Inverno Nuclear — Interativa
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
O garoto olhou pela janela vendo a Nuvem-Negra reluzindo no céu, o frio de rachar os lábios o obrigando a ficar abaixo das cobertas. Estava agarrado ao celular, enquanto esperava, inutilmente, a chamada ser atendida.
“Esse celular está fora da área, por favor ligue novamente mais tarde, ou deixe uma mensagem após o bipe”.
— Hã, alô? É... você está bem? Eu sei que não é uma boa hora... mas eu espero que fique, sabe, viva mesmo nesse... apocalipse — Parou, respirando fundo — Então... aqui é o Clark. Você sabe quem eu sou, não é? Ou o seu pai não te disse nada? Enfim eu...
“Obrigado por deixar a mensagem, saldo insuficiente para completar a chamada”.
Praguejou, os palavrões enchendo o ar silencioso, e suspirou colocando os dedos nas têmporas, circulando-as. Tremeu e agarrou a coberta mais para si, protegendo-o do frio assassino. Era comum Clark fazer, já que odiava o frio. O verão sempre foi sua época preferida do ano, inclusive, nunca tomava banho em água gelada — apenas quando necessário. Agora, nesse frio infernal — ou seria invernal? — Clark estava quase morrendo de hipotermia, o que já era comum nessa nova Terra. O de olhos azuis encarou a vastidão lá fora, Clark fascinado com a neve cinza que reluzia no chão, nunca vira neve na sua vida e agora ali estava a neve — era cinza, mas era neve — no chão da rua de sua casa, a única coisa visível num mar de cinza e vermelho.
— Vamos, vamos... Não posso ficar aqui para sempre... posso?
Ele viu a luz piscar, uma, duas, três vezes, antes de se estabilizar.
— Não, não posso.
☢☢☢
Os dias anteriores ao Inverno foram quentes. Enquanto a quantidade de acontecimentos rolavam, Ian e Amy estavam andando nas ruas do bairro onde moravam, quando o Grande Cogumelo surgiu. Primeiro veio o barulho, um som atordoante que fazia qualquer um ficar momentaneamente surdo, depois a luz cegante que vinha de um imenso cogumelo e, por fim, o silêncio e a escuridão. A energia elétrica caíra durante o evento e por isso todo o bairro ficou escuro e silencioso. Ninguém comentava, ninguém se atrevia a falar; tudo era silêncio. Amy encarou seu amigo, que olhava para cima, parecendo entretido e, ao mesmo tempo, apavorado. A garota seguiu o olhar do garoto e encarou o céu. A luz do sol sumia e no lugar uma extensa quantidade de fumaça negra cobria o céu, misturando-se à paisagem. O Sol estava invisível, apenas vislumbres de luz saiam de rasgos nas nuvens brancas que enfeitavam o céu azulado, que parecia ganhar uma tonalidade escura.
Amy ficou surpresa com aquilo e, com isso, ouviu o barulho cada vez mais alto de gritos de pessoas, presos na garganta quando a explosão iniciou-se. Amy sentiu ser agarrada por Ian, que a puxou para longe do tumulto, Amy correu junto de Ian, até parar num beco.
— Você está bem? — Ian questionou ofegante.
— O que foi aquilo? — Amy perguntou levantando o olhar para encontrar os olhos dele.
— Não sei, mas foi algo sério.
— Isso eu percebi...
A energia voltou de súbito, com as luzes surgindo de uma só vez, a garota olhou para o horizonte, vendo o sol desaparecendo por entre os prédios. Ela olhou para o amigo com seu corpo tremendo. Sentiu os braços a envolverem e a aquecerem, franziu o cenho com algo a incomodando, mas acabou por se deixar levar pelo abraço.
— Tudo bem. — Ele suspirou — Vamos para sua cas...
Ouviu um berro e se separaram, encarando o acontecimento. Uma mulher lutava, tentando se desvencilhar dos braços de um homem, arrogante, que a agarrava e a fazia se debater.
Amy avançou, mas o braço forte de Ian a agarrou.
— Não Amy, ele pode feri-la.
— Mas ele está ferindo ela...
Ouviram um som estridente e se viraram encarando a mulher, que antes lutava, morta e jogada no chão. Um buraco de bala na cabeça mostrava a causa da morte. Amy reprimiu um grito.
O que estava acontecendo?
☢☢☢
“Exatamente às seis horas da tarde, hoje, com uma explosão no meio do Oceano Atlântico, aliado a outros fatores, desativaram momentaneamente todos os aparelhos elétricos durante três minutos, toda forma de comunicação baseada em energia elétrica foi desativada.”
O homem bufou, fazendo o movimento circular com o dedo na parede. O guarda olhou para trás, ao mesmo tempo em que o moreno assoviava uma música estranha. Depois de dois minutos, o guarda bufou e o encarou.
— Pode parar com isso?
— Não. — Disse, voltando a assoviar, agora também estalando os dedos, seguindo a melodia. O loiro o encarou e bateu na grade, balançando-a.
— Eu vou te bater se você não parar com isso.
— Pode bater não me importo, mas eu não vou parar. — Sorriu sarcástico.
“Segundo especialistas, houve ao todo duas erupções vulcânicas apenas nesta tarde, o Monte Fuji, no Japão que já havia sido calculado sua erupção e o Monte Vesúvio na Itália, este último famoso pela destruição de Pompéia, no ano de 79...”
— Olhe aqui seu verme, eu estou dizendo para você parar agora. — Falou o guarda, irritado.
— Desculpe, seu mimadinho, mas acho que não. — falou com o sorriso de escárnio no rosto.
O guarda rangeu os dentes e o detento sorriu e continuou a estalar os dedos, assoviando. A porta da cela foi escancarada pelo guarda loiro, que agarrou o de cabelos negros, levantando-o do chão.
— Seu idiota eu vou... — Ele foi interrompido pelo detento que sorria sarcasticamente.
— Cair no chão.
O guarda caiu ao ter recebido a joelhada do moreno, ficando em posição semifetal. O moreno sorriu sarcástico e agarrou o guarda o jogando sobre a parede.
— Desta vez, sou eu quem bate em você.
— O que você acha que vai fazer? Sou só eu gritar que virão até aqui.
“A erupção dupla jogou cinzas vulcânicas na atmosfera, que continua até agora cobrindo o ar, já houve a confirmação de exatamente 530 mil pessoas mortas por sufocação em decorrência das cinzas lançadas.”
— Isso. — E enfiou, na barriga do guarda, a faca caída no chão que caiu do bolso do loiro. Tampou a boca do homem que tentou gritar, seus olhos castanhos se fecharam, até ele ficar mole e frio.
O moreno lançou o guarda ao chão, limpando a mão suja no uniforme do guarda, agarrando a pistola e o cassetete do morto. Ele sorriu.
“Temos a confirmação da Nasa de que um asteróide, batizado de F-66, está se aproximando da Terra. Sua aterrissagem poderá ter um grande impacto na superfície do planeta, a NASA recomenda que ninguém se desespere, pois não há a confirmação da entrada na atmosfera, mas avisaram para se prepararem para o pior.”
— Hora de ir ao Inferno.
Continua...
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