Inveja e Avareza

4 Planos e Reencontros


O céu estava escuro, mas sem nuvens. O avião agora voava tranquilamente sem suas luzes piscarem ou suas asas tremerem.

— Já quase posso ver Nova York! — disse Cherry, enquanto estava grudada na janela.

— Arg, vamos parar em três cidades antes de Baltimore! — resmungou Alphonse — Seria mais fácil pegar carona nos raios!

— Nova York, Nova Jersey e Washington. São lugares bem bonitos. — comentou Cherry olhando a revisa de bordo.

— Nova York é uma bagunça! Muita confusão e infantilidade. Os americanos não têm um pingo de classe para se divertir… sem querer ofender Cherry querida. — A garota não parecia ter se ofendido.

— Tudo bem, não me considero americana mesmo — deu de ombros — Estou mais pra marciana.

— Por que diz isso?

— Pode parecer uma sinopse de um filme clichê, mas eu sempre fui uma garota que não se encaixava em lugar nenhum — ela suspirou procurando explicar melhor o que estava tentando dizer — Não sei, eu simplesmente não me identifico com nada!

A jovem perdeu o olhar na janela totalmente pensativa.

— Mesmo conversando e sorrindo para todos eu sinto que estou no lugar errado...

— Cherry querida isso faz todo o sentido! — disse Alphonse espantado, Cherry se assustou com a reação.

— Faz? — perguntou confusa.

— É por esse motivo que você sempre esta zangada e resmungona! — Alphonse olhava para o nada, como se juntasse as peças de um quebra cabeça maluco — Agora tudo faz sentido!

— Você é um louco sem cura, isso é que faz sentido! — resmungou ela dando uma forte folheada na revista.

— Precisamos dar um jeito nisso! — falou Alphonse com uma expressão alegre.

— Não Alphonse, não precisamos — disse ela sem paciência.

— Acho que tenho um plano, pode dar certo…

— Pare de bobagens Al, estou bem assim!

— Não Cherry querida, você pensa que esta! — Ele colocou seu dedo na testa da garota — Eu irei criar um lugar para você, aonde você vai se encaixar perfeitamente!

Cherry olhou bem para Alphonse, como sempre ele afirmava com a maior certeza do mundo. Mesmo que se trata-se de algo absurdo.

— Alphonse é serio — falou ela analisando o rosto do rapaz — Você precisa de cuidados médicos. A sua insanidade não tem limites.

— Eu não estou ouvindo, essa é a “Cherry desamparada” falando!

— Você nem sabe o que significa desamparada.

Mas Alphonse estendeu a mão, como se construísse uma barreira que não pudesse escutá-la. “Muito maduro, depois nós americanos que somos infantis.”, pensou Cherry

Chegaram ao aeroporto de Nova York. O próximo vôo só sairia daqui a duas horas. Alphonse recebera um telefonema e se afastou de Cherry. Foi o bastante para que ela morresse de curiosidades.

Detestava esquentar a cabeça com tão pouco, mas essa era a nova Cherry.

— Desculpe a demora… Meu agente me ligou — explicou ele desanimado — Esqueci que tinha um compromisso aqui em Nova York.

— Compromisso? — perguntou ela aborrecida — Mas estamos indo para Baltimore…

— Eu havia me esquecido de um evento que estava marcado em minha agencia — explicou rapidamente — Não vai demorar muito Cherry querida, você me acompanha?

Ele a olhou com o velho sorriso de sempre.

— Como você pode ter algo agendado para exatamente hoje? — ela simplesmente não conseguia acreditar naquilo — Isso é difícil de acreditar.

Alphonse não teve mais o que falar, simplesmente esperou Cherry descarregar sua frustração.

— Se for mais uns de seus planos malucos…

— Não é! — afirmou — Então o que me diz?

Cherry o encarou sem compreender a pergunta.

— Vai vir comigo? — ele mordeu os lábios — Ou você vai na frente e depois eu pego outro vôo?

— Eu irei com você — disse ela derrotada — Mas que tipo de evento é esse?

— Você vai ver… A limusine esta do lado de fora do aeroporto, vamos logo! — Alphonse a puxou pelo braço.

Pegaram rapidamente suas bagagens e saíram do aeroporto. Não foi surpresa nenhuma para ela quando viu que a limusine realmente estava lá. Um homem jovem e careca saiu da limusine para abrir a porta para os dois, conversava no seu celular e exibia dois brincos que brilhavam de longe.

— Esse é Jerry meu agente. Ocupado como sempre! — riu Alphonse enquanto segurava a porta para Cherry entrar.

O homem desligou o telefone e entrou na limusine, que imediatamente começou a andar.

— Você Al, é um esquecido desgraçado! — falou o careca pegando uma taça de um champanhe que repousava no encaixe.

— Jerry, quero que conheça minha namorada Cherry! — Alphonse apontou para a garota corada ao seu lado.

— Santo Deus então é verdade! — exclamou o homem, Cherry se assustou com a surpresa — Julius havia me contado, mas eu não acreditei… Então Alphonse Asmodeus tem uma namorada!

Ele deu uma risadinha e começou a mexer no aparelho celular.

— Vou ter que cancelar a festinha particular que eu preparei para nós depois do evento. Aquela que eu sempre preparo sabe?

