Iocum

2 Capítulo 2 - Começa-se o show


Notas iniciais
AI MEU DEUS! Muito obrigada mesmo por todos os maravilhosos comentários do capítulo anterior! Quando postei a história, confesso que achei que quase ninguém a leria, por ser do gênero terror. Quase nunca via alguém se interessando por esse tema. Sou muito grata a todos vocês que vieram ler ou dar uma olhada na história. Sempre respondo aos comentários quando posto o capítulo, estão lá vou eu respondê-los com todo o amor e carinho do meu coração ♥ Muitos me perguntaram sobre o nome da fic. Iocum é brincadeira em latim e resume o que a Loira do Banheiro acha de tudo que está acontecendo. Eu escolhi a terceira pessoa, pois o espírito é quase um personagem fixo, quis mostrar o seu ponto de vista para que as pessoas não achassem que todos as assombrações eram programadas para dar medo nas pessoas, elas fazem isso porque querem aqui. Além disso, terá capítulos ( um pouco mais para frente) que mostrará mais de uma garota sofrendo nas mãos da Loira. Boa leitura, espero que gostem!

Já faziam quatro dias que as meninas haviam invocado a Loira do Banheiro. Suas mentes estavam mais preocupadas com o enorme trabalho de biologia do que com a invocação que já haviam quase esquecido completamente.

O espírito teve tempo para analisar calmamente qual seria sua primeira vítima. Isabel, a falsa corajosa? Não, as outras duas amigas levavam muito em conta sua opinião. Luiza, a chefe? Ah! Vítima deliciosa, porém fácil demais. A mulher queria diversão, se começasse do topo da hierarquia a brincadeira poderia ser boa, mas acabaria rápido e ficaria sem graça. Como da última vez. Mas Maria...Ah! A doce e frágil Maria... Ela seria o alvo perfeito. As amigas nunca acreditariam no que ela dissesse, ambas sabiam que a morena era a mais medrosa e relacionariam tudo que ela falar a algo de sua cabeça. Como em uma empresa, a Loira teria que começar por baixo. Apavorar a base para que ela contamine as outras estruturas, corroer os alicerces do prédio para facilitar sua derrubada.

Enquanto todos os alunos estavam no intervalo, Maria estava sozinha na sala copiando a matéria de biologia que não havia escrito já que tinha dormido no final daquela aula. Ela estava concentrada a fim de terminar aquilo logo. A Loira estava sentada na mesa atrás da menina observando-a, traçando seu plano cuidadosamente.

Quando foi a ultima vez que teve tanta liberdade? Há uns dez, onze anos, talvez? Ela já não se lembrava. Seu ritual de invocação havia sido tão distorcido ao longo dos séculos e sua história tão modificada que era difícil achar o chamado certo. Mas todos que encontravam se divertiam muito com a Loira. Bem, pelo menos, ela se divertia com eles.

— Droga de matéria. — murmurou Maria com o punho dolorido de tanto escrever.

Ela estralou os dedos e levantou-se da cadeira. Ficou analisando a quantidade de coisas que ela já tinha copiado e o que ainda tinha que anotar. Deu um suspiro e sentou-se novamente. Havia muito trabalho ainda pela frente.

Assim que sua caneta encostou no papel de seu caderno, a porta foi fechada com força, fazendo um barulho alto ecoar pela sala. Ela deu um pulo, seu coração batia acelerado no peito e ficou olhando ao redor para ver se era algum colega que havia feito aquilo. Foi só o vento, pensou.

Porém, ao contrário do que a garota esperava, fora a Loira do banheiro que fizera aquilo. Estava testando o quão difícil seria pra que as coisas que acontecessem fossem relacionadas à si. Anonimato era ridículo. A Loira queria que todas soubessem o motivo daquilo estar acontecendo, queria ter seu nome sussurrado nas conversas entre elas, desejava que o ritual fosse mencionado e, ao invés de risos, houvesse um silencio tenso.

Mesmo que demorasse, era iria gostar daquilo. Ah, como a loira amava a atualidade! Quase mais nada inspirava medo nos adolescentes, seus cérebros já estavam lotados de terror fictício e era difícil deixá-los amedrontados. A razão sempre vencia. Vamos ver até quando. Quanto tempo a racionalidade irá durar com as meninas vendo coisas que não eram para estar lá, sentirem uma presença sempre por perto ou receberem mensagens da Loira? A mulher tinha um desafio pela frente, mas isso só a animava cada vez mais. Ela amava uma boa brincadeira, e as melhores sempre necessitavam de um bom planejamento.

Maria sentiu como se não estivesse sozinha, parecia que o ar estava carregado de eletricidade. Seus pelos se arrepiaram e ela olhou ao redor para ver se não encontrava alguém na janela. Mas sua sala ficava no segundo andar e isso a impediu de olhar para os vidros. Era melhor acreditar no fato de que não havia ninguém lá do que se virar e ver alguma coisa a encarando.

