Intimamente Emma

39 O lamento de Emma


Notas iniciais
Olá, amigas leitoras, tudo bom com vocês? Primeiro capítulo do ano. Eu espero que esse esclareça a importância de Regina na vida de Emma e vice versa. Nem o pior dos acontecimentos pode abalar esse amor. Façam uma boa leitura.


— Vem, meu amor... Venha... — Regina chamava, conduzindo a moça até o sofá da sala onde antes estava sentada rezando.

O murmúrio da escritora não era o suficiente para Emma sentir coragem e erguer o rosto, olhar a mulher e lhe pedir um perdão desnecessário, mas que ela jurava precisar. Ela não queria deixar aquele abraço, não queria ir a lugar nenhum. As mãos de Regina em suas costas as afagavam, tentando trazê-la para o conforto. Então, Regina repetiu:

— Estou aqui com você, nada vai acontecer.

Contudo, já havia acontecido, e nada mais a impedia de pensar naquela infeliz coincidência em que a vida a condicionou. Emma não se perguntava mais dos porquês ou culpava sua mãe e pai por ter nascido. Ela chorava, encharcando o ombro da blusa de Regina com o rosto lavado e agora corado, cansado. Quando começou a soluçar Regina resolveu sentá-la e talvez esse fosse o momento para conversarem, ela sabia o quanto Emma devia desabafar. Emma enfim aceitou se sentar no sofá, mas não tinha coragem alguma de encarar a mulher que amava. Tinha vergonha, um sentimento de culpa sem tamanho e a sensação de que tinha perdido tudo, mas não era verdade.

— Perdão... — sua voz saiu tão baixa que Regina não compreendeu.

— O que disse?

— Perdão. — os olhos de Emma ainda fitavam um ponto qualquer da sala. Regina a olhou, tocou em suas mãos, elas pareciam dois pedacinhos de gelo.

— Perdão pelo o quê?

A voz de Emma tremeu um pouco.

— Por ser quem eu sou. Por significar o que restou da traição do seu marido, porque é isso que eu sou agora. — Ela soluçou antes de continuar, parecia alguém sem ar. A respiração ia e vinha, fungava e tremelicava os lábios sem controle. — Eu sou o fruto de uma traição.

Regina esticou a mão no rosto dela com calma, limpou as tantas lágrimas dela, mas ainda era impossível convencê-la a olhar em seus olhos.

— Você não tem culpa de nada. — afirmou Regina.

— Tenho sim. — Não se conteve e desatou a chorar de novo. Regina instintivamente a segurou, envolveu os braços na moça e beijou seus cabelos.

— A sua mãe e o Daniel jamais imaginariam que um dia você viria a me conhecer. Eu jamais pude imaginar que ela foi a amante dele, você entende, Emma? Por mais estranho que pareça, tudo isso é uma enorme ironia do destino. — Sua voz era tão calma que Emma tinha medo de estar sonhando.

Aos poucos a moça se acalmou, deixando os carinhos da mulher serem seu acalento.

— Eu não sei se entendo ainda. — confessou Emma em meio a outro soluço. — Como você soube?

Regina sabia que essa pergunta viria dela mais cedo ou mais tarde. Com toda calma começou a explicar o que foi que ouviu Belle lhe contar. As dúvidas de Emma tinham acabado agora. Mills resumiu seus sentimentos narrando para Emma dia após dia que passou com ela ali na casa depois de saber da teoria. Além do mais, ela se lembrava dos sinais que via em Emma, os vários traços de semelhanças com Daniel e precisava contar o quanto perceber isso assustava.

— Havia momentos em que eu via Daniel em você. Não sabia como era possível duas pessoas que não se conheciam, nunca tinham se visto na vida ou tido contato se parecerem tanto. Você olhando para mim às vezes, o jeito como segurava minhas mãos e meu rosto. Eu tive medo de estar confundindo meu amor por você com o rancor que eu sentia por ele. Nunca quis que você fosse um objeto da minha vingança, de verdade eu jamais quis me vingar de Daniel como sua mãe sugeriu quando conversou comigo hoje. Se eu tivesse uma mente mais sagaz como a de Belle eu poderia formular essa teoria, poderia ter contado a você.

