Invasão dos Portais - Ato 1
5 Capítulo 5 - Testes
Notas iniciais
Jasmine exibia uma pequena preocupação em seu olhar. Estava na cara que ela ficaria muito mais confortável se Ronaldo fosse junto.
—Por quê ele não pode ir comigo? – Perguntou repentinamente, saltando da cadeira.
Enquanto Ronaldo esperava uma resposta qualquer, que só ressaltaria o fato de que os agentes escondem muita coisa dele, o agente afirmou:
—O chefe está vindo para conversar com ele.
O agente era alto, usava um óculos escuro e um paletó elegante. Jasmine se assemelhava a um pigmeu perto daquele misterioso homem. Tinha corpo ereto, e determinação ao falar. Era o tipo de agente que Ronaldo agradecia por não ter virado. Aquilo tudo era... Ridículo. Afinal, Ronaldo era um adolescente, e não queria ter que usar um paletó em suas horas de trabalho, nem ter que falar de um jeito tão formal e entediante.
O agente misterioso — que encarava a pequena criatura, contendo seu espanto de ver algo tão surreal — tinha uma pistola em seu bolso. Ronaldo não estremeceu, os agentes não eram seus inimigos. Ele se virou pra Jasmine e a chamou. Quando ela se aproximou, o agente deixou cair toda sua máscara e toda sua formalidade, e assim, perguntou com um sorriso, agachando em cima dos joelhos:
—Olá, qual é o seu nome?
—Jasmine – ela respondeu, se escondendo lentamente atrás de Ronaldo.
—Não precisa ter medo – falou ele, ao perceber a apreensão de Jasmine, sem tirar o sorriso do rosto – você fará testes simples, sem perigo nenhum, vamos, me acompanhe!
Jasmine ainda desconfiava. Mas Ronaldo assentiu com a cabeça, para transmitir a informação que nada de mal ia acontecer com ela. O que a fez dar um passo pra frente. O agente se virou bruscamente, como se tivesse completado o objetivo de conquistar a confiança da criatura, e saiu andando, com a pequena criatura em seu encalço. Quando Ronaldo olhava ambos se afastarem, Mark, seu chefe, veio na direção oposta, ao seu encontro, para falar com ele.
Mark não era gordo, nem magro, alto, nem baixo, nenhuma característica física revelava que ele era o chefe da maioria dos agentes da ASOECD. O que acusava de seu poderio na agência, era sua psicologia. Com características que iam de impaciência até a malandragem, ficava claro que ele era um típico chefe de empresa, que demonstrava preocupação com o trabalho, porém, acabava propagando a felicidade de estar comandando um esquadrão inteiro, na agência mais secreta do país.
Ele vinha do rio com um sorriso, cumprimentou o misterioso agente que acompanhava Jasmine até os testes, e quando percebeu a pequena criatura de outro mundo, fez uma pequena careta de espanto. Ele fitou ambos andando pro elevador secreto da agência, como se estivesse deixado de lado o que iria falar para Ronaldo — que não perdeu tempo, e correu até Mark.
—Vamos juntos com eles certo? – perguntou Ronaldo, se referindo a Jasmine e ao agente de paletó, que iriam para a sala de testes.
—Não, quero falar com você primeiro — Falou o chefe, mergulhado em seus pensamentos, olhando para a margem do rio, onde Jasmine e o agente tinham desaparecido.
—Eu quero ver como ela vai se sair nos testes – falou Ronaldo rapidamente, demonstrando grande angústia.
O chefe, como se estivesse percebendo que precisaria convencer Ronaldo a ficar e deixar Jasmine de lado, deixou de olhar fixamente o rio, e olhou nos olhos do pequeno agente, que estava transbordando de ansiedade. Cada segundo para ele sem a Jasmine por perto era como se ela corresse o perigo de morte. Procurando falar algo que anulasse tal inquietude de Ronaldo, falou com firmeza:
—Você quer saber o que aconteceu na madrugada certo?
Ele o fitou, achando que toda a preocupação de Ronaldo com a pequena criatura fosse substituída pela curiosidade, e pela vontade de Ronaldo descobrir do motivo de quase ter levado um choque na madrugada anterior. Mas o pequeno agente estava determinado.
—Eu posso saber depois – falou
O chefe suspirou, olhou para o dia que estava clareando. E olhou para o relógio. Tinha que ser cauteloso. Ninguém o podia ver ali. Sabendo que teria que levar Ronaldo junto para os testes, virou o rosto para o rio, e com uma expressão carrancuda, começou a caminhar até lá.
—Trabalhar com criança é fogo – falou, enquanto se afastava
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Ronaldo. Ele não se importava com esse tipo de coisa que o chefe falava. Já tinha se acostumado. Ele estava feliz por ganhar a luta. Verificar os testes que Jasmine teria que enfrentar era importante para ele. E logo tornou a andar pro rio.
Seus pés afundavam na lama. E observou seus companheiros caminhando mata adentro. Era um bom esconderijo... Mas poderia levantar suspeitas. “Tenho muita sorte”, pensou Ronaldo. “Qualquer metido á toa poderia me ver andando até a agência, e assim, descobrir a localização da entrada”. Mas nesses três anos que se passaram, nenhuma suspeita foi levantada. Era de se estranhar.
ӝ
O salão principal estava cheio, como de costume. Centenas de vozes podiam ser ouvidas. Jasmine admirava o lugar, e sentia muita nervosidade. Dezenas de olhos viravam-se para ela, e se sentia incomodada. Jasmine era tímida, e não gostava de ser o centro das atenções.
