Intimamente Emma
33 A teoria de Belle
Notas iniciais
Ingrid se enfurnou num espaço entre os banheiros e o escritório de Anita Lucas, um corredor que levava até uma salinha nos fundos do restaurante e que Ingrid já tinha ido em algum momento acompanhada. Anita a encontrou paralisada junto a parede, ofegante e assustada. A mulher tentava compreender a maluquice ocorrida a pouco na frente de seus clientes. Seu primeiro pensamento foi algo indefinido, uma vaga ideia de que Ingrid poderia estar fugindo. Em que situação estúpida ela se metera? Não ia deixar a loira ir embora sem entender direitinho o que aconteceu.
— Ingrid — Anita disse se aproximando. — Você está bem?! — Puxou Swan pelo pulso e a levou até sua sala, fechando-se com ela ali dentro.
— Agora estou. — Ingrid recuperou o ar e se recompôs. Anita parou na frente dela esperando uma explicação, sempre com um ar de exagero no esmero quando estavam juntas. — Sinto muito ter chegado dessa forma, eu vim conversar com você.
— O que foi aquilo lá fora?
Ingrid meneou a cabeça, ajeitou o penteado colocando os cabelos para trás das orelhas e usou os braços para dizer:
— Foi apenas um susto. Eu me encontrei com uma pessoa que não devia.
— E fugiu dela? Era a Emma, Ingrid, eu vi quando ela esbarrou na Ruby e você correu para cá.
Swan ergueu o nariz e inventou uma explicação mais plausível.
— Estou tendo um probleminha com ela, nós discutimos e sabe como é, mãe e filha que divergem nas opiniões. — mentiu.
Anita franziu as sobrancelhas, desconfiando da amiga.
— Ingrid, se não quiser me explicar o que está havendo entre Emma e você, eu vou entender, precisa apenas me dizer que não quer falar sobre o assunto. — Anita tocou no ombro dela, observou o vestido florido, o corpo. Era complicado manter-se contida na presença da loira, por mais que tenha compreendido que nunca mais teriam algo além de um beijo no passado.
— Tudo bem — disse Ingrid, séria. Se afastou da amiga e se sentou numa cadeira. — É uma longa história mesmo, nem Emma deve entender. — divagou.
— Como? — Anita questionou alerta.
— Esqueça. Me perdoe pelo susto aos seus clientes, sei que não quer má fama para seu restaurante. Eu estava vindo para cá para conversarmos.
— E em que posso ser útil? — Anita deu a volta na mesa de centro, afastou alguns papéis de cima dela e pôs os pés para descansar.
— Estou procurando um lugar para morar, uma casa, um pequeno apartamento, algum cômodo que não dependa de um aluguel caro. Fui expulsa da casa do meu irmão. Estou recebendo ajuda do Archie, o dono do hotel, você o conhece com certeza. Consegui juntar dinheiro para pagar uns três meses de aluguel se alguma boa alma quiser me oferecer um canto pra ficar. — Ingrid usou muitos trejeitos para falar. Se a sra. Lucas não conhecesse o tipo, ia aceitar hospedá-la na própria casa, mas até ela achava o pensamento absurdo.
— Achei que estivesse morando onde sempre morou, Ingrid.
— A minha casa em Blue Hill? É aquilo que eu disse, Emma e eu temos um problema. Não sei se serei bem-vinda de volta.
— Ah... — Anita pareceu entender parando com os lábios entreabertos, olhando a amiga. — Sei.
— Talvez você conheça alguém.
— Conheço sim. Uma prima minha aluga quartos numa pensão perto da biblioteca. Com certeza os quartos dela são mais baratos que os quartos do Hotel. — Passou pela mente de Anita que Ingrid cumpria favores para conseguir hospedagem no Hotel de Archie, favores bem peculiares ou o homem era muito imbecil para deixa-la ficar de graça. — Promete que não fica ofendida se lhe perguntar uma coisa?
— Não, não fico.
— Em que anda trabalhando?
