Intimidade
17 Passado
Elena estava tentando decidir qual penteado usaria há quase vinte minutos, e nenhuma das posições lhe deixava satisfeita.
Em qualquer outra ocasião estaria se achando uma imbecil por se arrumar tanto para Damon, mas não queria pensar naquilo naquele instante.
Ouviu o som as campainha e olhou o relógio. Sete e meia, ele estava adiantado.
Sabia que era ele. Não sabia como, mas sentia.
Correu gritando para que Colin a deixasse atender o telefone, e esqueceu que estava apenas de roupão de banho.
Abriu a porta eufórica e deu de cara com a figura carrancuda de Damon que lhe olhou imediatamente dos pés a cabeça com uma expressão de poucos amigos.
De frente para a porta, Colin estava esparramado no sofá com uma bermuda que mais parecia uma cueca samba canção e uma camiseta, jogando vídeo game, quase sem prestar atenção no que o cercava.
– Cheguei atrasado?
O tom de voz... Sempre aquele tom de perigo.
– Está adiantado meia hora, entre.
– Não. Não fui convidado para um swing.
– Damon não comece.
Ela rolou os olhos.
– Eu? Não estou dizendo nada, apenas constatando um fato.
– O que?
– Isso... Não vai dar certo Elena, eu não vou simplesmente ver este tipo de coisa e achar normal.
– Damon, não há nada anormal aqui.
– Talvez não. Pra você. Mas de onde eu venho, isso se chama falta de vergonha. Isso não vai funcionar, então é melhor que nem comece. Boa noite Elena.
Ele simplesmente se virou e foi embora e Elena ficou parada na porta sem reação.
Depois fechou a porta lentamente como que tentando digerir o que acabara de ocorrer.
Era aquilo mesmo? Sua noite fantástica e memorável tinha acabado de descer pelo ralo?
– Len...
A voz de Colin subitamente a irritou, mas ela respirou fundo.
– Oi?
– Posso dizer uma coisa?
– Não Colin...
– Ele não serve para você.
– Eu disse NÃO... Colin.
Ela disse irritada e voltou para ao quarto.
– Que... Grande... Imbecil... Que... Filho... de... uma... cadela... desgraçado... canalha... bastardo... bastardo ....bastardo ....Eu... Mato... Esse... Desgraçado... Mato... Mato... Mato...
Cada palavra pontuada com um soco no travesseiro.
Elena estreitou os olhos, aquela era a hora de ela comandar o show.
– Se ele está pensando que quem decide quando ou o que dar certo é ele, vou mostrar o quanto está enganado.
...
A musica fluía com um eco quase ensurdecedor, mas era assim que ele gostava, era desse barulho que o impedia de pensar em mil maneiras atrozes de acabar com Colin
Creevey que ele precisava.
A mente estava vazia... Era muito reconfortante tê-la assim.
A voz crua de Alanis Morissete penetrava seus ouvidos e entranhava no seu cérebro, junto com o álcool, entorpecia-o de um jeito quase sensual.
Ele se sentia quase flutuando.
Solidão.
Aquele era seu jeito de viver, seu reino tinha apenas um trono, não havia espaço para mais ninguém em seu castelo, era assim que ele era forte. Era assim que ele era invencível.

De repente o som baixou e a voz de Elena cortou a da cantora.
– O que está fazendo aqui?
Ele se assustou, mas não pareceu. Damon Salvatore nunca se mostrava vulnerável. Ele fechou os olhos, o sangue pareceu borbulhar. Mas mesmo com tantos sentimentos conflitando dentro de si, ele respondeu calmamente.
– O que você acha que eu estou fazendo? Estou bebendo. O que você está fazendo aqui? Como chegou até aqui?
– Ric me disse onde encontrá-lo… O bar está fechado.
– De fato. Quero ficar sozinho.E não minta, Ric não sabe onde estou.
– Importa realmente como te encontrei.
– Obvio que importa.
– Devolvi o favor do GPS.
– Você colocou um GPS no meu carro?
– Bem vindo ao clube colega. – ela piscou, mas não estava animada – O que você está fazendo num bar fechado?
– Já disse que quero ficar sozinho.
– Você fechou um bar por que quer ficar sozinho?
– Exato, se não se importa, isso vale pra você também. E eu não fechei o bar, ele é meu, simplesmente mandei todo mundo embora.
– Você chega a ser ridículo de tão prepotente, Damon.
– Mando sair à hora que eu quiser, assim como estou fazendo com você agora. Tchau Elena.
Ela sentou.
– Não vou a lugar algum Salvatore, acho que você ainda não percebeu, mas estou longe de ser um dos seus miquinhos amestrados.
– Como você colocou um GPS no meu carro?
– Comprei um aparelho pronto, foi só escolher um lugar escondido e isso não vem ao caso. Precisamos conversar.
– Não precisamos não, Já falei tudo o que tinha para falar.
– Mas eu não.
– Não quero ouvir.
Ela sorriu.
– Mas eu vou falar do mesmo jeito. Sabe Damon, eu estava pensando em conversar, jantar, tomar um bom drink e transar a noite toda, mas acho que vou pular direto pra transa, já que você me atrasou no cronograma.
Ela cheirou o pescoço dele, encostando de leve os lábios.

