Inveja e Avareza
3 Barreiras e Obstáculos
— Ande logo e acorde de uma vez! — Gritou Muriel do andar debaixo.
Mike já estava acordado. No chão ele terminara suas series matinais de flexões, levantou depressa para tomar um banho.
Uma semana havia se passado. Estava de férias era , mas a escola lhe dera um trabalho de verão para fazer, tudo devido ao dano que ele causara em uma sala de aula quando fora arremessado por Richard. Depois de se arrumar, Mike desceu as escadas da casa, sua tia avó já tinha saído, e um bilhete se encontrava grudado na velha geladeira da casa.
“Deixe algo preparado para o almoço”
Ele suspirou observando a pia sobrecarregada de pratos e panelas sujas.
Muriel era uma espécie de boa vizinha, conhecia todos da redondeza. Eram velhas senhoras que não tinham mais o que fazer além de fofocar e vigiar a vida de todos. Constantemente visitavam a casa para jogar cartas. Existia também um forte vinculo com a igreja da cidade, muitos padres eram recebidos calorosamente naquela casa, alguns trabalhavam na escola onde Mike estudava.
Uma semana se passou desde que Cherry viajara para os Estados Unidos. Provavelmente ela já havia retornado há essa hora, mas ele não recebera nenhuma noticia da irmã nesse meio tempo. Simplesmente não fazia idéia de como fora a viajem.
Em quanto estava sozinho Mike se arriscara a cozinhar alguma coisa, mas fora um desastre completo. Foi então que começou a receber a visita constante de vendedoras da “comunidade” local, que vendiam livros de receitas.
— São receitas repassadas por nossa comunidade há anos! — diziam sempre. Sua insistência era tanta que Mike acabou comprando um.
Era incrivelmente difícil de entender, mas as receitas que entendia saíam maravilhosamente bem. Nunca em sua vida imaginara que conseguiria fazer pratos daquela maneira, e como não havia muito que fazer na velha casa, dedicou seu tempo livre para decifrar as receitas. Até mesmo os nomes dos pratos eram difíceis de compreender.
Os encontros com Sarah não eram freqüentes, ao menos não atendiam as suas expectativas. Mike ficava constantemente sozinho naquela casa esquisita, mas confortável. O estranho para ele, era que estava levando uma vida totalmente diferente dos seis meses iniciais em NewCastle. Diferente da vida que levara sempre.
Naquele lugar tudo era mais humilde. Ele tinha que fazer coisas que no castelo não movia um dedo, como lavar pratos, arrumar sua cama, e fazer o almoço.
A porta se abriu.
— Nossa, eu senti o cheirinho de longe! ― falou uma voz conhecida.
― “Iaê” David! — disse Mike estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas ainda estava muito ocupado fazendo a comida.
O fato de David entrar naquela casa talvez o assustasse há alguns dias, mas recentemente ele descobriu que o amigo era neto de Muriel e, conseqüentemente, seu primo de segundo grau.
Aconteceu em um sábado…
— Se quiser ficar aqui, vai ter que acompanhar minha rotina! ― disse Muriel com o cigarro na mão. Se referia ao fato de aos sábados e domingos ela acordar ás sete horas da manhã para ir à igreja da cidade.
— São sete horas da manhã! SETE HORAS DA MANHÃ! — Gemeu ele em sua cama — Até Jesus Cristo deve estar dormindo há essa hora.
— Pare de falar asneias e vista sua roupa! ― Mike estava somente de shorts, aquela casa esquentava quando menos se esperava. “Ela é uma senhora de cinquenta anos, se é que você me entende!”, falava sempre sua tia avó.
Os dois desceram as escadas e Mike pode ver alguém parado ao lado do pré-histórico sofá. Era David, que assim que viu Mike fez à mesma cara de surpresa.
— Ah claro, Mike esse é meu querido neto David! — falou a velha apressada.
— Neto? — repetiu abobado.
— Sim Mike, meu neto. — disse nervosa — Esta ficando surdo?
— Vovó, nós já nos conhecemos… Ele é da minha escola.
O nível de bizarrice ganhou o seu ápice quando Mike escutou David a chamar de “vovó”.
— Hora vejam só, e não acreditam quando eu digo que essa maldita cidade é minúscula! — resmungou a mulher surpresa. Mike não conseguiu associar uma coisa com a outra, quais eram as chances dessa coincidência acontecer?
