Invincible Highers
3 A Ilhota de Forbes e a Tese do "Pelo Menos"
Notas iniciais
–Terra firme! Bem vindos... Se bem que eu não sou tão conterrânea como deveria mas, é isso aí. — Kath tentava animar os mortos...
–Nem acredito que você tem uma ilha... Cara, é muita terra num lugar muito isolado, fantástico! — Joe contagiou-se.
–Longe de pessoas, longe da sociedade... Tem algo mais incrível nisso?! — Retruquei por felicidade.
–Ah, pára de frescura... Vamos nos divertir. — Art me respondeu, com um tapinha nos ombros.
–Sinto lhe informar mas, isso não é uma festa, cara... — Chris aderiu ao meu estado sádico.
–Mas pode ser! — Rebateu Art, piscando.
Caminhamos pra fora da orla da praia e entramos no sobrado. Não tão impecavelmente limpo pelo tempo sem visitas mas, sem perder o charme e elegância, mesmo pra um lugar isolado e mediano.
–Teremos muito trabalho por aqui, não só com a organização da casa mas com a montagem dos aparelhos de Joe e nosso campo de treinamento. — Comentei após analisar minusiosamente o lugar.
–Você tem idéia de quanto tempo ficaremos aqui? — Chris me perguntou, após ajeitar a mochila nas costas.
–Muito tempo... Não sabemos a quantas andam as pequisas de Joe, precisamos também da ajuda de Kath, acho que eu, principalmente. Cara, eu ainda não acredito no que está acontecendo. Estavamos até ante-ontem num salão maravilhoso, prestigiando nossos melhores amigos e acordamos num hospital com exames radioatívos e fugindo dos jornais para uma ilha particular. Tá certo, já escrevi muita coisa apesar dos trinta anos não completos...
–Não exagere!
–Eu tô falando sério, eu jamais imaginaria que algo assim pudesse acontecer. É surreal demais, ter melhores amigos mutantes e ser uma pedra em chamas ambulante. Isso é coisa de quarteto fantástico, de liga da justiça... Não sei!
–Você tá pirando á toa, sinceramente. Veja como Art está levando as coisas: Na brincadeira. Não sei o que se passa na cabeça dele mas está sendo proveitoso apesar da tontura excessiva. Joe nunca bateu muito bem da cabeça mas, esse vício não só pela cura de doenças mas agora pela nossa cura também, me preocupa. Eu estou tão em choque quanto você, não é nada fácil sentir sua pele se diluindo feito pó. Pelo menos ela se regenera. Tente isso... O "pelo menos". Pelo menos você não morreu, olha só! — E começou a sorrir pra mim.
–É pra rir? Pare com isso. Não há "pelo menos" em pegar fogo.
–Ei, Mad... — Art me chamou atenção.
–Oi?
–Pelo menos você vale alguma coisa agora não é? Rubis são caros e preciosos!
–Vai se ferrar, vê se pelo menos você "desaparece" daqui. — Brinquei.
–Wow, alguém está de cabeça quente por aqui, ou seria o corpo todo? — Art continuava apelando aos piores trocadilhos possíveis.
–Eu sempre fui quente, agora, pelo menos, – Olhei para Chris, que revirou os olhos — eu não preciso provar isso á ninguém.
–Uh! Garota em chamas.
–Não, esse bordão já não é mais meu. Chega de piadinhas por hoje. Vão ajudar Joe á montar seus equipamentos. Vou ver se Kath precisa de algum favor, preciso me distrair.
–Você adora limpar a casa, não é? Água quente remove melhor a sujeira... — Art gargalhou e eu mirei os dedos contra ele. Tarde demais, ele sumiu antes que pudesse "engatilhar" o fogo.
–Mad! Não ponha fogo na casa, não é cortez das visitas.
–Eu falei pra você que não ia dar certo.
–Desapegue do título que não é seu. Já está na hora de treinar o controle. Atire lá fora, no campo, aqui dentro, não.
–Sim, senhor. — E dei as costas. Kath estava não muito longe, na enorme cozinha integrada á sala de jantar.
–Kath? Quer ajuda? — Me ofereci.
–Cara, temos tanto o que limpar... Ainda bem que estamos em bom número. Não há tempo pra desperdiçar, quanto mais cedo começarmos com o treinamento, melhor. Me ajude com essas caixas, deixe-as no corredor e depois vamos limpar os quartos.
–Tudo bem. — Apesar d'eu ter consentido, Kath me fitava de lado, da beira dos olhos. — Tem algo errado com os rubis?