Ingrid abriu um sorriso matreiro, um brilho no canto dos lábios.
— Aposto que não vai gostar de saber o que ando fazendo. — falou.
— Tente. — replicou Anita, ainda desconfiada.
— Vou chamar isso de acompanhante. Se alguém quiser uma companhia para jantar, desabafar ou beber para falar besteiras, eu sou a pessoa certa. — A loira riu alto feito deboche.
E estava certa quando disse que Anita não ia gostar de saber. A dona do restaurante se arrependeu de ter perguntado. Todos sabiam, não havia uma novidade imensa nisso, o que Anita odiava era a forma como Ingrid falava com naturalidade sobre uma coisa que não considerava trabalho, mas uma farra com pagamento. Por pouco não colocou Ingrid para fora naquele momento, só se controlou para ser mais calma.
— Pelo visto você gosta desse trabalho.
— Eu acho muito divertido.
Anita olhou para Ingrid com reprovação latente. Seu estômago escaldara e ela quase partiu para o pescoço da loira. Isso não ia mudar o comportamento promiscuo de Swan, poderia ser pior. Por mais fogosa e carente que fosse, a sra. Lucas tinha alguns princípios e pensamentos certeiros sobre as escolhas da amiga. Era uma decepção e tanto saber que nada mudou, a má fama da loira continuaria e ela, principalmente, jamais teria chance de conquistar aquele coração rebelde. No fundo, o asco de Anita a despeito da promiscuidade alheia se devia a não ser capaz de domar Ingrid e seus instintos. Ela se lembrava do dia em que viu a loira ainda jovem desembarcando na entrada da cidade, segurando uma mala e a barriga imensa da gravidez de Emma. Foi a gota para Anita. Até se surpreendia em como o tempo passara e fora generoso para ela, o quanto Emma cresceu bem, mas nesse instante estava igualmente arrependida por ter demitido a moça de seu restaurante por um simples deslize. Anita foi uma vítima do senso comum de cidade pequena, em que pessoas como Ingrid jamais passariam de vergonha alheia e tudo que pertencesse ao universo dela seria julgado igualmente. Era o caso da jovem Emma que vivia pagando pelos pecados da mãe.
Quase, por muito pouco, Anita não chamou Ingrid de “vagabunda”. Esteve prestes a vociferar o que ela era, chegou a ter dor de cabeça por se conter tanto.
— Era só isso, Ingrid? — questionou, claramente impaciente. Se pôs de pé e abriu a porta do escritório, mostrando com o braço o caminho para fora.
— Sim, apenas isso. — Ingrid andou até a porta prestando atenção na mulher, era claro que ela ficara irritada por algo que falou.
— Se eu não tivesse um compromisso com a minha advogada agora a tarde, almoçaríamos juntas. Fale com Ruby e peça qualquer coisa do cardápio, fica por conta da casa hoje. — Anita falou em tom desdenhoso, cheio de subentendidos.
A reação da loira não parecia a mais correta, foi a mais debochada possível. Começou a rir dela de repente, muito desagradável, deixando de colocar uma mão na boca para evitar que o som se espalhasse pelo corredor.
— Anita, Anita, não seja tola achando que me engana. Eu já sei o que você anda fazendo com a advogada. Vocês e seus encontros nas horas do almoço. Isaac me contou tudo. — Ingrid soprou as palavras na cara de Anita. — Bem que me falaram que essa srta. De Vil tinha cara de ser do contra. Talvez seja por isso que ela advoga sempre para mulheres.
A mulher não gostou nada daquele tom de voz de Ingrid e bufou, apertando uma das mãos dentro do bolso da própria calça jeans para não usá-la na cara da loira abusada. Outra coisa era ela debochar de De Vil e o que quer que fosse a relação delas.
— Ingrid, você pode sair antes que eu mude de ideia sobre não cobrar o seu almoço? — pediu Anita.
