Notas iniciais
Saímos com um pouco mais de facilidade do taxi, agradecemos o motorista e atravessamos á rua, rumo a casa de Joe. Ao abrir a porta que dava na sala, pedi á Christopher que me levasse ao banheiro e pedi permissão á Joe para que usasse o chuveiro. Estava de cabeça quente, em todos os sentidos.

–Eu preciso revisar toda a fórmula de novo e me lembrar o que foi adicionado com os coríndons. Eu não acredito no que eu fiz! Esse desastre todo, malditos componentes... — Joe estava loucamente agitado.
–Ficar correndo feito uma barata tonta não vai adiantar, acalme-se. — Kath o aconselhou.
–E você? Não está sentindo nada?
–Uma dor de cabeça... Mas sei lá. Será que fui atingida por algo também?
–Você estava coberta da liga natural, electro.
–E o que isso significa?
–São partículas de ouro e prata. Essa sua dor de cabeça, a liga misturada ao silicato... Eu não consigo similar!
–Calma, eu ainda estou bem, pelo menos até agora. Você precisa cuidar dos outros e de você mesmo, principalmente! Você já viu os cortes que você tem na barriga?
–Kath, eu não tenho tempo pra isso agora, eu preciso saber o que aconteceu. Podemos estar correndo risco de vida apesar de não ter nenhum químico letal.
–E eu? — Art se manifestou.
–Você o que?! Você o que????!
–Estou tonto! Oras, parece que eu estou levando choques até agora.
–Choques? No corpo?
–Sim, mas também sinto mais a cabeça.
–Você caiu em algo ou algo caiu em você, que não seja a máquina?
–Que eu me lembre não...
–Se esforce pra lembrar! Eu não posso fazer nada se vocês não souberem o que lhe afetaram.
–Eu vou ver se Mad está bem. — Kath se levantou e afagou a cabeça de Art antes de sair.
–Chris... — Balbuciei, dopada.
–Não precisa falar nada, vai ficar tudo bem.
–Chris... Tem pedras nas minhas costas... Elas estão me matando. São... Quentes.
–Eu não sei o que fazer, Mad. Estou lutando pra não te deixar cair enquanto meu corpo de despedaça e se recompõe. Eu tô com medo.
–Eu vou matar o Joe...
–Não fale bobagens, fique aí no seu chuveiro.
–Eu vou matá-lo, se ele não tirar essas pedras...
–Ele vai tirar. Você sabe como ele gosta de você, de todos nós, e ele vai cuidar da gente e dele mesmo.
–Claro, gosta tanto que... Insistiu e preferiu pegar as coisas dele ao invés de sair logo do salão conosco. E a gente esperou... Claro.
–Não fale uma coisa dessas, a gente faria o mesmo se fosse qualquer um de nós. Não fique tão brava assim.
–Brava? Estou em chamas, sou um carvão ambulante... Minha cara tá queimada e tem um monte de coisas no meu corpo, tudo inflamável e tóxico, e você não quer que... Eu fique brava?
–Shh... Você precisa se curar primeiro, se quiser brigar com Joe. E brigue só depois que ele resolver nosso problema, ok?
Bufei e me concentrei em me manter de pé. Arranquei a blusa e fui pra sala com Chris, Kath me parou.
–Como você está? A febre está melhor?
–Não, mas dá pra aguentar... Tenho que falar com Joe.
–Não adianta você ficar com esse tom de fúria, Joe está tão perdido quanto nós quatro.
–Ah é? Pois espero que ele se encontre logo, e também encontre uma explicação muito da plausível pra essas pedras grudadas no meu corpo. — E fui, quase dando os ombros a Kath. Eu estava cega e burra momentaneamente, era aí que eu ficava mais arrogante, irônica e fazia todo tipo de patifaria com quem quer que fosse.
–Que merda é essa, Joseph?! — Cheguei dando um murro na mesa em que ele fitava os papéis, meio desligado.
–Você não vem dar show agora não! Eu preciso pensar no que aconteceu e preciso da sua ajuda.
–Ah é?! Como é que eu vou te ajudar se eu não faço ideia da merda que aconteceu? Eu tomei um lança-chamas na cara e perdi metade do meu cabelo! Um monte dessas porrinhas que você chama de coríndon explodiram na minha pele e agora estão grudadas nas minhas costas. Isso te ajuda, doutor Victor Frankenstein?
–Não me amole com as suas palhaçadas! Os coríndons puros entraram em contato com os líquidos inflamáveis, penetraram na sua pele e quando resfriaram, tornaram-se rubis.
–Como é que é? Minhas costas estão cravejadas de rubis?
–Estão!
–E por que diabos eles queimam? Por que essa febre?
–É o reator, tá tudo junto dentro de você: o silicato com os inflamáveis, o fogo, respectivamente e consequentemente, os coríndons.
–Não adianta você tentar me explicar... Nem sei porquê vim te cobrar explicações. Você é um louco! Olha só tudo isso.
–Não adianta você vir ME CULPAR! Eu não criei isso na intenção de te queimar viva. Você sabe que meus estudos são sobre a cura de doenças a partir de minerais. Não me culpe pelo acidente.
–Não interessa! Inventa a minha cura!
–Se você me fizer parar de perder tempo com o seu chilique, ganharíamos muito tempo!
–Você é um irresponsável! — E assim que apontei o dedo para Joe, uma fina labareda disparou e começou a corroer sua gravata.
–DE ONDE SAIU ISSO?! — Kath gritou, se mostrando mais assustada que eu.
–MAS O QUE... MADJORE! — Exclamou Joe, aflito por apagar o fogo em sua roupa.
–NÃO FUI EU!
–FOI SIM! VOCÊ É UM LANÇA CHAMAS HUMANO!
–Como assim... Não pode, não pode ser! Caralho, que merda você fez comigo?! JOSEPH, EU VOU TE MATAR! — E parti em sua direção, querendo esmurrá-lo.
Christopher não sabia o que fazer. Agora era seu rosto que se deteriorava no corte que ganhara, Kath não se entrometeria no braçal entre eu e Joe, mas assim que fechei os punhos e balancei meu corpo para dar o baque de direita, Art apareceu como um relâmpago entre nós dois.
–SAIA DAQU... Espera. Como você fez isso?! — Perguntei-o.
–Eu não sei. Foi instinto.
–Não foi isso não, Art. Sua dor de cabeça ainda continua? — Joe o perguntou. Mas antes que Art pudesse responder, o mesmo apareceu no canto direito da sala, novamente relampeando.
–Não consigo parar! É como se eu... — E sumiu, aparecendo no sofá -...Piscasse a cada momento! — E de novo, em cima da mesa. — O que está acontecendo Joe? Me ajuda!
–Concentre-se! — Exclamou Joe.
No que Art obedeceu, aquietou no chão, aos pés de Kath, que se assustou novamente.
–Você tá bem? — Ela perguntou.
–Minha cabeça dói menos... A concentração. É isso que me faz ficar mudando de lugar.
–Teletransporte? — Perguntei como se tivesse dado uma pausa na decapitação de Joe.
–Exatamente. — O próprio me respondeu.
–Você fez a gente virar o que? X-men?
–Pára de falar merda, eu já tô perdendo a paciência com você! — Joe me empurrou, fazendo-me cambalear sobre a mesa. Eu já não sabia mais o que fazer... Eu não era mais uma pessoa comum. Aliás, eu nunca fui mas, agora eu era muito mais que diferente. Soltava fogo pelos dedos e tinha as costas cravejadas de rubis que ardiam sem cessar. Meu ódio se confundia com o meu medo, e ainda mais com a preocupação. Será que Joe encontraria uma saída pra tudo isso? O que era aquela desfragmentação com o corpo de Chris? Seria possível Art controlar seu estado físico com a mente? Eu estava sonhando? Os rubis inflamáveis não me deixavam esquecer que aquilo tudo era real demais.

