Invincible Highers
1 Química no Salão Magnoles
Notas iniciais
Essa história é tão longa quanto boa e sinceramente não sei como começá-la. Talvez pudesse lhe falar sobre a nossa infância e juventude em Mundy, seria um ótimo começo.
No fundo, acho que só eu dava a entender que seria uma artista no futuro, os outros não queriam saber muito sobre a sua profissão que seria exercida. Sempre foi assim, eu, a mais preocupada e focada, aliás, desesperada é um termo excelente pra definir a minha relação com a vida e o próprio futuro, enquanto os demais brincavam exaustivamente.
Podemos dizer que Arthur foi uma surpresa. Não pensávamos que ele levaria tão á sério essa coisa de computadores, os softwares e suas peripécias. O resto foi tudo no chute: Christopher pensou até certo tempo em cursar advocacia e se tornou geólogo. Katherine era a mais perdida de todas e, sua profissão lhe caiu como uma luva. Sendo psicóloga, provou ainda mais pra todos nós que ela era uma melhor amiga excepcional, pois sabia ouvir como ninguém. E Joseph nunca deu parecer de que seria químico. Até pensei que ele seguiria carreira comigo, escrevendo livros, pela quantidade de literaturas que ele devorava. Ainda bem, ele não escreve muito bem...
Nunca nos separamos. Eu e Kath já eramos vizinhas desde sempre, e os garotos entraram em nossas vidas quando Joe e Chris se mudaram para Mundy ainda crianças e por coincidência, moravam em ruas paralelas. Então Joe conheceu Art durante uma partida de fliperama e o trouxe pro nosso quarteirão.
Passávamos tardes inteiras correndo feito loucos na rua, tocando campainhas, atirando pedras nas janelas. Brincávamos de cartas, corda, bolinhas de gude. Eu bancando a machona, Kath me seguia por falta de opção.
Na adolescência, finalmente começamos a estudar juntos, todos juntos. O colegial foi a melhor época de todos nós, pode perguntar, eles vão afirmar. Eu, declinei muito na escola pela atenção mútua que os dava. Conversávamos demais, atirando bolinhas de papel por nada, roubando canetas um do outro e comendo o lanche um do outro. Nada era individual, era sempre de todos. Nos formamos e, lembro-me que na noite de formatura, eu e Art demos o maior PT por causa da vodka na casa do Joe. Ele quis nos matar pois já eram mais de três da manhã e seu pai chegaria logo menos em casa.
Art começou sua jornada de carreira mais cedo que nós. Trabalhou em duas agências de conserto de computadores, fora os bicos nas lan houses que fazia ainda estudando conosco. Kath e Joe foram os primeiros a se enfiar numa faculdade, enquanto eu e Chris demos um tempo nas atividades escolares. Admito que sou a mais vagabunda de todos pois, no colegial mesmo é que perdi o interesse nos estudos. Apesar que investi minha vida na filosofia e nas letras, tanto que me tornei escritora, filosofa, historiadora e se contar como importante, demonologista. Eu e Joe sempre tivemos esse gosto em comum pelos demônios e o sobrenatural, tanto que levei ele de cabeça pra adentrar o assunto. Trocávamos muitos livros uns entre os outros.
Com a faculdade e os estágios, ficou mais difícil de nós se encontrarmos. Era um almoço ali e outro aqui, eu cozinhava pra eles e as biritas ficavam sempre por conta do Joe. Art costumava ser a cereja do bolo pois chegava tarde e sempre com uma pequena surpresa não muito agradável, mas de nos arrancar gargalhadas. E crescemos. Kath se formou em psicologia, Joe em química e Art em tecnologia da informação. Um ano mais tarde, concluímos eu, a faculdade de música e o curso de filosofia, e Chris a de geologia.
Mas ainda como universitários, aconteceu um caso curioso, o elemento chave pra nossa história. Joe, prestes á concluir a sua formação, foi convidado para uma grande feira de química, nada comparado com aquelas barraquinhas de experimentos com bicarbonato de sódio... Era algo luxuoso e grande.