–Como assim? — Dispersou ela, meio sem graça.
–Você não parou de me olhar desde que chegamos ao porto. Ainda é sobre a conversa que tivemos ao telefone?
–Não. É. É, é sim.
–Você não consegue mentir... Fala, o que é que você viu? Já estou curiosa!
–Você vai embora.
–O que? Eu já não disse que...
–Mad, pára. Você sabe do que eu tô falando. Você vai nos abandonar, mais dia ou menos dia.
–Porra, velho... Que espécie de melhor amiga eu seria ao fazer isso? E logo agora que estou mais necessitada não só de Joe para me curar mas, da companhia de todos vocês? Eu preciso de vocês perto de mim pra ter certeza de que não sou uma aberração e de que não estou sozinha. Esquece esse assunto. Eu não vou embora. Se você está incomodada com a minha "não promessa", me desculpe mas você já me conhece há mais de dez anos e sabe como eu lido com as coisas.
–Ah... — Suspirou ela, se debruçando na pia empoeirada. — Me desculpe, essas dores de cabeça devem estar me fazendo ver coisas que não existem.
–Acho que você já se desculpou antes... Esquece, vamos arrumar isso aqui. — E sorri.
Enquanto eu e ela movíamos caixas e bagagens pela casa, os rapazes levavam mais caixas da orla aos fundos, como se fosse uma garagem ou porão, já se que seria impossivel ter algo como um carro para se guardar lá dentro.
–Caralho, Joe! Você trouxe o laboratório inteiro pra cá. — Retrucou Art, esforçando-se para levar uma caixa (realmente pesada, pois ele era forte).
–Você queria que eu fizesse um trabalho mal feito? Tenho que ter o laser, o acelerador de partículas, os compartimentos de tubos de ensaio, as geladeiras, micro e macroscópios...
–...A cataputa de rochas, o projetor de matéria, a fábrica de pulseiras e a máquina de raspadinhas da Eliana. Puta que pariu. — Chris também estava na mesma de Art.
–Isso! Cassoem o quanto quiser! Quando eu descobrir o que fazer pra desfazer o processo molecular de vocês misturado aos químicos, vocês podem engolir todas essas palavras, as máquinas e as raspadinhas!
–Espera, é sério isso das raspadinhas? — Art ficou confuso.
–Cala a boca e continua levando as caixas, vocês falam demais. — Disse Joe indo em direção aos ultimos carregamentos.
–Fiquei com sede... — Art indagou.
–Tá de palhaçada, só pode.
–Chris, relaxa, você e a Mad estão mais pilhados do que qualquer coisa. Pára, já foi, não adianta reclamar, homem areia.
–"Homem areia"??? Vai dar apelido pra todo mundo agora?
–Você prefere "chuva de glitter"?
–Eu não sou brilhante, pare de falar asneiras.
–O homem glitter!!! PERFEITO! — Art colocou a caixa no chão e começou a rir sem parar.
–Você é ridículo... — Chris não resistiu e acabou rindo também. Ao contrário de mim, ele dava o braço a torcer em qualquer situação que se podia rir de uma desgraça alheia.
–Do que estão rindo? — Joe chegara com mais uma caixa.
–Do homem glitter e da garota em chamas.
–Glitter? Chris?? Bem, não esperava esse tipo de resolução mas, se você quiser usar, por mim tudo bem.
–Cala a boca, você é o Victor Frankstein dessa porra toda. — Rebateu Chris.
–Essa comparação já tá batida... Eu sou o...
–Senhor Fantástico! Só falta escurecer o cabelo. — Completou Art, ainda jogado no chão.
–Senhor Magnífico, você quer dizer. Espetacular, esplêndido, garboso, etc.
–Senhor "muita fala, pouca ação".
–Cala a boca, Senhor purpurina!
–Raspadinha da Eliana!
E os três choraram de rir. Sim, algo que invejava nos garotos era a capacidade de fazer piada com as coisas mais simples e rir de qualquer bobagem. Ouvia-se as gargalhadas da sala.
–As senhoritas já descarregaram as coisas? Ainda tem o que fazer aqui dentro, ok?! — Kath berrou do corredor e um "já vai!" veio como resposta. — Como eles são bobos não é? Crescem tão rápido...
–Você quis dizer "não crescem nunca", eu acredito... — E dessa vez quem gargalhou fomos nós. — Art quase me fez atear fogo na sua cortina e Chris me repreendeu.