Katherine gritou de dor, caindo no chão e quebrando o silêncio.
–Kath?! O que foi? — Corri até ela e abracei-a.
–Minha cabeça! Meu Deus, minha cabeça! — E ela exclamava misturando palavras e urros, com as mãos afagando os cabelos na tentativa de amenizar.
–Tente se concentrar, deu certo com Art.
–Eu não... Consigo! É mais forte que eu... — E o grito virou choro. Impotente, ela caiu no meu colo pois não aguentava ficar se quer ajoelhada.
–Joe, faz alguma coisa... — Art olhou para o amigo, tentando disfarçar o desespero.
–O que você quer que eu faça?! Você sabe o que mais estava em contato com ela? Ela também caiu perto da máquina? — Joe voltou a folhar os exames e as anotações da fórmula.
–Não me lembro! Ela veio tentar me ajudar e antes que pudesse fazer alguma coisa eu já tinha desmaiado.
–Espera... — Ela balbuciou pondo a mão no meu braço.
–O que foi, meu amor? — Perguntei sem hesito de resposta. Paramos em volta dela e esperamos. Parecia estar numa redoma, muito concentrada, olhos exprimidos de tão fechados como se fizesse força.
–Joe não vai encontrar a cura tão cedo... Todos estamos condenados a carregar esse poder...
–Você só pode estar brincando... — E fui interrompida com um "Shh!".
–...Vamos aprender a controlar tudo isso... Os rubis... Madjore?! Mad... Não...
Joe, Art, Chris e eu nos entreolhamos.
–Kath, estou aqui... Calma. — Até o momento que me assustei com ela, apertando meu braço cada vez mais forte. — Kath, pára!
E como de uma hipnose, ela acordou. — O que aconteceu? Por que estão olhando pra mim?
Ficamos em silêncio novamente. Olhares se cruzaram e eu tomei as rédeas.
–Você teve uma forte dor na cabeça, caiu no chão e eu vim te ajudar. Não poderíamos fazer nada, até que você começou a falar que o Joe não vai encontrar a cura, que vamos ter que controlar os poderes e... Chamou meu nome várias vezes. O que tem eu e os rubis?
–Eram imagens passando na minha cabeça... Era como se eu pudesse ver o que vai acontecer.
–Telepatia?
–Bingo, de novo. — Joe concluiu, fascinado ao mesmo tempo que assustado.
–E o que você viu á meu respeito, Kath? Vai acontecer algo comigo?
E ela me olhou com olhos tristes, quase brotando lágrimas. Eu não a faria chorar á troco de nada. Tudo ali já estava uma catástrofe, eu não poderia piorar as coisas.
– Deixa, se você não quer contar, tudo bem. Eu confio em você. — E sorri.

