Intimidade
9 Você não sabe nada
Notas iniciais
"Quando a duvida bate em sua porta..."
Quando Elena abriu os olhos o dia já ia alto. Ela levantou num pulo. Como podia ter adormecido daquela maneira e se Ric...
Ela tocou o próprio corpo e viu que estava coberta, ainda nua, porém coberta. Também não estava mais no sofá. Estava em sua cama, bem deitada, bem coberta e sozinha.
Damon não estava mais lá.
Ela levantou, pôs a camisola e o robe, pois, por mais que fossem parentes, Ric detestava que ela andasse seminua pela casa. Sempre tiveram um instinto protetor quase assassino.
Voltou ao quarto e já ia pegar o celular quando reparou um bilhete em cima de sua cama, um que não tinha visto antes.
Abriu o bilhete e seu coração mesmo a contragosto, gelou.
“Não gosto da maneira como você me domina, não gosto de me sentir marionete do meu pau. Preciso de um tempo, não me ligue.
D.S.”
– Como assim não me ligue? – Ela disse para as paredes – Então ele acha que pode vir, me implorar por sexo e ir embora me culpando e me dando ordens? Um cacete que pode seu desgraçado.
Ela discou o numero particular que eles usavam para se comunicar. Damon nunca atendia ligações privativas em seu celular comercial.
A primeira vez chamou até que disparasse sem atendimento, em seguida o celular dele ficou fora da área de cobertura.
Ela sentiu tanta raiva que quase jogou o seu próprio aparelho contra a parede.
– Filho... Filho... Filho... Da... Puta.
Ela começou a andar de um lado para o outro como um gato encurralado.
– Se ele... Se ele está pensando que eu vou ficar ligando... Eu não... – Ela pegou a bolsa e caminhou para a saída – Eu vou ligar só para dizer umas boas na cara dele. Depois... Eu ligo depois... Daqui a quinze minutos... Dez...
E saiu resmungando desculpas para si mesma.
...
– LCC Associados, recepção.
– Lucy, estou fazendo uma pausa de quinze minutos, mande quem chegar para a espera, ok?
– Sim, senhorita Gilbert.
Já era a terceira pausa que ela fazia e aquilo não era natural. Elena gostava de cumprir seu horário corretamente, às vezes até fazia hora extra para adiantar os processos. Ela sabia que construir um nome era à base da sua carreira, mas mesmo assim, naquele momento estava rabiscando linhas sobre a reclamação de vencimento de validade de produtos de uma grande multinacional, a qual ela deveria estar repassando.
Elena pegou de novo o telefone e discou o numero, mais uma vez a gravação da caixa postal ecoou no seu ouvido e ela bateu o aparelho na mesa irritada.
– Desgraçado! Desgraçado!
O resto do dia foi igual, estressante, cansativo, irritante. Ela não conseguiu falar com Damon de jeito nenhum. Quando a tarde caiu e sua cabeça começou a doer demais, ela desistiu.
– Lucy?
– Sim, senhorita Gilbert.
– Estou indo embora. Remarque tudo para amanhã.
– Sim. Senhorita Gilbert?
– Oi.
– Doutor Donovan me pediu que lhe desse um recado. Ele precisa que passe em seu apartamento antes de ir para casa, os documentos que a senhorita solicitou estão com ele.
– Ah, ok, obrigada Lucy. Ligue para ele e diga que estou indo.
– Sim senhorita, agora mesmo.
Elena pegou as coisas e saiu.
Não adiantava ficar no escritório. Um dia quase todo não tinha rendido nada, ela sequer tinha redigido nenhum dos relatórios que precisava fazer, Damon não saia da sua cabeça e aquilo era definitivamente irritante.
Ela saiu apressada, queria passar logo na casa de Matt, não queria conversar muito. Estava se sentindo agoniada, aquela era a única palavra que servia para determinar a sensação corroendo seu peito.
Resolveu ir andando, achou que uma caminhada lhe faria bem ao coração. Queria achar uma forma de acalmar aquilo, nunca havia se sentido daquele jeito.
Estava quase chegando ao prédio de Matthew, quando seu telefone vibrou na bolsa. Ela segurou o apareço e seus olhos apertaram quando viram o numero.
–Lembrou que eu existo agora, Salvatore? — Ela falou consigo mesma andando a passos duros — Vai ligar até os dedos caírem, filho da puta!
Ela não o atendeu e ele insistiu muito nas ligações até que elas cessaram.
Elena foi até o apartamento de Mattl e tentou ser o mais breve que podia, ele tentou de tudo para fazê-la ficar, mas ela conseguiu se esquivar sob o pretexto de que tomaria o café da manhã com ele, antes de irem para a LCC.
Ela já estava saindo, estava se despedindo de Matt quando o telefone tocou de novo. Ela o segurou e viu o nome de Damon vibrar na tela. Teve uma ideia sórdida.
– Me empresta seu pen drive para eu pegar alguns arquivos Matt?
Assim que disse ela atendeu o telefone, bem a tempo de Damon ouvir.
– Claro, amor, espera que eu já venho.
…
Ric estava pensativo, pois havia descoberto que Jenna tinha um filho, Jeremy, ele tinha quatro anos um doce de menino, mas não entendia porque ela não havia lhe contado antes. Saiu de seu topor com o barulho da porta. Com certeza era Damon, somente ele batia a porta daquela maneira, mas desta vez foi bem mais forte do que o normal.
Não era como se ele quisesse chamar a atenção como sempre, era como se estivesse com raiva.
– Vai quebrar minha porta.
– Pago duas.
Ric arqueou a sobrancelha.
Geralmente quando dizia esta frase, Damon respondia que ele precisava de uma entrada de ar naquela caixa de fósforos.
– Tá bem cara?
