadas. E se rearranjaram novamente, mostrando cada vez mais de perto o caminho, até que Irene, por fim, se deu por satisfeita. Ele morava no Dirceu, disso ela já sabia. Mas com ajuda da lua, a mesma lua que iluminou as peças daquele quebra-cabeça que se formara à sua frente e que ainda iluminava a casa do homem e de Miguel, ela descobriu a localização correta. E se orgulhou de seus poderes. Saudou Oxumaré e Logun-edé pela ajuda. Obrigada.
Decidiu que não dormiria, passou um café preto forte e sentou-se a ouvir o cantar de Liniker. O que faria para ajudar Miguel a voltar a sonhar com alguma coisa? Bem, primeiro ela tinha que descobrir o que havia acontecido para que ele deixasse de sonhar. Se ao menos ela pudesse ler sua mente... Mas sem sonho algum, a única coisa que ela podia ver no sono do garoto era escuridão.
O dia chegou. Ah, como Irene odiava o sol. Seu nome não era Noturna por acaso. O sol que fazia arder sua pele, como se estivesse em chamas. O sol que ofuscava seus olhos. O sol de Teresina. Mas se não houvesse a luz do sol, como poderiam haver as sombras, para protege-la, para escondê-la?
Caminhou de sua casa no centro até a parada mais próxima onde passava o ônibus em direção à Avenida Principal do Dirceu. Subiu no ônibus, sentou-se à janela mais próxima. Repassava por sua mente os planos para o dia de hoje. Encontrar o garoto. Conversar com ele. Tentar descobrir o que havia lhe deixado daquele jeito. Convencê-lo de seus poderes. Convencê-lo de que corria perigo. De alguma forma, ajuda-lo.
Desceu do ônibus, observou o bairro. Ela sabia exatamente onde estava, os búzios tinham lhe contado. Caminhou em direção a onde ela sabia que ficava a casa do homem com quem frequentemente ficava, cujo o filho, gay, sofria do que ela chamava de “Insonhabilidade Aguda”. Logo encontrou a casa. Se escondeu nas sombras de uma arvore do lado, e esperou. Eram seis da manhã, logo Marcio sairia para o trabalho, e foi o que aconteceu. Ao abrir a porta, o homem de meia idade não percebeu o vulto que o contornou para entrar. Ela agora pulava de sombra em sombra dentro da casa. Por mais que o sol a tocasse em algum ponto, aquela parte do corpo dela se tornaria apenas parcialmente visível. Um vulto vestido de negro com um pé numa sombra e outro na claridade do dia.
Vultuosamente passou pela sala de estar, cozinha e subiu as escadas – agora totalmente protegida da luz do sol – à procura do quarto do jovem Miguel. Rezou para que a porta do garoto não se encontrasse trancada. E não estava. Ela entrou, e não viu ninguém na cama. Caminhou em direção ao banheiro. Abriu a porta para uma das cenas mais difíceis que já vira.
Miguel estava sentado no box do banheiro, nu dos quadris para baixo, com uma navalha na mão, abrindo suas pernas em cortes profundos, chorando tanto que fungava; as lágrimas descendo pelo nariz também além dos olhos. Ele se assustou ao ver a porta abrir. A noturna se assustou ao ver que, além de não sonhar, o garoto conseguia vê-la, mesmo estando escondida nas sombras.
— O que você está fazendo aqui? – Perguntou o jovem sangrento, pondo a navalha de lado e escondendo a virilha.
— O que você está fazendo garoto? – Indagou Irene, preocupada. Ele sangrava muito.
— Sai daqui! – Ele pegou a navalha e jogou nela, que desviou da lâmina, como a feiticeira que era.
Ela se aproximou e saiu das sombras. Estava visível para qualquer um agora.
— Eu quero te mostrar uma coisa que vai te fazer acreditar em mim. – Respondeu.
— Eu não quero ver nada! – Protestou.
— Mas você vai!
Ela foi em direção ao espelho do banheiro, o abriu e pegou um esparadrapo e algumas gazes. Ligou o chuveiro, pegou o sabonete e ensaboou os cortes do garoto, depois os enxaguou, mesmo com todos os protestos do moleque, que a encarava com uma cara raivosa.
— Eu não tenho medo de cara feia. O que você está fazendo é muito errado, sabia? Logun-edé te proteja de si mesmo!
Limpou bem os cortes e colocou as gazes para estancar o sangue, depois as atou com o esparadrapo.
— Pronto. Vista-se, vamos descer.
— Eu não quero ir a lugar algum com você! – Miguel continuou protestando.
— Miguel? – Gritou sua mãe. – Está na hora do café, querido!
Irene percebeu que a voz se aproximava enquanto falava, então ela correu para o quarto e se escondeu na sombra mais próxima, ao lado da janela, onde a luz do sol não batia.
