Investigação Natalina
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Era dia 23 de dezembro de 2013, por volta das dez da manhã, quando Dan resolveu se deitar no sofá da sala e assistir televisão. Sua esposa, Miranda, juntava alguns livros espalhados e se preparava para sair, quando pôde ouvir um trecho do telejornal:
“Nesta manhã de segunda-feira, foi declarado como desaparecido Papai Noel. Segundo as declarações de alguns de seus auxiliares, ele foi visto pela última vez carregando um saco de presentes próximo à sua mansão no Pólo Norte. As renas e o trenó estão aparentemente intactos, porém, não há pistas do que pode ter acontecido ao bom velhinho, famoso pela distribuição de presentes a crianças do mundo todo no dia de Natal. Policiais e investigadores estão em desespero e inclusive estão dando permissão à população mundial para que auxiliem nas buscas. Johanna Mayer do Pólo Norte para o WHN News.”
Miranda olhou para a televisão e com o esboço de um sorriso nos lábios, murmurou:
— Esses publicitários não têm mais o que inventar mesmo... andam abusando de jogadas de marketing à toa. Ninguém mais liga para o Papai Noel.
— Miranda – disse Dan se levantando para vê-la melhor – você não acha isso magnífico? Depois de tantos anos, essa pode ser a nossa chance... – Miranda interrompeu o cônjuge gesticulando para que fizesse silêncio.
— Cale-se Dan. Estamos há anos longe disso e você sabe muito bem por que. Talvez se fosse um caso mais interessante, mas para mim já chega dessas aventuras. Hoje temos mais coisas com que nos preocupar. Prefiro que este pedaço do nosso passado seja enterrado para sempre.
— Mas, meu amor... seria uma grande oportunidade! Sei que temos muitos sonhos hoje, mas, convenhamos... naquela época éramos jovens despreocupados, com seus vinte anos à flor da pele... hoje já somos mais maduros, saberemos lidar com isso perfeitamente bem. Será divertido.
— Dan. Eu já desisti da carreira de detetive quando percebi que as coisas não dariam mais certo. Agora se me dá licença, a biblioteca já deve estar abrindo, tenho de ir. – A moça foi se encaminhando em direção à porta, quando se virou para se despedir do marido – Por favor, tire essas coisas da cabeça. Vejo você depois.
Miranda ainda podia sentir as dores em seu braço como naquela noite, dez anos atrás. A cicatriz que havia a marcado, ficaria ali para sempre, como um lembrete dos acontecimentos horríveis.
— De jeito nenhum –pensou a jovem. Ele pensa que bancar o detetive por aí é legal, mas nunca é ele quem sai sangrando.
Em 2003, devido aos sofrimentos que essas “aventuras” haviam lhe causado, Miranda chegou a ser considerada louca por alguns médicos. Foi internada em um sanatório local e semanas depois recebeu uma carta da universidade em que estudava na época. Havia perdido sua bolsa por “ser considerada mentalmente incapaz de retomar os estudos”. Na época, terror. Miranda entrou em depressão após ser taxada “doida varrida” e ser excluída por sua própria família e amigos. Quase a cidade inteira sabia de seus problemas, e tudo só piorava. O único que sempre esteve ao seu lado foi Dan, que a visitava diariamente.
Anos depois, recebeu alta. Emprego era algo difícil de ser encontrado devido ao seu histórico. Conseguiu uma vaga numa livraria próxima à sua casa, devido aos seus vastos conhecimentos literários. Seu único problema era seu passado investigativo ao lado de Dan. A única coisa que queria deletar de sua mente e de sua história era isso. Do resto, vivia num mar de coisas boas e se orgulhava disso.Apenas disso.
A ida na biblioteca para a devolução de alguns livros sempre fazia parte da rotina de Miranda, que como sempre dizia, “tinha um acervo em construção em sua mente, e pelo mesmo motivo, precisava ler cada vez mais”.
Foi um dia calmo na livraria. Poucos clientes em busca de livros para presentear os familiares e os amigos. Isso a deixava chateada. Gostava de ver o local cheio, todos animados com a excelente leitura e o magnífico universo que estava impresso em cada uma das páginas numeradas dos livros.
—Acham melhor exterminar a criatividade das crianças com um celular novo do que incentivá-la com um bom livro. –pensou– E os pobres coitados ainda aceitam a alienação.
— Miranda, – chamou seu supervisor – devido ao movimento de hoje, estou dispensando os funcionários mais cedo. Pode ir pra casa, aproveite o dia com sua família.
— Oh, obrigada Bard. Se precisar, é só ligar no meu celular.
Miranda queria ir para casa, mas tinha preguiça. Preferiu vagar pelas ruas cobertas de neve e tomar um chocolate quente sentada na praça próxima ao shopping. Se voltasse para casa, provavelmente Dan insistiria no assunto da investigação.Assunto morto e enterrado –concluiu ela.
O vento gelado agitava seus cabelos castanhos. As árvores, nuas, sem folhas, tinham apenas os galhos para agitarem. O silêncio era pacífico. Algumas crianças brincavam no parquinho à sua frente; suas mães, guardiãs eternas, apenas as observavam. Não tardou até que uma garotinha corresse até a mãe para pedir-lhe algo.
— Mamãe! Eloise ganhou uma boneca de Natal... posso pedir pro Papai Noel uma igual? – o sorriso em seu rosto era contagiante.
