Notas iniciais
Olá, amigas leitoras. Como prometido, mais um capítulo essa semana, já que a fanfic está completando um ano hoje. Eu espero sinceramente que gostem desse apesar da confusão que acontece no final. Façam uma boa leitura.


Choveu a madrugada inteira, como se no final da tempestade tudo fosse fazer sentido. Emma via o brilho dos relâmpagos iluminando a janela e a cortina enquanto tentava não pensar no futuro. Regina dormira depois de encostar a cabeça no travesseiro, cansada da pequena viagem até o Motel e da noite mal dormida. Atenta a ela, a moça sentia o coração disparar quando se lembrava da conversa que tiveram mais cedo. Tinha decidido voltar para Mary Way Village, procurar a mãe e falar coisas que há anos se prendiam em sua garganta. Ela sabia que não adiantava pensar demais nas mentiras e ofensas de Ingrid, devia ser forte, não tinha medo dela como disse a Regina. E a maior das razões para ir enfrentar a mãe estava dormindo bem ao seu lado, nem tão calma, nem tão mais tensa do que quando chegou em casa para busca-la. Emma entendeu Regina e a boa intenção dela de desaparecerem, mas algo não parecia certo, de um jeito como se Emma para sempre tivesse uma dívida a tratar com Ingrid. Preferia não ser tão orgulhosa, ou, naquele instante, infantil para dar de ombros e seguir a vida que a escritora lhe prometeu. Mas nunca iria se perdoar se fosse covarde. “Me perdoe, meu amor, não quero mais ser tola.” Disse, sem a voz que acordaria Regina.

Lá fora uma trovoada estrondosa vibrou, mas nem assim Regina acordou. No ar a mão de Emma passeava pelo contorno feminino, pousando delicadamente na cintura, onde um braço convidava a ser envolvido pelo o da moça. Emma se uniu ao corpo da mulher com absoluto cuidado, por trás, cheirando-lhe o ombro, aquela curva entre a clavícula e o pescoço. Seu rosto escorregou com a boca pela pele muito branca da mulher, um detalhe que Emma percebia até no meio escuro do quarto. Ela só queria que Regina soubesse o quanto era importante e o quanto sentia. Nada seria em vão pela escritora, não importava o quanto sofresse.

— Eu te amo. Não sei o que seria de mim se não tivesse chegado na minha vida. — Emma sussurrava sabendo que tão perto podia despertar Regina, mas o sono era pesado e Regina sentiria as palavras de Emma como um sonho. — Esperei por você a minha vida inteira. Não me deixe... Me ame... Fique comigo... Eu sou sua e de mais ninguém.

Regina sorriu adormecida, encontrou o carinho de Emma e se aninhou inconscientemente a ela, entendendo tudo o que foi dito. A moça sabia que ela estava sonhando. Continuou dizendo coisas bonitas para ela, deu cor ao sonho da mulher, acrescentando uma ideia ousada no fim.

— Quando estivermos longe de todos, só nos duas, criando histórias de amor sobre o nosso amor, vou te pedir em casamento. — Quando disse foi longe se imaginando vestida de noiva com ela a esperando em um altar improvisado nas areias de uma praia deserta. Era uma delícia pensar no resto da vida sendo de Regina, vivendo momentos inesquecíveis. Emma ansiava por eles, porém antes de tanto a compartilhar com a mulher de sua vida, ela não se esquecia das pessoas em seu passado. Ingrid voltou a preocupá-la, então ela pensou em toda a conversa de horas atrás com Regina de novo. Se agarrou na mulher adormecida e fechou os olhos, ouvindo a chuva cair, tentando não se deixar levar pelas emoções.

Uma hora mais tarde, o sono enfim chegou.

. . .

Elas acordaram antes das dez da manhã. Trocaram as roupas, guardaram os pertences no bagageiro do fusca e tomaram um café não muito longe dali em uma parada na estrada. Antes de seguirem viagem de volta a Way Village, Emma pediu chocolate quente para tomar no caminho e veio trazendo dois copos grandes para Regina e ela, enquanto a mulher esperava encostada no capô do fusca amarelo. Ao se aproximar, deu um pequeno susto na morena, chegando de mansinho, sem fazer barulho.