Alphonse tossiu nervosamente fazendo sinais negativos para ele, mas Cherry percebeu e revirou os olhos.

— Preciso ligar para os meus pais— disse ela olhando para rua — Avisar que vamos demorar.

— Ah Cherry querida não fique assim… se quiser eu cancelo e pegamos o vôo de agora! — Alphonse se aproximou da garota e a abraçou — O que acha?

Cherry se livrou de seus braços, mas estava pronta para concordar.

— Ah cara não faz isso comigo! Cancelar um evento beneficente desses! Você quer cortar minha cabeça? — reclamou o homem.

— Evento beneficente? — Cherry olhou para Alphonse com hesitação.

— Sim, o Alphonse vai desfilar em um evento beneficente… Crianças com câncer e essas coisas.

— Mas eu posso cancelar! — Alphonse agora pegou em sua mão.

—Você vai sim! — disse Cherry — Pelas crianças pelo amor de Deus!

O homem careca e Alphonse trocaram olhares confusos.

— Se você faltasse por minha causa eu iria queimar no inferno por toda eternidade — ela cruzou os braços decidida.

Os dois riram enquanto Jerry suspirava aliviado.

— Mas sem festinhas depois. — acrescentou ela.

Não era um pequeno evento como Cherry havia imaginado, era um grande e elegante evento beneficente. Ela avistara no mínimo uns cinco famosos, todos arrumados como se fossem receber algum premio. Alphonse entrara pela entrada dos fundos, junto aos outros modelos. O fato de o jovem ser modelo não deveria deixa-la surpresa. Ele era incrivelmente atraente, mas ela o julgava mal comportado demais para a profissão.

Jerry a conduziu para as primeiras cadeiras, todos os outros lugares estavam lotados. Cherry se sentou completamente sem graça observando como todos estavam bem arrumados e elegantes.

— Isso vai fazer maravilhas com a imagem do Al. — comentou Jerry com uma câmera na mão.

— Imagem? — perguntou ela curiosa.

O homem fez uma careta espantada.

— Não sabe? — perguntou abismado.

— O que?

— Alphonse é uma pessoa muito famosa, no mercado principalmente… — ele molhou os lábios como se fosse fazer um discurso ensaiado — Ele já saiu duas vezes na “People” e mês que vem ele vai sair na Rolling Stone. Apesar dele não estar muito feliz com isso… ele quer uma imagem mais madura e a Rolling Stone só mostra astros e…

— Espera um pouco! — Interrompeu Cherry— Você esta dizendo que Alphonse é uma pessoa famosa? Tipo uma celebridade?

— Sim. ­— afirmou o homem mexendo em sua câmera — “Um dos jovens mais influentes do mundo”, dizem as reportagens. E se Deus quiser ele será mais influente que aqueles príncipes nojentos!

— Mas como eu nunca ouvi falar dele? — Aquela pergunta ela sabia a resposta.

Cherry jamais se interessou pelo mundo dos famosos. Se a perguntassem sobre cantor ou cantora sensação ela não saberia responder, ou talvez arriscasse Madona “Aquela mulher esta sempre na moda”.

As luzes se apagaram. Somente a passarela, que ficava entre as cadeiras, ficou acesa com uma iluminação colorida.

— Por que o Al está precisando disso para sua imagem? — Ela ficou orgulhosa de si mesma por se lembrar desse ponto.

— Bem… digamos que o ano passado foi marcado por muitas transgressões — Jerry estava vidrado na passarela.

— De que tipo? — Cherry tinha que saber.

— As de sempre sabe — ele coçou a cabeça e deu de ombros— Bebidas e festas…

— Mas? — Cherry começou a dizer.

— Mas — ele continuou — Teve uma em particular que foi um pouco demais.

Jerry respirou fundo com a lembrança.

— Ele foi flagrado na cama da filha de um poderoso empresário. E quando eu digo poderoso eu não estou exagerando. Esse cara praticamente faz o dinheiro fluir em Nova York, alem de ser muito influente.

Cherry respirava com dificuldade, não sabia por que, mas aquilo a incomodava.

— O mais estranho de tudo foi que no dia seguinte Alphonse negou tudo, como se não se lembrasse de nada… Foi um pesadelo! — Ela não queria mais ouvir, por sorte algumas jovens começaram a entrar na passarela.

De inicio vestiam trajes de inverno, todas muito bem agasalhadas com as ultimas sensações. Magras e esbeltas, as modelos desfilavam por toda passarela com o olhar fixo em algum ponto que a deixavam serias, mas estilizadas. Depois disso entraram usando menos roupas. E em seguida vestiam biquínis.

— Depois disso é a vez dos homens, creio que Alphonse será o ultimo. Sempre deixam o melhor por ultimo! — disse Jerry.

Depois da ultima garota de biquíni deixar a passarela, a musica e as luzes mudaram. Os rapazes entraram confiantes e olhando para frente. Perto de Cherry um grupo de garotas gritava loucamente. Uma musica eletrônica tocava bem alto enquanto o desfile prosseguia. Não havia sinal de Alphonse ainda.

Cherry notou que ao seu lado havia alguns entendedores de moda, que apontavam e cochichavam frequentemente a cada modelo que surgia. Não conseguia deixar de achar aquilo uma futilidade.

A música finalmente mudou.

