Irene Noturna E O Gay Que Não Sonhava

5 Capítulo Cinco: Eu não sou a porra da Beyoncé


Capítulo cinco: Eu Não Sou a Porra da Beyoncé

— Você me ama? – Perguntou Michele, que era Roberta a protagonista do curta roteirizado por Eduardo, com uma pequena ajuda de Miguel.

— Amo. – Rafael era Carlos, um garoto perdedor do ensino médio, mas que era legal porque lia bons livros, tinha bom gosto e sabia de muita coisa.

— Prove. – Desafiou Roberta.

— Não posso. – Respondeu Carlos. — Veja bem, há duas possibilidades. Que eu realmente te ame, ou que não. É como o “Gato de Schrodinger”. – Ele faz o sinal de aspas com as mãos.

— Gato de quê? – Michele deu a Roberta a expressão de confusão que ela devia ter naquele momento.

— Gato de Schrodinger. Uma experiência de física quântica na qual se coloca um gato numa caixa com um veneno, com 50% de possibilidade de o veneno correr pela caixa e matar o gato. – Explicou. – Depois de um tempo, se o gato estará morto ou não, só abrindo a caixa pra saber. Abrir a caixa significa forçar a natureza a tomar uma decisão.

— Então há 50% de chance de que você realmente me ame, apenas? – Indaga a garota, ainda com a expressão meio confusa.

— E você só saberá a verdade se deixar o tempo passar e abrir a caixa para ver.

— Mas como faço para abrir a caixa, no nosso caso?

— Não sei. Acho que quem abre a caixa não somos nós. Talvez tenha alguém nos observando. – Ele riu.

O curta sobre o gato era o favorito de Eduardo, que o havia editado com maestria, pensava Miguel. Ele mordia o lábio inferior como se quisesse provar do próprio sangue enquanto fazia sua parte. Queria conversar com Eduardo sobre o beijo, queria dizer que também o amava. Queria saber viver como se a opinião alheia não importasse. Talvez, se o tivesse feito, Eduardo não teria morrido daquela forma. Era o que pensava.

***

Irene pegou um elástico de cabelos no bolso do vestido preto e amarrou-os num rabo de cavalo.

— Então, como funcionam esses seus poderes, Bruxa? – Indagou Miguel. – Por que só eu posso vê-la?

— Primeiramente, é Feiticeira Noturna! – Protestou novamente. Já estava cansada de corrigir o garoto. – Com a ajuda de Oxumaré e Logun-edé. Segundo, eu também não sei. Você parece ter algum bloqueio pros meus poderes, a única coisa que eu consigo fazer é te colocar pra dormir. Isso é fácil, acho que nem preciso de poderes pra isso, contanto que eu toque nos lugares certos... – Ela se aproximou tentando tocar a testa dele.

— Nem vem. – Ele se afastou.

— Você não vai para a faculdade hoje. – Ela o avisou – Vamos para o Parque da Cidadania.

Miguel nunca havia conhecido o Parque da Cidadania. Mas sabia que era onde acontecia o Salve Rainha, uma festa de gente hipster, cult, gay, legal por natureza. Ele não sentia vontade alguma de conhecer o lugar, mesmo sabendo que poderia fazer boas amizades lá. Mas ele não queria boas amizades. Queria ficar sozinho em casa, ou matar aula com os “amigos” do quinto período para fumar maconha.

— Eu não quero! – Protestou.

— Mas vai! E não aceito não como resposta. Vamos, pelo café da manhã que eu te fiz.

Ele agora, de estômago cheio daquela comida tão simples, mas tão saborosa, se sentia mais suscetível a qualquer estímulo.

— Você tem uma câmera? – Perguntou a Noturna.

— Tenho. Pra quê?

— Não acha que eu daria uma ótima atriz? – Ela fez pose e biquinho.

— Não desse jeito! – Ele riu novamente. Era a primeira vez que ria daquela forma desde que Eduardo havia morrido.

Ele subiu até o quarto e pegou sua câmera. Desceu, e seguiu Irene até a parada de ônibus mais próxima, subiu no ônibus, apresentou seu cartão à máquina e rolou a catraca com seu corpo esguio. Ele não comia bem desde a morte de seu amigo/amante, por isso tinha emagrecido tanto.

Ao sentar-se ao lado da Noturna, primeiro checou a câmera para ver se estava em bom estado, ou se havia espaço na memória. Não sabia sobre o que Irene queria filmar, mas isso não importava muito. Qualquer coisa lhe parecia melhor que ficar em casa, mesmo que ele não o quisesse fazer. Depois notou os olhos virados em sua direção. Quase todo o ônibus parecia encará-lo desde que entraram no ônibus. Mas eles não olhavam só para ele. Também encaravam a Noturna. A mulher era conhecida, ele também sabia da fama dela.