— Bu! — estendeu o copo a mulher. — Está devendo alguma coisa, sra. Mills? — brincou, bebendo um gole comprido, mas não gostou nada do sabor e fez uma careta com a boca.

— Não, só estava um pouco distraída. — Regina pegou o copo e fitou Emma. — O que foi?

— Ninguém vai saber fazer um chocolate quente como o meu, cheguei à conclusão. — A moça arriscou mais um gole.

— Talvez seja o seu gosto muito exigente que faça pensar assim, meu amor. — Regina replicou.

— Ah, claro, a minha receita é muito complexa e só minha avó além de mim sabia fazer. Eu só não gosto do jeito que colocam o leite condensado, fica parecendo achocolatado. — Emma fez outra careta.

— Não estou sentindo o gosto de leite condensado, meu bem. — Regina já tinha dado um gole quando disse. Se endireitou e abriu a porta do carro, entrando.

— Vai ver é isso, não tem. — Emma entrou no lado do carona e se sentou.

Antes de dar a partida Regina teve uma lembrança que a fez sorrir, olhar para Emma e comentar:

— Tive um sonho essa noite, um sonho lindo com você.

Emma se desmanchou em um sorriso meigo.

— É mesmo?

— Sim. Nós tínhamos ido ao Cairo e você me dizia umas coisas.

— Que coisas? — Emma ergueu as sobrancelhas.

— Muitas, não vou lembrar com exatidão, mas eram coisas bonitas. Só me lembro que no fim você me dizia que íamos casar. — Regina ligou o carro, fechou a porta e passou a marcha.

— Ora, é mesmo? — perguntou Emma inocente.

— Sim, foi a única coisa que consegui lembrar. — Mills guiou o carro de volta a estrada.

Emma riu como se aquela fosse uma grande novidade.

— Sabe de uma coisa? Uma vez eu li que nossos sonhos às vezes são os desejos mais íntimos do nosso inconsciente.

As duas trocaram um olhar e Regina sentiu uma imensa vontade de sorrir para a jovem, elas se tocaram carinhosamente. Não precisavam dizer mais nada, pois a sra. Mills concordava com o pensamento da moça. Enfim estavam voltando para a cidade, recolhendo os receios do que iriam encarar para si. Não queriam se precipitar, e essa era uma boa alternativa para ganharem vantagem seja lá pelo o que fosse.



Na tarde do dia anterior, Daniel voltara ao atelier para reparar a bagunça que deixou quando trouxe Ingrid para conversarem. Seus quadros espalhados pelo chão, junto a garrafas de bebida e copos deixavam-lhe uma sensação triste de descuido. Ele recolhia suas molduras e as organizava nos cantos. Limpou os copos, jogou as garrafas fora, mas o cômodo ia precisar de uma faxina caprichada. Ele falaria com Belle se ela não tivesse ido embora tão cedo. Daniel olhou sua organização meia boca. Ao atravessar o cômodo, o seu olhar recaiu sobre a mesa onde estivera o quadro do pássaro Beija-Flor. Ele não estava longe dali. Foi fácil encontra-lo e colocá-lo sobre a mesa e abri-lo para desenterrar as cartas do passado. Leu tantas vezes desde que chegara a cidadezinha havia alguns meses que, embora elas estivessem dobradas, ficavam completamente esticadas

O que Ingrid mais desejava, afinal, havia conseguido. Causou nele remorso todas as vezes em que leu as cartas, tanto sua quanto as dela. Ele tinha uma vaga noção de onde havia enfiado a outra parte das cartas que com certeza guardou. Andou pelo cômodo pouco frequentado do segundo andar e mapeou suas antigas enciclopédias Larousse. Lá estavam as cartas, num livro da coleção como marcou. Ao terminar de ler todas elas, ele chorou. Ingrid foi muito apaixonada por ele, que desgraça havia feito na vida daquela mulher? Como tudo seria se nunca tivesse a conhecido? Por bem ou por mal, Daniel suspirou de alívio ao concluir que tinha sorte de seu caso com a garçonete não ter ido muito além do quadro, não rendeu um fruto que hoje, talvez, fosse o filho que nunca teve.