Era a vez dos jovens entrarem usando trajes de banho. Eram atraentes, mas Cherry trasbordava tédio. Segurava seu rosto com as mãos e balançava os pés nervosamente, só conseguia pensar se Alphonse estaria conversando com as modelos femininas naquele exato momento. “Pare de pensar nisso Cherry, você esta ficando neurótica!”, pensou. Foi então que o lugar inteiro explodiu em aplausos, uivos, e gritos eufóricos.

Um jovem de cabelos negros caminhava pela passarela de maneira única. Com a confiança transbordando por todos os lados, Alphonse exibia uma sunga preta e um gingado extremamente sensual. Os fleches quase cegaram a todos, muitas garotas gritavam desesperadas e Cherry cobria o rosto rindo envergonhada, “Meu Deus Alphonse de sunga!”. Era uma sunga moderninha que descia discretamente até metade das cochas enormes do rapaz deixando em evidencia algo que ela nunca notara…

— Meu deus que traseiro é esse? — gemeu a garota atrás de Cherry.

Diferente dos outros modelos Alphonse exibia seu costumeiro sorriso conquistador. Com seu corpo propositalmente trabalhado para arrancar suspiro de todos, ele parou no final da passarela e piscou para as câmeras. Cherry revirou os olhos.

Alphonse deu meia-volta, mas parou enquanto caminhava. Bem na frente de Cherry ele levou dois dedos à boca e lhe lançou um beijo aéreo, em seguida continuou a andar de volta para os bastidores. Todos a olhavam.

Cherry foi escorregando da cadeira na esperança que encolhesse de tal forma que ninguém mais a enxergasse, principalmente os milhares de fleches que a fotografavam. “Alphonse um dia você me paga!”

Agora todos os jovens modelos saíram de uma vez aplaudindo dando sinal que o desfile chegara ao fim.

— Vamos, Alphonse esta nos bastidores! — O agente levantou para cumprimentar algumas pessoas conhecidas, Cherry o seguiu.

Quando entrou na cortina a garota pode ver todos os modelos aglomerados falando sem parar. Jerry parou mais uma vez para conversar com um conhecido deixando-a de lado. Cherry pode ver Alphonse de longe, cercado por um grupo de rapazes que o olhavam com grande admiração como se desejassem ser igual a ele. O jovem estava rindo da situação, como sempre encontrava uma maneira de se divertir.

Cherry sorri. Adorava ver que ele estava tão feliz. Os rapazes se distanciaram dando vez para as modelos femininas que o cercaram imediatamente. Alphonse passou a mão nos cabelos tentando parecer descontraído, mas mal controlava o seu ego colossal. Ela sentiu raiva no primeiro momento, todas aquelas jovens se esfregando nele, e uma vontade de ir correndo para lá.

Sua cabeça se encheu completamente de pensamentos duvidosos, mas dessa vez ela se conteve. Tentou escutar sobre o que conversavam, mas todas falavam ao mesmo tempo então era impossível entender qualquer coisa.

Observando as belas modelos conversando com Alphonse ela tentou sorrir. Respirou fundo, fechou os olhos, e abraçou a si mesma em silencio. Cherry tinha noção que não era tão bonita quanto elas, mas ele a escolheu e não tinha com o que se preocupar.

Alphonse desviou os olhos das belas modelos por um segundo. Encontrou, em meio a tanta gente barulhenta, uma garota ali parada. Abraçava a si mesma de um jeito tão perfeito e delicado, e de olhos fechados parecia estar flutuando em um céu de tranquilidade. Seu cabelo caído no ombro esquerdo, tão impecável que completava toda a escultura que aquela garota era.

Seus olhos encheram-se d’água. Sentia-se a pessoa de maior sorte no mundo todo, pois tinha a garota mais perfeita que existia. O barulho ao seu redor foi diminuindo aos poucos, estava longe dali. Respirou fundo para que seu coração não batesse tão depressa, e com um movimento tranquilo Alphonse imitou o movimento de Cherry, abraçando a si mesmo e fechando os olhos devagar.

Entrou junto com ela naquele céu de tranquilidade e segurança. Ela não sabia o que era aquela sensação. Era conhecida, tão quente e calorosa que a fazia se sentir segura. Abriu os olhos lentamente e se deparou com Alphonse fazendo o mesmo. Foi à visão mais linda que ela já teve. Os olhos do garoto, de um negro cintilante, em sua direção com intensidade. Os dois sorriam.

Alphonse deixou as modelos tagarelando sozinhas e seguiu em direção à Cherry. A garota tremia e não sabia por que. Talvez estivesse sentindo o mesmo que ele por conta de seus poderes, mas aquilo a fazia se sentir como se fosse à primeira vez de tudo. Quando naquela noite em que ele aparecera do nada sobre ela, molhado pela chuva e muito nervoso…

Ela sentia tudo o que ele sentia.

— Não me diga que se perdeu Cherry querida? — Alphonse chegara a seu destino e foi ligeiro em pegar a mão da garota.

Cherry olhou para o rosto do rapaz, tão perto dela. A dor de não poder beijá-lo veio novamente, tinha que pensar em outra coisa.

— Arg Al! — disse ela se afastando ­— Você ainda está de sunga!

Alphonse olhou para baixo e riu.

— Gostou? — perguntou baixinho com a voz provocante.