— Querida, acho que temos que conversar sobre isso. – disse colocando a mão no ombro da pequena e enchendo seus pulmões por um longo suspiro – Papai Noel está... como eu posso dizer... conversando com os anjos neste exato momento.
— Isso quer dizer que...
— Sim querida. Papai Noel morreu. Não tem mais Natal. Não tem mais presentes. Para sempre.
A menina começou a chorar e soluçar no mesmo instante. Sua mãe estava com um olhar de desapontamento e a abraçou. Diversas crianças vieram até perto da garotinha para saber o motivo de tantas lágrimas. Em poucos minutos, as outras crianças também estavam em prantos. Miranda, que assistia a tudo horrorizada não agüentou e levantou-se, caminhando em direção a uma das mães.
— Como você pode ter coragem de dizer ao seu filho que o herói dele morreu? Não é isso o que dizem nos noticiários!
— Prefiro preparar meu filho para o óbvio, do que enganá-lo por muitos anos com uma farsa. É óbvio que eu não vou bancar os presentes, sendo assim, o Natal morreu para mim e para minha família.
— Mas... o Natal não é algo tão comercial assim! Há outro motivo pela qual você se reúne com sua família, um motivo religioso e de força maior... – Miranda foi rapidamente interrompida pela mãe carrancuda.
— Escute aqui minha jovem, não sei se você sabe, mas o mundo não é mais cristão. Opiniões mudam. O mundo escolheu a religião do capitalismo e crê no que o capitalismo oferece. Não cremos mais em bondade, prosperidade e carinho sendo passados por uma nação. A principal marca disso é o Papai Noel, e o que quer que as potências estejam querendo nos transmitir com o “desaparecimento” dele – fez o gesto de aspas com os dedos – saiba que eu não dou a mínima. Papai Noel está morto para mim, e agora para os meus filhos e da maioria das pessoas. Agora, se quer um conselho útil, pare de se intrometer nos problemas alheios!
Miranda observava o horror nos rostinhos redondos das crianças, que meia hora atrás estavam esbaldando alegria com seus contagiantes sorrisos. Sentiu seu estômago se revirar. Sentia ódio e sentia pena ao mesmo tempo. Aquilo definitivamente não poderia estar acontecendo.
Deu meia volta e atravessou a praça correndo com dificuldade, devido ao excesso de roupas. Precisava chegar em casa o mais rápido o possível. As crianças não precisavam de tamanha tristeza faltando tão pouco tempo para o Natal.
Por sorte, sua casa não era tão longe do parquinho. Miranda praticamente se chocou contra o portão em meio à correria. Destrancou e invadiu a sala de sua própria casa ofegante, mas ainda assim tentando gritar para Dan, que ainda estava sentado na sala, desta vez lendo um livro.
— Miranda? Está tudo bem?
— As. Crianças. Natal. Morto. – dizia pausadamente, enquanto tentava sugar a maior quantia de ar possível – Precisamos. Salvar. O Natal.
— Eu sabia que você mudaria de ideia! – levantou-se da poltrona e foi até o quarto, trazendo duas malas – Partimos esta noite para o Pólo Norte. Já fiz até as suas malas.
[...]
Naquela noite, Dan dirigia calmamente por uma estrada tranqüila, cheia de árvores com os galhos cobertos pela neve. Miranda apenas olhava pela janela, os lagos congelados, as crianças patinando... mas não conseguia tirar da cabeça a imagem de todos aqueles pequeninos seres em prantos, por perderem seu herói. Maldito capitalismo. Maldito Papai Noel.
— O que te fez mudar de ideia tão repentinamente?
Silêncio.
— Tudo bem. Quando se sentir confortável, conversaremos. Estou muito feliz que tenha aceitado voltar à ativa, mesmo depois de tudo o que passou. – Dan estacionou o carro em uma das vagas disponíveis.
— Nos já chegamos? Não íamos ao aeroporto?
— Na verdade, eu imagino que muitos repórteres, detetives, investigadores e alguns doidões irão dar preferência a viajar de avião – ela lhe lançou um olhar sério – Nós não somos doidões. Vamos de barco.
Miranda entrou no navio de cara fechada. O cheiro era realmente ruim. Passou por sua cabeça sair correndo, mas talvez fosse o modo mais calmo de se chegar lá. Pouco depois, o capitão da embarcação veio recebê-los.
— Vocês devem ser os investigadores que vão até o Pólo Norte, não é mesmo? Bom, creio que enquanto não chegam até lá posso ajudar oferecendo um pouco da comodidade do navio. Sei que não é muito, mas temos acesso à internet e uma biblioteca a bordo. Caso precisem de qualquer coisa, fiquem à vontade. A viagem levará alguns dias, porém chegaremos antes do ano novo. Aproveitem.
O casal foi logo se instalar no quarto próximo à biblioteca. Tirou o computador da bolsa e se conectou a internet do navio rapidamente. Pesquisou pelas notícias mais recentes e fotos do local do desaparecimento.
— O que está pesquisando?
— Algumas imagens do local. Aparentemente há muitos investigadores metidos nisso. Será bastante complicado respirar por lá. Eu gostaria de visitar a mansão. Estão abrindo para visitação exclusivamente para os investigadores. Como provaremos que somos detetives?