Ele levou as cartas consigo, as guardou junto do quadro e foi fazer algo que pensou desde a hora em que Ingrid foi embora.

Era quinze para as cinco quando estacionou há dez metros do Hotel Hooper. Ingrid levou vinte minutos para aparecer andando na calçada, de óculos escuros e chapéu, ridiculamente chamativa. Daniel a reconheceu de longe só pela forma como mexia os quadris ao andar, muito feminina. Ela foi até a loja de carros usados do sr. Gold, a quase um quarteirão dali. Daniel estava ao encalço dela. Mais meia hora e ela deixou a loja, parando na calçada e olhando na direção de Colter, mas não o via. Ela sentia que estava sendo observada ao que parecia, mesmo assim voltou pela calçada e entrou no hotel.

Daniel esperou novamente, e, dessa vez, por muito tempo ao ponto de cochilar no banco do carro. Acordou como se a noite caindo fosse um despertador, se pegando de boca aberta e a cabeça encostada na vidraça fria da janela do carro. Ele sentia-se moroso, enjoado, até dolorido enquanto se endireitava no banco. Olhou o relógio no pulso. Quase três horas haviam se passado. Na hora em que bocejou, viu surgir na avenida um conversível de luxo. O carro parou exatamente na frente do Hotel sem se importar se algum outro veículo apareceria atrás pedindo passagem. Ingrid Swan cruzou a porta do Hotel e esperou um homem sair do veículo para conduzi-la. Daniel reconheceu o cara. Era Isaac, seu advogado, bem como a loira dissera mais cedo. Ele beijou-lhe a mão direita, deu a volta com ela e abriu a porta do carona convidando-a a se sentar. Os dois saíram rindo dentro do carro, e Daniel não o esperou sumir na esquina para ir atrás deles.

Isaac estacionou no Rabbit Hole, até aí nenhuma novidade para o pintor. Ele os seguiu, mas ficou no carro e esperaria o quanto fosse preciso. Cansado, Colter ligou o rádio e ouviu clássicos dos anos 70 enquanto seus olhos lacrimejantes acompanhavam furtivamente a entrada do bar. Até que foi rápido. Uma hora mais tarde, Isaac saiu com o telefone celular colado no ouvido, falando alto. Ingrid veio logo depois, visivelmente tonta e sorridente, entorpecida ou alienada. O advogado disse alguma coisa para ela que devolveu uma gargalhada escandalosa. Sem a paciência de outrora, Isaac colocou Ingrid sentada em seu carro e correu para sair dali com ela depressa. Daniel dessa vez não o seguiu, ficou apenas com a imagem de Ingrid rindo e cambaleando bêbada. Foi para casa dormir, sentindo uma grande necessidade de descanso.

. . .

De manhã, despertou a muito custo às oito da manhã. Seu corpo formigava por um só, mas isso não era sonho, nem pesadelo. Ele abriu os olhos e ergueu uma mão até o rosto quando notou que só esse mero movimento pesou. Era como se seus dedos tivessem chumbo nas pontas e o pulso estivesse imobilizado. Daniel viveu minutos de pânico se debatendo sem ter resposta das articulações. “O que aconteceu?” “O que é isso?” Ele dava as ordens e o corpo não respondia. O pânico durou até ele respirar fundo e pedir que não fosse uma recaída. Conseguiu se sentar na cama e ofegar, exausto do esforço que levou. Levantou, tonto, vendo o chão em dois níveis, mais alto e mais baixo. Os passos foram em falso e ele precisou de apoio. Ali ao lado da cama, pendurada na madeira, estava a bengala que ele conseguiu alcançar e usar. Deixou o quarto inseguro, novamente enjoado, cheio de náuseas e sensações que há muito não sentia.

— Belle? Você está aí? — ele chamou a empregada. — Belle...