— Tudo bem, tudo bem, eu entendi que você não gostou de ter falado sobre esse delicado assunto. — Então não conteve outra risada. De repente lembrou de Emma e Regina, aquela cena de beijo, não devia estar rindo da amiga se fosse inteligente. — Sinto muito, querida. Até breve.
E, dizendo isso, ela foi embora deixando Anita ainda mais furiosa. A mulher bateu a porta do escritório e afundou o rosto nas mãos, urrando para expulsar toda repulsa que lhe embrulhava o estômago.
Emma desabou sobre o sofá da sala de estar, ainda inconformada com a fuga da mãe. Sentia-se desorientada, tonta; se fosse atingida por um raio talvez seria igual a sensação. Nada lhe tirava da mente que Ingrid tinha um motivo sério para não querer falar com ela. Se ela estava há tantos dias na cidade por que não veio procurar a própria filha? Emma pensou, pensou e chegou a conclusão de que não iria esperar. Ia atrás de quem sabia daquela história pelo menos metade, mas havia Regina ali, parada ao lado dela, segurando a chave da casa e do carro como se isso fosse impedir a moça de sair atrás das respostas para as mais de cem perguntas que se formavam em sua cabeça.
Mills tentava acalmar os impulsos conflitantes da tarefa de salvar Emma de si mesma, e em seu novo motivo cheio de coragem em concordar com qualquer coisa que mudasse a falta de atitude de anos.
Emma olhou para ela após se pôr de pé, sendo que mal havia se sentado. A moça entendeu a mensagem no jeito como era observada.
— Desculpe, meu amor, mas eu preciso ir falar com o meu tio. — falou como se estivesse pedindo permissão.
Regina tinha outro plano, mesmo que não soubesse ao certo se Belle concordaria em conversar com Emma.
— Se eu soubesse que aquela mulher era sua mãe, eu mesma teria segurado ela. Deixamos uma oportunidade escapar.
— Não se desculpe. Você viu o rosto dela uma vez e foi por foto, não teria como saber que era a mesma pessoa. Era a minha mãe, eu ainda a reconheço apesar das diferenças e era ela por ter fugido quando chamei. Isso faz com que eu me sinta ainda mais intrigada. Quero conversar com alguém que esteve com ela. Meus tios sabem de alguma coisa, com toda certeza.
— Não pode esperar até amanhã para ir conversar com eles?
Emma balançou a cabeça.
— É melhor não. Só voltei para cá para finalizar meu assunto com ela, se eu não fizer isso logo ela vai continuar fugindo. Será que você não compreende? Eu perdi semanas. Ela chegou, deve ter feito o inferno na vida do David e da Mary, e agora ronda por aí como se nada tivesse acontecido, como se eu não existisse. — Emma deixou a agressividade dominá-la. — Eu preciso contar aos meus tios coisas que eles mal imaginam dela e então, descobrindo onde ela está se escondendo teremos uma conversa definitiva.
— Nunca te vi desse jeito, Emma. — comentou Regina.
— Porque esse é um lado meu que você ainda não conhece, mas que sei lá que maneira despertou em mim. — A moça empinou o nariz e pegou a mão da escritora, mas Regina colocou algo sobre a palma dela para que visse.
— Acho que também tenho um problema.
Emma olhou o celular de Regina, que estava aberto na mensagem de Belle.
— É da Belle? Mas... Mas por que ela iria querer nos ver afastadas da cidade enquanto o Daniel está no hospital?
— Me pergunto a mesma coisa.
— Você disse que ela sabia coisas sobre a minha mãe... E ela trabalha na sua casa... E ela aconselhou que me levasse... — Emma fez uma cara de estranhamento.
— Achei que devesse ver isso antes de sair procurando sua mãe. — Regina sibilou.
A moça ficou confusa, não conseguia entender a preocupação de Belle com ela e Regina. Tinha uma mão erguida até próximo dos lábios. Dava voltas em torno de si, ela mesma não compreendia para quê.
— Temos que falar com a Belle, Regina. Qual a possibilidade dela estar a essa hora na mansão? — perguntou Emma de repente.