— Eu já pensei em tudo. Até peguei nossos velhos distintivos. Basta mostrá-los e mais uns papéis e estaremos na casa mais aconchegante e natalina do mundo: a casa do Papai Noel.
— Dan.
— O que houve? Quer que eu pare de falar do Natal de novo? Me desculpe eu sei que te incomoda...
— Obrigada por me trazer até aqui. – Dan olhou envergonhado para o computador. As fotos do local do desaparecimento estavam disponíveis online. Então reparou que haviam marcas no chão, próximas ao trenó do Papai Noel.
— Mi, no Pólo Norte a principal forma de locomoção são os trenós, certo? – a moça afirmou positivamente com a cabeça – Não seriam essas marcas no chão possivelmente as do trenó que levou o bom velhinho? – Miranda encarou a tela por alguns segundos, pensativa. Pegou um bloquinho de anotações e anotou as coordenadas do local para uma fácil localização via GPS. Talvez se seguissem na direção das marcas, encontrariam a direção em que Papai Noel teria ido.
— Por enquanto nossas pesquisas são superficiais. Quero ver de perto tudo o que aconteceu.
[...]
Os dias se passaram bem rápido enquanto estiveram a bordo do navio. Passavam quase o dia todo lendo, analisando fotos e lendo reportagens dos jornalistas que já haviam chegado ao local. Ficavam basicamente o dia inteiro no quarto ou na biblioteca. Nas raras vezes em que saíam para andar pelo quebra-gelo, estavam apenas descansado após horas de leitura ou em busca de algo para comer. Mal podiam aproveitar a viagem juntos.
Finalmente, no dia 30 de dezembro de 2013 conseguiram chegar ao Pólo Norte. Um barulho de gritos animados percorria por toda a embarcação, fazendo com que todos despertassem. Enfim haviam chegado.
Desembarcaram logo em seguida. Todos os dias, trenós especializados buscavam pesquisadores e os levavam até a mansão Natalina. Tendo conhecimento de que outros investigadores estavam a bordo do navio além de Dan e Miranda, um trenó bem grande foi os buscar.
No caminho, ninguém puxou conversa. Dan observava todos os rostos ali presentes. Miranda preferiu observar a paisagem. Não queria de forma alguma interagir com aquelas pessoas. A maioria certamente trabalhava para algum jornal e estava ali apenas apara vender informações. Defendiam nomes e ideais para os que pagassem mais. Perfeitos mercenários.
Chegaram a um grande alojamento que abrigaria todos os investigadores. Todas as pequenas habitações eram cobertas com madeira do lado de fora. Existia centenas delas. Havia uma cancela que impedia a entrada de pessoas sem identificação e um homem alto todo agasalhado que tentava se comunicar com eles em meio à ventania que há pouco havia se iniciado.
— Encontraremos todos vocês no barracão aqui ao lado para entregarmos todas as autorizações para permanência no local e chaves dos alojamentos.
Era um lugar bastante espaçoso. Lá forneciam alimento para as pequenas instalações lá fora. O local todo era aquecido e naquele momento, além dos coordenadores, havia apenas os tripulantes do Icebreaker. À direita havia uma fila para identificação; Logo ao lado, as autorizações de permanência temporária; e bem próximo aos portões estavam as chaves dos alojamentos. Forneciam até mesmo atendimento médico ali.
— Parece mais que planejaram o sumiço do Papai Noel quando montaram tudo isso aqui. – sussurrou a jovem moça para o marido.
— É que aqui eles atendem todos os tipos de pesquisa; desde científicas até as mais simples, como esta que estamos agora. As coisas são diferentes nesse lugar.
— Um minuto da atenção de todos, por favor – falou ao microfone um dos coordenadores.Vocês que ainda estão aqui foram aceitos para as investigações, sendo assim, são detetives no caso do desaparecimento do Papai Noel. Em meia hora um trenó estará os aguardando para levá-los até a mansão Natalina, que está a poucos minutos de distância. Vocês têm total liberdade para trabalharem em grupos, porém não nos responsabilizamos pelas desavenças entre os mesmos. Não saiam de seus alojamentos se estivermos numa tempestade. Em caso de dúvidas, favor entrar em contato conosco. Obrigado.
Enquanto se retiravam do local, Dan acabou se esbarrando com um rapaz que vinha na direção contrária.
— Perdão – disse Dan apressado.
— Está tudo bem, não foi nada. Ei, vocês também estavam na embarcação do Icebreaker, não é mesmo? Vocês são aqueles investigadores aventureiros que se aposentaram, estou certo? Não consigo me lembrar do nome de vocês.
— Somos Dan e Miranda e estávamos no Icebreaker também, mas não nos lembramos de você.
— Ah, eu os vi andarem pelo convés algumas vezes. Sempre fui fã de suas façanhas enigmáticas. A propósito, meu nome é Will e também estou à procura do Papai Noel. Espero que acabemos nos dando bem – disse abrindo um largo sorriso e apertando a mão de Dan – Se precisarem de mim, minha cabana é a 104.
Will era alto e possuía ombros largos. Seu cabelo tinha um tom castanho claro e sua pele era dourada. Tinha um ar alegre e transmitia confiança através de seus olhos cor de mel.
— Está bem, entraremos em contato. – apressou-se Miranda – Mas agora temos de ir até a mansão. Talvez possamos nos reunir mais tarde.