–...E eu não poderia deixar de agradecer uma pessoa importante, que é como um irmão pra mim. Se não fosse pelo geólogo Christopher Blanc, nada disso teria acontecido pois, o pontapé inicial foi dele. Muito obrigado. — Terminava Joe, o seu discurso á imprensa.
–Que isso cara, não precisava! — Chris estava alucinado com os flashes.
–Ah, cala a boca. Se você não tivesse me mostrado a pedra, como eu realizaria os estudos? O mérito é seu também, pára com isso. — E abraçou seu amigo. — Aonde estão as meninas e Art?
–Madjore acabou de passar com um cara á caminho do banheiro e me deu uma piscadinha.
–Tá brincando? Ah, Mad... — E riu.
–Kath e Art estavam rodando pelo salão observando os demais experimentos, disseram que voltariam quando acabasse sua entrevista. Olha eles aí.
E ambos se aproximaram.
–E aí, conseguiu falar sem gaguejar? — Kath estava esperançosa com Joe, não fez a pergunta por maldade.
–Ah, bobona! Claro, eu inebriei á todos, as lentes, as fotógrafas fixando as lentes no meu olhar...
–Ih, vai tirar onda mesmo? Elas estavam assim com você porquê ainda não me viram. — Art deu um soquinho leve, mas que baqueou Joe.
–Pois é, garanhão. Mas acho que quem se deu melhor que você foi a Mad. Chris á viu indo pro banheiro com um cara engravatado.
–Deve ter sido o segurança... — Kath pensou alto demais.
–Como assim, que segurança? — Perguntou Chris.
–Quando a gente chegou, ela meteu uma fita dizendo que ia arrumar um band-aid pra colocar no calcanhar por causa do salto, mas ficou enrolando na entrada e conversando com um dos seguranças.
–Ela não toma jeito mesmo. — Retrucou Joe.
–Eu quem o diga. — Completou Chris.
–Ahhh vocês são muito ciumentos! Não acostumaram com ela ainda? Somos parecidos nisso aí. Dou todo apoio pra ela. — E Art me defendeu.
Até que apareci meio descabelada, andando torto e arrumando a saia, caminhando até eles.
–E vocês andam falando muito! Quem era a bola da vez?
–Eu estava defendendo a nossa posição como pegadores dessa cidade.
–Ah, obrigada Art. Mas eles já deviam ter acostumado não é?
–Sem deja-vu, pelo amor de Deus... Foi exatamente isso que comentamos, Mad! — E Kath não conteve as risadas, que se contagiaram.
–Pausa para uma foto? Os descobridores do coríndon e seus amigos. — Disse o fotografo.
–Amigos não! Eles são a minha família. — E Joe sorriu, abraçando uns aos outros e posando para a foto. Um grande momento que marcaria também, uma grande reviravolta.
"O que? Como vamos carregar esse trambolho pra cá? Isso tinha que ter sido resolvido antes!" — Era o que se discutia no rádio transmissor. Houve um problema com os equipamentos de luz e radiação, e eles precisavam ser mudados de lugar. E os carregadores vieram, com seus macacões cinzas, luvas de couro e máscaras de papel, o que seria preocupante se não fosse uma feira de química.
Porém como tudo estava bom demais, há sempre o momento de declive. Foi aí que uma tragédia aconteceu.
Estávamos ainda posando para as fotos, até que um fotógrafo se distraiu, trocando alguma coisa de sua máquina. Ele não viu o maluco que vinha correndo, orientando os carregadores e falando no rádio ao mesmo tempo, e ambos se chocaram. Isso fez com que o fotógrafo caísse em uma mesa de inflamáveis, derrubando os líquidos no chão.
–Caralho, olha que merda o outro fez ali! — Eu retruquei.
–Isso não é um bom sinal... Não é um bom sinal! — Joe começou a ficar inquieto e seu semblante feliz se modificou.
–Tá pesado demais isso aqui, solta um pouco pra eu poder arrumar! — Os carregadores começaram a discutir.
–Ah, vai se ferrar, o cara vai falar um monte se você colocar essa porcaria no chão.