Aproximou-se da escada no fim do corredor, ainda cansado, sem saber como tinha feito aquilo. Chamou por Belle, mas a voz também começou a sumir. Não podia estar acontecendo de novo.

Na última tentativa a empregada escutou o chamado do patrão e veio da cozinha para atendê-lo.

— Pois não, senhor? — ela secava as mãos em um pano de prato. Veio com urgência se esquecendo que poderia levar uma bronca dele por ter deixado o trabalho repentinamente ontem, porém o problema era outro.

— Socorro... — Daniel disse com uma força arrepiante, quase assustadora. No alto da escada pôs um pé para fora, almejando o primeiro degrau, mas fez antes que sua bengala tocasse o chão no primeiro passo e pisou em falso desabando sozinho. Fez um barulho de osso se quebrando, som horroroso. Foi uma cena tão feia que Belle gritou, levando as mãos a boca, ouvindo e vendo o homem caindo escada abaixo.

Ele chegou sobre o último degrau e o chão do Hall desacordado. Belle se agachou para olhar o patrão todo torto, estirado como um boneco de pano. Se ergueu e correu para o telefone quando viu a respiração do pintor voltar ao mínimo.

— Pelo o amor de Deus, preciso que mandem uma ambulância para Blue Hill!



O Dr. Whale foi chamado às pressas em seu consultório com a notícia de que um paciente importante tinha sofrido um acidente. Quando chegou no hospital e encontrou uma incomum agitação na emergência, tomou um susto ao vê-lo ali recebendo curativos em várias partes do corpo. Daniel estava voltando a acordar e resmungava muito, provavelmente de dor; seu pulso estava levemente torto; os braços roxos, cheios de escoriações; na testa um filete de sangue escorria para baixo da linha da têmpora.

— O que aconteceu? — perguntou o médico, ninguém o respondeu, mas estava claro o que acontecera. Whale avistou Belle no canto da sala com os olhos arregalados. Ele voltou a olhar Daniel. — Ele chegou agora?

— Há dez minutos. — uma das enfermeiras respondeu, aparentemente muito ocupada para continuar falando.

— Este homem é meu paciente. Preparem o raio-X. — ordenou o Doutor.

. . .

Apesar do susto e barulho, Daniel não sofrera lesões tão graves quanto as de uma pessoa com má sorte nas mesmas condições. Após enfaixarem seu braço e ele recuperar a consciência, o Dr. Whale voltou ao quarto trazendo duas radiografias, embora não estivesse feliz com o que a empregada revelou para ele.

Whale parou e comparou as radiografias, pregando-as num quadro luminoso ao lado da cama em seguida.

— Você teve sorte, Daniel. Poderia ter sofrido uma fratura. O que aconteceu?

— Não consigo me lembrar muito bem, dr.

— Bom, o senhor também teve sorte de ter pedido ajuda a sua empregada. Ela está lá fora, e, bem, fiquei sabendo de algumas peculiaridades a seu respeito durante o tratamento que propus.

Daniel travou os lábios, tentou se mexer, mas estava dolorido demais.

— Imagino que ela tenha contado sobre os remédios. — disse ele, olhando os curativos nos braços, deitado, imóvel.

— É, estou sabendo. — A cara que Whale fez demonstrava toda sua reprovação.

— Sinto muito, doutor. — Daniel falou, envergonhado.

— Sou eu quem sente muito, Daniel. — O médico enfiou as mãos nos bolsos do jaleco e fez uma expressão negativa. — Abrir mão dos remédios depois que os resultados foram positivos não era o que havíamos combinado. Você precisa dessa medicação pelo resto da sua vida. A queda na escada pode ter sido reflexo da ausência dos comprimidos para o seu sistema nervoso central. Lembre-se que sua doença é degenerativa, não existe uma cura cem por cento efetiva.

— Isso quer dizer que posso ter recaídas de vez em quando? — Daniel questionou, abalado.

— Quase sempre se não seguir o tratamento à risca. Não existe cura para a sua doença, porém um tratamento adequado que oferece qualidade de vida. — Whale andou até a porta do quarto e parou antes de abri-la. — Não gosto de me gabar pela quantidade de tempo gasto nos estudos dessa síndrome, se é que posso chamar uma paralisia transitória dessa forma. Acontece que eu não costumo me enganar. Não deixe de tomar os remédios, Daniel, ou a falta deles vai mata-lo aos poucos.