– É. Tua sobrinha tá ai?
– Por que quer saber da Lena?
– Não me fode com a tua síndrome do tio protetor, ela tá ou não?
– Não, por quê?
– Só para contar que ela não vai encher meu saco, por que não estou com paciência.
– Cara, essa aqui é a casa dela.
– Eu... Cheguei primeiro.
Ric riu.
– Se você tivesse um irmão gêmeo mataria ele de fome mamando nos dois seios da tua mãe de uma vez só não era não? Cara, como você é mimado.
– Quer curtir uma festa?
– Hoje?
– É.
– Não rola.
– Por quê?
– Vou ver Jenna.
– Mas vocês não só trepavam aos sábados?
Ric estreitou os olhos.
– Mais respeito? Ela não é uma vagabunda, nós não trepamos, nós... Nos relacionamos.
– No meu dicionário isso e os outros derivados se chamam trepar.
– Não enche Damon.
– Não enche você coroa. O dia não está bom.
– O que houve?
– Amanhã é o primeiro dia do meu julgamento.
– Já?
– É. E pior que isso... Tenho que ir a um evento beneficente hoje.
Ric arqueou uma sobrancelha.
– Ir ao evento é pior que o julgamento?
– Obvio! Eu vou com a Rebekah! Quer algo pior?
– Cadeia não é algo pior?
– Eu vou ser absolvido Ric – Ele disse com cara de tédio.
– Você confia demais na sorte.
– Não é na sorte meu caro. Confio nos 220 mil pagos aos meus advogados. É muito caro, para eu ser preso.
– Cara, nem digo nada.
– Melhor. Vamos na festa?
– Não posso cara.
– Vai me deixar na mão sozinho com aquela loira terrorista?
– Não dramatiza, tenho certeza que você vai achar uma mulher e dar um perdido nela no meio da festa.
– Vou mesmo.
– Sacana.
Damon tirou o telefone do bolso e discou um numero, o de Elena. Mas sequer esperou que chamasse, desligou e sem mais arremessou o telefone na parede.
– Caralho Damon! Seu telefone cara!
– Que?
– Você acabou de quebrar o telefone.
– Era uma merda.
– Tá nervoso?
– Não.
– E vai fumar?
– É o que parece.
– Isso ainda vai te matar, sabe disso não é?
– O que? O cigarro?
– Não! O poliester do seu casaco de milhões.
– Não é poliester! É couro! E você deve estar louco, esses são Cohiba Behike originais. Eles não matam, fortalecem. A imagem pelo menos.
– Qual o lance, é só esta festa?
– Não! É. É tudo. Eu só preciso de uma boa noite de sexo. De preferência com duas garotas.
– Boa sorte.
– Não vai mesmo?
– Não dá cara, preciso resolver umas coisas.
– Sei...
– Sério cara.
– Tá, eu nem disse mais nada. Vai resolver suas coisas. Melhor eu ir antes que...
Mas ele não terminou de falar por que a porta abriu de repente.
– Eu já entendi Matt – Elena disse sorrindo – Você faz o café da manhã, tudo bem?
Damon a encarou por alguns segundos e Ric fez uma expressão tediosa. Um silêncio constrangedor se seguiu, até que Damon fez o primeiro movimento.
– Vou embora.
Ele apagou o charuto ainda pela metade, e pegou o casaco, saindo sem dizer absolutamente mais nada.
Rony arqueou a sobrancelha, encarando Elena interrogativamente.
– Que?
– Por que sempre fica esse clima estranho entre você e o Damon?
– O amigo estranho é seu e é a mim que você pergunta? Eu lá sei qual é o problema do seu amigo insano? Sem contar que faça-me o favor, né? Tenho mais o que fazer.
– Foi só uma pergunta.
– Uma pergunta idiota.
– Ei! Calma, que estresse. Por que você sempre fica nervosa quando eu falo do Damon?
– Por que ele é um idiota, e você, mesmo com todo histórico de amigos idiotas, eu nunca pensei que bateria o recorde. Até bandido ele é sabia disso?
– Como assim Lena?
– Então você não sabe que ele vai ser julgado amanhã?
– Sei.
– E isso não te incomoda?
– Não.
– Como não Ric? Ele é um estelionatário, um enganador, um mentiroso, como isso pode não te incomodar?
– Por que não é verdade.
– Ric, pelo amor de Deus, isso é ingenuidade ou burrice? Você tem ideia da quantidade de processos que o Damon carrega? Processos demais para não ter nada contra ele.
– Eu não estou dizendo que não existe nada contra ele, Lena, eu só estou dizendo que ele não rouba ninguém, Damon tem defeitos, muitos e sim ele deve ter alguma pendência com a justiça, mas ele não é ladrão. Eu o conheço melhor que ninguém, ele é um cara bom.
Elena riu com escárnio.
– Bom? O inferno tá cheio de bonzinhos.
– Você não sabe o que está dizendo.
– Eu estou dizendo o que eu vejo.
As vozes começaram a se alterar.
– Você diz isso por que enxerga o Damon das capas de revista que todo mundo vê, você não sabe o que eu sei, nem você, nem ninguém conhecem Damon de verdade.
– Você fala como se ele fosse um tipo de herói. Que idolatria cega é essa?
– Não é idolatria Elena, é só... Damon não teve... A vida... Não foi fácil para ele.
– A vida não foi fácil para gente também, nem por isso somos como ele.
– Você não sabe do que tá falando.
Ric deu as costas e caminhou rumo ao seu quarto.
– O que eu não sei?
– Não posso contar... Não eu. A historia é dele, cabe a ele... Só... Você não sabe nada do Damon, não o julgue.
Ele disse isso e entrou no quarto, deixando Elena sozinha, com os próprios pensamentos.
…
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