–Eu escutei parte do que vocês disseram. Essa tese do "pelo menos" é interessante. Vamos dizer que uso um pouco disso com os meus pacientes.
–Não sei como conseguem. Eu queria poder enxergar algo de bom nisso tudo.
–Anime-se, Mad. Há tempos, desde quando você, Art e Joe moravam juntos, que nós não passamos tanto tempo juntos, os cinco! Isso é maravilhoso apesar das circunstâncias.
–São esses pesares que me fazem ficar desse jeito.
–O que? Nervosa, ansiosa e estressada? Você não se conhece ou evita reconhecer que é assim o tempo todo.
–Caralho, valeu pela parte que me toca, doutora. — E dei um sorriso amarelo.
–Você sabe que não estou mentindo. Te conheço como irmã e como paciente. — Disse, piscando pra mim.
As risadas cansadas e finais dos meninos entraram na sala.
–Querem ajuda? — Art foi o primeiro a se oferecer, ainda ofegante de tanto rir.
–Bem, queria saber o motivo de tanta risada, quero rir também. — Respondi.
–Piada interna... Fica pra depois.
–Já pegaram suas roupas e coisa e tal? Temos que ajudar Kath com os quartos.
–É um quarto pra cada?! — Joe deixou a cortesia de lado e ganhou um soquinho de Chris.
–Sim, se eu não me engano, as camas e armários estão todos de pé, sem problemas. Já disse que não me lembro de muito daqui. — Kath respondeu.
–Você deveria vir mais aqui... Eu também já disse como acho incrível ter uma ilha só pra você!
–Bem, Joe, quem usava mais a casa eram meus avós. Meus pais não gostam muito de areia e mar. Meus primos só vem muito raramente e quando vem, é pra dar uma baita festa com garotas de biquini regadas com chamapgne e uísque.
–ÓTIMA PEDIDA! — Joe e eu relutamos. — Eu disse pelas garotas. — Justificou ele.
–Eu disse pelo uísque mas, as garotas também são bem vindas! — E rimos
–Verdade, não é, gente? Não tem nada pra beber aí não, Kath? — Joe continuou a conversa.
–Vinho! — Disse ela com certo brilho nos olhos. Era sua bebida preferida.
–Ih... Só depois de arrumar os quartos então, ok? Você não pode ver uma garrafa de vinho. — Joe dirigiu a palavra maliciosamente á ela.
–Como você é sem graça... Nunca vai me perdoar pelas passagens de ano na sua casa?
–Nunca. — E riram. Nós sabíamos do que eles estavam falando e, dávamos total razão á Joe. Ela não podia ver uma garrafa de vinho.
–Vamos, subindo as escadas, nossos aposentos nos esperam. — Abraçada á Joe, subiu na frente enquando me agarrei á Chris e Art.
Mais um corredor enorme nos contemplava a vista. Á direita, uma porta lateral e o final estreito do mesmo nos levava á uma porta de duas partes, ostentadas com duas belas argolas prateadas. Parecia uma biblioteca. A porta lateral era um banheiro. Finalmente á esquerda, algumas portas tão medianas quanto a lateral que já haviamos visto. Kath pediu pra que cada um abrisse uma e entrasse.
–Favor dar as suítes ás damas e vocês se virem pra dividir o banheiro.
–Banheiro pra que te quero... — Art murmurou consigo.
–Quer que eu responda? — Atrevi-me.
–Se quiser emprestar seu banheiro...
–Ai, credo! — E gargalhei. Os demais já reviraram os olhos pra nós.
–Bem, já verifiquem se as camas não estão quebradas. — Kath elevou a voz para que cada um escutasse.
–Ouviu bem, Mad? Sem quebrar as camas!
–Vai se ferrar, Joe! — E risadas foram ouvidas.
Estava tudo bem, camas ok e armários também. Levamos as respectivas bagagens pro quarto e limpamos o que deu pra limpar. Já tarde da noite, arrumamos a sala e abrimos os vinhos com os amendoins e castanhas que trouxemos, só para forrar o estômago enquanto Art não levasse Kath ás compras do mês.
–Vai ser foda todo esse tempo juntos, não acham? — Iniciou Joe.
–Eu já estou animada! Comentei isso mesmo á tarde com Mad.
–Pois é, eu sinto saudade do tempo que a gente morava junto... Três patetas, malucos pra estudar, trabalhar e gastar a grana toda nos fins de semana. — Dei um sorriso nostalgico.