Em alguns minutos, estavam todos reunidos em frente à mansão Natalina; o último lugar em que Papai Noel fora visto antes de seu misterioso desaparecimento. Miranda pegou o GPS e posicionou-se nas direções das coordenadas. Com o auxílio também de uma foto, começou a seguir na direção das marcas dos trilhos do trenó. Mesmo que não pudesse mais as ver, as fotos indicavam uma direção razoável. Caminhou por cerca de 15 minutos até que pudesse avistar uma montanha de gelo no horizonte. Não estava muito longe, mas se fosse a pé levaria muito tempo. Ouviu alguns gritos e virou-se para ver o que era. Dan a chamava.
— Miranda, temos de visitar a casa! Volte aqui!
Vasculharam toda a casa em busca de pistas. Passaram por quartos, escritório, biblioteca, cozinha... mas nada lhes chamou tanta atenção. A Mamãe Noel – que estava sendo abrigada pelos elfos na casa secundária – havia preparado alguns biscoitos para oferecer aos visitantes, que a enchiam de perguntas. Todas do tipo “Vocês tiveram alguma discussão na noite anterior ao desaparecimento?”; “Ele tinha inimigos?”; “Ele tinha tendências suicidas?”.
O casal estava farto de todas aquelas pessoas se amontoando na pobre coitada. Ela devia ter percebido o silêncio em alguns visitantes, pois começou a oferecer mais e mais comida.
A gigantesca sala de jantar estava praticamente lotada. Miranda estava imersa em seus pensamentos quando uma mão tocou seu ombro.
— Eles devem pensar que a Mamãe Noel tem toda a paciência do mundo. Estão a sufocando praticamente. – comentou Will.
— Devem estar considerando que esta pode ser a única vez que a verão até a solução do caso, ou até mesmo pelo resto de suas vidas. Ele é um ícone, mesmo que não tão famosa quanto o marido, sem ela, acho que ele não sobreviveria.
— E ela também não sobreviveria sem o marido. Vocês não vão conversar com ela?
— Talvez quando o movimento diminuir. Ela deve estar se estressando muito agora. E você, Will? Não vai fazer nenhuma pergunta pra ela?
— Eu não acho necessário. Tenho métodos diferentes de investigação.
— Ahn, Will, amanhã é véspera de ano novo. Gostaríamos de saber se não gostaria de nos fazer companhia e beber alguma coisa para comemorar. – convidou Dan.
— Mas é claro!
— Então passe na cabana 110 por volta das nove da noite. Estaremos te esperando.
[...]
No dia 31 de dezembro de 2013, a dupla resolveu que não sairia para visitas. Passaram o dia todo conversando sobre as coisas que haviam encontrado.
— Acho que deveríamos conversar com a Mamãe Noel em um dia mais pacífico, como amanhã ou depois por exemplo. – comentou Dan.
— Quando formos, quero ir até a montanha que avistei. Se conseguirmos um trenó chegaremos lá bem rápido e ainda teremos tempo de voltar para o grupo, como se nada tivesse acontecido.
— Você não tira essa montanha de gelo da cabeça, hein?
— Acontece que além dela, não há mais nada ao redor. Provavelmente, quem sequestrou o Papai Noel não conseguiu carregá-lo para muito longe. Estou considerado diversas possibilidades.
— Você tem razão. Creio que não seja fácil carregar alguém pesado como ele com uma roupa tão chamativa como aquela. Quem quer que tenha realizado tal façanha, muito em breve será desmascarado.
A campainha tocou. Dan foi atender.
— Dan meu bom amigo! – era Will.
— Entre e se acomode, por favor.
— Olá Miranda! – a moça que estava fazendo algumas anotações levantou lentamente o rosto para vê-lo.
— Que botas chamativas, Will.
— Miranda! – exclamou Dan um pouco bravo.
— Não esquenta, Dan. As botas são bonitas, não é mesmo? Foram feitas exclusivamente para mim. Olhe estas fivelas – ele se aproximou – Têm as minhas iniciais escritas no talhe em formato de cobra. Custaram bem caro.
— Um desperdício. Está faltando uma fivela.
— Ah, sério? – ele olhou para as botas – Deve ter quebrado e caído em algum lugar...
— Chega de conversa. Vamos comemorar!
[...]
Já era dia 2 de janeiro de 2014 quando a mensagem sobre uma reunião obrigatória no barracão de pesquisas e auxílio principal chegou. Todos deveriam se encontrar lá para um comunicado.
Will havia passado a noite do dia 31 e boa parte do dia 1° no alojamento dos dois. Miranda ficava feliz em ver Dan se socializando com alguém; já havia anos que eles não se encontravam com ninguém. Miranda se sentia um pouco culpada por isso. Nunca foi muito social e desde que ficou “doente” e fora internada, às vezes em que saiam eram apenas para trabalhar ou comprar comida.
O salão estava se enchendo aos poucos. As pessoas de diversas cabanas estavam ali, inclusive Will, que havia se sentado mais ao fundo. Dan segurava uma caneta e o inseparável bloquinho de notas. Miranda havia pedido para que ele lesse todas as anotações, por segurança.
