Intimamente Emma

40 Entre pai e filha.


Notas iniciais
Olá, amigas leitoras. De volta com essa fanfic que vive seus capítulos conclusivos. Não irei me aprofundar muito porque gostaria que tirassem suas próprias conclusões. Uma coisa que muitas queriam acontece nesse capítulo, e eu devo dizer que isso sempre esteve planejado de ocorrer. Espero que agrade. Façam uma boa leitura.


As lágrimas de Ingrid teimavam em cair dos seus olhos quando ela desabou sobre os joelhos e se debruçou no colo de Daniel. Não se lembrava de um dia ter chorado tanto, de sentir aquela sensação de derrota e desamparo. Daniel era o único que podia ajudá-la naquele momento, mesmo que apenas com um olhar, sua única força restante. O frio do arrependimento era dolorido e pesado e Ingrid jurava que ia morrer dele. Soluçava, molhava o tecido sobre a perna do pintor, esperando a voz dele se sobressair e questionar o porquê do segredo.

— Aquela... Aquela moça... — ele disse finalmente.

— Sua filha. A nossa filha. Sempre foi ela, a menina que eu abandonei a própria sorte. — a voz dela engrossou numa tentativa de controle, mas ainda se misturava aos soluços.

— Por que não me disse nada?

— Raiva. Ódio. Rancor.

— Foi quando eu enviei o quadro e a carta?

— Eu soube naquela semana que esperava um bebê. Foi o fim do mundo para mim, Dani. Você acabou comigo, você e Regina.

— Se tivesse me contado...

— Não. Não ouse me falar das atitudes que tomaria se eu tivesse contado da gravidez. Você jamais estaria comigo por amor, você escolheria a menina. — Ingrid soluçou.

Daniel estava em choque, mas falava tentando voltar ao passado para reviver na pele do jovem pintor. Ele também chorou. Deixou algumas poucas lágrimas rolarem pelo rosto, pois não era possível gritar, correr atrás da filha ou dar um tapa no rosto de Ingrid.

— Minha filha... Eu tenho uma filha. Você escondeu uma filha de mim.

— Porque eu te odiei no momento em que li aquela maldita carta. — ela ergueu o rosto para ele. De repente não pedia mais perdão ajoelhada, queria confrontá-lo.

— Fui honesto com você, eu disse a verdade. E, você, sem o mínimo de decência para entender o meu lado não quis aceitar que nós dois não daríamos certo.

— Era a mim que você devia amar. Seríamos tão felizes, querido. — ela bateu no próprio peito.

— E por me odiar escondeu uma filha. — ele olhava para ela sem compreender. — Como pode ser tão cruel?

— Fui muito cruel com ela sim, mas eu achava que pesaria mais na sua consciência se soubesse da minha morte. Diga, querido, como se sentiu quando leu que eu estava morta?

— Triste, abalado. Jamais desejei que você deixasse de existir por minha causa. E pelo o que estou vendo você fez coisa pior. O que essa menina está sentindo agora não deve ser menor do que eu estou sentindo. Você me privou de ter uma filha, de realizar um dos meus sonhos, Ingrid. Pelo o amor que nós sentíamos um pelo outro, você devia ter respeito por mim e me contado dela.

— E você teria voltado para mim? Teria se arrependido de ter me trocado pela Regina? — Ingrid abriu seus enormes olhos azuis e eles arderam com voracidade.

— Não. Mas eu teria dado um nome para a menina, teria cuidado dela e teria sido um pai. Que história foi a que você contou a essa moça?

— Já disse que a abandonei a sorte. Eu voltei para esta cidade, as pessoas me perguntavam onde estava o pai do meu bebê e eu precisei encontrar alguém para ser o pai dele. Felizmente alguém perfeito para esse papel surgiu e Emma acreditou a vida dela inteira que ele era um político que foi embora depois do vexame que eu fiz quando contei para todo mundo. Eu jamais diria que o pai dela era um pintor por quem me apaixonei perdidamente e que havia me enganado. — ela dizia, voltando a ter insanidade na voz.

Daniel se sentiu mal, nauseado, abatido.

— Acho que vou vomitar — ele respirou fundo, e mais calmo tentou absorver tudo o que ouvia de Ingrid.

— Eu sei que está com nojo de tudo o que eu fiz, por ter fingido a minha morte, por ter abandonado a garota, por ter me deixado levar pelos meus vícios...

— Cale a boca, Ingrid, pare de tentar me causar pena. Tudo o que eu sinto agora são vontades das quais estou incapacitado de fazer, e ainda me diz que abandonou a garota. Deixou a minha filha sozinha por que sentia ódio de mim? Queria descontar nela a sua frustração por ter me perdido?

