Iocum
3 Capítulo 3 - Ensinar uma lição
Notas iniciais
Maria estava com uma expressão horrível. Olheiras grandes e arroxeadas eram bastante visíveis sob seus olhos avermelhados pelo choro e todos podiam ver isso apesar de toda a maquiagem que ela havia passado. A garota não tinha conseguido dormir após ver a Loira embaixo de sua cama, mesmo que nunca fosse admitir que aquilo fora real. Por enquanto sua mente, ainda tentava bloquear o ocorrido como se ele fosse um trauma que precisava ser encoberto. A desculpa que ela se agarrava era que tudo não passara de um horrível pesadelo.
As amigas perceberam que algo estava errado, mas Maria disse que estava tudo bem e elas deixaram para lá. Já era sexta feira, a garota estava com o rosto apoiado no pulso e o cotovelo na mesa, encarando entediada a professora de sociologia explicar a matéria no quadro branco. Seus olhos estavam pesando e ela lutava para que não se fechassem, contudo essa estava se provando ser uma tarefa extremamente difícil já que parecia que a voz da mulher exalava dramim. Mesmo não send nerd, ela se sentia culpada ao dormir nas aulas, mas naquele dia o sono falou mais alto e ela cochilou.
A Loira dessa vez não havia acompanhado a menina na sala, tinha ficado do lado de fora, pensando em novas brincadeiras. Fora engraçado ouvir os pais de Maria brigando com a garota pelo grito que ela havia dado ao vê-la. Os adultos quase nunca acreditavam quando alguém dizia que tinha realmente visto algum espírito, mas a Loira notou que a mãe tinha ficado desconfiada. A matriarca era espírita e seria facílimo para ela acreditar na filha, ainda mais se o espírito desse algum deslize.
Tanto Isabel quanto Luiza conversavam sobre a atitude de Maria, mas elas, ao invés de tentarem realmente ver o que estava acontecendo, estavam fazendo chacotas sobre as atitudes da garota. Para elas, aquilo tudo era uma grande piada. Ambas chegaram à conclusão de que a menina tinha ficado daquele modo após fazerem a invocação da Loira do Banheiro e, como se já não bastasse ela, as duas queriam assustar Maria também. Aquilo tudo era um jogo, ganhava o mais forte. Lobos devorando lobos, o mais capaz massacrando o fraco.
E, sem sombra de dúvidas, o mais forte era a Loira.
Assim que o sinal do intervalo tocou, Maria foi a primeira a sair da sala. Após aquele episódio traumático com a porta trancando-se sem ninguém ter influenciado isso e as luzes piscando, a garota nunca mais queria ficar sozinha naquele lugar novamente. Sua bexiga estava cheia e ela se sentia apertada, por isso se dirigiu ao banheiro no primeiro andar da escola. Aquele, diferentemente do que as garotas tinham feito a invocação, era grande, quase como um vestiário.
As paredes brancas possuíam algumas poucas rachaduras e manchas amareladas pelo tempo e pela água, havia duas janelas altas e pequenas que permitiam a entrada de uma leve brisa gélida de primavera. O chão de cerâmica clara estava perfeitamente limpo, tinha quatro cabines com chuveiro e outras duas com vasos e três garotas de outro ano olhavam seus cabelos no grande espelho que ocupava metade de uma parede. Um forte cheiro de alvejante estava impregnado no ar, sinal de que a faxineira havia o limpado há pouco tempo. Maria entrou em uma das cabines, se aliviou e puxou a descarga.
A porta começou a tremer violentamente, como se estivesse prestes a ser arrancada das dobradiças e as luzes piscavam freneticamente.
O barulho alto do alumínio batendo repetidas vezes em algo ecoava no ambiente e parecia ser aumentado pelo espaço reduzido da cabine. Maria, com os nervos já em frangalhos, começou a gritar desesperadamente enquanto lágrimas corriam livremente por suas bochechas. Ela se encolheu no chão ao lado do vaso cobrindo os ouvidos com as mãos e manteve os olhos fechados, com um som esganiçado pelo pavor saindo por suas cordas vocais. Seu coração batia acelerado no peito e sua mente se esvaziou. A garota estava em pânico. Ela tentava puxar o ar, mas, devido ao grande medo, não conseguia encontrar o oxigênio.
Maria estava tendo um ataque de asma.
Sua respiração saía ruidosa e pontos pretos começaram aparecer em sua visão. Ela começou a ouvir risadas joviais conhecidas e os barulhos pararam tão abruptamente quanto haviam começado. Tentava pedir ajuda, mas nenhum som saía de sua boca, o que só fez seu desespero aumentar. O silêncio permitiu que as meninas conseguissem escutar os barulhos que a amiga fazia ao tentar inspirar oxigênio e a brincadeira perdeu totalmente a graça.
— Maria! — gritou Luiza assustada socando a porta — Abra, por favor! Foi só uma brincadeira, abra!
As duas imediatamente entraram em pânico. O que era para ser uma brincadeira inocente, estava cada vez mais perto de se tornar um homicídio culposo.
— Você está bem? — perguntou Isabel com a voz trêmula — Ai meu Deus! Abra essa porta, Mari!
Mas a garota já não escutava nada. Toda sua concentração estava voltada para a tarefa cada vez mais difícil de conseguir encher seus pulmões de oxigênio.