— E ficou guardando segredo para não me magoar? Do que você tinha medo? Que eu surtasse?

— Uhum. — gemeu Regina. — Muito medo que isso acontecesse e que você sumisse.

— Se quer saber eu estou mesmo com vontade de sumir e nunca mais voltar.

— Sem mim?

Emma não respondeu.

As lágrimas finalmente cessaram, mas ela precisava de ajuda para se convencer de que Regina ainda a amava como antes e nada daquilo que ouviu a mãe dizer era um problema tão grave ao ponto de separá-las.

— Sou filha do homem com quem você foi casada. Será que não percebe o quanto isso é péssimo? Eu preferia morrer a ser filha do Daniel.

— Nem ele tem culpa, Emma. Se Daniel soubesse que tinha engravidado a Ingrid, talvez você nunca sofresse com a ausência de um pai e principalmente a dela. Tudo poderia ser diferente. O sonho da vida de Daniel era ser pai. Eu jamais pude dar a ele um filho, nem com todos os tratamentos que fiz.

— Mas você continuaria sendo infeliz, ele ia partir o seu coração se escolhesse ficar com a minha mãe.

— Com certeza iria e eu teria de compreender. Eu sairia viva disso, com certeza.

Emma baixou a cabeça, uma mão sobre a testa para Regina não ver uma eventual lágrima caindo dela. Mais nenhuma gota desceu como se a moça tivesse esgotado seus recursos.

A senhora Mills não desistia, apesar das recusas de Emma, tocava em seu rosto, afastando os cabelos para trás das orelhas dela. Emma se esquivava dos carinhos depois de um tempo. A moça se levantou e andou até a janela, segurando os braços.

— Você devia ter me contado. Pelo menos sabendo de você doeria menos.

Regina olhava Emma de costas para ela, se cobrando justamente por não ter escolhido contar sobre a teoria de Belle. Procurava exaustivamente por uma justificativa, ao menos um motivo forte para ter sido cruel quando exigiu de Ingrid a verdade para Emma. Havia sido insensível, mentirosa, ceifadora, pensava de si. Mas havia omitido uma informação ainda que fosse uma história bem estranha em teoria.

— Então você acha que eu omiti a teoria da Belle porque eu quis? Por raiva? Você está pensando como sua mãe se acredita mesmo nisso.

— Eu não sou como a minha mãe. Mas o que eu sinto agora é que você jogou a Ingrid contra mim, obrigando ela a dizer como se eu fosse perdoá-la desse jeito. Você já pensou no que ela poderia ter feito? — Emma virou metade do rosto por cima do ombro. — A Ingrid ia me colocar contra você, dizendo que você mentiu pra mim.

— Ela seria capaz disso, mas não capaz depois de tudo o que eu falei. A sua mãe repetiu algumas vezes que se importava com você. Se eu não sentisse que ela queria uma espécie de benção sua sobre o casamento dela com Daniel, eu não teria dito para ela te procurar tão espontaneamente.

— Você tá brincando?!

— Não. Mas ela pretendia se casar com ele e me chantagear. Ela veio até aqui para me cobrar a vida que ela queria ter vivido há vinte anos. Sua mãe me odeia por achar que eu roubei seu pai dela.

— Não chama aquele homem de meu pai. — pediu Emma, sisuda.

— Tudo bem, Emma, Daniel não é seu pai se não quiser que ele seja. Mas eu não planejei nada. Eu não conseguia raciocinar o que fazer com você e com a possível verdade. A sua mãe me acusou, quis me ofender e eu me defendi, aliás, defendi você acima de tudo. Se eu cometi um erro mandando a Ingrid te procurar porque eu não era capaz de dizer nada, que eu pague por ele, mas por favor me dê certeza de que você quer que eu saia da sua vida. — Regina se ergueu.