— Uma bem alta. — Regina e Emma trocaram o mesmo olhar desconfiado.
. . .
A campainha tocou no exato instante em que Belle colocou o telefone de volta no gancho. Ela acabara de ligar para o Hotel e deixar o recado de Daniel para Ingrid, o que não lhe deu nem tempo para avaliar as pistas da mulher pela casa. Quando atendeu, levou um susto encontrando Regina e Emma diante dela na porta. Mal soube o que dizer, só balbuciava algo que Regina depois entendeu ser um “o quê”. Esfregou os dedos no avental do uniforme e esperou uma das duas explicar o que estavam fazendo na porta da mansão.
— Ainda bem que está em casa, precisamos conversar com você. — Emma empurrou a moça para dentro e Regina fechou a porta logo atrás delas. Belle suava frio, começou a olhar para ambas muito depressa, sem saber se devia perguntar por que não tinham saído da cidade afinal. — O que sabe sobre a Ingrid? Por favor, Belle, não me esconda nada. — implorou Emma.
— Calma, Emma, ela está assustada, não vai dizer nada desse jeito. — Regina afastou Swan com o braço, dando espaço para a empregada respirar. — Belle, você está bem?
A empregada assentiu, fitando apenas Regina.
— Desculpa, Belle. — disse Emma. — Eu e a Regina estamos em uma pilha de nervos e queremos entender umas coisas, será que podia explicar?
Belle ergueu as sobrancelhas e finalmente disse:
— Vocês me deram um susto grande aparecendo assim. Achei que estivessem longe de Mary Way Village. — Direcionou a Regina. — O que disse a ela?
— Um pouco do que me disse. — respondeu a sra. Mills.
Belle murchou em um suspiro.
— Devia ter guardado segredo, Regina.
— Era o que eu pretendia se Emma não tivesse desconfiado.
Emma e a amiga se olharam.
— Eu devia ter lembrado o quão teimosa você é. — refletiu Belle.
Emma cruzou os braços, se emburrando.
— A culpa é minha também, poderia ter inventado uma história melhor, mas Emma uma hora ou outra ia querer voltar para acertar as contas com a mãe. — Regina falou.
— E voltei para fazer exatamente isso. Vi a mensagem que enviou para a Regina, Belle, sabíamos que estava aqui. Só você pode me dizer o que está acontecendo com a Ingrid. O que ela esconde?
Belle coçou o coque, quase desmanchando o penteado no alto da cabeça.
— É algo muito complexo, tá legal? Não posso ficar espalhando minhas teorias pra ninguém por enquanto. — gesticulou.
— Teorias?! — Emma e Regina questionaram em uníssono.
— É, algo muito difícil de entender, Emma. Mas se quer saber da sua mãe, eu digo, e não se surpreenda porque é tudo o que ela já vinha fazendo antes de voltar. — Belle contou a Emma o que todos já sabiam, que Ingrid visitava os bares da cidade acompanhada de homens todas as noites e que de certa forma, custou a ser reconhecida por algumas pessoas. Contou também que Ingrid era sempre vista visitando a loja do sr. Gold, que ia muito ao Hotel Hooper e que recentemente esteve saindo com o advogado de Daniel, mas ela não quis entrar na questão da loira ter visitado a mansão há dois dias e inclusive ter dormido na cama que Daniel antes dividia com Regina. Parou na parte em que lhe contaram sobre ela querer ser chamada de Beth e imaginar o porquê da alcunha. — Venho escutando as pessoas comentando isso há dias. Numa cidade como essa você recebe mais notícias dos moradores do que dos jornais. Não sei como vocês não ficaram sabendo de tudo isso.