Ele sabia que David era filho de americanos, e que estava em Newcastle por conta de uma bolsa de estudos que conseguiu, morava em uma espécie de republica. Mas quais eram as chances? De tantas cidades na Europa, logo essa! Mike nunca vira David no castelo em quanto morava lá, então concluíra que seus pais não eram muito apegados ao lado “sombrio” da família.
David estava muito bem arrumado. Diferente de Mike, seu cabelo castanho claro estava penteado para trás, de forma que seu rosto ganhava total destaque. Não que o físico não chamasse igual atenção, para o publico feminino, era muito bem dotado devido ao vicio em esportes, e tinha olhos verdes incrivelmente claros e atraentes.
— Você esta com uma cara horrível primo. — disse David
Mike que estava pensativo no banco de trás.
— Espera só os caras ficarem sabendo disso! —comentou ele animado.
“Espera só minha irmã ficar sabendo disso”, pensou Mike.
Na igreja, Muriel sentou nos primeiros lugares junto as suas amigas, Mike e David ficaram distantes.
— Isso é tão…
— Esquisito? Eu sei… — completou David — Mas pode me chamar de louco, mas a primeira vez que te vi eu senti que me daria bem com você por algum motivo, bem… Aí esta o motivo, somos primos!
Era estranho também já que Muriel jamais mencionara ter tido algum filho, então como diabos David poderia ser seu neto?
Mike olhou para o rapaz sorrindo abobado, seria possível que alguém assim realmente existisse?
David, ao que Mike pode perceber, era um rapaz extremamente positivo. Estava sempre disposto a ver o lado bom das coisas, e sempre animava seus amigos, coisa que todos admiravam. Era totalmente dedicado ao esporte, o motivo de sua bolsa, e levava a vida sempre com um sorriso.
Na cozinha, ele terminara de fazer a comida e começou a guardar tudo em vasilhas.
— Você melhorou muito nesses dias, esta com uma cara ótima! ― disse David sereno se referindo à comida borbulhando na panela.
— É tudo graças a esse livro de receitas. — apontou Mike com sua expressão seria de sempre. — Estou conseguindo decifrar com o tempo.
David pescou algum pedaço da comida e rapidamente colocou na boca.
— Fiquei sabendo que você vai fazer trabalhos comunitários. —comentou David saboreando o que pescara.
— Muriel te contou não foi? — Mike suspirou.
— Sim, mas não faça essa cara, são bem legais os trabalhos comunitários!
― Não me diga que… Você, David o aluno exemplar, já foi obrigado a fazer trabalhos voluntários? — Mike mal conseguia esconder o seu espanto.
— Que historia é essa de aluno exemplar? — riu David — Mas eu fui voluntário, não me obrigaram a fazer nada.
“É claro”, pensou Mike. Onde estava com a cabeça ao pensar que David faria algo de errado. Agora ele provara que também era santo bondoso.
― As crianças são muito hilárias, você vai se divertir!
— Não me dou muito bem com crianças…
Mike falou mais para si mesmo, ele gostava de crianças era verdade, mas não sabia como lidar com elas, em geral ele sedia a todas as suas vontades.
No caminho para o trabalho voluntario ele deixou David em um campo de futebol, onde ele e outros jovens treinariam incansavelmente o dia inteiro. Conseguia visualizar o esforço que o primo precisava fazer para manter o nível de sua bolsa de estudos.
Mike já jogara com aquelas pessoas, eram quase profissionais, todos extremamente esforçados. David jogava muito bem, ele não era tão veloz quanto Mike, mas sabia avaliar as jogadas, entrava em campo com tudo planejado e executava seus planos com calma e serenidade.
Para Mike o futebol era uma diversão, algo que antigamente o fazia se sentir vivo. Mas para David o esporte era sua vida, ele vivia em função daquilo.
Chegando à escola, ele não precisou se quer entrar, um ônibus o aguardava.
— Bom dia Mike! —acenou uma das freiras que trabalhavam no colégio
— Bom dia. — respondeu desanimado.
Ele pôde ver poucas pessoas no ônibus. Os primeiros acentos eram ocupados por “irmãs”, e atrás havia dois ou três jovens. Mike estava usando seu casaco preto e um jeans, não se sentiu inferior quando viu que os jovens que estavam ali usavam roupas igualmente simples.