Não demorou muito, e o coordenador geral se pronunciou:
— Estamos nos preparando para levá-los novamente para a mansão Natalina. O Natal de qualquer forma, já foi perdido e inclusive o ano novo. Nosso tempo está ficando reduzido. As crianças do mundo todo precisam da ajuda de vocês para manterem a sanidade e todos os ideais passados de geração em geração mantidos seguramente em seus corações. Como forma de organizar melhor, todos irão visitar a mansão divididos em grupos de acordo com a numeração dos alojamentos. Favor, peguem seus números na saída. Precisamos do Papai Noel de volta o mais rápido o possível. Façam tudo o que puderem para encontrá-lo. Em caso de dúvidas, entrem em contato conosco.
A maioria dos presentes começou a falar diversas coisas ao mesmo tempo. Todos queriam ser os primeiros a chegar ao local. Dan se levantou e foi pegar o número de saída. Assim que alguns desesperados o viram, correram em sua direção para também conseguirem os números de saída. Depois de meia hora, tudo se tranquilizou.
— Qual é o nosso número? – questionou Miranda.
— Creio que estamos entre os últimos. Nossa saída é só depois de amanhã. Vou organizar as anotações. Leia um livro enquanto isso. Você sempre raciocina melhor enquanto lê.
Miranda se deitou e começou a ler alguns livros de ficção. Não gostava muito desse tipo de livro, mas queria se certificar de ler a maioria que pudesse. Se algum autor na ficção já deu sumiço em alguém, essa história pode muito bem se tornar verdade. Era algo um tanto fantasioso de se pensar, mas era a verdade. Diversos sequestros e acidentes semelhantes a livros famosos — e outros nem tanto — se tornaram realidade, infelizmente.
— Mi?
— O quê?
— É ótimo ver que está se esforçando para ajudar a todos nessa investigação e salvar o Papai Noel. Já fazia tanto tempo que não tínhamos tal experiência envolvendo adrenalina.
— Eu não dou a mínima para o Papai Noel. Você sabe disso. Só estou fazendo o que acho certo. Estou tentando manter as pobres crianças longe das mentiras dos pais. Papai Noel nunca me fez nada de bom. Eu não preciso ajudar ele. Eu preciso ajudar as crianças e a fé cega delas.
— E as crianças do mundo todo, que você nem conhece, já te fizeram algo de bom?
Silêncio.
— Não que eu saiba. Mas ainda assim, você está as ajudando. Você no fundo, é uma boa pessoa.
[...]
Dan acordou com um cutucão. Levantou-se com o susto e pôde então ver Miranda fazendo sinal para que se apressasse.
— O que… o que houve?
— Levante logo. Você acha mesmo que eu vou esperar até amanhã para ir lá ver a montanha e os arredores da casa?
— Mas Miranda, para caminharmos até lá será muito difícil e demorado.
— E você acha que eu não pensei nisso?
Dan levantou resmungando e caminhou até a porta, onde Miranda o esperava. Calçou as botas e os dois saíram.
Caminharam até o pátio onde ficavam todos os trenós. Miranda escolheu um e olhou para Dan dizendo:
— Vamos lá, suba.
— Você pretende roubar um trenó das autoridades?
— Você pretende encontrar o Papai Noel? Vamos logo, suba. Eu acho que sei pilotar isso muito bem. – Dan subiu no veículo um tanto receoso. Miranda acelerou e saiu pela parte de trás da garagem, onde as catracas haviam sido “misteriosamente desligadas”. O trenó não ia muito rápido, mas era o modo mais eficiente de se chegarem até a mansão e até a Montanha.
Dan estava bastante assustado quando conseguiu ver a casa da Mamãe Noel toda iluminada. “Será que eles usam luzes e pisca-pisca o ano todo?” — pensou ele. Apontou a casa e Miranda foi em direção da mesma.
A jovem estacionou próximo à casa e ambos desceram. Ele resolveu olhar entre as árvores enquanto Miranda observava cautelosamente o trenó. Algum objeto havia riscado brutamente a parte interna da porta, num sentido como se estivesse saindo de dentro do trenó rapidamente.
Dan começou a caminhar por entre as árvores natalinas ali. Havia pedaços de um tecido vermelho aveludado. Algumas partes brancas que pareciam ser da manga da roupa do Papai Noel.
— Miranda! Venha ver isso! – ela correu até onde o marido estava e pôde então, ver as tiras estraçalhadas. Estremeceu.
— Encontrei marcas na porta do trenó. Você acha que…
— Talvez eles tenham passado por aqui muito rápido e as roupas foram se rasgando. Ou o sequestrador tenha tentado se livrar de roupas tão chamativas para poder escondê-lo melhor.
— Agora, mais do que nunca quero conversar com a Mamãe Noel.
— Vamos voltar. Já está quase na hora do nosso grupo sair. – os dois retornaram ao trenó. Desta vez, Dan era quem estava pilotando. Não demoraram muito para chegar e guardar o equipamento antes que pudessem ser vistos pelos guardas do local. Miranda foi até a cancela e conectou os fios novamente, em seus devidos lugares. O marido a aguardava pacientemente perto do portão. Ela deslizou até ele graciosamente e então foram até o barracão principal comer alguma coisa.
Depois de cerca de uma hora os chamados para que os detetives do último grupo se encontrassem próximo à entrada para o embarque começaram. Miranda exibia um sorriso no rosto; algo bastante raro mesmo depois de tantos anos. Dan, observando-a sorrir, abriu um sorriso também. Estavam muito próximos da solução.
O trenó quase lotado partiu rumo à mansão do Papai Noel. Todos permaneceram em silêncio durante o trajeto.