— Todo mundo, incluindo você escondeu de mim. — Emma soou aborrecida, mas ainda não tinha se convencido que o motivo de Ingrid ter escapado dela era somente vergonha do que vinha fazendo. — Beth era o apelido da vovó entre nós da família enquanto era viva. Ingrid o usa como se fosse dela. Ela não mudou, nem vai mudar. — Ficou alheia de súbito. — Não consigo me entristecer sabendo dessas coisas, até porque ela precisava arrumar dinheiro para viver. Agora entendo meu tio por não ter me contado nada. Só acho estranho que ela não tenha vindo me procurar. — levou um dedo aos dentes, começando a roer a unha enquanto os olhos estacionaram em um bonito abajur caro sobre um móvel do Hall.
— Ela não procurou você ainda porque está escondendo algo muito importante.
Emma pareceu acordar com essa afirmação.
— E o que ela esconde então?
Belle olhou Regina primeiro, com medo de falar demais. Se voltou para Emma e com o que restava de coragem disse:
— A identidade do seu pai verdadeiro.
Emma tentou dizer alguma coisa, mas de repente isso pareceu impossível. Seria mesmo essa a informação que Ingrid escondia dela? Sim, podia ser. Fazia sentido ela estar relutante a um encontro entre elas. Emma imaginou a conversa que teria com Ingrid e todas as tentativas falhas da mulher de convencer estar mudada. Se não conseguisse, ainda mais agora que Emma era maior de idade, usaria dessa artimanha para fragiliza-la. Do lado oposto aos seus devaneios, um sentimento de esperança a invadiu (e se desprezou por sentir tal esperança), finalmente ia saber quem era o pai, seu nome, aparência, o que quer que fosse.
A moça conseguiu arrancar os últimos fios de voz para perguntar algo.
— Como sabe disso, Belle?
— Essa é uma das minhas teorias, Emma. Sua mãe esteve com seu pai verdadeiro e ele está procurando a verdade, mas Ingrid não sabe se conta ou não. Nada daquilo que te contaram sobre ele é real. Você foi usada por ela quando ela soube que não ia conseguir o que queria do tal político. Ingrid ia chantageá-lo quando você nascesse. Seu pai é outro homem.
Não importava como Belle chegara aquela conclusão ou como formou a teoria, Emma sentia seu coração batendo incomodamente na garganta, se transformando em uma sensação de angústia, vontade de chorar.
Regina, atenta a jovem, a colocou nos braços e sentiu a blusa de cetim sobre o busto molhar com a voracidade em que as lágrimas de Emma vinham.
— Nós sabíamos que não era uma boa ideia falar desse assunto com você, Emma. — murmurou Belle, arrependida por ter tocado numa ferida aberta da amiga.
— Por isso pensamos que o quanto mais distante estivesse da sua mãe, menos você sofreria. — Regina completou.
Ao que Belle assentiu para Regina, como se concordasse muito com o que ela disse, Emma enxugou a meia dúzia de lágrimas que saltaram dos olhos, deduzindo uma verdade que mais cedo ou mais tarde ia machucar.
— Achei que não me importasse mais com o meu pai. Eu sempre ouvi a mesma ladainha desde pequena. Um dia me conformei que nunca saberia quem ele era, foi escolha dele ter ido embora porque era casado com outra mulher... Se Ingrid mentiu para mim sobre ele, ela mentiu para todo mundo o tempo todo, me usou. É por isso que ela não gosta de mim, porque o plano dela não deu certo. Como alguém consegue mentir tanto?! — Regina inspirou dizer algo, mas Emma a deteve. — Não tente defende-la. Se tivesse respeito por mim, ela nunca teria escondido o fato do meu pai ser outro homem. Ela nunca quis me proteger, ela só pensava nela. A Ingrid enganou todo mundo.
Belle sentiu pena da amiga. Baixou a cabeça torcendo os dedos no pano do avental uma segunda vez, sem encontrar palavras para falar, nem devia. Ainda precisava contar a Regina sobre Daniel e as suspeitas que tinha a respeito de Ingrid e ele, porém, vendo Emma abalada e frágil precisando da escritora, decidiu que não era a hora certa de tocar no assunto.
De forma abrupta, Emma abraçou Belle e agradeceu como se as conclusões da empregada tivessem tirado dela um fardo de muitos anos.