Emma suspirou com uma nova onda de tristeza. Se virou e finalmente teve coragem de olhar nos olhos da amada. Há quanto tempo estavam discutindo o dispensável? Ingrid e Daniel eram completamente dispensáveis na vida delas, e de repente a verdade que Emma procurava e descobriu era apenas um detalhe aproximando mais elas duas. Emma percebeu isso. Sentiu o medo na confissão de Regina, achava que estava sendo odiada e no entanto poderia ser apenas uma prova de amor camuflada de preocupação por ela. Por que ser tão dura com a decisão de Regina em não contar o que sabia? Depois de todo o esforço, sofrendo com aquela história, a moça ainda queria cobrar essa fidelidade? Foi doloroso saber que era filha de Daniel, mas será que Regina também não estava sofrendo?

Emma balançou a cabeça, estava com uma expressão horrenda no rosto, uma ruga nascendo entre as sobrancelhas de tanto tê-las franzido.

— Não é isso que eu quero. — a garota disse. Cobriu o rosto envergonhada, e continuou a falar por trás dos dedos, que abafavam sua voz. — Não foi isso que eu quis dizer. Eu confiei em você, eu seria capaz de dar a minha vida em troca da sua. O que faria se estivesse no meu lugar?

Regina, arrasada, meneou a cabeça tal como Emma.

— Também daria a minha vida e tudo o que eu pudesse para você ser feliz, inclusive guardaria um segredo se ele fizesse você sofrer. Se soubesse antes de mim, manteria o segredo consigo para me proteger?

Emma fez que sim sem pensar muito. As duas se olhavam, os olhos cintilavam. Emma não queria mais discutir, queria aqueles braços, aquele amor e ouvir o quanto era amada. Tudo o que Regina fez foi protege-la de uma maldade, nunca seria por odiá-la. Emma estava confusa, entendia tudo errado naquele momento e sua cabeça no entanto só desejava um alívio para a dor.

O alívio estava de pé diante dela, séria, ainda que tão abalada quanto, mas firme por amor. A mulher estendeu o braço, a mão, a chamou de volta para o conforto de um abraço e Emma obedeceu avançando em cima dela, mas ao invés de chorar a tomou em um beijo ávido nos lábios com desespero e a urgência de um perdão por ser tão tola de achar que estava tudo acabado entre elas.

Regina e ela se grudaram e o beijo ficava cada vez mais feroz. Pararam e respiraram, trocaram mais um beijo selado e estavam bem de novo. Rosto no rosto, só se tocavam, sentiam a respiração uma da outra.

— Como eu vou odiar a única pessoa no mundo capaz de me fazer feliz? Se esqueceu da promessa que me fez de nunca desistir da gente? Não importa o quão destrutiva a verdade seja, Emma, nós não podemos depender dela. O meu amor é maior do que ela e para mim é a única verdade que importa. Existem verdades inúteis, Emma. Verdades que não precisamos compreender, muito menos adotar. O que você acabou de descobrir não muda o meu sentimento, e provavelmente ele só aumente. — dizia ela, cansada, agarrando Emma pela gola do casaco. — Eu me apaixonei pela moça de olhos fortes, determinados e agressivos, pela moça que me passava a impressão de coragem e força. Naquela folha que você achou e guarda no espelho da penteadeira está muito bem descrito por quem me apaixonei. Essa moça ainda vive em você, a mesma moça que me inspirava a escrever cada vez mais, a mesma moça que me alertou sobre as casualidades dos meus livros com a minha vida e que era um personagem criado por mim, me dado de presente para ter o direito de ser feliz. Como é que você pode achar que uma coincidência nos nossos destinos vai acabar com o meu amor? Ainda que nossos destinos fossem mais cruéis, eu não te amaria menos. Pare já de pensar que eu te odeio. Eu te amo e não há nada, absolutamente nada que mude esse fato. — falou para Emma com firmeza.

— Você merece alguém melhor do que eu...

— Emma, não há ninguém melhor. Entenda que eu quero você e ninguém mais.

Emma sentia o coração se aquecendo uma vez mais, a doçura de Regina e a decisão em sua voz a preenchendo de certeza. Sorriu sem jeito, mas fez que sim. Também amava essa mulher de um jeito avassalador. Tudo havia sido questão de dias, o contato com Regina, o deslumbramento, o transbordar de sensações que ela lhe oferecia. A moça entendeu que se havia sobrevivido aquele baque quase insustentável, sobreviveria a qualquer coisa por Regina.