O desespero invadiu Luiza e Isabel a medida que os segundos passavam e tudo que ouviam era o som sofrido da amiga. Como toda líder, Luiza foi a primeira e tomar uma atitude e correu desesperada para a enfermaria. Suas mãos suavam frio e estavam trêmulas, seu coração batia acelerado fazendo com que tivesse a impressão de ouvir sua própria pulsação. Ela não tinha tempo para pedir licença às pessoas, então simplesmente trombava nelas ou — na minoria das vezes — desviava delas. Ofegante, ela chegou ao lugar que queria.
A sala era pequena, as paredes eram cinzas e havia um sofá azul marinho com três garotos com expressões mais de fingimento do que de doentes. Havia uma pasta de arquivos preta e um armário de madeira branca no canto e uma janela pequena dava uma visão boa do pátio. A enfermeira, Luciana, era uma mulher baixa e um pouco rechonchuda de trinta e cinco anos. Seu cabelo curto e loiro estava preso em um rabo de cavalo e os olhos castanhos analisavam os garotos querendo repreendê-los.
— Enfermeira! — exclamou Luiza — É uma emergência! A Maria está tendo um ataque de asma no banheiro novo e a porta está trancada!
Aquilo fez a mulher arregalar os olhos e sair correndo para chamar o diretor. Luiza não sabia o que fazer, por isso decidiu acompanhar Luciana. O diretor, Emanuel, estava andando pelo pátio observando seus alunos no intervalo e graças a isso foi fácil para as duas o encontrarem. O homem possuía cinquenta e sete anos, era moreno e tinha uma pequena barba com mais fios brancos do que pretos — igual ao seu cabelo. Após notifica-lo, foram os três para o banheiro feminino.
Assim que afastaram os alunos curiosos, os três viram Isabel sentada no chão com a cabeça de Maria deitada em suas pernas. A jovem estava soprando ar no rosto da amiga, mas mesmo assim a respiração da garota saía ruidosa.
— Ponha ela sentada com a cabeça entre as pernas. — instruiu Luciana auxiliando Maria a ficar na posição certa — Você trouxe sua bombinha? Está na sua mochila?
A garota se sentia um pouco melhor e acenou positivamente com a cabeça. Luiza voltou correndo para a sala a fim de pegar o objeto que salvaria a vida da amiga.
— Como você a tirou de dentro da cabine? — perguntou o diretor.
— Subi no vaso da cabine ao lado e pulei a divisão, então abri a porta e a tirei de lá de dentro. — explicou com a voz fraca.
Enquanto o caos se instalava naquele lugar, a Loira observava tudo que acontecia de dentro do espelho para que ninguém, em nenhum ângulo, pudesse vê-la. Ela havia auxiliado na brincadeira ao fazer as luzes piscarem freneticamente e tinha que admitir que, como dizia Thomas Hobbes, o homem era o lobo do próprio homem. As próprias amigas assustaram Maria quase até a morte. O espírito queria ver até onde toda aquela curtição iria durar, mas já sabia a resposta. Assim que começasse a jogar sério, suas vítimas logo reconheceriam sua superioridade. Porém, algo estava irritando-a.
Aquelas meninas eram suas bonecas. Suas. De mais ninguém. Ela não iria permitir que brigassem sem sua autorização e de modo algum suportaria a ideia de alguma delas morrer antes que a brincadeira começasse a se tornar interessante. Isso era algo inaceitável. E tanto Luiza quanto Isabel mereciam ser punidas. Pro inferno que tivesse que mudar um pouco seus planos. O espírito mandava ali e deixaria isso bem claro.
[...]
Isabel caminhava sozinha para a casa de sua tia, como fazia todo dia após as aulas a fim de cuidar de sua priminha de quatro anos. A moradia ficava a apenas dois quarteirões da escola e por isso ela não levava mais do que dez minutos para chegar lá em um passo lento como de costume. O sol não estava quente e agradeceu por isso, pois usava uma calça comprida e uma blusa de manga longa já que de antes de ir para o colégio fazia frio.
Por ser horário de almoço, havia muitas pessoas andando na calçada e o trânsito estava frenético. A Loira seguia a vítima com impaciência. Nem suas centenas de anos conseguiram fazê-la aprimorar sua tolerância. Aquelas meninas precisavam de uma lição e ela ficaria mais do que contente de ensiná-las. À sua maneira, é claro.
A casa possuía um portão metálico verde e era bem simples. Um pequeno, mas bem cuidado jardim repleto de várias flores enfeitava a entrada, mas todo aquele pólen causava alergia em Isabel, que ficava com o nariz irritado. As paredes eram cor pastel com a pintura já velha e ressecada, havia duas janelas com grades finas e uma porta de madeira escura. Assim que entrou, sem nem mesmo passar direito pelo batente da porta, a garota foi recebida com um abraço de sua prima, Alice.
A menininha tinha o cabelo cacheado loiro que ia até os ombros e os olhos castanhos estavam fixos em um ponto atrás de Isabel. Ela usava um vestidinho azul de flores um pouco desbotado pelo uso e estava descalça. Isabel abriu os olhos quando Alice se afastou, deparando-se com uma cena que iria protagonizar seus piores pesadelos.
No espelho oval e antigo pregado à parede, Alice ainda a abraçava e mantinha no rosto uma expressão travessa.
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