— Não sei como vou conseguir retribuir tanta informação. — Emma falou se afastando da moça.
— Só me agradeça quando confirmar. Talvez o que eu tenha dito não seja verdade. — pediu Belle.
— Depois do que ela fez hoje, não duvido que seja verdade. — Emma deu as costas e decidiu sair, vendo pela primeira vez como era a mansão por dentro, no mínimo aquela parte da entrada, um lugar que sempre imaginou por passar muitas vezes na porta da casa. A escuridão daquele corredor – por causa do papel de parede — a deixava um pouco assustada. Se tivesse prestado atenção a esse detalhe quando chegaram não teria conversado direito com Belle. Ela mesma abriu a porta e saiu. Regina agradeceu a Belle com um gesto e seguiu a jovem pela calçada.
Na manhã seguinte, Ingrid apareceu como sempre atrasada para o café da manhã. Ao descer, encontrou o saguão do hotel vazio, deserto, sem uma alma viva para lhe servir. Já era costume se sentar e esperar Archie aparecer com uma bandeja separada só para ela e naquele dia não foi diferente. Ingrid se sentara de costas da direção de onde ele vinha, pegou um jornal do dia abandonado na mesa ao seu lado e olhou a foto na primeira página: O prefeito White aparentemente picotando com tesoura uma faixa de inauguração na frente de uma loja. Ingrid se lembrou que devia uma visita ao velho parceiro de outros tempos. A propósito, ela devia um pouco mais que uma visita. O lance entre Leopold e ela era mais pessoal do que ela queria admitir. Foi pega sorrindo de canto enquanto contemplava a fotografia do político, e Archie pigarreou para tirá-la da pequena viagem no tempo que os olhos dela faziam.
— Bom dia. — ele disse.
— Oh, bom dia, querido. — Ingrid largou o jornal de lado e o fitou. — Obrigada por ter guardado o meu café da manhã. Você como sempre um anjo maravilhoso. — No momento em que ele se sentou de frente, ela puxou o guardanapo de pano, estendeu no colo e começou a refeição, faminta, esfomeada como quem não comia há doze horas, ainda assim, elegante e delicada na medida certa.
—Ahm, Ingrid, tenho um recado para você. — Disse Archie, pela primeira vez desinteressado em prosseguir uma conversa. — É de ontem, mas como não vi você o dia todo, esperei para falar hoje.
Ingrid ergueu o rosto para ele, engolindo um pedaço de pão maior do que sua garganta aguentava e isso doeu.
— O que Emma quer? — a voz dela saiu igual a de alguém que pegara um resfriado.
— Não é um recado da Emma. É de Daniel Colter. — O nome dele era a única coisa que Archie lembrava, porém havia anotado em um pedaço de papel o que a empregada do pintor pediu. — Ele sofreu um acidente e está a sua espera no hospital. Aguarda você para uma visita.
Dessa vez, quem pigarreou foi ela.
— Ah, sim... Está bem. — assentiu vagarosamente, imaginando se queria ir mesmo ver o pintor. Devia estar correndo para ir encontra-lo, perguntar o que aconteceu, daí ele prometeria que ficariam juntos, mas não. Ela não conseguia ter pena de Daniel e o que quer que ele tenha sofrido. — Obrigada, querido, vou visita-lo mais tarde.
Ela terminou de comer, limpou os lábios, não questionou nada sobre a quietude de Archie, pois ele parecia muito sem graça só de ter dado o recado. Ela o fitou algumas vezes, sorriu outras o deixando suspirante. Nada de anormal. Então, se levantou, deixou um beijo sobre a bochecha do dono do hotel antes de sair.
. . .
Era quase hora do almoço quando ela chegou na prefeitura, conseguindo pegar o prefeito de surpresa no gabinete.
— Já avisei que não gosto que entrem sem bater... — Leopold White a viu depois que levantou os olhos dos documentos que assinava. — Ingrid? — o homem se apoiou na poltrona de luxo e ficou de pé. — Há quanto tempo!