Com os rostos novamente justos, os narizes quase se beijavam pela proximidade quando Emma disse:

— Eu te amo, Regina.

A sra. Mills sorriu e o silêncio voltou a pairar tranquilo entre elas.

Regina tomou conta dela o dia inteiro. Por um momento achou que Emma tinha adoecido com tamanho estresse, pois a moça enfraqueceu duramente em seus braços. Ela levou Emma para o quarto no colo, fez o chocolate quente dela – agora muito mais saboroso do que o primeiro que tentara – e elas conversaram antes que o cansaço desabasse Emma no travesseiro.

— Já parou para pensar se nada disso tivesse acontecido? — perguntou Emma, puxando um segundo cobertor trazido por Regina para cima dela, sentia um frio incomum.

— Não teríamos nos conhecido. Foi o que eu falei para Ingrid. — respondeu Regina, sentada ao lado de Emma na cama.

Houve uma pausa.

— O que será que meu tio vai pensar? — uma nova pergunta de Emma, muito baixinho, como se mais alguém pudesse estar ouvindo.

— Ele deve ficar tão assustado quanto nós. Posso perguntar o que você vai sentir quando essa história cair nos ouvidos das pessoas da cidade?

— Eu não sei. Juro que não sei. — Emma respondeu e deitou de uma vez debaixo dos cobertores, vestida com a mesma roupa que usava antes e os calçados. Regina fez o favor de tirar o par dos pés dela e guardar, voltando a se unir a ela na cama.

Emma dormiu a tarde inteira, o restante da noite, a madrugada e Regina acordou muitas vezes para olhá-la. O tempo desabou lá fora e choveu desde o fatídico instante em que Emma pisou em casa. Embalada no som da chuva caindo há muitas horas, Regina também apagou ao lado da amada e quando acordou já era manhã do dia seguinte.

A claridade mínima que entrava pela sacada aberta do quarto incomodava os olhos escuros de Regina, e fazendo muito esforço ela procurou o corpo de Emma ao seu lado, mas só apalpou os cobertores vazios deixados onde o corpo dela estaria. Emma abandonou a cama cedo, pois o espaço estava frio.

Regina desceu as escadas com pressa, mas nada de Emma na sala ou na cozinha, nem em qualquer outro cômodo. Ela olhou pela janela, o fusca não estava do lado de fora onde foi deixado. Emma saiu. A mulher pegou o celular e discou para o da moça, mas o aparelho estava bem ali perto vibrando na cômoda e ela não viu. Emma sumiu, e sumiu sem deixar rastros. O que ia fazer? Onde estava? Pensava Regina em temerosa ansiedade. A mulher coçou a cabeça, andou de um lado para o outro. Só foi se dar conta de que estava fazendo um frio tremendo quando percebeu que não usava um robe e só vestia uma camisola de seda, na pressa ela nem pensou em se vestir.

. . .

Na floricultura da família Swan, mais um dia parecia calmo e insosso na pacata cidade. David, cuidava de uma roseira enquanto Zelena atendia uma cliente exigente que fazia ela andar a loja inteira para anotar os pedidos. No balcão Mary entregava uma sacola e o troco para um homem idoso, muito sorridente e simpática com o cliente. Foi ela quem viu quando a mulher entrou pela porta fazendo barulho com os saltos da bota, correndo pelos corredores. Mary deu a volta no balcão e se colocou à frente dela.

— Você deve ser Mary Margaret, estou errada? — perguntou a morena esbaforida, ansiosa, com frio, que acabara de entrar.

— Não está errada. Sou eu sim. — disse Mary com desconfiança. — O que a senhora quer? — Reconhecia o rosto dela de uma vez em que esteve na floricultura, se não se enganava seu nome era Regina.

— Estou procurando a sua sobrinha. Emma.

Mary congelou boquiaberta, logo teve um lapso de memória mais profundo.

No outro corredor David ouviu o nome da sobrinha e foi ver o que estava acontecendo. Ele observou a esposa parada na frente da mulher e as caras de susto das duas. Alguma coisa não estava certa. Se aproximou, tirando as luvas de jardineiro das mãos.