Nem se preocupou em cumprimentá-los também, conhecia muito bem o tipo de gente que era obrigado a fazer aquele tipo de serviço. Havia um em especial, que ele não arriscou nem olhar em seus olhos. Trava-se de um jovem carrancudo e careca, tinha uma cara extremamente amarrada e uma tatuagem enorme no braço.
Ele se sentou atrás de uma garota gordinha de cabelo roxo vivo. Ela escutava um som pesado, Mike reconheceu a banda imediatamente. O único normal, então, era o que estava sentado no fundo do ônibus. Um garoto extremamente pálido e magro que parecia ter medo de tudo, mas não de uma forma louca e perturbada.
— A tarefa será bem simples meus jovens. — disse a freira em pé.
— Vocês irão distribuir cestas de alimentos para a comunidade de pessoas que estão morando no nosso parque. Não se preocupem, pois são extremamente amigáveis.
O careca soltou uma gargalhada irritante, a freira o ignorou completamente e se sentou. Mike só conseguia pensar se o seu carro ficaria seguro na rua, “Se alguma coisa acontecer com essa lata velha a Muriel me mata”.
Meia hora depois o ônibus chegou ao enorme parque.
Era tão grande, que de longe Mike pensou que fosse uma floresta, muito grande e cheia de arvores. Talvez o que batizava aquele lugar de parque fossem os vários banquinhos e lustres que estavam perdidos em meio à floresta.
Todos desceram do ônibus, o cheiro da manhã ainda impregnado nas folhas das arvores. Sem ânimo algum, Mike apanhou a sexta básica que deveria entregar e esperou mais informações.
— Vamos crianças, me sigam por esse caminho! — chamou a freira entusiasmada.
Os alunos reviraram os olhos, principalmente por serem chamados de crianças, e a seguiram.
Havia muita vegetação pela frente, apenas quando chegaram a um espaço mais aberto é que Mike pôde ver as pessoas que viviam ali.
O lugar era um enorme círculo em meio a tantas arvores e plantas. Trailers e tendas enormes rodeavam todo o local, e várias pessoas circulavam de um lado para outro, carregando diversas coisas. Havia crianças correndo e brincando, mulheres estendendo roupas e dançando, e homens dormindo em redes.
— Ciganos… — concluiu Mike baixinho surpreso.
— Isso mesmo. — disse a voz de alguém surgindo atrás, era o padre que dirigiu o ônibus. — De tempos em tempos os ciganos vêm à Newcastle. Possuem permissão para ficar no parque o tempo que quiserem… Mas, normalmente, só ficam por alguns meses. Nossa cidade por ser muito religiosa recebe visitantes incomuns freqüentemente.
Mike nunca pensou que veria ciganos tão de perto. Só os conhecia por fotos ou imagens na televisão. Eram um pouco diferentes esses. Um pouco mais modernos… Os mais velhos usavam as roupas tradicionais, panos e muitas joias, mas os jovens aderiam às roupas normais, apesar de surradas. Muitos deles usavam brincos e panos na cabeça, e cantavam alto numa língua que ele não conseguia entender.
O clima era incrivelmente animado.
— Ciganos são muito sinceros e espertos, então não se deixem levar pelas suas conversas. — aconselhou a freira deixando escapar uma risadinha — Vamos, comecem a entregar as cestas para as famílias!
Obviamente, ninguém moveu um músculo.
— Vamos logo, não tenham vergonha! — ela batia palminhas como se estivesse incentivando um bando de galinhas a se movimentar.
Os pés de Mike se locomoveram automaticamente. Não parecia haver problema algum, eles não eram perigosos. Vendo a ação do jovem, os outros fizeram o mesmo. O careca resmungava alguma coisa. Chegou ate à primeira família, estavam sentados em uma lona arranjada.
— Olá, vim trazer uma ajuda da escola San’t Marrie! — disse ele completamente sem jeito.
Uma mulher bem excêntrica amamentava um bebê, o homem olhou com um sorriso, e as crianças fizeram o mesmo.
— Muito obrigado meu jovem, uma lembrancinha de agradecimento! — A cigana lhe entregou uma pulseira artesanal.
— Não precisa…
— Por favor, nós insistimos! — disse o homem, já devorando o alimento.
Mike aceitou.