Ingrid abriu um sorriso ingênuo, andou até ele como um animal no cio e ficaram um de frente para o outro.
— Senti sua falta. — ela, mais que depressa, envolveu seus braços entorno do pescoço dele. — Achou que eu não fosse voltar, hum?
— Sim, foi o que pensei. Gold me disse que está na cidade há algumas semanas, por que não me deixou falar com você antes? — O prefeito apertou-lhe bem a cintura com as mãos cheias. Velhos conhecidos, velhos hábitos.
— Eu estava... Quero dizer, estou resolvendo alguns assuntos particulares. Passei muito tempo longe daqui, e ao voltar descobri tanta coisa. — ela falava longamente, com um tom de voz que só usava com ele. — Não pense que esqueci o que fez por mim. O dinheiro que você me mandava me ajudou por um bom tempo.
— Ah, mas aquilo não era nada. Lamentei com a sua partida, poderíamos ter nos encontrado nas vezes em que vinha visitar sua filha.
— É, a Emma. — Ingrid se soltou dele e caminhou pelo gabinete, procurando mudar de assunto. — Eu vi sua foto no jornal de hoje. Acho que está tendo muito trabalho, a cidade mudou muito desde a última vez.
— Mudou, oh, se mudou, Ingrid. — Leopold ajeitou os suspensórios na própria roupa. — Essa cidade mudou muito com as melhorias no hospital, o investimento que consegui com o governo do estado. Não somos mais considerados caipiras. Quer um exemplo? Recentemente um pintor e a esposa de Nova York, vieram morar aqui.
Ingrid estremeceu. Voltou até o prefeito tentando não parecer interessada no que ele dizia.
— Acho que sei de quem está falando. Você a propósito esteve de olho na mulher desse pintor, Gold me contou meio por alto. Ela é tão bonita assim para se esquecer de mim?
— Para falar a verdade, sim. — admitiu Leopold White.
Ela fechou os dedos no encosto da cadeira mais próxima a ela.
— Não posso acreditar. — falou a loira, ríspida.
— Eu sou um homem se não se lembra, um homem que sabe apreciar a beleza de mulheres como Regina Mills. — respondeu White laconicamente.
— Achei que eu fosse importante para você, Leo. — disse ela, constrangida.
— Ingrid, gosto muito de você. Nunca impedi que se encontrasse com outros homens, e, principalmente, patrocinei sua viagem depois do escândalo que você armou quando voltou grávida. Dez anos sem vê-la e ainda deseja me cobrar atenção? — Ele deu as costas para ela e buscou algo para beber do outro lado da sala. — Sinto-me no direito de admirar a sra. Colter, pois há muito tempo não via uma mulher tão fina e bonita por aqui. Lamento que ela não tenha aceitado a minha proposta.
— Que proposta? — Ingrid perguntou como se não soubesse o que Leopold havia feito. Gold e ela tinham conversado sobre a loucura do prefeito em perseguir a sra. Mills e a tentativa falha dele de terem um romance.
— Ofereci um milhão de dólares para ter um encontro com ela.
— Você só pode ter ficado doido!
— Eu fiquei, admito. Aquela mulher tem uma coisa que me instiga. — Leopold preparou dois drinques, entregou um copo na mão dela. — Seu único defeito é o marido, o pintor. Pensei que o casamento deles tivesse acabado. — ele fez um bico murcho para baixo.
Ingrid não bebeu, deixou o copo sobre a mesa do prefeito, não ficou bem ao falarem de Regina.
— O problema dela não é o marido. — soltou a frase, refletindo para si mesma.
— O que seria? — ele perguntou interessado.
Ela o olhou de banda, os olhos semicerrados de cinismo.
— Regina Mills não gosta de homens, Leopold.
No que disse, seus saltos cintilaram pelo piso do gabinete, largando o prefeito sozinho. Ela não tinha mais assunto algum com ele no momento.
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