Cherry desviou o olhar como se algo muito luminoso a estivesse cegando. Aquilo a fez corar.

— Vai trocar essa roupa Alphonse! — pediu ela sem graça.

— É verdade, temos que nos apressar para pegar o próximo vôo!

A jovem então voltou para o mundo real. Era verdade, tinha que estar em uma viagem rumo à casa de seus pais, mas ao invés disso estava em Nova York em um desfile de famosos.

— Sem outros imprevistos? — Perguntou Cherry quando os dois retornaram ao aeroporto.

— Prometo! — disse Alphonse.

A viajem fora tranquila. Pararam em Nova Jersey e em seguida em Washington. Ela odiava ter que admitir, mas ter parado em Nova York não foi tão ruim. Agora seu humor estava mil vezes melhor e Alphonse não estava tão agitando. As piadinhas e implicâncias eram consideravelmente menores.

— Chegaremos em poucas horas… Estou um pouco nervosa Al — ela apertou os dedos nervosamente — Você vai se comportar mesmo?

Alphonse estava deitado no colo da garota novamente. Ele gemeu concordando, Cherry tentou ficar satisfeita com aquilo. O avião estava descendo lentamente.

Ela começou a montar em sua cabeça tudo que teria que falar e fazer nas próximas horas. Por sorte o clima estava agradável em Baltimore. O céu muito azul e sem sinal de tempestades. No aeroporto um motorista os aguardava, não que Cherry esperasse que seus pais estivessem lá, pois estavam em custódia, mas havia alguma esperança.

— Droga, Mike podia ter vindo! — resmungou ela enquanto pegavam à bagagem.

Alphonse a envolveu com um de seus braços.

— Esquece isso Cherry, estou morrendo de fome!

— E eu com isso? Você não para de comer um minuto, parece um esfomeado!

— Eu tenho que manter isso aqui meu amor! — Ele beijou seus músculos.

— E perder isso aqui! — apontou Cherry para a cabeça do rapaz.

No carro, ela tentava se concentrar nas coisas que teria que omitir. Muita coisa que acontecera em Newcastle por exemplo.

— Alphonse isso é serio! — insistiu nervosa — Como vou… Omitir certas coisas?

— Só diga que me conheceu na escola. Sem conteúdos adicionais.

— Você não conhece minha mãe, ela extrai as coisas de mim!

— Vai dar tudo certo. Já estou me cansando de falar isso. — bufou ele.

— Então não fale se não for verdade!

—Mas é verdade! — gritou sem paciência — Você me deixa alucinado com essa sua neurose!

— Olha estamos chegando! — disse ela desviando o assunto.

Tudo ficou tão mais tranqüilo e sereno quando ela viu as velhas árvores de sua infância. Quando andava com seu triciclo rosa e cheio de fitas cafonas por toda a rua. Naquela época ela vivia em um mundo imaginário, admirando cada canto daquela rua mágica. Tudo era repleto de cheiros fortes e maravilhosos. Sonhava que seu príncipe encantado se escondia em algum canto daquele lugar e ela precisava encontrá-lo. “Pequena princesa do triciclo rosa”, era assim que seu pai a chamava.

Cherry sorria enquanto olhava pelo vidro do carro. Eram boas lembranças.

— São tantas lembranças… — Sussurrou ela.

Alphonse a envolveu com seu braço como sempre fazia. Ela se acomodou. “Já encontrei meu príncipe” riu.

— O que foi? — Perguntou ele em seu ouvido.

— Nada. Só um pensamento clichê que eu tive agora.

O carro parou em frente à gigantesca casa branca com o maior jardim da vizinhança. Alphonse saiu primeiro, atropelando Cherry.

— A educação mandou lembranças! — resmungou ela.

— É grande e bonita, essa sua casa. — analisou ele — Mas eu compraria uma maior.

— Do tamanho do seu ego eu imagino? — Ela passou por ele marchando até a entrada da casa.

A porta gigante de madeira estava lá. Lembrou-se das vezes que Mike a acertara com sua bola de futebol, ele correra um quarteirão inteiro para fugir do pai nervoso. Cherry se acabou de rir naquele dia é claro.

Havia um conversível estacionado perto da casa que ela não conseguia reconhecer. Alphonse bateu na porta fazendo a jovem saltar de susto.

— Você parecia paralisada! — sussurrou ele.

Ela respirou fundo e girou a maçaneta, mas a porta abriu antes que a jovem pudesse prosseguir.

— Alphonse!

— Daniele! — exclamou o rapaz para a mulher que abrira a porta.

A mãe de Cherry aparentava ter uns trinta e poucos anos e irradiava uma energia que poucas pessoas possuíam. Tinha cabelos castanhos que desciam delicadamente até suas costas, eram bastante compridos e claros. Sua pele era branca. Seus olhos castanhos e luminosos pareciam enxergar a alma da pessoa.

Usava uma saia que descia até seus tornozelos, estava descalça é claro. “Mãe natureza” era como Mike e muitos outros a chamavam.

— Oi mãe. — gemeu Cherry, tentando marcar alguma presença na visão da mulher.

— Oh Cherry! Querida seu cabelo esta tão cheiroso! — cantarolou a mulher.

— Valeu, então… você e o Al já se conhecem? — Ela não havia se esquecido do que acabara de ouvir.