Na quinta família que ele fora, já estava com vários presentes. Os outros alunos pararam para observar um homem fazer um malabarismo arriscado.
— Ei grandão! — chamou alguém.
Mike olhou para baixo e viu um pequenino garoto, e outras crianças ao seu redor.
— Ola! — respondeu Mike temeroso.
O garoto estava com as mãos na cintura. Sem camisa, ele exibia varias pinturas em seu corpo dando a idéia de ser algum tipo de indígena. Tinha uma expressão confiante no rosto, Mike não gostava disso em uma criança, sentia medo.
— Você é bem grande e forte, me levante para que eu possa pegar aquela maçã! — ordenou o garotinho, apontando para a maçã em uma árvore.
— Não precisa, aqui tem uma maçã. — Mike imediatamente pescou da cesta uma maçã.
— Eu não quero essa maçã, eu quero aquela! —insistiu a criança, ignorando a fruta de Mike.
— OK. — Ele caminhou em direção à árvore.
— Espere! — gritou o menino — Eu quero pegar, me deixe subir em suas costas!
“Você quer mais alguma coisa, um chazinho talvez?”, pensou Mike irritado.
Ele bufou pela segunda vez e ficou de joelhos, as crianças uivaram de felicidade. O garotinho levou um segundo para subir nas costas de Mike. Era extremamente leve.
— Eu sou o cacique dessa aldeia e ordeno que ataquem a árvore das maçãs! — berrou com uma voz esganiçada. As crianças correram com suas machadinhas improvisadas, girando em volta de Mike.
A criança em suas costas berrava alegre, Mike não resistiu e riu.
— Quer dizer que você é o líder dessa aldeia? — riu Mike.
— Sim, me chamo “cabeça de águia”! — falou o pequeno cruzando os braços.
Mike riu mais uma vez.
— E você pequenina? — perguntou ele para uma garotinha que corria ao seu lado, ela tinha uma pena na cabeça.
— Me chamo “flores ao vento”! — respondeu doce.
— Nossa… Que nome criativo! — sorriu Mike para menininha.
— “Flores ao vento” é minha esposa! — contou o menino.
— Esposa? — perguntou surpreso, sabia é claro, que se tratava de uma brincadeira. A garota balançou a cabeça confirmando.
— Não tive escolha…
— Não?
— Ele lutou pela minha mão!
— Ah… Entendo. — Mike ria, outras garotinhas se aproximaram.
— E vocês? — perguntou Mike.
— São minhas esposas também! — falou o garoto.
— Você tem mais de uma esposa? — perguntou Mike com cara de espanto.
— Tenho cinco, eu lutei bravamente por todas elas! — ele estufou o peito carregado de confiança.
“Você precisa me dar umas dicas qualquer dia desses.”
Mike inclinou-se para que o garoto pegasse a maçã. Com certa demora, ele finalmente a pegou.
— Valeu grandão! — Disse o garoto descendo de suas costas com um salto. — “A tribo da lua” será eternamente grata a você!
— Ok, é bom saber disso!
As crianças correram alegres para outro lugar, deixando Mike sozinho com um sorriso no rosto. Teria que voltar para continuar com o trabalho voluntário, mas era difícil resistir a paz e o frescor daquele lugar tranquilo.
ARG!
Berrou ele quando deu o primeiro passo á frente. Algo fino atingira sua perna com muita força. A dor era alucinante.
— Desculpe, não percebi que tinha alguém vindo. — disse a voz de alguém.
Mike sentia algo quente descer por sua perna dolorida. Saindo por de trás da arvore uma garota surgiu. Levava com sigo uma enorme vareta, a culpada do golpe.
— Você deveria olhar para onde você acerta isso, pode machucar alguém! — “Mais alguém”, pensou ele nervoso. Estava doendo muito.
— Desculpe, prometo tentar perceber se vem alguém vindo da próxima vez… Só não posso prometer enxergá-lo. — explicou a garota sorrindo.
Á princípio Mike não entendeu. Depois de alguns segundos sua cara foi ao chão carregado pela vergonha. Não conseguia dizer uma palavra.
— Tudo bem você não sabia, acontece. — falou a garota dando de ombros.
Ela era cega. Mike a primeira vista não tinha reparado, pois a dor em sua perna ofuscara sua visão. A garota tinha olhos perdidos, que não estavam direcionados para ele, mas era impossível notar também a beleza que eles carregavam. Era um verde surpreendente, claros como se possuíssem luz própria.