–Melhor ainda eramos eu e Kath indo visitar vocês três. Sempre saía um mega almoço ou jantar. — Citou Chris.
–E a mega louça pra lavar depois de quem perdia alguma aposta ou desafio... — Completou Art, rindo.
–Nossa, eu queria morrer quando vocês lançavam um desafio difícil, eu sempre dançava! Além de cozinhar, ainda tinha que lavar a louça.
–Pior naquela vez que a Kath tava caindo de tão bêbada e desafiamos ela á fazer um quatro com as pernas! — O que Art disse fez com que todos rissemos.
–Foi trapaça! Aposto que foi idéia da Mad, ela sempre me cobrava o trabalho na louça!
–Que nada, adivinha quem foi? O malígno aí, ó! — Apontei para Joe.
–Eu??! Jamais faria isso com a minha Kath!
–É uma falsidade do caralho, hein? Tá louco... — Chris balançava a cabeça com olhos serrados.
–Bem... — Beberiquei um pouco mais de vinho — Agora eu acho mais plausível que trocamos na semama tipo, uma semana toda eu lavo, n'outra semana a Kath...
–Tá vendo? Ela sempre quer me botar pra lavar louça!
–Você sabe que eu te amo... — Eu disse, inclinando a cabeça pro lado, como um filhote de cachorro.
–Você gosta é do meu bolo prestígio, isso sim!
–Quem não ama esse seu bolo, Kath?! — Art estendeu os braços num gesto de adoração.
–Eu prefiro os bolinhos de chuva do Joe. — Chris respondeu irônicamente.
–Mas não põe a Mad pra fritá-los, pelo amor de Deus! — Kath escondeu o rosto nas mãos e se encostou em Joe, dando risada.
–Olha! Sua traidora, eu só sirvo pra fritar batatas, não é?
–E fazer incríveis pratos com bacon! Hmmm! — Art me defendeu bravamente.
–Obrigada, meu amor, pelo menos você reconhece o meu talento.
–Bolinho de chuva negão ninguém merece, Mad... — Kath não resistiu e gargalhou conosco.
–Aí, na moral... Já podíamos fazer a lista de compras pra Kath, não? — Comentou Chris, servindo o vindo pra cada um, já na segunda garrafa.
–Cara, lista de compras é fácil pra nós. Só sair pegando cinco itens de cada na seção de congelados, enlatados, doces, biscoitos, refrigerantes e salgadinhos. Pronto! — Respondeu Joe.
–No lugar do refrigerante, cerveja e no dos enlatados, mais salgadinhos, pelo menos pra mim. — Ressaltei.
–Uh, "eu não bebo refrigerante, só chapo de alcool porquê é mais saudável"! — Chris me imitou.
–Pior que ela não está errada... É, gente, nossas meninas são alcoolatras. — Joe fingiu tal pesar.
–Nossa! Falou o falso russo! Apaixonado por uma branquinha estrangeira... Não engana ninguém você também!
–Eu bebo bem menos que você, Mad. Aliás, você é quem bebe mais de todos nós.
–Eu bebo porquê é líquido, se fosse sólido eu comeria. — E dei um largo sorriso ao recitar o lema mais antigo de todos os bêbados. Kath, Art e Chris bateram palmas pra mim. — Joe, você só diz isso porquê sabe como é a média de cada um por aqui... Eu bebo mais, você menos, tão quanto eu pego mais quanto você pega menos.
E o papo começou a engrossar, com mais uma garrafa de vinho.
–O que?! Você nunca manjou os meus esquemas...
–Ah, claro... A química do amor sempre deu certo! — Gargalhei.
–Pior que deu mesmo, Mad. Ele aproveitava os trabalhos em dupla da faculdade pra poder levar alguma bobona pra casa. Depois da aula de química, ele propunha a prova de física... — Art apontava os dedos para Joe como se dissesse "Ele é o bom!"
–Olha, não vou mentir que eu também não me aproveitava de certas regalias pra sair com uma e outra.
–Chris, você é reitor de duas faculdades, pode pegar quem você quiser. — Completei.
–Não é tão fácil assim... Nem todas gostam de um nerd.
–É você quem não sabe procurar. Aliás, eu não tenho muita pinta de nerd mas sou um. Super inteligente, admito. — Disse Art, pigarreando.
–Você é galinha, não tem essa! — Reclamou Chris.
–Eu acho que o charme do Art é o fato dele ser divertido. — Kath, já tonta, citou.