— Seu namorado e eu nos comunicamos por algum tempo. Ele é uma doçura de pessoa!

Tudo o que Cherry pode fazer naquela hora era encarar Alphonse. Não sabia que atitudes tomar por saber que ele e sua mãe se correspondiam secretamente. “Nas minhas costas!”.

— Você vai entender Cherry querida, acalme-se! — apressou-se Alphonse em se explicar.

— Eu estou calma. — mentiu ela, como uma predadora mortal. — Mais alguma coisa que eu não sei?

Ele riu nervoso, sabia o que viria a seguir. A mãe de Cherry exibia um sorriso perpétuo enquanto os observava.

— Meu Deus minha filha, você excedeu todas as minhas expectativas quanto a arrumar um bom par! — falou a mulher maravilhada com Alphonse — Eu tenho que admitir que, cheguei a pensar que você seria uma daquelas mulheres que usam repelente contra homens…

— Senhoras e senhores, minha mãe começou! — resmungou Cherry colocando a mão no rosto — Podemos entrar agora Daniele?

— Ah sim, claro! Que indelicadeza a minha! — ela se dirigia somente a Alphonse, Cherry entrou mesmo assim.

— Papai! — gritou ela quando avistou o homem parado no meio da sala.

Deixou suas coisas no chão e foi em disparada para os braços de seu pai. Cherry não queria ter corrido tão rápido, mas foi um impulso do momento. O homem foi pego de surpresa.

— Querida, que saudades de você! — disse baixinho emocionado.

— Ah pai, você chorando?

— Quem esta chorando aqui? — mentiu.

Os dois riram e continuaram se abraçando. Cherry se sentia tão bem com seu pai.

— Esses dois… — Sorriu a mãe — Sempre foram tão apegados.

Alphonse levantou as sobrancelhas, Cherry ainda abraçava o pai.

— Eu acho… que vai ser único homem que eu vou permitir que abrace Cherry desse jeito! — admitiu Alphonse. A mãe de Cherry riu.

— Como se você tivesse escolha, não é?

Ele riu envergonhado.

— Fiquei feliz em saber que poderia ver vocês! — falou a garota se distanciando do pai — As coisas estavam bem feias quando eu deixei o país...

O pai de Cherry cruzou os braços com certo nervosismo.

— E estavam, mas graças a seu namorado conseguimos aliviar as coisas. — disse seco lançando um olhar em direção ao jovem.

— Alphonse? — espantou-se Cherry.

Ela suspeitava disso, mas agora tinha certeza. Talvez ele tenha comentado alguma coisa, mas ela não tinha certeza disso.

— Mas poderíamos ter resolvido sem ajuda... — resmungou o pai.

— Hector! — A mãe chamou a atenção de um jeito descontraído.

— Eu não posso levar o credito. Não todo. — disse Alphonse — Parte dele se deve a maravilhosa advogada que eu contratei!

— Oh, ela realmente é incrível Al! — concordou Daniele. — Onde ela esta Hector?

— Foi imprimir alguma coisa em nosso computador. — respondeu serio.

A porta do corredor se abriu.

Cherry esquecera como sua casa era grande. Havia tantas portas e corredores que quando a luz acabava ela entrava em pânico, pois se sentia em um labirinto.

— Prontinho! Aqui estão os dados de que eu precisava! — cantarolou a mulher que saíra da porta.

Uma loira alta e que usava um rabo de cavalo caminhou até eles. Era muito atraente para ser advogada.

— Cherry, essa é nossa advogada Penny! — apresentou Daniele.

A mulher piscou para Cherry, e uma estranha sensação familiar invadiu a garota. As duas se cumprimentaram emulando sorrisos.

— Graças a Penny nossa situação melhorou muito mesmo. Podemos receber visita de vocês dois uma vez por mês! — disse a mãe a alegre.

— Mas ela aconselhou que você e seu irmão continuassem a morar em Newcastle… — completou o pai.

— É por segurança senhor — explicou Penny — É muito arriscado mantê-los aqui… As chances de vocês sofrerem ameaças são enormes!

Cherry lembrou-se que o problema era grande. Uma enorme confusão com muito dinheiro envolvido. Seus pais trabalhavam em uma empresa multinacional bilionária, e descobriram que uma grande quantidade era desviada para contas fantasmas em outros países. Muitos funcionários importantes iguais aos pais dela também foram detidos até que o FBI descubra o que realmente aconteceu.

— Descobrimos certas coisas que não batem com o que vocês foram acusados. Certos espaços em branco, como se fosse propositalmente postos. — falou Penny — Creio que alguém muito poderoso esta por trás disso. E usou de seus funcionários confiáveis como bode expiatório!

Agora Cherry tinha certeza que conhecia aquela mulher, mas onde? Era familiar demais, não sabia o que era, mas sentia que era alguém muito próximo. Seus olhos bateram no braço da advogada, repleto de pulseiras luxúosas. Apesar de ser um exagero lhe caiam perfeitamente bem…

— JENNY! — berrou Cherry, todos a olharam.

Ela tossiu.

— Jenny… Minha amiga tinha uma teoria muito parecida com essa! — riu envergonhada. A mulher deu outra piscadinha para Cherry, e quando sua atenção se voltou para Alphonse ele estava rindo. “É ela!”, concluiu.