– Vá embora Elena…
– Você não quer que eu vá Damon… Não é?
– Quero.
– Quanta convicção vai ter que fazer melhor que isso Narciso.
Ele grunhiu antes de levantar e agarrá-la de maneira grosseira.
Beijou-a enquanto falava entre dentes enraivecido.

– Você não vai desistir não é? Não vai parar de foder com minha cabeça? Você quer que eu ceda!
– Não estou aqui para lutar, ou fazer você se ajoelhar Salvatore. Estou aqui para transar com você. Por que não esquece essa queda de braço e vem fazer o que sabe?

– Você é a garota, mais… Mais mesquinha… Mais… Filha da puta… e… e… Mais gostosa caralho!
– Você é um veneno.
– E você tenta se matar desde que me conheceu. Por que não deixa dessa idiotice, dessa sua sede de poder e mistério, você é muito dramático sabia?
– Dramático?
Ele parou de beijá-la e a encarou.
– Sim. Acho que já está na hora de você parar de encenar este papel.
– Que papel?
– Este onde você se coloca como centro do mundo, o senhor mistério, se fecha e se acha superior. A quem você acha que engana? Você deveria parar de olhar para o próprio umbigo.
– Não sei exatamente onde você deseja chegar...
Ele se afastou um pouco e a encarou.
– Muito bem, vamos começar por este seu comportamento egocêntrico, onde tudo lhe pertence, onde você é acima da lei. O que acha?
– É isso que pensa?
– Não. É isso que vejo. O que você está tentando Damon? Ser uma lenda? Damon Salvatore, o misterioso dono do mundo?
– Quem disse que sou misterioso?
– Não é? Seu passado por exemplo. Por que ele é uma incógnita? Por que é divertido deixar as pessoas montando quebra-cabeças espaciais a respeito dele?
– Não Elena.
– Então por que super Salvatore.
– Por que ele é terrível. Por que ele é a única coisa capaz de me machucar.
Ele disse de repente com tanta raiva e desgosto que a assustou.
– Damon...
– Mas você quer que eu conte? É isso que quer? O que vai fazer, usar isso na acusação?
– Damon... Não...
– Ah não! Não Elena... Agora eu vou te contar. E é melhor você sentar.
– Não preci...
– Cale-se! E escute!
Não foi um grito. Mas o perigo da voz era tão evidente que ela emudeceu.
– Como foi sua infância Elena? Ah... Não precisa responder, foi lindinha não foi? Ric me contou. Família pobre, porem, grande, feliz e honrada. Vocês não tiveram dinheiro para jogar fora, mas tiveram amor, jantares em família e bolo de chocolate nos aniversários não foi? Pois é... – Ele tamborilou os dedos na mesa de madeira – Eu nasci rico. Tão rico, tão rico que poderia comprar a Inglaterra, ou os Estados Unidos, ou os dois se assim desejasse.
Elena respirou fundo algumas vezes tentando conter a taquicardia que havia se iniciado de repente.
– Nasci em berço de ouro e tinha tudo para ser um playboy nojento com uma Ferrari e um jato. Mas meus pais morreram quando eu fiz um ano. E a única pessoa que podia cuidar de mim, Sirius, meu padrinho, foi preso acusado justamente da morte deles. Então eu fui mandado para Privet Drive para viver com meus tios. Eles eram uns filhos da puta se quer saber... Mas eu era mais filho da puta ainda... – O sorriso se tornou mais amedrontador – Por que comigo é assim Elena... Eu tenho que ser o melhor, mesmo que a meta seja: “Ser ruim”. Então com onze anos eles não aguentaram e resolveram me jogar num lugar qualquer e eu fui para Hogwarts. Conhece Hogwarts Elena?
– A instituição para Órfãos de Londres?
– Exatamente Modesty blaise! – Ele sorria, mas o olhar dele era sombrio e vazio – Exatamente. Para os campos Elíseos.
Ele gargalhou. Uma risada forte e sem qualquer traço de humor.
Elena respirou fundo de novo. As palmas das mãos suavam.