Depois de colocar Kath no sofá com uma bolsa de gelo na cabeça e uma cartela de analgésicos, me sentei ao seu lado, ainda que distante e fitei a sala. O silêncio reinava, Joe era o desespero em pessoa. Tirou o blazer e a gravata queimada após o ocorrido das minhas mãos, e suava muito, suava frio e andava sem parar atrás de anotações á procura de uma reversão. Chris acabou adormecendo, se queixou que desde que seu corpo começou a deteriorar-se, aquilo estava lhe tomando energia, mas sem dor. Art parecia confuso mas, era cômica a forma que ele buscava para controlar essa coisa de aparecer num piscar de olhos na mesa de Joe. Minha febre começou a baixar e fiquei mais calma. A tristeza bateu e eu, grande cara de pau, não resisti mas fiz o que me parecia certo. Me aproximei da mesa de Joe e acanhada, perguntei:
–Quer ajuda?
–Ergueu a bandeira de paz?
–A febre baixou. E não sei. Ainda sinto vontade de te matar.
–Se me matar, vai ficar febril pra sempre.
–Se é que vamos viver, não é?
–Não seja pessimista, Mad. Posso até demorar... Kath disse que não acharia tão cedo, e não que eu nunca encontraria.
–Mas quanto vamos esperar, Joe? Como vamos viver desse jeito? Art mal consegue ficar quieto sem desaparecer como um relâmpago, Kath não pode ter essas crises de dor em seu escritório, Christopher vai virar pó involuntariamente em suas grutas, eu vou acabar queimando meus manuscritos e você, se misturando aos seus líquidos!
–Madjore, calma! Que coisa. Sua ansiedade nos atinge de tal forma... Olha só, você disse que Chris vai virar pó?
–Sim... Não viu como o braço dele se desfazia no hospital? Não sei como ele não foi pro ralo enquanto me dava banho.
–Areia... Terra?
–Aparentemente sim. Vai dizer que tem relação com o emprego dele? Seria muita...
–Não, não é coincidência e também não era isso que iria dizer. Vamos ver... Essa cicatriz de Joe?
–Um dos seus vidros caiu em cima dele enquanto ele foi me tirar do fogo, estávamos debaixo da mesa.
–Ah... Acho que alguma concentração de elementos nativos o atingiu.
–Significa que...?
–Que a principal parte da abstração do nosso material o afetou junto com o conversor celular. A terra, envolta dos coríndons...
–E agora ele é um homem de terra??
–Praticamente isso.
–Cara... Depois você não quer que eu acho isso macabro.
–E não é. É um acidente científico e tudo na ciência é reversível. Não se preocupe.
Ao dizer isso, eu o olhei com total desdém. Como não me preocupar? Bem, acho que a gravidade da coisa já estava estampada na minha cara.
–Por quê você não vai dormir? Vai pro meu quarto, pode dormir na minha cama, Kath ficará com você. Art e eu não vamos dormir tão cedo.
–Se Christopher acordar...
–Eu aviso, não se preocupe. — Era desesperador o modo que Joe tentava se mostrar calmo para mim. O clima entre nós ficou obscuro, minha raiva era tamanha que tomei cuidado pra não pensar como seria ele em chamas.

