Ronaldo bufava. A criatura pesava como uma criança. Abriu a porta de casa. Seguiu até o quarto, acendeu a luz, tirou a pulseira de cima da cama, e com alívio, mergulhou o ser na cama.

Ronaldo fitava aquela coisa, e agora percebera o quão graciosa era. Pelos alinhados, um pequeno rabo estranho, orelhas recortadas, pálpebras escuras, focinho preto e pequeno, uma boca delicada.

É uma fêmea.

Diante de uma coisa tão estranha, pegou a pulseira, e foi fazer uma ligação para a agência. Mas pensou bem no que ia acontecer. Iriam carregar a criatura pra sala de casos desconhecidos, fariam experiências com elas, a deixariam com medo... Não permitiria que aquilo acontecesse. Rolou a criatura, que continha um calombo avermelhado nas costas. Era o tiro paralisante. Tratou de pegar a caixa de remédios.

Com algodões, ataduras e esparadrapo, tratou de pelo menos acalmar o pequeno ferimento. E se lembrou do que acontecera com ele no elevador da agência. Ele ficara desnorteado inconsciente com o tiro. Já a criatura, sendo mais frágil, poderia...

Bem, ela tinha que descansar.

Lembrou-se que o raio paralisante não deixa o corpo acordar por uns momentos. Mas a pessoa que recebeu o raio luta pra despertar. A qualquer momento, a criatura iria acordar, e sabe lá o quê ia fazer ao se deparar em um quarto, com aquele "assassino" ao seu lado.

Ao ouvir a respiração dela aumentando, Ronaldo se desesperou, tinha que fazer algo. Acordá-la chamando não iria trazer bons resultados. Deixando ela ali... De qualquer forma ela ia perceber onde se encontrava. Ronaldo olhava pra todos os lados, a fim de encontrar alguma solução, e quando finalmente pousou os olhos na criatura, quase gritou ao perceber que ela o encarava com os grandes olhos abertos, o fitando, encarando, como se quisesse hipnotizar. Como um cadáver que olhava para o nada. Seu olhar estava distante, mas percebeu que na verdade ela tinha ficado paralisada de medo. Ronaldo levantou ambas as mãos, e falou:

—Acalme-se.

Ao ouvir a voz, a criatura virou sua cabeça para frente, como se não conseguisse mover o corpo. Ronaldo demorou pra perceber que ela começou a chorar de medo.

Com dó, ficou olhando, e com nada pra fazer, simplesmente proferia palavras para acalmá-la, sabendo que ela não entenderia. Ronaldo não ousaria encostar nela, ela poderia o atacar. Por mais indefesa.

—Apenas acalme-se pequena – falou Ronaldo

—Onde eu estou? – Falou a criatura, soluçando.

Ronaldo gelou. Por dentro, um frio na barriga o dominou. Era como se estivesse se preparando para algo ruim. Mas viu que era apenas o medo do desconhecido.

“Medo do desconhecido?”

—ONDE ESTOU? – soluçava a criatura, desesperada, com a cabeça fitando tudo que pertencia ao quarto

Ronaldo se aproximou, agora que ela o entendia, se tranqüilizou. Mas a criatura estava alerta.

—Quem é você? NÃO SE APROXIME – a criatura falava, enquanto chorava, com o rosto revelando sofrimento, e colocava a mão no machucado em suas costas, percebendo que ali tinha ataduras e medicamentos, algo que a deixava preocupada.

Ronaldo recuou, viu que acalmar ela não adiantaria. Ela tinha consciência o bastante para querer respostas.

—Meu nome é Ronaldo – E nada mais disse

—Que lugar é esse? – olhava pro teto e pra janela, com medo.

—É o meu quarto – respondeu calmamente

Ficou claro que ela não queria saber que aquele era o quarto de alguém, queria saber em que mundo estava.

—Estamos no meu planeta – continuou, sem saber o que estava falando

A criatura encarou Ronaldo com desprezo, provavelmente, achou que ele pensava que ela era alienígena.

—Provavelmente, você saiu do seu mundo por um portal dimensional, eu preciso da sua ajuda para descobrir que mundo é esse, e assim, te levarei pra sua casa. Compreende?