— Bem… o jantar esta quase pronto. Você vai se juntar a nós Penny? — perguntou a mãe dando palminhas.

“Penny” escutou Cherry. “Ela só trocou o J pelo P”, pensou consigo mesma.

— Não posso. Tenho outro compromisso, mas fica para uma outra hora? — A mulher se desculpou delicadamente e estava pronta para partir. — Cherry você me acompanha até a porta?

— Claro! — respondeu, percebendo o que isso significava.

Ninguém pareceu achar estranho o pedido. Em um mundo normal nada daquilo faria sentido. Jenny era uma garota de quinze anos de idade e nunca poderia ser aquela mulher loira aparentando uns vinte e poucos. “Mas não era um mundo normal…”.

Jenny tinha os poderes do pecado gula. Ela podia criar uma copia sua do jeito que quisesse independente de idade, segundo a própria Jenny, ela possuía varias espalhadas pelo mundo.

Já fora do alcance do restante das pessoas, Penny parou.

— Cherry amiga, que bom que você descobriu! Ia ser meio estranho ter que te convencer. — A mulher disse aquilo como se fosse uma adolescente de quinze anos.

— Jenny… Você é advogada dos meus pais? — perguntou Cherry preocupada.

— Relaxa “Ché”! Para sua informação eu sou formada em Harvard e sou muito conhecida. Já ganhei vários casos! — se gabou — Sou ótima!

Cherry ficou espantada.

— Nossa… Harvard?

— Harvard. — disse novamente.

Ela parecia uma versão adulta de Jenny. Seus cabelos loiros e belos que desciam em espiral, as joias exageradas. Provavelmente seria assim que a jovem pareceria daqui a alguns anos.

— Alphonse já precisou da minha ajuda uma vez aqui na América. Então ele me contatou e explicou o caso… Admito que seja o mais difícil que eu já peguei, mas vamos dar um jeito nisso.

— Nossa Jenny, quer dizer Penny... Eu nem sei como te agradecer!

— Na verdade Cherry, eu pedi para que você me acompanha-se até a porta para brigar com você!

A garota não entendeu.

— Brigar?

— Alphonse me contou que você anda neurótica ultimamente com algumas coisas.

— Ele te contou? — Cherry estourou.

— Não com essas palavras… Mas eu interpretei desse jeito, e se acalme!

Cherry respirou fundo.

— O que esta acontecendo Cherry? Você me ligou compulsivamente nessas semanas, tudo por que Alphonse se ausentou por alguns dias.

Ela tinha que se acostumar com o fato de que estava conversando com a Jenny, sua amiga.

— Você anda cismada com as coisas — a mulher cruzou os braços — Fica cheia de pensamentos duvidosos!

— Tenho os meus motivos! — resmungou ela.

— Será que tem mesmo Cherry? — indagou Penny— Pois pra mim você só esta buscando uma desculpa para brigar com ele, não sei… Desculpa ter que te falar isso, mas ele já não te provou o bastante?

Cherry estava recebendo o maior sermão, não sabia o que dizer. Jenny estava a par de tudo o que estava acontecendo nos últimos dias.

— Você não entende Jenny, não é a mesma coisa! Eu sei que ele se sacrificou por mim — ela hesitou procurando as palavras — Me sinto uma estúpida, eu sei, mas não… não tenho um chão!

— Do que você esta falando?

— Jenny… ­— Cherry se esforçou— Amar o Alphonse é como se você estivesse na beira de um precipício. Não existe uma ponte para atravessar. Nem ao menos uma corta, um barbante! Não há chão.

Ela queria que a amiga tentasse entender sua explicação. Era fácil torcer para que os dois fossem felizes para sempre, mas Cherry tinha uma outra visão daquilo tudo.

— Eu tenho que simplesmente me jogar no abismo? Eu não sou assim. Gosto de segurança.

A mulher a olhou com paciência. Respirou fundo também e tentou sorrir para que conseguisse consolar a amiga.

— Cherry… Nem sempre na vida nós temos um caminho seguro e iluminado para atravessar. Às vezes temos que nos arriscar seguir as escuras! Sem garantias de se ganhar o premio no final. Fazemos isso pelas coisas que realmente valem à pena.

A garota olhava para seus pés evitando olhar para Penny, era um conflito interno.

— Você estava tão segura, o que houve? — tentou a mulher — O que te fez entrar nesse conflito todo? Tenho certeza que algo te fez pensar assim… Ou alguém.

— Não foi nada. Eu só estou nessa fase agora — ela suspirou desanimada — E esta difícil de sair.

— Eu odeio ter que ser dura com você Cherry, odeio mesmo. Mas se você não sair dessa fase o quanto antes, vai perder o Alphonse! — Penny encarou Cherry cabisbaixa. — Talvez seja isso que você quer… — completou Penny.

— Não é!

— Eu tenho que ir… nesse corpo eu tenho marido e filhos. Venha me visitar qualquer dia desses! — falou a mulher saindo da casa.

— Iria ser bem estranho…

— Mas divertido também! — riu, e em seguida entrou no seu conversível.

Cherry foi para sala onde todos a esperavam. Seu pai fuzilava Alphonse com os olhos. Ela engoliu em seco.

— Você tem uma visitinha surpresa Cherry! — anunciou a mãe sorrindo.

E da porta numero dois saiu uma garota de cabelos longos e negros.