Daniel se fechou em seu mundo particular depois que o médico deixou o quarto. Mandou chamar Belle após um tempo quando uma enfermeira veio lhe dar um remédio para as inúmeras dores que ele sentia. A moça entrou no quarto, ainda com os trajes de trabalho, aquela roupa preta e branca de empregada grã-fina, muito curiosa e acanhada depois do que viu.

— Pois não, senhor. — disse vendo-o todo acabado e roxo, afinal ele levou um tombo e tanto.

— Volte para casa e faça um favor para mim. Há um número de telefone anotado no móvel da entrada, eu preciso que ligue para esse número e peça para falar com uma mulher chamada Ingrid. Avise que estou aqui e gostaria de ter uma visita dela. — ele soou muito sério, um tom quase maquiavélico.

Belle travou, petrificada com o pedido do patrão. Levou algum tempo para concordar e mexer a cabeça mostrando que faria aquilo.

— Si-Sim, senhor. — gaguejou. — Com licença. — E saiu do quarto ainda em choque. Deixou o hospital, indo fazer o que ele pediu e mais uma coisa que ainda não tinha definido ser certo ou não.



No final da manhã, Emma e Regina passaram pela placa de boas-vindas, seguindo para casa sem pressa. Foi uma jornada lenta através do bosque na entrada da cidade, em que Regina e o marido passaram quando chegaram pela primeira vez, e nesse instante ela se recordava o quão mal se sentia naquela noite. Deu uma rápida olhada em Emma do seu lado, ela ainda segurava o copo gigante de chocolate quente que mal havia tomado, olhava pela janela, mas pela forma como o olhar estava vago não contemplava a paisagem.

Particularmente satisfeitas com o café da manhã, Regina decidiu que pediria comida pronta para levarem depois que notou o quanto Emma parecia esquiva a ideia de almoçarem naquele horário. Parou nas cercanias do Anita’s para a surpresa da moça.

— Achei que fossemos para casa. — disse Emma se virando para Mills.

— Eu disse que vou comprar algo para levarmos para casa. Você não ouviu? — Regina puxou o cartão de crédito da carteira e o colocou no bolso da frente do casaco.

— Ah, me desculpe, eu tava com a cabeça longe.

— Tudo bem? Sente alguma coisa? — Regina esperou, atenta a ela por um minuto.

— Sim, estou bem, não foi nada. Traga um misto para mim e soda, não vou conseguir comer nada melhor.

— Está bem. Eu não demoro. — A mulher tocou o rosto dela e fez um carinho breve na bochecha corada. Se inclinou e a selou na boca antes de sair do carro.

Emma sentiu uma gota da saliva dela ficando em seu lábio inferior. Um beijo de Regina, por mais delicado que fosse, tomava seu ar. Mas não se queixava, pelo contrário. Emma observava a mulher se afastando pelo retrovisor, suspirando pela figura bonita e elegante de Regina. Encostou sua cabeça no banco e vagou com os olhos pela rua, praticamente deserta de gente. Ali perto numa loja de sapatos, viu o dono colocando uma placa na porta com os dizeres: Fechado para o almoço. Mais adiante, perto da esquina, viu dois garotos correndo para dentro da loja de doces do sr. George, e nada mais corriqueiro que o ônibus da escola fazendo a curva na avenida.

Por alguns segundos, fechou os olhos para descansar a vista, porém, ao abri-los, viu algo que a deixou atônita; Sapatos simples, vestido florido com a saia torta, pele meio rosa pálido, cabelos dourados na altura dos ombros e um rosto familiar; Ingrid Swan veio pela calçada da loja de doces caminhando na direção do Anita’s. Emma ficou boquiaberta. A moça esfregou os olhos, aproximou o rosto da janela do carro e teve mais certeza do que estava vendo. Sua mãe em carne e osso atravessando a rua.