Ingrid cerrou os punhos.

— Sim. — ela assentiu. — Emma se tornou um peso na minha vida. Um peso que eu jamais fui capaz de segurar por muito tempo. Todas as vezes eu olhava aquela menina, eu sentia um ódio gigante de mim mesma, mas ainda pior, ódio por ela se parecer tanto com você. Era você quem eu enxergava toda vez que ela acordava de madrugada e chorava. Era você quem eu enxergava toda vez que ela vinha correndo pros meus braços quando eu voltava para casa. Foram oito anos alimentando um ódio, que, agora eu sei que é um grande amor por você, ainda assim um sentimento que eu necessitava matar dentro de mim. Pense como seria infernal se ela soubesse que tinha um pai famoso e ainda por cima tão parecido com ela.

— Foi tão gananciosa a esse ponto? Tudo isso porque eu acabei com seus sonhos de ser uma mulher rica e famosa?

Ela desviou o olhar, se ergueu do colo dele.

— Jovem, bonita e atraente, eu achava que merecia o mundo aos meus pés, Daniel. Você era o único capaz de me oferecer tudo o que eu quisesse, incluindo amor.

— Nunca esteve apaixonada por mim, esteve apaixonada pela ideia de ser rica e mulher de um pintor reconhecido.

Ela passou a mão pela nuca por baixo dos cabelos. Deu um jeito no rosto úmido e corado do esforço que foi deixar as emoções aflorarem, então riu covardemente.

— As duas coisas, Dani. Me culpe agora, me xingue, diga que fui uma mãe desnaturada, mas não duvide do meu amor, porque ele é a única coisa que sobrou dentro de mim depois de todos esses anos. Veja como eu vivi após as idas e vindas à Mary Way Village. Homens, empregos, arrependimento, bebidas, cigarros, má fama.

— Vai custar muito para me causar pena, Ingrid. — ele estava ficando cansado das afirmações, sempre chegando a mesma finalidade de tentar comovê-lo. — Tudo o que acabou de me dizer são consequências das suas escolhas. Se tivesse escolhido me contar sobre a menina, eu não teria deixado Regina, muito porém não teria ignorado que seria pai. Emma teria tudo, você também poderia viver confortavelmente e teria cuidado dela como ela merecia. O seu ódio não justifica a sua escolha de vida, apenas reforça o tamanho da sua ambição. Realmente fiz uma excelente opção ficando com Regina. Ela sempre foi muito mais mulher do que você em todos os aspectos. — afirmava, começando a falhar, tossia. — Eu não quero mais me casar com você. Não acredito mais em nada do que me disse e não irei acreditar em nada do que me disser de hoje em diante. Vá embora desta casa e não ouse mais pôr os seus pés nela, está compreendendo? Está tudo acabado entre nós.

Tudo acabado entre eles. Não era isso que Ingrid queria escutar dele. Não, não estava certo, não podia ser assim.

Ela o fitou com horror.

Então todos os seus esforços foram em vão. Parece que sim. Maldita hora em que foi atrás de Regina. Onde estava com a cabeça quando ela a pressionou para falar a verdade sobre Emma? Tudo arruinado; seu casamento, seu amor, seu sonho. Nada entre Daniel e ela existia mais. Foi como no passado quando decidiu “morrer” para ele e esconder que tinham uma filha, mas agora doía infinitamente mais, doía em brasa em seu peito. Ela sentia um frio absurdo, o frio que congelava todas as suas esperanças de felicidade. Ela ia morrer.

Achava que não tinha mais coragem de implorar quando os olhos dele fizeram ela se ajoelhar de novo diante do homem na cadeira de rodas. Ingrid juntou as mãos e implorou como quem rezava para o santo protetor.

— Perdão!

Daniel não respondeu, permaneceu imóvel, neutro.

— Perdão, querido. Perdão por tudo.

Ela custou a piscar, e ele já exausto só desejava que ela fosse embora.

Gostava dela, não como no passado, mas era inegável sua atração física pela beleza única de Ingrid. Ela era como um Beija-Flor, pássaro específico, misterioso e bonito na forma mais delicada, por isso ele havia escolhido chama-la assim. Mas, hoje, Ingrid não era mais um pássaro bonito, era um monstro. Ou ela sempre foi um monstro disfarçado de animal belo? Ficava a questão rondando sua mente enquanto olhava para ela. Depois de tanta descoberta, Daniel não permitiria que Ingrid o enganasse outra vez. Ele estava triste por Emma, por ter sido privado de tudo sobre a filha. Lembrava-se que havia agido mal tendo o caso com Ingrid, poderia ter escolhido Regina antes, mas nada se comparava ao egoísmo de Ingrid. Se ainda restava o mínimo de dignidade em seu peito, era melhor pôr um fim no relacionamento deles.