Possuía um cabelo ruivo ondulado, tão comprido e brilhante que de alguma maneira fazia uma combinação perfeita aos olhos. A pele dela era rosada, “talvez pela constante exposição ao sol”, pensou ele. Os lábios, tão vermelhos que ele jurava que fosse batom, tinham um volume sensual e convidativo. A jovem usava um longo vestido verde com faixas engraçadas amarradas na cintura.
Lembrava muito uma ninfa grega das florestas.
— Está doendo? — perguntou a ninfa fazendo-o despertar de seu sonho — A perna?
— Não. —respondeu automaticamente.
AI!
— Sabia que estava. — riu a garota. Mike se perguntou como ela sabia que o ferimento fora na perna — Melhor sentar, acho que tenho alguma coisa para cobrir o seu ferimento.
Foi então que com um movimento a garota revelou que carregava nas costas um violão amarrado a uma corda, que Mike de onde estava não conseguiu ver o instrumento de primeira. Lá também estava uma bolsa feita com um material artesanal.
Mike sentou lentamente no chão, repleto de folhas secas. A jovem ninfa deu passos calculados para frente e tocou levemente a cabeça dele. Sentiu uma sensação relaxante, sabia que ela fizera isso para localizar a posição dele. Feito isso, ela sentou-se ao seu lado delicadamente.
— Onde está? — perguntou ela com calma.
Mike levantou a calça, o corte estava feio e sangrava bastante. A vara que a garota o acertara era fina e afiada como uma navalha.
— Nossa, posso sentir o cheiro! —comentou a garota fazendo uma careta — Realmente me desculpe.
Ela fez uma expressão triste.
— NÃO FOI NADA! — berrou ele desesperado assustando a jovem — Er… Não foi nada, serio, nem está tão mal!
“Qual é o meu problema?”, ela riu.
Com extrema delicadeza, a garota colocou sua mão no joelho de Mike fazendo-o estremecer imediatamente. Em um movimento ainda delicado deslizou até onde estava próximo da ferida, ele mordeu os lábios com a dor. Rapidamente retirou da bolsa artesanal uma espécie de faixa para feridas, e com cuidado ela o enfaixou dando voltas na perna.
— Você é bem azarado, não é Mike? — falou outra voz que surgia em meio às árvores.
— Sophie! — disse Mike surpreso.
— Você conhece a doutora? — perguntou a garota cega.
— Sim… Já precisei dos seus cuidados algumas vezes….
Sophie era um pouco mais velha que Mike, apesar de não aparentar nem um pouco. Tinha cabelos negros que desciam escorrendo até suas costas. Usava um penteado que valorizava seu rosto angelical de porcelana. Toda vez que a via ele tinha uma leve vontade de desenhá-la. Ela parecia um anjo com aqueles olhos que se espremiam toda vez que sorria.
Era uma pena que toda vez que encontrava a jovem se encontrava em circunstancias nada normais. Todas graças a Richard, a ira em pessoa.
— O que você esta fazendo aqui no parque? — perguntou ela.
— Trabalho comunitário. — respondeu envergonhado. — E você?
— Também, mas estou a serviço do hospital de Newcastle. Uma espécie de estagio voluntário.
— E ela é ótima! — acrescentou a garota ruiva — Muito querida em nosso acampamento.
— Obrigada! — riu Sophie. — Eu encontrei sua irmã em Baltimore, Mike.
— Você foi para Baltimore? — Não poderia estar mais surpreso.
— Sim, lá tem um ótimo hospital especializado na área que quero me formar — explicou — Mas porque você não foi?
— Tive que ficar… por Sarah — falou pensativo.
Sophie olhou para ele por alguns segundos.
— Entendo — disse ela — Bem… Se você está inscrito no trabalho voluntário de verão significa que vamos nos encontrar algumas vezes. Eu sinceramente espero te encontrar inteiro na próxima
Os dois deram uma risada desconcertada. Sophie observou o trabalho da jovem ruiva na perna de Mike.
— Vejo que está em boas mãos — falou — Preciso ir, vejo você por aí!
— Tchau.
Sua cabeça ainda estava presa na parte em que ela contara que viu sua irmã Cherry em Baltimore. O que isso significa? Sophie estava no hospital quando a encontrou?