— Pois não, senhora? — interpôs.

— David. — ela disse, ele assentiu. — Sua sobrinha veio até aqui por um acaso?

— Não. Fala de hoje? Não, Emma não vem há alguns dias. Quem é a senhora? — a memória dele não era lá grandes coisas, e levou algum tempo para compreender que ela era a mulher que andavam falando ter se separado do marido há alguns dias, a tal escritora.

— Uma... Amiga. — Foi assim que Regina se apresentou. Olhava os dois entendendo a incerteza deles de prosseguir na conversa, eles não compreendiam nada, apenas o nome de Emma. — Ela parece ter fugido de casa essa manhã. Acredito que esteja muito aborrecida com a mãe dela, algo me disse que ela poderia ter vindo procurá-los. — falava Regina, aflita em partes.

— O que a Ingrid fez? — Mary se adiantou, preocupada.

— É uma longa história. Emma vai ter a oportunidade de contar tudo quando estiver mais calma.

— E ela sumiu assim de repente? — David perguntou subitamente.

— Sei que estava em casa, mas deve ter saído cedo hoje. Ela não está no hotel trabalhando, então talvez ela estivesse aqui conversando com vocês.

— Não, ela não veio. — David disse, o estomago revirou. Mary olhou para o marido e o segurou.

— Pode nos dar um minuto? — pediu a tia de Emma à Regina, que pegou o marido pelo braço e entrou com ele num dos corredores da floricultura, falando baixinho só para ele ouvir. — David, é ela! É a mulher a quem Emma se referia.

— O quê? — David franziu o rosto.

— Sim, é ela! Eu tenho certeza. Veja como está preocupada.

— Não pode ser... Ela... Essa mulher é a escritora famosa que veio morar aqui.

— Pois então é ela. Emma não disse que a mulher com quem vivia estava resolvendo um assunto para depois irem embora? É essa mulher.

David olhou para a esposa, pensou. Fazia sentido.

Os dois voltaram até Regina e ele a fitou bem.

— O que aconteceu com a Emma? Por que ela iria fugir? — ele cruzou os braços.

— Não posso dizer agora, é melhor que ela conte tudo a vocês, mas preciso saber onde ela se meteu. — Ao que Regina disse, Mary e David trocaram olhares tão assustados ou mais.

Ele pensava para onde Emma iria se estivesse chateada, então olhou para Regina de novo, lembrou da confissão da sobrinha e no jeito como se referia a ela, aquela mulher em questão. Teve certeza de que Emma não havia fugido bem como pensavam.

— Para onde Emma iria se estivesse precisando ficar sozinha?

Regina tomou ar, um único lugar veio à mente.

— Um lugar onde quisesse silêncio, paz. — refletiu Regina.

— A senhora conhece esse lugar?

— Sim. Eu sei onde ela está! — Regina virou nos calcanhares e avançou pelo corredor de plantas atrás dela. Tinha pedido um taxi para descer Blue Hill e o mesmo veículo a esperava do lado de fora da loja. Ela ia abrir a porta do carona de novo quando David saiu e lhe chamou.

— É você, não é?

Ela se virou e o viu parado na porta da floricultura.

— É você a mulher por quem a Emma é apaixonada. — afirmou ele com plena convicção dada pela esposa.

Regina corou, mas sabia que corria esse risco. E por que importava agora que ela e Emma podiam ficar juntas sem esconder o relacionamento? Ela fez que sim e mirou o chão.

— Tenho que buscar sua sobrinha. — e entrou no carro, dizendo ao motorista onde iriam.

David ficou olhando para ela, o carro. Torcia para que Emma não tivesse errado com aquela mulher, e estranhamente ele sentiu confiança nela.

. . .