Os dias se passavam e cada um de nós ia apresentando uma nova descoberta sobre o novo poder, o novo corpo. Art cada vez mais concentrado com a ajuda de Kath, ela com dores de cabeça menos regulares, Chris cuidando da cicatriz no rosto, sendo o mais analisado por Joe e o mesmo, mais conformado. No fundo, todos nós sabíamos que agora seria diferente. A casa de Joe ficou pequena para nós cinco treinarmos o controle dessas habilidades, tanto que Kath nos propôs um afastamento de Mundy para viajarmos até Forbes, sua ilhota que estava na família Dionn á muitos anos. Lá, teríamos espaço o suficiente para o homem areia, o senhor relâmpago, a miss dor de cabeça, o doutor Victor Frankenstein e a cosplay fajuta dos jogos vorazes, em versão "pedras preciosas".

Enquanto arrumávamos as malas, eu e Kath conversávamos pelos fones de ouvido do celular.
–Eu posso te perguntar uma coisa?
–Sim, Mad... Claro.
–Aquele dia que você teve a sua primeira visão... Por que chamou meu nome? Negou várias vezes alguma coisa pra mim... O que era?
–Mad... Eu não seu se devo te contar. Não quero que isso aconteça e se caso for, eu e todo mundo vamos sofrer muito.
–Mas o que é?! Preciso saber. — Pressionei, impaciente.
–Você nos deixou.
E não consegui falar mais nada. Pensei por longos trinta segundos.
–Como eu poderia abandonar vocês nessa hora em que precisamos tanto uns dos outros?
–Eu também não sei. Nunca desejei tanto em minha vida que eu estivesse errada. Não faça isso. Prometa pra mim...
–Eu não prometo...
–Por que não? Está hesitando?
–Kath, promessas sempre são quebradas. É algo que não existe na minha ideologia. Eu não vou embora... Não se preocupe.
Pude sentir o pré-alívio dela do outro lado da linha. Antes de desligar, me perguntou se meus documentos estavam ok. Afirmei e terminei de arrumar as coisas, em meia hora estaria no porto para encontrá-los.

Peguei as malas, arrumei minha touca (a qual não tiraria por nada até meu cabelo crescer novamente) e já de encontro á porta, fitei o apartamento por uns instantes. Inventamos desculpas para as pessoas próximas, namoradas, amantes, no trabalho e na escola. Sumiríamos para ver se íamos voltar sem nos despedaçar de alguma maneira física ou psicológica. Seria uma pausa naquela rotina ou um novo capítulo? Um prólogo, seria mais pertinente. Uma nova história começaria ali em Forbes e era, não necessário, mas obrigatório admitir e aceitar: Não seríamos mais os mesmos. Os antigos amigos de infância em Mundy, morreram. Agora, somos estranhos, animais bizarros, criaturas profanas sem cura imediata.

Ao meio dia, partimos do porto rumo ao oeste. Uma hora e meia de navio e de silêncio. Na verdade, mesmo estando todos tensos, somente eu e Joe estávamos mais na pilha. Os demais tentavam fazer uma graça, principalmente Art, que se queixava que poderia chegar lá primeiro que a gente com o seu incrível teletransporte.
Nossos planos eram sobre montar um campo de batalha nível militar. Enquanto eu fitava o horizonte, Joe me deu um cutucão e disse, tentando ser amistoso.
–Não vá botar fogo na ilhota...
–Idiota... — E ri, inacreditavelmente eu ri.
–É sério... Mad, sei que está furiosa comigo...
–Joe, pare com isso. Eu sou furiosa com todo mundo. Acostume-se! Você me conhece á anos.
–Eu sei... Mas eu vou fazer de tudo pra encontrar uma fórmula reversível.
–Não esquenta. Se Kath disse que não há previsão, não há. Vai ser o que tiver de ser. Sem pressa.
E Joe me abraçou, como se quisesse me pedir desculpas. Beijou minha testa e ficou de fitar comigo a paisagem. Ainda hoje arrumaríamos nossas coisas nas instalações da ilhota e amanhã já começaríamos os treinos. Engraçado, como era treinar aquilo que não conhecíamos bem... Era como estudar á nós mesmos, só que com muito coríndon, silicato líquido e inflamáveis. Era domar o nosso animal interno manifestado nas moléculas invertidas de um acidente.

Notas finais
Agradeço á turma pelo apoio e pela alegria que me dão, ao dizerem o quão satisfeitos estão com o produto final, de cada pedaço. E ao Rodrigo pelas aulas de Química básica.