— Dan – sussurrou Miranda – onde está Will?
— Não sei. Talvez ele tenha trocado de grupo ou não tenha conseguido acordar.
— Você coletou algumas provas da cena?
— Sim. Estão todas guardadas no bolso interno do meu casaco. Tirou fotos das marcas no trenó?
— Tirei. Tenho algumas coisas para perguntar à Mamãe Noel e anotei tudo aqui – disse entregando um papel dobrado a ele – Leia.
Prosseguiram o restante da viagem em silêncio, assim como os outros. Toda e qualquer comunicação era por meio de sussurros. Em poucos minutos, o trenó coletivo estava estacionado em frente à mansão dos bons velhinhos. Todos desceram e foram entrando na casa livremente. Mamãe Noel os aguardava lá dentro.
Depois que os outros investigadores fizeram diversas perguntas, Miranda resolveu conversar com a bondosa senhora.
— Quer biscoitos, meu doce? – perguntou Mamãe Noel.
— Agradeço, senhora. Se importaria em responder algumas perguntas?
— Bom, é isso o que tenho feito praticamente o dia todo.
— Mamãe Noel, por acaso o seu marido costumava visitar as montanhas de gelo daqui?
— As montanhas de gelo? Não. Ele tinha pânico em relação àquele lugar. Ficava em transe, imóvel. Eu mesma não gosto de me aproximar de lá. Por que a pergunta, minha querida? Você desconfia que ele possa estar lá?
— Isso eu já não posso informar, minha senhora. Ele costumava andar em meio às árvores?
— Não. Ele jamais entrava lá. Sempre vivia na oficina de montagem ou no escritório, lendo cartas.
— Eu poderia, por obséquio, visitar o escritório?
— Mas é claro. Venham comigo.
Os três subiram as escadas e andaram pelo longo corredor da mansão, chegando enfim à uma porta vermelha com uma placa dourada. Na placa estava escrito: Escritório de Cartas do Papai Noel. Entraram.
Miranda foi observar a mesa, enquanto Dan olhava cada canto da sala. Apesar de já terem estado ali antes, devido ao tumulto, não conseguiram ver tudo.
Miranda percebeu um envelope embaixo do braço da cadeira. Estava muito bem preso e tão bem disfarçado que olhos desatentos não conseguiriam percebê-lo tão facilmente. Com um pouco de esforço, conseguiu soltá-lo. Levantou-se e olhou para Mamãe Noel.
— O que você encontrou aí, senhorita?
— Um envelope disfarçado. Se importa se eu abrir? Está endereçado ao seu marido.
— Não, não. Fique à vontade.
Miranda então abriu o envelope. Havia apenas um bilhete dizendo:
Caso não queira terminar sua parte do plano, eu mesmo terminarei, com o maior prazer, inclusive. Mande sua resposta o mais rápido o possível. Ou terei eu de fazer uma visita no dia 23?
A moça então tirou do bolso do casaco uma câmera fotográfica e fotografou o envelope e o bilhete. Mamãe Noel estava ficando cada vez mais apreensiva.
— Errr, minha jovem, o que tem de tão importante nesse papel?
— Veja com seus próprios olhos. — disse entregando o papel à senhora — Alguém fez um trato com seu marido. Você sabe alguma coisa sobre isso?
— Não, não sei de nada.
— Sabe de quem ele recebeu esta carta?
— Nicolau sempre recebe cartas anônimas. Geralmente as crianças não costumam escrever seus nomes nos envelopes ou na carta. Ele sempre sabe quem as enviou. Ele tem alguns super poderes.
— Muito obrigada Mamãe Noel, isto foi o suficiente. Continuaremos com as investigações.
— Espero que encontrem Nicolau… meu mundo é totalmente vazio sem ele. – falou com tristeza.
[...]
No retorno para casa, Miranda estava um tanto inquieta. Em sua cabeça, milhões de ideais passeavam, corriam aleatoriamente para o horizonte e depois voltavam, como se estivessem dançando uma música bem animada. Todos estavam em silêncio, apenas apreciando o frio e a paisagem. Dan manteve a calma, apenas olhando para o horizonte.
Logo chegaram ao alojamento. Encontrariam Will em algumas horas para conversarem. Miranda já se sentia cansada quando se sentou para comer alguns biscoitos.
— Mi, onde você guardou as anotações que havíamos feito?
— Todas estavam na gaveta da escrivaninha e na caixa debaixo da minha cama.
— Tem certeza? Não estão mais lá. Procurei por todos os lugares e não estão em lugar algum.
— Impossível – disse se levantando rapidamente da cadeira e indo em direção à gaveta da escrivaninha – eu as guardei bem aqui!
— Será que fomos roubados?
— Sem dúvidas. Algum detetive deve ter descoberto nosso progresso e levado as informações.
— Isso não é problema para nós, minha cara Miranda.
— O que você quer dizer com isso, Dan?
— Se esqueceu da minha memória eidética? – ela sorriu ao se lembrar.
— Eu te amo e não é só por isso.
A campainha tocou. Desta vez, Miranda foi atender.
— Olá Miranda!
— Olá Will, seja bem vindo. Entre, estávamos esperando por você.
— Algum progresso com a investigação? – perguntou Will enquanto entrava.
— Na verdade não muito – respondeu Dan – Alguém roubou nossas anotações.