–Pior vai ser se esse trambolho ca... — E antes que ele pudesse completar a palavra, a maldição foi concretizada.
Todos os olhos se voltaram pro local, onde um dos carregadores deixou a mão escapar da máquina e a deixou cair. A faísca se tornou fogo e o mesmo se alastrou muito rápido na parte esquerda do salão onde estávamos. O berreiro começou e Joe se desesperou mais que todos ali presentes. Ele queria recolher seus materiais e pelo menos uma amostra de piroxena, e nós discutíamos com ele sobre largar tudo alí antes que fôssemos cercados pelo fogo. Fogo que, traiçoeiro, avançou com o líquido inflamável e me acertou a face em cheio. Christopher me socorreu e notou meu rosto avermelhado e parte do meu cabelo corroído. No corre corre, o que já estava ruim, piorou. Trombaram com Joe e ele derramou sua mesa toda, com eletrocutores, amostras e uma quantidade absurda de silicato líquido. Eis uma explosão. Meu corpo era brasa com as costas cravadas de rubis minúsculos. Christopher ganhou uma cicatriz no rosto quando um dos vidros de Joe caiu contra ele enquanto me socorria. Artestava coberto de várias misturas que eu não sabia identificar, Kath foi a seu encontro para buscar ajuda mas ele acabou escorregando e teve um choque com o corpo na máquina e desmaiou.
Acordamos todos no hospital, sedados e enfaixados. Era uma sala mediana, nossos leitos um de frente para o outro, paralelamente, com bolsas de soro a nos fazer companhia.
–O que aconteceu? — Art coçava os olhos e procurava nos enxergar melhor.
–Tudo. Está. Acabado. — Choramingou com tristeza, Joe.
–Eu sinto que estou com cinquenta graus de febre... mas não estou... reagindo... Meu corpo não sua... — Falei ainda sedada.
–Gente... É sério. Vocês estão bem? — Kath, admiravelmente não se importou consigo.
–Não. Realmente não estou bem... Eu estou com um rasgo na cara e sinto minha pele descamando. Estou virando areia!
–Não exagere, Christo... O QUE É ISSO? — Kath se espantou e fez com que olhássemos para Chris.
–Puta que pariu. Joe, que fórmula satânica é essa?! — Retruquei, pensando que estava maluca ao ver o braço de Chris se deteriorando e recompondo inúmeras vezes.
–Você acha que o silicato sozinho ia fazer isso? Sua retardada!
–O que é que você fez?!
–Nada!!! Eu já havia testado a fórmula com água e não senti diferença nenhuma no corpo! Foram as diversas reações químicas com a eletricidade, o fogo e as outras coisas que fizeram isso. É um conversor celular!
–Isso é loucura... Não pode estar acontecendo. — Art olhava os braços de Christopher estapafúrdio.
–Eu vou morrer... Estou tostando! — Queixei-me.
–Aguenta firme, a gente vai descobrir o que é isso. — Joe tentou ser otimista, em vão. Se levantou de seu leito e recolheu os exames e raios x que estavam presos ao quadro de luz. — Nós não podemos ficar aqui. Sejam fortes e levantem-se. Vamos pra minha casa, sou eu quem vou descobrir o que aconteceu.
E obedecemos. Saímos sem ser notados naquela madrugada. Ouvimos a televisão anunciando a catástrofe no salão Magnoles em Mundy, onde cinco pessoas estavam gravemente feridas e foram hospitalizadas. Só faltaram anunciar que saímos. Bem, isso ficaria pra manchete do dia seguinte.
Carregando os papeis, Joe ajudou Kath a andar, enquanto Chris e Art me carregavam. Tomamos um taxi e demos dinheiro para a corrida e para o silêncio do taxista, que certamente pensou que seríamos loucos fugindo do manicômio. Joe sentou na frente, olhando os papeis como um louco e nos fitou por um momento. Estava quase desmaiada, muito vermelha, sendo abanada por Chris e Kath, e Art pensativo, ainda com a cabeça rodando. A noite provavelmente não acabaria ali.
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