Emma se debruçava nas pedras do mirante, vendo a cidade lá em baixo. Houve tempo para pensar em muita coisa. Houve tempo para desejar ir embora dali e voltar para o quarto, a cama e para Regina. Onde sua vida havia chegado? Tão jovem e tão triste. Ela não estava arrependida de ter sofrido e ter lutado para sobreviver sozinha. Não era mais a vítima das escolhas da mãe e nem a menina julgada pelos outros como “nova Ingrid”. Regina estava certa, aquela era uma verdade inútil e ela não precisava remoer a amarga coincidência. Mas precisou daquelas horas sozinha para entender que era amadurecida e principalmente que esse destino a princípio triste podia lhe reservar toda paz pelo resto da vida que seguiria com Regina. Mesmo que doesse eventualmente se lembrar que era filha de Daniel Colter, o ex-marido de sua amante, e caso amoroso da mãe no passado e presente, ela queria recomeçar como se nunca tivesse descoberto. Como se fosse apenas um sonho ruim, uma lembrança má que pudesse esquecer rápido. Estava começando a achar que era capaz disso.

Saiu cedo de casa, antes que Regina pudesse pensar em acordar, sentindo a necessidade de se isolar do mundo. O único lugar onde se sentiria bem era ali, com certeza. Gostava tanto do mirante que havia decidido marcar seu primeiro encontro com Regina nele e apenas ela sabia que aquele era seu esconderijo secreto, onde ela podia pensar sem ser julgada por ninguém.

Agora tinha que pensar em uma forma de contar aos tios e em outra de falar a Ingrid, que a perdoava apesar de tudo. Se sentia mais leve e disposta a ir conversar com a mãe, entender melhor como ela e Daniel se conheceram e principalmente se despedir, pois não pensava em ficar muito mais tempo agora que sabia de tudo. Não era pelo o que as pessoas diriam, nem pela proximidade da mãe, era por si, por Regina. Elas iriam embora e dessa vez para não mais voltarem.

Emma olhou para o céu nublado. O sol tímido se escondia entre muitas nuvens e não ia aparecer hoje. Ela voltou a ver as formas da cidade e suspirar, lembrou de Regina e como a amava. Quando chegasse em casa acordaria ela com beijos e diria que era sua para sempre. Com esse pensamento ela se ergueu e se virou.

Não era mais preciso voltar para casa sozinha, Regina estava bem ali parada, olhando para ela dos degraus do patamar, portando um sorriso de alívio assim como os olhos brilhando. Emma sorriu de volta com o vento assoprando os cabelos castanhos para o lado, ainda era possível ver sua fraqueza no rosto, as olheiras que as lágrimas em excesso deixaram nela, mas, apesar disso, linda. Incrivelmente linda.

A moça andou até Regina e elas tiveram um abraço, se olharam nos olhos, trocaram carinhos.

— Graças a Deus está aqui. — sussurrou Regina para ela.

— Para onde acha que eu iria sem você? Eu precisava de um tempo sozinha para engolir aquela história. Você tinha razão. Tudo não passa de uma verdade inútil que não muda o meu sentimento por você. Agora eu só quero ir embora dessa cidade e viver tudo o que eu mereço do seu lado. — Emma fungou, fazendo um som engraçado. Elas riram.

— Eu juro que nunca se arrependerá, meu amor. Farei o possível e impossível para te ver feliz, completa. — Regina replicou, afastou os cabelos da moça do rosto e a beijou na boca com delicadeza. — Te amo. — sussurrou sobre os lábios dela.

— Eu também. — a moça repetiu.

Emma de súbito virou o rosto para o lado e espirrou.

Caia um sereno frio que acompanhado do vento era um atrativo e tanto para qualquer resfriado.

Então, Regina disse:

— Acho que é hora da senhora voltar para casa e tomar uma bela caneca de Chocolate Quente.

A moça concordou, se aninhando a Regina, abraçando seu corpo para se esquentar mais um pouco. Deixaram o mirante e voltaram a cidade, que, apesar do frio, elas não sabiam se era o lugar mais seguro para ficar.

Notas finais
Ter voltado com Emma e dado a ela o tempo necessário para resolver o assunto com Ingrid pode ser considerada uma prova de amor por parte da Regina? Eu acho que sim, em partes. Regina também teve curiosidade de saber até onde Emma iria e só comprovou o quão corajosa a moça é. Muito obrigada pelo retorno no capítulo passado. Eu espero vocês aqui de novo mais uma vez. Nos vemos no próximo muito em breve. Um abraço apertado e fiquem bem.