— Isto é terrível! – exclamou espantado.
— O único problema é que teremos de recomeçar do zero.
— Boa sorte. Vocês dois são mesmo corajosos. – elogiou Will os observando.
— Bem, fiquem à vontade. Não vou beber nada hoje. Se algum trabalho precisa ser reescrito, preciso já ir o adiantando. Então se me derem licença, estarei no meu computador. – falou Miranda se despedindo dos rapazes.
[...]
Novamente, Dan sentiu uma cotovelada na barriga. Estava dormindo calmamente quando Miranda acendeu as luzes.
— Vamos. Preciso da sua super memória ainda hoje.
— Fugiremos de novo?
— Mas é claro. Hoje já é dia 5. O Natal foi perdido, mas o Papai Noel ainda está em algum lugar. Se arrume logo, estarei te esperando lá fora.
Dan saiu da cabana ainda grogue de sono. Colocou os óculos de proteção e seguiu a esposa que se esgueirava por entre os espaços entre um chalé e o outro. Ele nunca podia adivinhar o que se passava pela mente de Miranda. Tudo era um mistério, até o momento em que ela resolvia causar uma overdose de informação, liberando tudo o que armazenou durante esse tempo todo de uma vez só. Dan mal podia esperar por esse momento.
Novamente, a cena já estava preparada para que escapassem sem chamar atenção. Os fios da cancela haviam sido desligados e a saída era fácil. Aceleraram e saíram, sem chamar atenção.
— Para onde vamos desta vez? — ele questionou.
— Para a montanha de gelo.
— Como vamos conseguir entrar?
— Tenho sal no bolso e algumas pás escondidas no trenó. Está tudo sob controle.
A montanha gelada podia ser vista de longe. Dan sentiu um frio na barriga. Estavam extremamente perto da solução. Ele podia sentir isso.
Miranda reduziu a velocidade e foi contornando a montanha, atenta aos detalhes.
— É impressão minha ou ali tem uma passagem? – Dan comentou e a esposa acelerou, parando a alguns metros de distância da abertura no gelo, que estava a cerca de três metros do chão. Virou-se para o trenó e puxou duas pás da parte em que o tanque de combustível ficava.
— Prenda isso na sua roupa. Vamos subir agora.
Não foi uma escalada tão difícil. Miranda subiu nos ombros de Dan e pulou para dentro da abertura. Em seguida, puxou o marido. Os dois se levantaram do chão e então perceberam o amplo espaço aberto no gelo.
— Por favor, deixe-me em paz… – o murmúrio quase inaudível chegou até os ouvidos dos dois.
— Papai Noel?
Subitamente, Dan e Miranda levam uma forte pancada na nuca. A dor era insuportável. Não conseguindo se manter lúcidos, desmaiaram.
Acordaram no chão de um pequeno cubículo congelante. Sentiam dores de cabeça absurdas. Ainda confusos, olharam ao redor e perceberam onde estavam. Era uma cela esculpida no gelo. Dan tentou se levantar, porém, não levou muito tempo até que estivesse no chão. Mal conseguiam manter os olhos abertos. Quando conseguiu finalmente criar forças, Dan resmungou sobre quantos dias teriam ficado dormindo.
— Hoje já é dia 7, então foram dois dias. – sussurrou a moça.
— Que diabos aconteceu conosco?
— Estou tentando assimilar as coisas ainda. Não faço ideia do que tenha acontecido.
— Sua voz é irritante quando estou com dor de cabeça — reclamou o rapaz.
— Cale a boca.
— Vocês ficarão bem. Não se preocupem… – mesmo sem conseguir se mover, Dan abriu os olhos e tentou encontrar a fonte de tal voz angelical.
— Papai Noel?
— Durma meu filho, durma. – e então adormeceram novamente, vencidos pela dor e pelo cansaço.
Dois dias depois, Miranda despertou; estava faminta. Como se seus pensamentos tivessem sido descobertos e seus desejos misteriosamente revelados, havia um embrulho cheio de alimentos ao seu lado. Teve medo de contaminação então lutou para não comer. Olhou para o outro lado e vislumbrou um senhor de barba branca e roupas vermelhas. Havia enfim encontrado o Papai Noel! O único problema era a distância entre as celas.
— Viemos resgatá-lo, senhor.
— E aparentemente não obtiveram tanto sucesso. Estamos todos na mesma.
— Vamos dar um jeito de sair daqui. – Dan estava despertando lentamente do outro lado da sala cercada de grades.
— Estão com fome? – disse tirando do bolso barrinhas energéticas – São saudáveis, infelizmente de baixa caloria.
— Qualquer coisa serve. O que mais tem no bolso, Dan?
— Pedaços de pano avermelhados, uma máquina fotográfica, mais barrinhas… aparentemente é só. E você?
— Sal, chaves… ah, e a solução do nosso enigma. – falou enquanto segurava entre os dedos cobertos pelas grossas luvas uma fivela metálica.
— Este é…
— O fecho da bota de William Bakkersfield. Encontrei na entrada. Legal, não?
— Isso quer dizer que ele esteve por trás de tudo isso?
— Sim. E provavelmente foi ele quem roubou nossas anotações. Com certeza, se não foi ele quem sequestrou Papai Noel, foi cúmplice. Deve ter nos visto invadindo a propriedade e nos nocauteou.
— Isso é assustador. Por que ele faria isso?