Um senhor levantou-se do assento para descer do ônibus, mas não antes de abaixar-se um pouco para falar no ouvido de Miguel:

— Ela é prostituta, garoto!

Miguel ficou indignado. Era a primeira vez que alguém estava tentando fazer coisas legais por ele. Cozinhando para ele, o levando para sair. Quem sabe o que mais ela tinha em mente? Um curta. Deus sabe o quanto ele gostava de curtas, e o quanto ele sentia falta de fazê-los. Ele não deixaria então que o repreendessem daquela forma só por estar saindo com uma prostituta. Fosse bruxa ou meretriz, ela podia ser o que quisesse. Não era da conta de ninguém. Então ele se inclinou para o lado, chamou sua atenção com um pequeno sinal e a beijou. Um beijo quente, demorado, digno de cenas de cinema (não que ele soubesse beijar tão bem assim). O velho saiu do ônibus fazendo cara de nojo, e quem também estava assistindo repetiu aquela expressão, quase como máquinas de preconceito.

O mundo é mesmo cheio de tubarões com pernas, prontos para te julgar com seus olhos vidrados e seus dentes à mostra, ao primeiro sinal de sangue. Aquilo quase tirou a alegria de Miguel por estar fazendo sua primeira amizade em tempos. Mas ele decidiu que não deixaria que isso estragasse seu dia. Estava só no começo.

Desceram na parada do Colégio CEV e caminharam em direção ao Parque.

— Você não precisava ter feito aquilo. – Agradeceu a Noturna, de sua forma meio torta. – Não mesmo. Estou acostumada com isso. As pessoas me olham estranho pra qualquer lugar que eu vá. E acha que eu me importo? Faço minhas compras no supermercado como a pessoa normal que eu sou. Não acho que nem meus poderes me tornam diferente dos outros. Somos todos pele sobre ossos, cérebro, emoções. É claro que falta mais amor no mundo, você acaba de perceber. Ou talvez o tenha percebido mais cedo, não sei como seus pais te trataram.

— Como assim?

— Talvez você não tenha dado sorte, como eu. Não conheci meus pais, que se perderam pro craque, e vivia com minha avó, que apesar de ter me ensinado tudo o que eu sei hoje sobre os orixás, as cartas e os búzios, me tratava como um cachorro. – Explicou ela enquanto eles caminhavam.

— Não é como seu eu fosse um cachorro. – Ele retrucou.

— Quanto custou essa câmera? Sua entrada na faculdade? Seus gostos pessoais? – Perguntou ela, sarcástica. – E esse iPhone do ano, que você usa? E aquela noite comigo? Garoto, você é todo comprado? Acha que esse tênis da Nike de mais de seiscentos reais e essas roupas da Calvin Klein Jeans não valeram sua obediência? Eles te dão o petisco, você come, e obedece. Como um cachorro.

Ele estava convencido, por isso ficou calado. Entraram no parque.

— Vamos procurar uma boa locação. – Disse ela.

— O que você tem em mente? – Indagou o garoto.

— Por hora, eu canto, e você grava. Mas eu não sou a porra da Beyoncé, eu vou logo avisando. Gosto da novíssima música brasileira. Conhece Liniker?

— Não. – Respondeu. – Meu pai me obriga a ouvir sertanejo. – Ele fez cara de nojo.

— Nada contra o sertanejo, mas tá vendo como seus gostos são comprados? Vamos para aquela sombra. – Ela apontou para uma arvore.

Ele preparou sua câmera. Ela começou a cantar, e sua voz era a mais doce que ele já tinha ouvido em sua breve vida.

Pensei numa canção, meu bem

Que falasse de amor, então vem cá

Me dá um beijo, que quero teu cheiro grudado no meu edredom

Seria o poder das sombras, ou seus ouvidos? Ele tirou a cera do ouvido com um dedo, só para ter certeza. Ela cantava bem demais.

Me ensino a ter paciência, ciência que instiga o meu eu

Já foi, quero andar por aí

Descalça, sem nada ao lado de um vinho bom

A Noturna gesticulava enquanto cantava, fazia carões, e o fez esquecer sua dor por um breve momento.

Deitado na mesa de um bar

Reconheço teu cheiro ao entrar

Que me deixa louca, rouca

A moça não vai aguentar

E ele não aguentou. Chorou ali mesmo. O dia mal tinha começado, mas ele já se sentia bem ao lado daquela estranha que o cativara.