– A vida lá era um inferno. Você sabe o inferno que aprendemos na igreja? Era um playground perto de Hogwarts. Eu dormia numa cela, por que aquilo Elena, aquilo não era um quarto. Ela tinha 27m² e abrigava 15 meninos. Eu era o menor deles. Pequeno, magro, de óculos, eu era o convite perfeito ao bullying e a agressão gratuita.
– Eles batiam em você…
Ele sorriu de lado, um riso sombrio. Os olhos fixos, parados num ponto vago da parede, indicavam que ele estava lembrando… regredindo para a pior época da sua vida.
– Batiam… Mas eu não ficava quieto. Nunca fiquei — Os olhos dele apertaram um pouco, a mandíbula trincou — Mas bater… Não era o pior.
– O que eles faziam de pior?
Ele sorriu de novo, um riso maligno, quase um riso de ódio.
– Acredite, você não vai querer saber.
Elena sentiu calafrios. Ela sabia o que acontecia nestas instituições.
– Os meninos maiores... Eles... Eles te... Te... violentaram?
Ele ergueu a sobrancelha.
– Tentaram... Mais de uma vez... Mas Minerva e Alvo sempre conseguiam me proteger... Até o ano em que Alvo foi afastado e Minerva foi enviada para cuidar da outra ala. Naquele dia... Eu tive que me virar sozinho. Eu tive que aprender. Mas se quer saber, eu até agradeço. Eu nasci, naquele dia. Damon Salvatore Nasceu, naquele momento. Aquele filho da puta do Duda... Ele já havia tentado tantas vezes... Mas naquele dia, eu estava preparado para ele.
Ele fechou os olhos, a mente lhe pregou uma peça. Tudo parecia tão real e a medida que ele lembrava, relatava com uma riqueza de detalhes impressionante.
Flashback.
– Olha que está aqui… o Órfão rico… Você não é rico quatro olhos? Não foi isso que você disse ontem? Que era mais rico que um rei?
– Melhor sair daqui saco de banha.