— Ok, isso está ficando estranho. — sussurrou com a voz um pouco trêmula.

Ela foi em direção em direção à porta e segurou a maçaneta tentando abri-la, mas não obteve êxito. Parecia que algo a estava prendendo. O desespero da garota ia aumentando à medida que todas as suas tentativas de sair falhavam. Ela estava a ponto de chorar. Enquanto isso, a Loira se divertia ao ver a angústia dela. Estar morta e ser um espírito vingativo tinha suas vantagens, afinal.

O que seria melhor agora? Arranhar o quadro, movimentar algumas cadeiras ou fazer as luzes piscarem? A Loira preferiu a última opção. Maria olhou para as lâmpadas, horrorizada. Por que aquilo estava acontecendo justo com ela? Lágrimas já rolavam por suas bochechas enquanto ela tentava abrir a porta com todas as forças, apoiando seu pé direito na parede e forçando a maçaneta para baixo ao mesmo tempo que a puxava para trás.

— Abra, merda, por favor. — murmurou chorosa.

Alguém estava vindo. A brincadeira teria que continuar outra hora. A Loira parou de exercer força e Maria, pega de surpresa pela ausência de resistência, abriu a porta com um solavanco e caiu de bunda no chão. As luzes voltaram ao normal e ela se encolheu tentando se acalmar e limpar as lágrimas.

— Você está bem? — questionou Matheus.

O rapaz era alto e moreno, seu cabelo preto e crespo era cortado sempre em máquina três. Seus olhos castanhos demonstravam preocupação com a colega de classe. Porém, a menina não queria atenção. Ainda mais quando estava com os nervos em frangalhos e as mãos trêmulas.

— Estou ótima. Só tive uma pequena crise, TPM é foda. — respondeu esboçando um sorriso fraco — Não se preocupe.

Ela se levantou e disfarçadamente massageou o bumbum que estava dolorido pela queda. Pegou de seu bolso um pequeno espelho para ver como estava sua aparência. Quando já ia fechá-lo, algo a sua direita lhe chamou atenção. Havia alguém ali. O reflexo mostrava uma mulher loira com a pele um pouco esverdeada e parecendo podre. Os olhos completamente vermelhos sangue a encaravam e havia um grande sorriso nos lábios ressecados. Quando a menina pensava que não podia ficar pior, a loira levantou o indicador e colocou-o na frente de seus lábios como se pedisse silêncio.

Arfando, Maria deixou o espelho cair no chão e se partir em vários pedaços enquanto corria para fora da sala. Estava tão apavorada que não conseguia gritar nem falar nada. A única coisa que podia fazer era correr. Chegar atrasada para a aula de matemática era agora sua última preocupação.

A Loira gargalhava diante o desespero da garota. Aquele seria um alvo tão divertido. Maria se preocupava demais com a opinião dos outros e só falaria do que estava acontecendo muito tempo depois. Daria tempo da mulher se divertir bastante. Quando a garota fosse contar para as amigas, elas não acreditariam nela, mas assim que dissesse a elas, a brincadeira ganharia uma nova participante: Isabel.

Aquilo seria muito, muito interessante.

[...]

Maria estava apavorada, não havia olhado em nenhum espelho desde que chegara em casa há cinco horas. Ela desejava que houvesse um botão que pudesse apertar para que não ficasse de noite. Odiava o escuro e morria de medo que a mulher que tinha visto mais cedo aparecesse novamente. Mas, naturalmente, com a aproximação de sete horas da noite, o céu foi gradativamente escurecendo.

A garota estava mexendo no computador com um headphone tocando alguma música eletrônica em alto volume. De repente, o fone começou a chiar de modo estridente, machucando os ouvidos de Maria, que rapidamente os retirou.

— Mas que merda é esta? — questionou irritada.

Conferiu os fios da caixa de som, mas tudo estava normal. Não entendia o motivo de seu headphone ter parado de funcionar tão abruptamente. Ouviu alguém bater três vezes no portão metálico e bufou com impaciência. Todo mundo naquela casa tinha a chave, por que não a usavam? Essa era a pergunta que invadiu sua mente.

— Já estou indo! — gritou.

A casa possuía apenas um andar. Havia dois quartos — um para si outro para seus pais — uma cozinha relativamente grande, uma sala e dois banheiros. Todas as paredes possuíam a cor branca um pouco manchada pela luz e o chão era de cerâmica. Quando chegou no portão, abriu uma fresta para ver quem era. Porém, não havia ninguém lá.

— Filhos da puta que ficam batendo e correm. — murmurou nervosa.