A criatura o fitou, com o olhar cheio de medo, e talvez, desconfiança.

—Eu fui treinado... – parou, mas logo continuou, tentando o fazer acreditar que era treinado pra isso mesmo- para casos como esse.

Ronaldo não esperou, viu que a criatura ainda estava em um pequeno estado de choque, ela desviava os olhos para os móveis, lâmpadas e janelas, como se procurasse outro portal, para assim poder voltar a sua casa. Ou simplesmente queria verificar se tudo aquilo não era um sonho.

—Me escute – falou Ronaldo com um tom paciente – você poderia falar seu nome?

A criatura virou o rosto pra Ronaldo, com a respiração pesada. O fitou como se quisesse encontrar um sinal que indicasse que ele era alguém de confiança. Depois de um tempo o encarando, ela soltou:

—J... Jasmine...

Ronaldo pousou o olhar pra pulseira metálica que tinha em mãos. Já tinha visto muita coisa estranha, mas uma criatura com nome de humano era estranho. “O que esperava Ronaldo?” pensou, “Fifi?”.

Ela se assemelhava com crianças humanas, não era bobinha nem ingênua, tinha vontade de saber das coisas, e expressava muito bem seu medo.

—Quero pedir desculpas por te levar aqui, mas você se feriu – Ronaldo parou quando viu que ele mesmo tinha ferido ela. Mas, se deixasse ela fugir, ela ia sofrer ainda mais com aquele local desconhecido.

—Quero ir pra casa – ela choramingou

—Você vai, só preciso que fale onde você morava.

—Em uma floresta – ela falou, sem tirar os olhos da porta

—Perto de alguma... Cidade? – perguntou Ronaldo, com um pouco de impaciência

Ela negou.

—Sabe um nome de cidade do seu mundo? – Ronaldo continuou

Negou novamente.

—Você sabe o que é uma cidade? – Ronaldo falou quase debochando.

Ela afirmou.

Como que alguém tem conhecimento daquilo que nunca viu?

"Opa!"

—Você já viu uma cidade então? — Prosseguiu com ânimo

—Já vi várias, mas nunca entrei nelas nem fiquei sabendo seus nomes – falou Jasmine, muito mais calma

Ronaldo se tranqüilizou, ela falara com tranqüilidade, e o medo tinha se passado, melhor hora pra ligar pra central não tinha. Ele se afastou dela, e ficou feliz quando ela perguntou onde ele iria.

—Está com fome, Jasmine? – Ronaldo agora sorria como se estivesse satisfeito com algo. Provavelmente pelo fato de ter vencido o desconhecido.Aquilo que lhe dava tanta insegurança.

—E... Estou sim.

—Fique a vontade. Venha. – Ronaldo a chamou com um gesto com a mão

Ela se impulsionou para fora da cama. Ela tinha a altura de uma criança de 11 anos. Não era tão pequena. Ronaldo se assustou com o jeito dela. Assemelhava-se com um humano. O que despertou a curiosidade dele. Ele pegou uma maçã e jogou pra ela. Reflexos? Confere. O que mais impressionou é que ela sentou educadamente e começou a comer a fruta, e ainda o agradeceu.

Ronaldo a fitava, assustado. Ela percebeu e se sentiu incomodada.

—Por... porquê está olhando assim? Não sou nenhum monstro – Jasmine falou, emburrada, num tom cômico.

De fato, ela não deveria ser tratada como algo estranho. Ronaldo ligou para a central.

—Olá – falou Ronaldo sem perder tempo. Falar com sua pulseira deixou Jasmine curiosa.

—Identificação confirmada, o que desejas agente?

—Mande um agente pra cá daqui a quinze minutos. É um ser desconhecido, não se preocupem, ela é inofensiva.

Jasmine fez uma careta.

—Anotado, bom dia.

"Bom dia", o dia estava amanhecendo. O sol se levantava além do rio, com lerdeza e dificuldade.

— Você já encontrou mais seres desconhecidos? Eles te atacaram? – Jasmine perguntou

— Sim, e sim. Muitos seres partem pra agressão quando se sentem ameaçados. Não alarmei eles pois você é inofensiva. Se eu quisesse, poderia avisá-los, e eles chegariam aqui cautelosos, sorrateiramente... Não se sabe, tudo depende do código que eu uso. Existem algumas siglas que resumem minha situação, se estou em perigo, se é um ser assasino... — Ronaldo parou de falar para ver qual era a reação da pequena criatura.