— Miguel? Está acordado? – Continuou a mãe de Miguel, enquanto o garoto pegava um shorts no armário e se vestia rapidamente. Logo ela entrou no quarto, e o garoto se perguntou como explicaria pra mãe a presença daquela mulher estranha em seu quarto àquela hora da manhã. “Hmm, bem, mãe, o pai não quer que eu seja gay, obviamente, então eu decidi ficar com mulheres agora”. Essa não parecia uma explicação que fosse convencer ninguém.
Sua mãe abriu a porta do quarto e o observou. Irene se encolheu mais na sombra, toda e qualquer proteção da falta de luz seria necessária naquele momento. Miguel olhou para Irene, depois para sua mãe.
— Mãe... – Começou.
— Venha tomar o café da manhã. Agora. – Ela olhou em direção à janela, aberta. Não viu a Noturna, e se virou para sair. – Você ia dizendo...? – Perguntou.
— Não, nada. – O jovem estava confuso. Como ela não tinha visto Irene, se havia olhado diretamente para onde ela estava?
A confusão tomou conta de seu cérebro. Tudo no que ele acreditava, e tudo no que não acreditava, se misturara naquele momento. Então ela era mesmo uma bruxa.
— BRUXA! – Exclamou, a encarando assustado.
— Feiticeira Noturna! – Ela o corrigiu. Estava orgulhosa de si mesma naquele momento. – Anda! Vamos descer! – Ela correu para as escadas sem dar tempo para que ele protestasse novamente. Ele a seguiu, preocupado.
Irene se escondeu na sombra mais próxima da cozinha. Miguel sentou-se ao balcão no meio da cozinha com seu sucrilhos e começou a comer, se perguntando o que faria com aquela bruxa estranha em sua casa.
— Vou visitar Gabriela. – Disse sua mãe. Graças a Deus ela ia sair de casa. – A filhinha dela está para nascer! – Completou, contente, e saiu, não antes de passar por Irene Noturna, que fazia uma dancinha escrota na sombra à porta da cozinha.
Ao sair da mãe de Miguel, a mulher começou a abrir as portas dos armários procurando por alguma coisa. Abriu a geladeira e pegou leite e ovos, no armário pegou farinha de trigo e óleo.
— O que você vai fazer? – Indagou Miguel.
— Comida de verdade! – Irene sorriu para ele.
O que aquela estranha queria com ele, cozinhando, em sua casa? Ele não sabia. Mas sabia que o cheiro que começou a subir das panelas era bom. Sentiu-se lisonjeado, pela primeira vez alguém lhe preparava um café decente, e não apenas despejava cereal matinal numa tigela com leite e o empurrava no balcão.
— Então... – começou Noturna. – Algum dia você já sonhou? – Ela estava curiosa para saber a resposta.
— Claro que sim. – Ele respondeu, agora totalmente desarmado com aquele cheiro de “comida de verdade”.
— Sobre o que eram seus sonhos? – Perguntou Irene, dando asas à curiosidade.
— Geralmente coisas que eu costumava transformar em curtas. – Respondeu ele, lembrando-se de Eduardo.
— Tipo o quê?
— Tipo perseguições, descobertas...
— Não sou nenhum Freud, mas pela minha experiência com sonhos, você se sentia muito sozinho, não?
— Não, eu tinha o Eduardo, Michele, Rafael... Eduardo me ajudava a editar os filmes. Ele era ótimo em captação e edição.
— Ótimo, então reúna-os novamente! Eles vão te fazer bem! Qual dos dois garotos era seu namorado? E por que se distanciaram?
— Nenhum deles! – Exclamou. – E além do mais, não dá. – E realmente não dava. Desde que Eduardo morrera, os outros dois tinham se afastado de Miguel. Eles também o culpavam pela morte do amigo. Na verdade, eram dois preconceituosos de merda, muito preconceituosos para serem artistas.
— Por quê? – Irene se preocupou.
— Bem, nenhum dos outros fala mais comigo. E Eduardo está morto.
Irene se preocupou mais ainda. Não era fácil lidar com a morte de um amigo próximo, ainda mais um garoto como aquele. Se compadeceu de Miguel, pela morte do amigo. Mas quis saber mais.
— Então, era ele, seu namorado? – Não sabia porque estava perguntando aquilo. Mas tinha sua intuição ao seu favor. As sombras ainda a tocavam.
— Ele não era meu namorado!
Ela o entregou um prato. Panquecas com ovos fritos, e um copo de leite quente. Ele se desarmou mais ainda. Poderia contar qualquer coisa para aquela estranha, agora que ela o mimava com comida. Ele riu disso, sarcástico.
— Vejo que consegue sorrir! – Ela se alegrou. – Se vier me visitar mais vezes, prometo que cozinho pra você sempre!
Então Miguel contou a ela sobre o beijo. Sobre como ele e Eduardo formavam a melhor dupla de diretores de cinema da cidade. Sobre como ele o amava. Sobre o porquê da morte dele. Ela chorou um pouco, comovida. Tudo estava, então explicado.
Talvez.
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