Quando Ingrid passou pelo fusca ao lado de Emma, estava distraída demais com seu nariz empinado para ver qualquer coisa, ainda mais dentro do carro. Emma abriu a porta com cuidado e saltou indo atrás da mãe como uma sombra atrasada, um fantasma obsediando alguém. Seguiu o rastro da loira dez passos atrás dela. Ingrid embicou para o Anita’s e Emma foi atrás. Mas quando chegou na porta do restaurante viu a loira parada na porta como quem fora surpreendida.

— Ingrid — Emma disse bruscamente, até perceber que ela havia parado porque estava diante de outra pessoa.

Na porta do restaurante, Regina pronta para sair segurava um saco de papel grande, olhando para a mulher que levou um baque de susto ao dar de cara com ela. Ambas pararam. Enquanto Ingrid encarava a sra. Mills, Emma apareceu chamando-a pelo nome.

— É você, eu não posso estar enganada... — Emma andou até a mãe.

Ingrid empurrou a mulher tirando-a do caminho para passar e correr restaurante a dentro. O que Mills segurava caiu no chão, bem na frente de Emma a atrapalhando de correr atrás da mãe depressa, mas ela passou da porta vendo Ingrid esbarrar em Ruby vindo com pratos numa bandeja. A garçonete deu um rodopio a fim de se equilibrar, Emma a segurou antes que se tombassem. Perdeu a mãe de vista.

— O que está acontecendo aqui? — dizia Anita Lucas, aparecendo de repente da cozinha com a confusão. — Emma?

Ruby e Emma ainda estava enroladas com a bandeja de pratos, ouviram o burburinho dos clientes.

— Não foi nada, sra. Lucas. — a moça ajudou Ruby e se afastou caçando a mãe com a vista, mas onde quer que Ingrid tenha se metido, se escondeu bem. Topou em Regina às suas costas e a mulher puxou de volta para fora do restaurante.

— Emma, o que foi isso? — Regina estava tão confusa quanto todo mundo lá dentro.

— Era ela, Regina. Era a minha mãe. — respondeu a jovem com voz trêmula.

— Sua mãe? Tem certeza?

— Absoluta. Ela tá fugindo de mim... Ela está escondendo alguma coisa...

— Calma, tenha a calma. — Regina afastou Emma da entrada do Anita’s e a levou de volta ao carro.

— Tenho certeza de que era ela. Desgraçada! Ela vai ver o que eu tenho pra falar. — Emma pensou em voltar, mas foi impedida por Regina.

— Emma, se ela fugiu não deve estar pronta para falar com você.

— Mas eu estou pronta para falar com ela. Nada me tira da cabeça que ela esconde alguma coisa de mim. Pelo menos agora sei onde ela vem. — Emma ofegou.

— Duvido muito que você a encontre aqui outras vezes depois de hoje. — Mills sentiu o celular vibrar no bolso e o puxou. Uma mensagem de Belle chegara e ela não quis pensar para abri-la.

“Regina, eu não sei se devo avisar, apesar de estar fazendo isso. Hoje pela manhã Daniel caiu da escada na mansão. Precisei chamar uma ambulância. Ele está bem agora. Eu vi tudo quando aconteceu. Seja lá onde esteja com Emma, espero que estejam bem. Aconselho não voltarem antes que ele se recupere.”

Notas finais
Em algumas respostas para os comentários de vocês, deixei escapar que algumas coisas estão subentendidas no texto. Prestando atenção nesse capítulo e no último, vemos dois paralelos entre personagens; Emma e Ingrid ao olharem para a fachada da casa no capítulo passado. Ambas aflitas por razões distintas. E no capítulo de hoje Daniel e Emma observando Ingrid de dentro dos carros. O que os três têm em comum? Só Ingrid pode dar essa resposta. Com um ano de fanfic, eu mal acredito que passou tão depressa. Na verdade eu nem acredito que cheguei até aqui na história. Vocês me deram muito apoio para permanecer escrevendo. Obrigada pela milésima vez a todas e todos os leitores. Até o próximo encontro. Um abraço forte e fiquem bem.