— Terminei. — anunciou a garota. Mike esquecera completamente que ela estava cuidando do corte.
— Nossa, nem percebi!
— Sou boa nisso, não tanto quanto a doutora, mas dá pro gasto.
Ela abriu um sorriso. Se antes ele não havia notado sua presença , agora sua atenção estava completamente presa á jovem.
O sorriso mais cativante e sincero que Mike já vira. Cheio de uma magia que ele não conseguia compreender. Observou os braços da jovem, sua pele parecia tão limpa e tinha um cheiro forte de perfumes que ele desconhecia, mas que era altamente atrativo para. Nos pulsos ela carregava algumas argolas. “Coisa típica de ciganos”, pensou.
Estava claro que era uma cigana. Não devido às roupas, mas sim no jeito. Até a forma que ela andou para procurar o corte, foi uma dança hipnotizante. Uma vez ele vira algo parecido, em Sarah. Mas ultimamente essa perdera esse mistério, estava mais atraente, mas de uma forma sexual.
— Então… Já sei três coisas sobre você! — Ela o despertara novamente de um transe — Você se chama Mike; está aqui no nosso acampamento como voluntário; e é um tremendo de um azarado.
— É. — afirmou emburrado. — E o seu nome?
— Nady — disse a garota já de pé, o sol que atravessava as folhas tocara os cabelos ruivos dela, era como um rubi precioso. — Acho que nos veremos de novo também… opa, você me verá de novo!
Mike não conseguia rir do humor negro, mas Nadya parecia se divertir com aquilo. A jovem estendeu sua vara comprida e continuou a caminhar tateando os obstáculos à frente.
Um garotinho gritou ali perto.
— A NADYA ESTA VINDO COM A VARA ASSASINA, CORRAM! — berrou o menino para as outras crianças, que correram alegremente como se tudo não passasse de uma brincadeira.
— É MELHOR CORREREM OU EU VOU ENCONTRÁ-LOS! — berrou ela de volta com um sorriso — Crianças…
A voz da garota foi sumindo entre a vegetação do parque. Uma das irmãs começou a apitar seu apito barulhento querendo dizer a todos que era hora de ir. Mike se sentiu em um daqueles filmes de orfanato repleto de freiras. Foi uma grande surpresa quando viu os alunos, que antes estavam calados e mal humorados, conversando alegremente, contando o que viram no acampamento.
— Tenho certeza que aquele cara já esteve na cadeia! — comentou o careca animado, a gordinha de cabelos violeta admirava sua mais nova coleção de brincos e cordões exóticos.
O jovem magro que estava calado no fundo do banco, tinha sua cara toda pintada de algo muito semelhante à cultura indígena, Mike riu. Ficou aliviado em saber que seu carro ainda estava em frente à escola, se despediu rapidamente de todos e em poucos minutos já estava perto de casa.
— Isso está bom moleque, finalmente fazendo algo que preste! —disse Muriel com o garfo na boca. Ele ficou calado. — Como foi o serviço comunitário?
— Trabalho voluntário. — corrigiu ele, pensando nos presos que faziam serviços comunitários a sociedade.
— Tanto faz — resmungou ela voltando a devorar a comida.
— Foi legal, tinha um monte de ciganos. — Muriel riu.
Ela era velha, mas sempre dava boas gargalhadas quando algo a divertia.
— David me contou que você vai tentar arranjar um emprego hoje. Uma entrevista…
— Não é necessariamente um emprego… É um estágio. — corrigiu novamente.
Ele tentaria em uma empresa especializada em vários setores, a maior de Newcastle no ramo.
— Entendo. Você vai imprimir coisas e buscar cafezinho para as pessoas. — disse ela abocanhando um macarrão.
— Provavelmente. Mas, se eu conseguir, muitas portas vão se abrir no futuro… É mais ou menos um investimento.
— Desde que não atrapalhe seus estudos. — Ela bebeu um gole do suco — Pensei que gostasse de artes.
— Gosto, mas não da pra viver disso — disse absorto em seus pensamentos.
Muriel gargalhou.
— Pois eu digo que se eu tivesse uma chance de voltar atrás, eu escolheria ter estudado Artes. Ao menos faria algo que gosto pelo resto dos meus dias.