— Cherry! — berrou ela correndo para abraçar alguém.

— Rebecca! — respondeu Cherry surpresa, recebendo o abraço.

— Quanto tempo garota! — disse a jovembalançando o pescoço.

— Você estava esse tempo todo escondida lá dentro?

— Sabe como gosto de fazer surpresas!

Rebecca era uma velha amiga de Cherry. Há um ano teve que se mudar para outro estado e desde então se correspondiam por e-mail.

— Você não mudou nadinha! — comentou Cherry observando o visual da amiga. Braceletes no braço e mechas rosada no longo cabelo, essa era a Rebecca de sempre. Excêntrica.

— Não posso dizer o mesmo de você. Está tão... — A garota a olhou de cima em baixo — Normal.

Cherry deu de ombros não se importando muito com o comentário. Ser normal não era um problema para ela.

— E seu cabelo está tão cheiroso! — Rebecca fez uma careta.

— Foi o que eu disse pra ela! — Se intrometeu a mãe.

Cherry revirou os olhos.

— Essa é a nova Cherry. Normal e sem grassa! — respondeu teimosa.

A garota nunca comentara com ninguém de Newcastle como ela era ha um ano atrás. Tratava-se de um passado que ela enterrou.

— Mas você esta tão linda também… dá até medo! Que tipo de “macumba” você anda fazendo? — perguntou Rebecca brincando. Cherry riu também.

— Nossa você saiu de Los Angeles só pra me ver?

— Assim que fiquei sabendo que você viria para cá eu arrumei um jeito de pegar o vôo mais cedo que tinha!

— Ficou sabendo… — Cherry olhou para a mãe, que se entregou imediatamente.

— Eu achei que seria bom as duas se lembrarem dos velhos tempos! — falou Daniele. — Mas vamos continuar a conversa na mesa, durante o jantar!

Rebecca avançou na frente de todos, “sempre fora esfomeada”, pensou Cherry. Alphonse passou o braço envolto dela, sua confiança nas alturas.

— O que foi? — perguntou quando viu a expressão preocupada de Cherry.

— Al, você sabe como eu sou mal humorada? — perguntou ela — Teimosa e insuportavelmente desconfiada das coisas?

— Sei. E eu adoro isso em você! —sussurrou ele, pegando no queixo da garota.

— Ótimo, agora multiplique isso tudo por dez. Esse é meu pai! — encarou Cherry.

Alphonse arregalou os olhos.

— Escolha bem as palavras que você vai usar Alphonse. Por favor! — suplicou.

— Ok pode ficar tranqüila, minha cerejinha! — E depois de sussurrar pela ultima vez, ele adiantou o passo para se sentar a mesa.

A mãe dançava enquanto colocava o restante da comida. A mesa era enorme e retangular. Os pratos estavam perfeitamente colocados, como sempre Daniele fazia. Muito do que tinha sido servido liberava uma fumaça própria, o cheiro invadia as narinas de todos com violência.

— Como sempre Daniele caprichou na comida. — comentou o marido serio.

Daniele ria confiante de seu feito.

— Minha paixão secreta! — disse animada — Desde pequena sempre gostei de cozinhar. Tentei ensinar a Cherry, mas é teimosa igual ao pai!

Os dois criticados ficaram sem expressão. Alphonse bateu sua mão na cadeira ao lado, indicando que Cherry deveria sentar ao seu lado. Haviam muitos outros lugares vazios, mas todos procuraram se sentar próximos.

— Sem gracinhas! — sussurrou nervosa. Ele fez sinal de “OK”.

Hector tossiu em alto e bom som, Cherry deduziu que a tortura começaria logo. Alphonse não demonstrava nenhuma preocupação, como sempre.

O pai de Cherry era uma versão crescida de Mike. Diferente de seus filhos ele tinha olhos negros, um tanto cansados, e seu físico não perdia em nada para os jovens de hoje em dia. Sempre incentivara os esportes para seus filhos, apesar de não desejava que aquilo virasse um futuro, sempre deixava claro que era algo importante na vida. Uma coisa saudável apenas.

A expressão que sempre carregava era de ser um homem preocupado. Quando Cherry e Mike eram crianças, seu pai era mais alegre e feliz, mas quanto mais cresciam sua expressão mudava. Certa tristeza dominava sua face. Uma preocupação eterna. Ele sofria com o desenvolvimento de seus filhos.

Foi Rebecca que quebrou o silencio sufocante.

— E então Alphonse, soube que você é modelo! — O garoto tinha um pedaço de frango na boca, então só gemeu concordando. A garota riu.

— Você pretende seguir carreira com isso? — Todos olharam para Hector, que começara a falar. Cherry respirou fundo, “Meu pai começou”.

Alphonse engoliu a comida.

— Não. Na verdade realizo pouquíssimos trabalhos como modelo! Só quando é estritamente necessário, ou quando meu agente insiste. — Alphonse disse tudo muito rápido, e voltou a comer.

— O que você faz exatamente? — insistiu o pai.

Alphonse parou de comer novamente, como se não esperasse ser incomodado outra vez.

— Bem… como você deve saber eu herdei tudo o que minha mãe me deixou. Suas economias, negócios, investimentos… Eu tenho que gerenciar tudo isso!