O agente de paletó pegou um segundo corredor logo adiante, se direcionando pro lado direito da sala.
Tal corredor era menos restrito, continha cafeteria, sala de arquivos, e tudo que uma grande empresa tem. Ronaldo fitava a porta da sala de arquivos, que não só continha fechadura com senhas, como fechaduras para chaves comuns. Era dali que os arquivos e relatórios vinham. E Ronaldo se sentia incomodado por nunca conseguir entrar naquela sala. Dentro podiam-se ver inúmeros armários, todos protegidos com MAIS senhas. Ele estremecia só de pensar em todas as informações confidenciais que tinham ali. “Informações que nem eu posso ver”, pensou.
Com uma curva brusca, o agente entrou em um corredor mais isolado, seguido de Jasmine, Ronaldo e seu chefe.
Mark não deixava de seguir o grupo. Ele era o tipo de chefe que gostava de analisar a situação dos testes, e ao contrário de patrões que ficam atrás de uma mesa com arquivos, sempre procurava testemunhar as causas estranhas e missões que seus agentes participavam. Na verdade, aquele era um chefe bem diferente.
Ronaldo se lembrava de suas aventuras, sempre com Mark inspecionando ou se intrometendo no serviço.
Mas seus pensamentos foram interrompidos quando o agente de testes falou algo incompreensível, e parou em uma porta com tais dizeres em seu vidro: “Sala de Testes, somente pessoas autorizadas.”
—É aqui – falou, enquanto passava sua digital na identificadora.
Era de se estranhar que uma sala de testes fosse tão sigilosa.
A porta se abriu após um pequeno ruído de identificação. A sala continha sofás e um vaso. Na parede oposta, havia uma grande janela de vidro, que possibilitava a observação dos testes que seriam aplicados a Jasmine.
Um pequeno corredor localizado no canto da sala ligava a sala de espera até a sala de testes.
Mal pode pensar em quão a sala era modesta quando um pequeno homem com cabelos e bigodes brancos — com cara de cientista louco — venho andando desajeitosamente do pequeno corredor. Ele forçou a vista para identificar os presentes, e com uma cara de espanto, encarou Jasmine por vários segundos.
Enquanto o cientista, narigudo e com o cabelo desgrenhado, observava Jasmine, a mesma, com seus grandes olhos assustados, encarava o cientista com desgosto.
Não dava pra saber qual dos dois era o mais bizarro.
—Certo... – falou o cientista – ele... Digo, ela... É... UM ESPÉCIME PARA EU ANALISAR!!
Empolgado, como se fosse fazer um feito grandioso, andou anisosamente de um lado pro outro, esfregando as mãos. Quando finalmente se dirige para a pequena sala de exames, abre gavetas aqui, abre gavetas acolá, se arruma, e volta estendendo a mão, convidando Jasmine a entrar. Ela recua, ao descobrir que ia sozinha, mas com um pequeno gesto com a cabeça do cientista, Jasmine entende que é para confiar. De surpresa, o pequeno cientista aponta o seu dedo para cima e diz:
—É um ser esperto, não só tem desconfiança quanto entende um assentimento com a cabeça, anotarei isso!
Como se tivesse feito uma descoberta incrível, volta pra sala esfregando as mãos, seguido de Jasmine, que ás vezes virava a cabeça bruscamente para conhecer o local. O chefe e seu assistente já estavam de partida.
—Cuide bem do pequeno ser Ronaldo. Depois passe o resultado dos exames, nós arrumaremos o jeito correto de abrir de novo o portal dela.
“O chefe sempre testemunha os testes, por quê foi embora agora?” pensou Ronaldo.
Mas logo teve sua atenção tirada pelo cientista que demonstrava um pouco entusiasmado. Com o chefe e o agente indo para outro lugar, tudo que ele podia fazer era espiar pelo vidro da sala de exames, e ver o que aquele cientista iria aplicar em Jasmine.
Ronaldo percebe que Jasmine está um pouco agitada.
—Como era seu mundo, minha pequena? – indaga o cientista, enquanto verificava sua pulsação
—Era... Legal... – Jasmine falou, que observava cada movimento do cientista
—Como o nosso não é? – O cientista abriu um pequeno sorriso, o que tranqüilizou Jasmine.
—Sim... Pra falar a verdade, é igual, tirando as construções e as pessoas... Pois no meu... AI!
Exame de reflexo. Jasmine, perturbada, esfregava o joelho onde o cientista tinha martelado.
—Vou te falar uma coisa, você tem tudo pra ser um humano, reflexos, sentimentos, expressões, só que não é, pois... Não é uma humana... – Falou o cientista, com uma cara de deboche, a qual Jasmine não achou graça nenhuma.
Ronaldo observava atentamente a expressão de Jasmine que alterava entre curiosidade e desconfio. E a do cientista, que entre uma expressão de curiosidade e senso de descoberta, mexia as mãos freneticamente, verificando reflexos das pupilas da criatura, o interior da boca e até mesmo o tipo de pêlo que ela continha.
“Jasmine deve estar se sentindo ridícula, estão tratando ela como um bicho de sete cabeças”
O pequeno agente observou tantos testes pelo vidro da sala de espera, que até mesmo se cansou. Ronaldo aproveitou pra relaxar. Um ser totalmente diferente aparecera em seu mundo, mas nem por isso, deixaria de curtir o dia em que aquilo tudo aconteceu.
Afinal, ele é um agente de casos desconhecidos, já está acostumado com esse tipo de coisa, faz parte da rotina dele.
“Exceto o choque que quase levei”
Aquilo sim era estranho.
E pôs-se a cochilar.
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