Entrou em seu quarto e tentou resolver o problema de seu fone. Todos os cabos estavam perfeitamente encaixados em seus devidos lugares, aparentemente não havia nada de errado, mas mesmo assim ele não funcionava. Alguém bateu na porta, porém, desta vez, foi a da frente. Que droga estava acontecendo?

Maria foi cuidadosamente em direção à entrada, mas assim que abriu a porta se deparou com o jardim vazio. A grama bem cortada e molhada não dava indícios de que havia alguém lá e as roseiras eram finas e possuíam muitos espinhos para alguém poder se esconder ali. Ela estava sozinha em casa, seus pais só chegariam dali à, no máximo, trinta minutos e os minutos pareciam andar como lesmas.

— Estou ficando louca. — disse a garota.

Para a Loira, a maior vantagem de só ser vista quando desejava era poder rir do medo de seus alvos o quanto quiser. Porém, na casa de Maria havia muitos espelhos e como eles refletiam a alma da pessoa, a mulher sempre poderia ser vista independentemente de querer ou não, por isso tinha que tomar bastante cuidado.

O silêncio da casa estava deixando Maria louca, parecia que na ausência do som, seu cérebro produzia um chiado assustador. Seus pelos do braço se arrepiaram e ela ligou o rádio em uma estação que tocava músicas americanas. Mesmo por cima do alto barulho, a garota conseguiu ouvir alguém bater três vezes na porta de seu quarto.

Mas, como dito anteriormente, ela estava completamente sozinha.

— Já chega! Pare com isso agora! — gritou a plenos pulmões, com a voz extremamente raivosa — Você não tem o menor direito de fazer isso comigo! Caia fora da minha vida, quem quer que você seja!

A Loira adorava ver o desespero. O medo fazia o ser humano perder quase totalmente a racionalidade. Assim que esse sentimento se apoderava de uma pessoa, ela não valia mais do que um rato de laboratório, guinchando toda vez que alguém abria a gaiola. Era divertido observar a vítima se tornar com o tempo, uma sobra do que era antes dela ser assombrada.

Passaram-se dez minutos sem nenhuma batida e Maria suspirou aliviada. Será que era realmente acreditava na ridícula hipótese que poderia mandar em um espírito que tinha mais de quarenta vezes sua idade? Francamente! Até que ponto alguém podia ser tão idiota?

Os pais de Maria chegaram e ela pôde, finalmente, se sentir mais segura. Quando eles perguntaram como havia sido seu dia, a garota, como a Loira previra, não disse nada sobre o que estava acontecendo. Sua mãe, Joana, possuía olhos castanhos, corpo alto e magro e cabelo curto cacheado. Já seu pai, Roberto, era um pouco maior que a esposa, possuía olhos verdes e cabelo preto perfeitamente cortado. Mesmo se contasse algo, eles não acreditariam nela então não fazia diferença. Pobre alma tola que mantinha esperanças de que a Loira desistiria só porque tinha plateia.

Os bons shows precisavam ser mostrados ao público.

Maria tomou um banho rápido e deixou a porta aberta por via das dúvidas. Vai que o chuveirinho cria vida e a enforque debaixo do chuveiro? Pelo menos ela seria ouvida agonizando. Assim que trocou de roupa, deu boa noite aos seus pais e deitou-se na cama sem apagar as luzes. Seu quarto era pequeno, possuía apenas uma cama de solteiro, um guarda roupa antigo cor creme e uma escrivaninha branca com vários cadernos de estudos sobre ela.

A garota não conseguia dormir, ficava se remexendo nas cobertas sem encontrar uma posição confortável. Ela não queria ficar acordada e por isso desejava adormecer logo. Quanto mais cedo fosse para o mundo dos sonhos, menos chances tinha de ver algo que a apavorasse.

Quando estava quase pegando no sono, sentiu algo debaixo de seu colchão incomodando-a. Bufou irritada e levantou-se ainda grogue de sono. Imediatamente sua mente culpou a faxineira, que havia limpado a casa de manhã. Levantou-se à contragosto e abaixou-se para ver se a incompetente mulher havia posto algo no espaço vazio entre a estrutura e o chão. No mínimo ela deveria ter jogado toda a bagunça ali.

Seus olhos arregalaram e seu coração começou a bater acelerado em seu peito. Maria encarava, estática, a mulher que aparecera em seu espelho de manhã deitada no chão com os olhos vermelhos e um largo sorriso no rosto, mostrando todos os dentes podres. O cabelo louro e sujo estava esparramado pela cerâmica e a pele cadavérica exalava um cheio agridoce, típico dos cadáveres em decomposição.

— Bu. — falou o espírito divertindo-se.

Notas finais
O que estão achando? A opinião de vocês é importante, pois sou uma iniciante ao escrever sobre terror então tenho medo de dar gafes SAUHUASH Eu estou amando escrever essa Loira ♥