–Eu concordo, mulheres gostam de caras engraçados. — Eu disse.
–Porra, com você é só milagre mesmo, tem que ser um humorista profissional pra te fazer rir, Mad. — Retrucou Joe.
–Eu sou séria porquê... Sei lá, não gosto de brincadeiras mas, já fiquei com homens engraçados que não tiveram tanto esforço pra me fazer sorrir. Aliás, preciso de muito pouco pra sorrir, você é quem não sabe.
–Tipo o que? — Eu sabia que Joe iria começar a me provocar.
–Tipo um vinho bem vagabundo. — E ri.
–Cantina do Vale! — Chris exclamou.
–Você ainda faz isso, Mad?? — Kath estava impressionada com o passar dos anos, eu não tinha mudado muita coisa.
–Bem, eu não sou tão atirada assim. Aliás, eu sou atiradas mas na hora do "vamos ver" é que eu travo.
–E depois do vinho vagabundo? — Joe insistiu.
–Aí é apagar a luz e calar a boca, comigo é o mínimo de conversa e o máximo de ações.
–Falou a quebradora de camas.
–Eu já disse que não tava fazendo nada naquele dia... Quebrei porque o estrado já estava velho e eu estava brigando de brincadeirinha.
–Na boa, Mad. Você já quebrou alguma cama pra valer mesmo?
–Ih, não sei não Joe, você tá muito interessado. — Revidei.
–Ela é uma mulher quente, me disse hoje a tarde. — Art interferiu.
–Dá pra respeitá-la um pouco?? — Chris parecia incomodado, não queria que eu entrasse no jogo aparente de Joe.
–Que nada, amor... Deixa ele falar, deve estar mesmo afim de esfriar meus rubis.
–Antigamente era você quem queria me evaporar.
–Ih... Fodeu... — Kath se escondeu de novo em suas próprias mãos.
–Gente, sério, passaram-se uns quinze anos e vocês não superaram isso ainda? Me poupem! — Fiquei um tanto sem graça com a situação que eu e Joe criamos ali.
–Eu cheguei tarde e soube bem depois dessas histórias aí, nem ligo pra vocês. — Art tentou remediar.
–Quem não deveria mais ligar era você, Joe.
–Se ofendeu com o que eu disse?
–Claro que não, é um passado mais que abandonado.
–É melhor a gente encerrar por aqui, não acham? — Chris estava realmente incomodado.
–Foi ele quem começou.
–Você nunca superou... — Joe matou a taça e se jogou no encosto do sofá.
–Você tá perdendo a noção do que você tá falando, pára de beber. Chris, não sirva mais vinho á ele.
–Gente, pelo menos vocês são amigos, aliás, melhores amigos á uma caralhada de tempo. Parem com isso! — Kath começou a ficar nervosa.
–O dramalhão vem de vocês, ué. Ele tá tornando a garrafa e vem tocar num assunto antigo?
–Quem já tá aumentando as coisas é você, Madjore.
–Quero resolver isso agora! — E no momento que eu disse isso, todos arregalaram os olhos.
–Joe, eu te odeio... Filho da puta! — Kath começou a bater nele.
–Como é que é? Traz a garrafa vazia aí! — Pediu Chris á Art, animado. E ao trazer a mesma, dispôs as taças de cada um em um círculo e girou a garrafa no meio dele.
A garrafa apontou as taças de Chris e Joe.
–Pede desculpas pra ela.
–Pelo o que? Por não dar a ela a honra da minha nobre presença? — E gargalhou com maldade.
–Por você ser incoveniente se aproveitando da bebida.
–Descuuuuuuulpaaa... — Disse ele á mim, meio troncho. Hora dele girar a garrafa, deu Art contra mim.
–Quando eu cheguei em casa mais cedo, não sei se você vai lembrar, mas eu vi você falando umas coisas pro Joe enquanto ele dormia no sofá.
–O que?? Quando foi isso? — Dei uma de desentendida.
–É?! Quando foi isso??? — Joe fingiu um pouco mais de lucidez.
–Você não lembra, Mad? Tinha um brilho infinito nos olhos quando falava do quanto você tinha orgulho do homem que ele se tornou, afagando o cabelo dele e quase de rosto colado com o dele.
–É verdade isso? — Joe olhou sério pra mim.
–Ah... É. — Não era necessário dizer muito. Minha expressão dizia coisas demais.
–Se eu não chego hein...?
–Cala a boca, Art. — Cortei o assunto, sentindo as bochechas corarem, sendo metralhada com o olhar de Joe. Rodei a garrafa. Art para Joe, tremi.