– Ah! Ele é valentão. Somos quatro, seu magricela, idiota. Seu merdinha, vamos fazer estrume de você.
– É só tentar seu imbecil.
– Sabe o que eu acho que deveríamos fazer? Alvo e Minerva estão longe, muito longe –
Damon começou a recuar – Acho que é hora do Salvatorezinho ser minha nova mulherzinha. Segurem ele!
Com um movimento que ele mal pode ver, Damon já estava de pé com um canivete em sua garganta.
– Que é isso cara?
– Isso… É o que vai fatiar você inteiro, se mexer comigo de novo, seu monte de merda.
Flashback end.
Ele piscou e pareceu ter voltado à realidade. Inclinou-se para a frente e fechou os dedos uns nos outros.
– O grande problema é que eu vacilei. Achei que ele ia embora e relaxei... Quando dei por mim, eu estava no chão, com aquele gordo nojento em cima de mim, tentado me despir. Perdi o ar, Elena, me lembro tão bem... Eu quase perco a consciência, mas fui forte. Forte o bastante para enfiar a faca, até o cabo, na barriga daquele desgraçado, estuprador nojento.
Elena levou a mão à boca.
– E foi a primeira vez que matei... Os amiguinhos dele saíram correndo. Como menininhas assustadas – ele riu de novo – Quando eu o empurrei de cima de mim, o safado já estava morto, mas eu o esfaqueei outras vezes. Varias outras vezes se quer saber, eu garanti que ele continuasse morto. Fosse para o inferno. Você sabe como é, não sabe? Nestes filmes de terror, o assassino acaba levantando... Mas não no meu... Não no meu filme. No meu filme, ele morreu, com sete facadas bem fundas... E se você me perguntasse agora se eu faria de novo... Sim, eu faria... Faria de novo e talvez lhe desse mais facadas... Mas eu preciso agradecer ao Duda sabe? A morte dele me transformou no homem que sou hoje.
– Damon...
– Ah... Não se preocupe em colocar isto na sua acusação Elena, sabe por que? Eu já fui acusado, e também já fui absolvido.
– Eu não ia...
– Shhh – A voz dele estava claramente alterada pelo álcool – Deixe-me terminar. Deixe... Deixe-me terminar meu conto de fadas pra você. Nós comíamos restos... muitas vezes eu vi os “professores”escolhendo o que íamos comer das sobras de suas refeições. A única pessoa que se importava comigo, aliás com todos nós era Minerva... E Alvo, mas ele nem sempre podia com aquele bando de sanguessugas.
– Eu trabalhei como um animal de carga, muitas vezes faziam de propósito, me colocavam nos serviços mais humilhantes, me faziam servir, me chamavam de empregadinha… Aquele lugar… Mas garanti eu mesmo que nunca mais, nenhum daqueles bastardos fizesse mal a ninguém.
Ele deu um sorriso maldoso.
– O que você fez Damon?
Ele a encarou, mas nãop parecia de fato enxerga-la.
– Eu... Digamos que eu fechei o lugar.
Elena não conseguia articular nenhuma palavra.
– Mas quando eu fiz treze anos, eu descobri algo que mudou tudo. Descobri o Silas, meu padrinho. Silas Black. Ele não havia matado meus pais, não era culpado do que o haviam acusado. Ele queria cuidar de mim, sabe? Ele gostava de mim de verdade, e eu teria uma casa, eu teria uma família... Eu teria um pai...
– Se ele havia sido libertado, por que não foi com ele?
– Por que ninguém o libertou. Ele fugiu da prisão. Silas havia sido condenado à prisão perpétua, seu sistema foi falho com ele. Da mesma maneira que falhou com meus pais e comigo... Silas tinha provas, mas ninguém lhe deu ouvidos, então ele fugiu, e por isso não fui imediatamente com ele. Meu padrinho queria arranjar tudo fora do país para que vivêssemos com segurança. Mas não tivemos a chance... Eu desejei tanto... Tanto que tivéssemos tido uma chance.
Flashback.
– Aguente firme, meu garoto… Aguente firme, eu vou vir lhe buscar.
– Quando?
– Logo… Aguente só um pouco mais.
Flashback End.
– Silas… Meu padrinho, foi uma das únicas pessoas que me amou de verdade… E a vida também o levou de mim, por que eu tenho que ser bom? Se as únicas coisas que recebo da vida são pauladas? Não. Não é bem assim. Quando o mundo vira as costas pra você… Mande ele tomar no cu!
– O que houve com ele Damon?
– Seu sistema, Elena... Sua justiça... A mesma que condenou um inocente... O perseguiu e o matou. A policia matou Silas antes que pudéssemos ter qualquer chance.
Ele ficou parado, durante um bom tempo, olhando para um ponto fixo na parede. Um tempo que Elena não quis interferir.
– Sabe por que eu sou tão rico assim? – Ele disse de repente – por que eu herdei a fortuna das duas famílias mais ricas da Europa. Salvatore e Black. Como ultimo herdeiro do clã Black, Silas deixou tudo pra mim quando morresse e apenas uma recomendação. “Nunca use o nome podre da minha família” – Ele soltou uma gargalhada seca – EU sofri o inferno... Mas quando fiz 18 anos, eu estava pronto pra ser mais do que tinha sido, mais que qualquer um. E hoje estou aqui, com o mundo na palma das mãos.
Havia muita tristeza na voz dele, muita tristeza e raiva.
Elena não conseguiu suportar, levantou-se e foi até ele, num gesto de carinho, acariciou seu ombro. Mas foi surpreendida por um puxão surpresa. Ele encaixou a mão pela sua cintura e a virou, reclinando-a sobre o balcão do bar e a beijou com muita força, como se quisesse mostrar seu domínio, seu poder.
Quando ele a soltou o fez de uma vez, deixando-a largada no balcão, sôfrega e confusa.
– O que significa isso?
Ele riu.
– Eu não sou uma cara mesquinho, Elena, eu sei que é isso que você quer, foi isso que veio buscar, eu vou te dar, eu vou saciar se fogo. E se não for isso, é dinheiro não é? Não é o que todas vocês querem? Sexo, dinheiro e poder.
O tapa doeu tão forte quanto ecoou.
– Seu filho da puta, você acha que tem o direito de fazer isso?
– Não tenho? E você? Acha que tem o direito de vir até aqui, esfregar minhas piores lembranças na minha cara? Apenas pra satisfazer esse seu ego absurdamente grande? Você fala de mim, Elena, mas se seu ego fosse um pau, você seria um africano.
– O que?
– Você é cheia de si, e adora controle. Gosta de saber que está no comando e não se importa em que ferida vai tocar não é? Um conselho... Cuidado para não levar uma mordida, cutucando carnívoros com vara curta.
– Eu não pretendia fazer você se magoar, eu só estava curiosa... Eu...
– Pois agora você já sabe... Já sabe a vida miserável que foi a vida misteriosa de Damon Salvatore, agora você já pode satisfazer sua curiosidade e... e... Ah! Saia daqui Elena.
Ele deu as costas e saiu andando. O peito dela apertou.
– Damon... Damon!
Ela o seguiu.
– SAI DAQUI ELENA!
– EU NÃO VOU SAIR! VOCÊ VAI FALAR COMIGO!
– Sai daqui…
– Damon… fala comigo… Você está chorando?

– Agora você pode sair daqui e se gabar Elena Gilbert . Pode dizer que viu Damon Salvatore chorar. Agora vá embora, ou eu mando tirarem você daqui.
Ele lhe deu as costas e saiu rápido do salão, trancando-se no escritório
"Afinal, o bar era dele"... Pensou Elena, desolada.
Sem muito à fazer, ela simplesmente voltou para casa carregando os pedaços das dores que ele sofrera todos esses anos consigo, e um remorso terrível.
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