Daniel usou suas poucas forças para tocar no rosto da mãe de sua filha e lhe disse:

— Você é uma belíssima mulher por quem eu tive uma grande paixão e, por mais que eu tente, não consigo sentir rancor por você. Eu sinto pena, muita pena do que você se tornou, Beija-Flor. — disse, rouco.

Num ato de raiva, Ingrid apanhou o jornal sobre a mesa e bateu no rosto dele. Ela insistiu mais de um lado e de outro, se erguendo, se exaltando diante dele, colocando força inútil no rolo de papel que fez com a mão. Chorava, rosnava, dizia coisas no auge da emoção: Seu patife! Desgraçado! Doente! Chegava a soluçar no meio da atitude ridícula.

— Graham! Graham, tire essa mulher daqui. — chamou ele, virando o rosto e sentindo ela descarregar o ódio com as folhas de jornal.

Graham apareceu imediatamente, a segurou e impediu que ela continuasse com a agressão. Ela esperneou, se debateu contra o enfermeiro, mas já estava muito longe do pintor.

Daniel não quis olhar, nem ouvir os berros dela o xingando de todas as maneiras possíveis, mas, sem conseguir sair do lugar, ele ficou na sala de jantar ouvindo os gritos dela diminuindo conforme se afastava. Sentia o rosto ardendo ligeiramente.

— Belle. — ele chamou a empregada sem mover a face.

— Po-Pois não, senhor. — Belle veio sorrateiramente até ele. Assustada com tudo o que presenciou de ouvido, ela ainda não sabia como se comportar diante do patrão.

— Convide Emma para jantar comigo amanhã à noite.

— Mas, senhor... E se ela recusar...?

— Diga que eu espero o tempo que for necessário para ela compreender essa situação e que faria muito gosto de conhecê-la.

Belle não se opôs ao desejo do patrão depois disso. Fez que sim e se retirou, ainda perturbada.


Quando voltaram para casa na tarde seguinte, Emma e Regina tiveram uma hora para conversarem com mais calma sobre os pais da moça. Falar sobre o assunto fora uma ideia de Emma, que surpreendia Regina de uma maneira madura, depois do conturbado dia anterior. A escritora se lembrou daquilo que Ingrid deixou escapar em um dos momentos da conversa que tiveram, o quadro com a figura de pássaro que Daniel havia pintado para ela e que escondeu num buraco da garagem daquela casa. Fazia sentido a história contada por Belle a princípio quando ainda vivia na mansão sobre um quadro idêntico existir no atelier do ex-marido. Essa era a maior prova do caso entre o pintor e a mãe de Emma, mas Regina via a informação como perdida, uma vez que Ingrid abrira o jogo na frente da filha e de Daniel.

Emma, em dado momento, olhou para Mills e notou a interrogação nos olhos dela. Regina podia estar tudo menos atenta ao que a moça falava.

— Hey, por que está assim? Não estou certa em querer falar com a Ingrid?

— Não, meu amor, não está errada. Eu estava aqui lembrando das coisas que a sua mãe me disse.

— Ficou chateada? Ela te ofendeu?

— Não, foi mais fácil ofendê-la do que o contrário. É algo que uma vez comentei e você não entendeu, mas agora faz sentido para mim também.

Emma franziu as sobrancelhas, pedindo para ela continuar.

— O que seria?

— Sua mãe e Daniel tem um quadro em comum...

O celular de Emma vibrou sobre a cômoda interrompendo a conversa. Elas pararam e olharam.

— É uma mensagem da Belle. — disse Emma no que se levantou e pegou o aparelho pequeno nas mãos. De repente ficou calada, com um semblante estranhamente pálido.

— O que foi, Emma? — perguntou Regina do sofá.

— O Daniel... Ele quer me ver hoje. Está me convidando para jantar na companhia dele essa noite. — respondeu a moça.

Regina foi até ela e envolveu um braço em seu ombro e leu a mensagem escrita no celular. Era um bocado difícil de crer que um convite partira de Daniel, mas parecia ser sério.

A sra. Mills virou Emma para si.

— Se não estiver bem para falar com ele, não vá. — falou com cuidado.

— Não sei se estou pronta para falar com ele, mas também não sei se não quero conversar com ele. Você iria comigo?

Mills não achava correto se intrometer em uma provável conversa entre pai e filha.

— Não acho que devo.

Emma roçou os dedos em sua correntinha de prata, pensou, fitou Regina e assentiu.