–Ah... — Art gargalhou, olhando pra nós dois.
–Chris, vamos embora — Kath estava em pânico.
–Caaaaaalma gente... Joe?
–Fala, piranha. — Respondeu á Art, de olhos fechados ainda encostado no sofá.
–Vai lá dar um abraço nela. Vem gente, eu vou com vocês. — E Art se levantou com um sorriso, Kath e Chris sairam logo atrás.
–Eu não quero falar com você nesse estado. Aliás, se for pra falar desse assunto, melhor você ir dormir... — Enquanto eu falava, ele me interrompeu.
–Shh. Você vai fugir disso até quando?
–Fugir do que, retardado? Isso acabou faz tempo.
–E há quanto tempo você esperava eu chegar?
–Caralho, eu me preocupava com você assim como eu me preocupava com Art. Amigos fazem isso.
–E me observar dormir falando coisas á meu respeito é normal pra você?
–Cara, pára com isso, sério.
–Covarde.
–COMO É QUE É? — Me levantei feito um furação.
–Co-var-de. Quer que eu soletre? — E ele também se levantou, com certa dificuldade, mas se levantou.
–Você é um idiota, sempre foi. Está voltando a ser criança, agindo feito uma e falando de algumas coisas que não deveríamos falar. Vá pro seu quarto e se acaso lembrar disso outra vez, meta a cabeça na privada e fique lá submerso.
–Não, sério, repara que toda vez que alguém fala de nós dois...
–Não existe nós dois!
–Não me interrompa, quando alguém fala qualquer coisa, seja mínima de nós dois, é você quem já dá o alarde! Chris e Kath, sim, eles não gostam do assunto pois tem medo de acontecer cenas como essa de teatro que você encena.
–Quer dizer que nós bebemos um pouco, a idiotice bate na sua mente, você me faz umas perguntas daquela estirpe e quem dá showzinho sou eu?
Joe se aproximou demais de mim.
–A culpa sempre será sua até você parar de corar toda vez que alguém cita sobre nós.
–Pensando bem... A culpa é minha mesmo. Foi o maior erro em vinte sete anos... Não ter virado sua amiga, mas sim, um dia ter me apaixonado por alguém tão... Tão...
–Tão...? — Questionando chegando ainda mais perto.
–Me deixa em paz.
–Nunca. — Disse, pinçando meu queixo e lábio inferior com o polegar e indicador. Recolheu sua taça ainda pela metade e subiu as escadas. Fiquei parada, com tremor nas mãos e não hesitei, mirei os dedos contra suas costas. Fui surpreendida quando seu braço se estendeu e, com a palma da mão, ele fez a pequena labareda ser apagada e a mesma água, evaporada. Com um sorriso de lado, sem olhar pra mim, disse:
–E vê se melhora essa sua mira, covarde.
Fiquei furiosa e sem reação. Senti as pedras cravarem ainda mais quentes nas minhas costas e matei o resto da garrafa que deixaram lá. Fui pra fora de casa pois já sabia que das duas, uma: Chris, Kath e Art já teriam ido dormir ou assistiram de camarote a pequena discussão.
Quando me sentei á beira da praia, deixei que as ondas molhassem meu jeans, enquando cravava as unhas na areia. Sempre tive uma briga interna dentro de mim onde o ego e a personalidade sempre discutiam mas, na raiva, a personalidade agora gritava pra que eu fosse ao quarto de Joe e o matasse cremado. Infelizmente, eu, o ego e ele sabíamos que eu era realmente covarde. Bem, acho que mesmo com as briguinhas infantis e sub-entendidas de muitos anos atrás, ainda refletiam na nossa amizade. Eu o amava como um irmão mas, ainda tinha uma raiva, uma mágoa, não sei como explicar o que mas havia algo, que me impedia de viver totalmente em paz com ele. E isso aumentara com o acidente, lá dentro tudo me gritava "a culpa é dele, a culpa é dele!" e eu sabia que não era. Deixei o corpo pesar e as pernas esticarem, me deitei observando as ondas evaporarem toda vez que vinham passar nas minhas costas. Fechei os olhos e cochilei sem querer. Tudo bem, morar junto nunca foi fácil, e eu não viveria com eles, aquele mesmo sentimento de adolescentes loucos curtindo liberdade, mas sim, uma responsabilidade enorme de domar o que a ciência nos deu. Ou Deus, ou o destino. Tanto faz.
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