— Sim, de fato é. Mas Will trabalha como agente disfarçado para uma empresa de telecomunicações. Seu verdadeiro nome é Arthur Wandercroft. Invadi o sistema de segurança do FBI e realizei uma pesquisa por foto, logo descobri sua verdadeira identidade.
— E eles sequestraram o Papai Noel porque…
— Porque as movimentações do mercado estavam em baixa, principalmente na seção de brinquedos. Quando alguém atrapalha o seu comércio distribuindo o mesmo que você, só que a um preço inferior, você tem que dar um jeito. Eles apelaram para a forma mais “fácil” e faturaram milhões, fazendo com que os pais sem coragem de falar a verdade a seus próprios filhos bancassem a compra de tantos brinquedos. É assim que sobrevive o capitalismo.
— Como vamos sair daqui então?
— Primeiro, precisamos de energia e de um plano. Principalmente energia. Não vamos conseguir sair daqui e ir até o alojamento com o grandão a tiracolo se não tivermos força. Vamos nos alimentar disso até que as barrinhas acabem, então iniciaremos o plano.
— Certo. Ei, grandão – Papai Noel virou a cabeça lentamente, sem forças para vê-lo – você também precisa se alimentar! Aqui, uma barrinha.
Foram longos e exaustivos dias trancafiados naquele cubículo congelante, se alimentando basicamente de barrinhas energéticas e gelo derretido. Seus corpos estavam fracos e a pança do velho Papai Noel já não estava mais tão grande assim. Miranda acordou disposta. Não queria nem saber que dia era. Cutucou Dan e sussurrou:
— Hoje é o grande dia.
O rapaz levantou com um salto. Sua esposa pegou o sal que havia guardado em seu bolso por tantos dias e começou a jogar pelas barras de gelo que os aprisionavam. Enquanto o gelo derretia, a segunda parte do plano era repassada.
— Se o trenó não estiver lá fora, damos a volta na montanha e seguimos reto, caminhando até o alojamento. Lá pedimos ajuda e tudo estará resolvido.
Finalmente a espessura das barras havia diminuido. Com um chute, Dan conseguiu quebrá-la para que então os dois pudessem sair dali. Miranda correu até as pás que haviam sido escondidas – não tão bem em meio ao gelo transparente –. Entregou uma para Dan e começaram a quebrar as barras da cela do Papai Noel. Em pouco tempo, o bom velhinho já estava se segurando nos dois, prestes a sair livremente e ver o mundo.
Assim como já era de se esperar, o trenó não estava mais no lugar original. E assim como no plano, deram a volta na montanha e caminharam em direção ao alojamento.
Foi uma longa e difícil caminhada; todos estavam fracos e famintos, suas roupas pesavam mais do que suas almas. Enfim, alguém os avistou e os ajudou a retornar à base.
Era dia 14 de janeiro de 2013 quando Miranda despertou no hospital. O lugar todo branco, o cheiro inconfundível de iodo e o silêncio a fizeram se lembrar de suas piores fases. Levantou-se da cama e se desprendeu dos fios e agulhas. Ainda via as coisas embaçadas quando pegou o jornal ao seu lado e leu as manchetes: “Preso sequestrador do Papai Noel, detetives recompensados pelo esforço e trabalho árduo no Polo Norte”.
— Recompensados… pensa que me engana.
Caminhou até a porta para testar a força de suas pernas. Uma das enfermeiras que passava pelo corredor tentou a impedir.
— Me deixe. Quero saber onde está o Papai Noel.
— No quarto 215, senhorita. Quer que eu a leve até lá?
— Quero. Preciso ter uma conversa com aquele homem. Onde está o meu marido?
— Recebeu alta ontem, mas continuou no hospital para lhe fazer companhia. Estava exausto, então o mandamos ir para casa descansar. Este é o quarto 215. Consegue caminhar sozinha?
— Consigo, obrigada. – a enfermeira assentiu e foi até o quarto de outro paciente que a chamava.
— Miranda Husgentargen. Minha heroína. Estou muito grato por ter me salvado, mesmo que não se importasse comigo.
— Eu não me importo mesmo com o senhor, fiz isso pelas crianças. Você nunca me fez nada de bom quando eu era pequena.
— Isto não é verdade. Consegue se lembrar o que pediu no Natal quando tinha 10 anos? — lágrimas rolaram pelo rosto de Miranda.
— Não. E nem quero lembrar.
— Você pediu que sua mãe vivesse feliz até que você pudesse dizer a ela o quanto amava de novo. Pois bem, eu realizei seu desejo, mesmo que ele fosse um dos mais difíceis de se realizar.
— Minha mãe faleceu duas semanas depois, na minha frente.
— Por que você disse que a amava e que queria que ela fosse feliz para sempre. E hoje ela é uma pessoa feliz. Disso eu posso te garantir.
— Noel… eu queria que ela estivesse aqui agora. Somente minha mãe me acolheria nas dificuldades que passei.
— E ela não acolheu? Ela não morreu em seu coração, eu sei disso. Você é que não quer vê-la aí, porém é aí que ela sempre esteve.
Miranda estava em prantos. Sufocava-se com tantas lágrimas. Deu um abraço apertado no velhinho deitado na cama de hospital ao seu lado. Suspirou e enfim disse:
— Obrigada Papai Noel. Me desculpe por duvidar de você.
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