E Jasmine estava boquiaberta, como Ronaldo queria. Ele exibiu um sorriso, e só depois foi pensar por que falara aquilo. Depois dela lhe encarar, mordeu a maçã, e fez uma pergunta.

—Algum ser já o fez de refém?

Ronaldo não esperava tal pergunta. E se lembrara de todos os códigos que já usara. Se lembrou que não usava muito os códigos. Pra falar a verdade, eles não eram tão úteis assim. Em situações de perigo ele preferia agir sozinho. Usar códigos era arriscado.

—Não – sem nada pra falar, Ronaldo terminou por ali mesmo.

Faltava 10 minutos pro agente chegar, se ele tinha uma pergunta, devia fazer ali.

—Desculpe pela estranha pergunta, mas... – Ronaldo pensou, e continuou – quem você tinha no seu mundo?

Jasmine parou bruscamente de comer, ela entendera o que ele queria dizer. Ela abaixou a cabeça, e enquanto Ronaldo esperava várias informações, tudo que ela disse foi:

—Ninguém

Ronaldo olhou seus grandes olhos com uma pequena tristeza. Ela não teve vergonha de falar aquilo. Nem questionou a pergunta. Apenas ajeitou-se na cadeira. Não iria pedir desculpas, nem nada, era apenas uma informação que ele deveria saber. Mas sentiu pena dela.

—Jasmine, quem te deu esse nome? – Ronaldo insistiu — Desculpe, mas minha curiosidade...

Jasmine não chorou nem se inclinou.

—Eu mesma – falou sem se mexer, com a maçã na mão.

Ronaldo tinha vontade de perguntar se ela sempre foi sozinha, como se virou. Mas não teve coragem. Decidiu trocar de assunto.

—Menina, você passará em testes. Só não tenha medo, eles farão nada. Só vão verificar sua inteligência, reflexos. E vão deduzir algumas coisas. Eles são do bem. – Ronaldo, ao falar isso, desviou o olhar, totalmente transparente

—Não é o que você realmente acha. Eles são bonzinhos mesmo né? Eles vão fazer o quê comigo? –Jasmine virou-se para Ronaldo, preocupada.

Surpreso, ele fitou ela. Queria falar que confiava totalmente neles, mas não conseguia.

—Eles não vão te fazer mal. Mas nesse tempo todo, ainda me complico pra confiar neles – Ronaldo falou com expressão séria, olhando pra pulseira, se lembrando do choque que quase recebera a madrugada. Com desgosto, arrancou do pulso e deixou na mesa. Jasmine observou sua aparência sofisticada. Ela teve vontade de tocar, mas não fez. Jasmine era uma menina – sim, podemos a chamar assim – atenta. Percebera o gesto de desgosto de Ronaldo ao tirar, e não tocou na pulseira pois viu que não era coisa boa.

Ronaldo a fitou novamente. Ele estava admirado. Como um ser que aparentava ser tão frágil e primitivo, podia raciocinar tão bem? Ela percebeu que ele a fitava, e ficou incomodada de novo.

Quando, de repente, alguém bateu na porta. Todos os olhares se desviaram pra porta de madeira.

Ronaldo viu o horário, o agente chegou mais cedo. “Cuidado com a preocupação excessiva”, tornou a repetir. Mas algo o incomodava. Abriu a porta ao se certificar que era o agente mesmo.

Com uma voz grossa, o agente se prontificou:

—Olá, vim buscar o ser – e apontou pra Jasmine que em fim terminara sua maçã.

Quando Ronaldo tentou sair de casa para conversar a sós com ele, o agente o impediu.

—Você fica, agente – O misterioso homem falou com determinação

Ronaldo fitou o agente, enquanto a antiga sensação de desconfiança lhe queimava novamente.

Notas finais
Ficaria muito feliz em receber algum review ou algo do tipo. Apesar do meu amadorismo, seria legal ver a sua opinião sobre a minha história e métodos de escrever.