Mike sabia que sua tia avó também gostava desse meio artístico, quando ele descobrira seu quarto secreto no castelo se deparou com muitos materiais de desenho e pintura. Nunca perguntou sobre isso para ela, nem se quer tocaram no assunto, aquela era a primeira vez.
— Pensei que já fazia algo que gostasse… — “Seja lá o que for isso”, pensou.
— Eu fui enfermeira durante vários anos. Viajei por toda a Europa conhecendo vários tipos de lugares… Mas minha paixão sempre foi a pintura.
Agora Muriel exibia uma expressão pensativa.
— Acho que foi melhor assim — concluiu a mulher dando de ombros.
Mike jamais tocara no assunto sobre família. Nunca entrou nenhuma foto de filhos ou netos. Não sabia que sua tia avó fora casada alguma vez, mas tudo naquela casa indicava que não. A única coisa que ele sabia era a inimizade que existia entre ela e sua avó Anna belle.
— Não entendo — disse de repente — Como uma enfermeira acabou se envolvendo nesse lance de pecados?
Muriel revirou os olhos cansados, mas Mike não considerou um problema tocar naquele assunto.
— Eu já lhe disse que esses conhecimentos eu herdei de minha família, estava nela há gerações! — Muriel apagou seu cigarro — Eu tentei seguir minha vida normalmente, sem nunca precisar usar o que sabia, mas estava enganada.
Ela levantou e caminhou até a janela da cozinha observando o quintal da casa.
— Eu pensava que era algo fora de minha realidade… Meu Deus, como eu era ingênua! Sequer pensei que era algo tão próximo de nós. Onde você menos imagina, existe um pecado, que pode estar influenciando direta ou indiretamente na sua vida.
Mike gastou muito de seu tempo pensando nisso em seus dias, aqueles pecados representavam o mal do mundo. Coisas ruins aconteciam.
Quando estão perto as pessoas mudam.
— Eu tinha que fazer alguma coisa… Fui atrás de minha irmã Ana, mas ela já tinha escolhido outro caminho. Enriqueceu rapidamente, e se tornou uma mulher poderosa, mas sinto arrepios ao pensar o que custou conseguir isso tudo.
Estava claro para ele que sua tia avó tinha um dever, nunca fora sua escolha pessoal, mas teve que seguir aquele caminho.
Depois de muito tempo em seu quarto Mike resolveu descer as escadas. Um tanto envergonhado da roupa que ele usaria na sua entrevista para o estagio. Até a gravata estava lá.
— Agora sim você parece gente! — gritou a velha espantada.
Do fundo da sala vieram assobios e aplausos. David e seus amigos estavam próximos à cozinha, sujos pelo dia de futebol.
— Você ta gatão, heim Mike!? — comentou um jovem loiro, o qual Mike nunca memorizava o nome.
— MAS QUE MER… EU JÁ FALEI PARA NÃO ENTRAREM NA MINHA CASA DESSE JEITO! — berrou Muriel levantando do sofá, em segundos ela empunhava uma gigantesca vassoura, os jovens saíram correndo de medo. — SEUS PORCOS SUJOS!
Mike riu, mas sua atenção se voltou para o espelho da sala, não tinha certeza se aquele visual agradaria mesmo.
— Ficou ótimo, venha aqui. — chamou Muriel estendendo os braços.
Ele se aproximou, mas hesitou quando viu a mulher dar uma longa e demorada lambida nas mãos.
— Só falta ajeitar esse cabelo!
— Não obrigado, esta bom assim. — Muriel, rápida como sempre, passou a mão úmida no cabelo do garoto, que ficou esticado para trás.
Mike fez uma careta “Baba de velha, que delicia”. Ela acenou para ele enquanto deixava a casa. A mulher usava um vestido velho de cor marrom e seus cabelos acinzentados eram uma bagunça só. O nariz era meio retorcido, como de uma bruxa de desenhos animados.
Estava muito adiantado para a entrevista, mas não se importou. Saiu rapidamente da casa, socando alguns garotos que riram do seu cabelo, e em segundos já estava dentro do carro. Ele ligou algumas vezes para Sarah, mas ela não atendeu.
O prédio em que a entrevista ocorreria era o maior de Newcastle. Várias pessoas muito bem arrumadas circulavam constantemente. Ele apanhou sua pasta com seu currículo, David o ajudara a montar todos os dados necessários, seu nervosismo estava insuportável.
— Boa tarde! — falou a secretaria hospitaleira.