— Mas você só tem treze anos, como faz isso? — Todos olharam para Hector novamente. Ele exagerara propositalmente na idade de Alphonse.

— Tenho dezessete. Meus pais adotivos me ensinaram tudo obre esse meio, aliás, vou fazer dezoito em pouco tempo então serei mais independente financeiramente. — respondeu calmamente.

— Cherry querida. Quantos anos você tem mesmo? — perguntou o pai, fingindo estar distraído.

A garota pulou quando escutou seu nome.

— Dezesseis, mas vou fazer dezessete em outu..

— Muito nova! — interrompeu. — Deveria namorar rapazes da sua idade, ou não namorar!

Cherry bufou. A mãe tossiu para falar.

— Como são seus pais adotivos Alphonse? — perguntou.

— São muito ocupados. Tem seus próprios negócios, sabe? — Alphonse devorou outro pedaço do frango — Ficaram comigo por que eram meus parentes mais próximos. São meus primos, creio eu.

Daniele balançou a cabeça mostrando interesse.

— Nossa, mas isso aqui esta bom demais! — elogiou com naturalidade — O frango esta delicioso!

— Minha mãe não come carne. — acrescentou Cherry.

— Mas isso não me impede de prepará-lo para os outros! É tão bom ver alguém satisfeito! — disse sonhadora. — Eu tentei transformar meus filhos em vegetarianos também, mas fracassei novamente.

— Isso não faz sentido mãe — disse Cherry, que abocanhou um bife na mesma hora.

— Eu tentei ser vegetariana, mas me rendi à tentação da carne! — riu Rebecca para todos, que não se sentiram tão á vontade com a piada, com exceção de Alphonse, que também riu abobado. Entendendo mais do que havia para ser entendido.

— Seu aniversario é em outubro? — perguntou Alphonse.

Cherry se surpreendeu com a pergunta repentina.

— Sim.

— Qual dia?

— Vinte. — Ela se arrependeu totalmente de ter dito. Sua expressão era de quem recebera uma informação valiosíssima.

O pai de Daniele desistiu de questionar o garoto por um tempo, mas a mãe de Cherry insistira em criar algum assunto.

— Então Alphonse, o que gosta de fazer para se divertir?

Cherry se remexeu em sua cadeira.

— Alem de ficar com sua filha? — perguntou Alphonse.

Daniele e Rebecca riram. Cherry estava paralisada olhando para seu pai, que fechara os olhos em algum tipo de meditação.

— Bem… Eu gosto de escutar musicas, ler alguns livros!

— Oh! Que magnífico! Quais autores você lê? — perguntou a mãe interessada se debruçando sobre a mesa.

Cherry rezava em seus pensamentos. “Por favor. Alphonse minta, MINTA!” suplicava.

— Eu gosto de ler D.H Lawrence, Nancy Madore… E ultimamente tenho lido Nancy Friday! — contou o jovem.

Cherry afundou na cadeira aos poucos quando escutou os nomes, todas autoras de livros eróticos. Rebecca estava pensativa.

— Mas essas não são escritoras de contos eró.. — começou a perguntar Rebecca.

— Você gosta da Nancy Madore?! — A mãe de Cherry interrompeu Rebecca eufórica. Hector engasgou com o vinho que estava bebendo. — Ela é a rainha da sensualidade!

— Eu sei! — concordou Alphonse animado — “Encantada” é meu livro preferido dela!

— E “Encantada de novo” não perde em nada! —continuou Denise — A “trilogia da bela adormecida”! — derreteu-se a mãe.

— Instigante! — concordou Alphonse em êxtase.

— Eu não sabia que havia uma continuação. Sempre achei que o príncipe a beijava e que todos vivessem felizes para sempre! — falou o pai tentando participar do assunto.

Mas Cherry sabia exatamente do que se tratava e agradecia aos céus que seu pai fosse menos amigável com os livros, igual ao seu irmão Mike. Sabia é claro que Nancy Madore era famosa pelos seus “contos de fada eróticos.” Depois de ler um de seus livros nunca mais conseguira assistir “A Bela e a Fera” com os mesmos olhos.

O jantar teve finalmente o seu fim. Rebecca subiu as escadas dizendo precisar de um bom banho. Alphonse teve que fazer algumas ligações importantes do lado de fora da casa, e seu pai cochilava na poltrona da sala.

— Cherry querida. Podemos conversar? — perguntou a Mãe voltando da cozinha.

— Claro — concordou a garota.

Ela acompanhou a mãe até a cozinha e trancou a porta. Daniele estava sentada em uma cadeira de madeira perto a geladeira. Estava com seus cabelos amarrados e segurava um caderno violeta.

— Droga! —reclamou Cherry.

— O que foi?

— Sabia que tinha esquecido alguma coisa!

— O que esqueceu?

— Meu caderno de anotações… — resmungou.

Daniele sorriu, com menos entusiasmo dessa vez.

— Tenho certeza que você vai lembrar-se do essencial.

— Sim — respondeu Cherry desanimada.

— E então…? — esperou a mãe.

Cherry puxou uma cadeira e se sentou, também cruzando os braços.

— Tudo aconteceu exatamente como você previu — disse a garota direta. — Nosso plano de enganar a todos ocorreu perfeitamente!

E dizendo assim a mãe abriu um sorriso vitorioso, agora para escutar tudo o que Cherry tinha para lhe contar.