— Boa tarde! — respondeu nervoso.
— Veio para entrevista? — ela abriu um sorriso automático.
— Sim.
— Chegou bem cedo, foi o primeiro a chegar. — Ela deu uma piscadinha — Está com sorte, o senhor Robert acabou de fechar um negócio muito importante com um cliente valiosíssimo, e está de ótimo humor. Ele irá entrevista-lo!
— Serio? — O coração de Mike acelerou de alegria.
— Sim, ele está saindo da reunião agora mesmo! — apontou a secretaria para a porta que se abria.
O homem, que Mike julgara ser o tal Robert, saiu com uma cara extremamente animada, era possível escutar o que ele falava:
— A senhora não irá se arrepender! — disse ele animado — Vamos lhe oferecer todos os dados. Além de estarmos à disposição para futuras ideias suas.
O homem conduzia uma pessoa pela mão, como se ela fosse imaculada ou algo do tipo. Mas assim que Mike viu quem era percebeu que a pessoa não tinha nada de imaculada. O medo tomou conta de seu peito e o nervosismo voltou de forma assombrosa. Era sua avó.
— Fico muito feliz em fechar esse negócio com você. É bom saber que nossa pequena cidade está crescendo. Senti-me atraída a confiar em nossos próprios recursos — disse a mulher saindo da sala.
Ana Belle, a avó de Mike, usava como sempre roupas da mais alta costura. Tinha uma cor violeta penetrante de tecido caro. Seu cabelo estava preso em forma de coração. Era uma mulher extremamente poderosa e muito influente.
— Por favor, eu insisto! Se precisar de alguma coisa… — suplicava o homem feito um cão.
— Eu agradeço, foi muito intere… — A mulher interrompeu sua fala quando avistou Mike, que imediatamente escondeu seu rosto com a pasta que trouxera com sigo.
Uma atitude que o fez se arrepender imediatamente. A avó continuou a falar como se não tivesse visto nada. Passaram por Mike ainda conversando, um motorista aguardava por ela na porta com um guarda-chuva preto, mas antes que ela deixasse o prédio o jovem pode ver a mulher acrescentar algo. Não foi difícil entender o que ela estava falando.
— Me agrada muito a sua estrutura e seus funcionários… só espero que não manche essa imagem tão impecável contratando pobres coitados de capacidade tão questionável. — E dizendo assim os olhos da bruxa repousaram evidentemente em Mike.
O homem assustado apressou-se em responder:
— Cla… Claro que não! — gaguejou — Sempre contratamos os melhores! A senhora pode ficar tranquila quanto a isso!
Ela sorriu e em segundos já estava dentro de sua limusine luxuosa. O homem ficou parado a porta esperando a mulher ir embora completamente. Robert passou direto por Mike e sussurrou ao ouvido da secretaria.
Mike já estava de pé, o homem entrara em sua sala. A recepcionista olhou para o rapaz com uma cara triste.
— Sinto muito… — falou a mulher sem jeito.
— Tudo Bem. — Mike tentou sorrir, mas era impossível.
Deixou o prédio.
Esbarrou em três pessoas no caminho, não ligou. Estava com o rosto vermelho e respirava muito rápido. Arremessou a pasta longe e deu um soco no capô do carro.
— DROGA! —gritou com raiva.
Entrou no veículo ainda respirando rápido demais. Seus olhos molhados e repletos de fúria, ninguém nunca o fizera se sentir daquele jeito. Era como se algo tão bom estivesse tão perto, mas fora subitamente tirado de sua frente. Naquele lugar era sempre assim, para ele sempre existia um obstáculo, uma barreira que o impedia de progredir.
Avistou do outro lado da rua um garoto de cabelos acinzentados, que conhecia muito bem. O jovem notou sua presença e sorriu com malicia em sua direção.
— Avareza… — disse baixinho.
Mike abraçou o volante e tentou ao máximo respirar com calma. De alguma forma, ele sabia que tudo tinha haver com eles, “Esses pecados malditos”. Assim como sua tia avó, ele estava sentindo na pele como esses demônios podem influenciar na vida de uma pessoa. Não sabia como, mas tinha a certeza que a culpa era deles. Sua avó estava envolvida naquilo tudo, tinha certeza.
Ligou o carro e acelerou, enquanto o jovem do outro lado da rua o observava partir.
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