— É, esse é só mais um problema que devo enfrentar sozinha.

. . .

A moça respondeu a mensagem de Belle, e, mais tarde naquele dia, agora noite, andou até a mansão.

Ao atravessar a rua, olhou para sua casa na esquina oposta e viu Regina atrás das grades do portão a olhando de lá. Elas haviam trocado um beijo antes da moça sair, mas Emma queria ter dito alguma outra coisa para a mulher e se esqueceu. Regina a olhava, vigiando se ela entraria em segurança na mansão, lhe dizendo em voz muda que estava pensando nela. A moça assentiu, suspirou e tocou a campainha. Belle abriu um minuto depois a porta.

— Oi, Emma. — falou, mas não completou com qualquer palavra de consolação sobre a amiga ser filha de seu chefe. Na verdade, Belle estava tensa como se fosse o primeiro dia de trabalho, até se tremia.

Emma entrou, olhando a empregada e amiga e esperou ela fechar a porta da casa para guia-la até Daniel.

— Oi. — disse Emma. — Onde ele está?

— Na sala de jantar, venha, eu te levo. Ele espera por você.

Emma concordou em ir com a amiga, compreendendo o nervosismo ou choque. Talvez fosse demais para ela perceber que as previsões que tinha a respeito de Ingrid se concretizaram. Com certeza Belle estava balançada pelas coisas que ouviu sem querer ontem. Emma ainda diria a ela que poderia trabalhar como investigadora um dia.

Devaneios a parte, Emma andava pelo corredor principal da casa olhando os quadros na parede, a iluminação fosca do ambiente, suspeitando que a casa de Regina ficara sombria desde que ela deixou Daniel. Então notou que estava entrando naquela casa para conversar com o pai que até então nem sabia que existia. Não havia pensado em nada da conversa que ele queria ter com ela, só pensou em como explicar que havia se envolvido com a ex-mulher dele. Pela primeira vez saber quem era seu pai nunca soou tão distante dela.

— A senhorita Emma Swan está aqui, senhor. — a voz de Belle colocou os pés de Emma de volta ao solo e ela se viu prestes a entrar na sala de jantar da mansão.

A empregada estendeu o braço para Emma entrar no recinto que Emma já visitara no dia anterior, mas hoje ele parecia ainda maior com a mesa de jantar imensa no meio, paredes bonitas e altas e cortinas para todo o outro lado. Emma viu seu pai sentado na cabeceira da mesa. Graham parou ao lado dele e antes que a garota se aproximasse, o pintor dispensou o enfermeiro com um sinal.

Daniel levantou os olhos para Emma, sorriu inseguro, sem saber se devia ou não, só que isso foi mais forte que ele. Era a filha que estava vendo, a criança que nunca viu crescer, mas que tinha traços seus e era também parecida com a mãe. Ele examinou bem a jovem antes de mostrar a ela um lugar esperando por ela na mesa.

— Sente-se, Emma. Bem-vinda.

Swan chegou, se sentou no lugar ao lado dele na mesa e percebeu as mãos suadas, o coração acelerado. De súbito não conseguia olhar para ele.

— Deixe-me olhar para você. — pediu o homem.

Ela ajeitou a cadeira mais para perto da mesa e virou o rosto na direção dele.

— Pode me olhar, não tenha medo. — frisou ele.

Os olhos de Emma encontraram os dele, medrosos e ansiosos. Daniel sorriu, mas conteve-se para não assustar a jovem.

— O que o senhor quer de mim? — soltou Emma fazendo movimentos involuntários com as sobrancelhas. Era um medo infundado.

— Acabamos de descobrir uma verdade em comum, minha filha.

Ela não gostou do novo adjetivo dado por ele.

— Se preferir posso continuar chamando você pela forma como preferir.

Emma virou o rosto e meneou a cabeça.

— Não, tudo bem. Pra que ficar escondendo o que a minha mãe fez por mais tempo? Só não espere que eu comece a te chamar de pai nesse instante. — disse a moça, bastante sincera.

— Está bem, concordo. — Daniel tossiu. Estava fazendo muito esforço, porém falava bem e com a voz mais firme. Passados alguns segundos ele começou: — Quero que saiba que sinto uma enorme dor em ter sido ausente de toda a sua vida. Pensar que fui privado da convivência com você é uma dor maior do que a de me ver imóvel em cima dessa cadeira de rodas.

Emma voltou a fita-lo.

— A culpa é da Ingrid, foi ela quem nos privou de tudo.

— Entendo seu ressentimento em relação a ela, porém o que está feito não se pode mudar. Se eu nunca fui pai, nem mesmo de uma criança gerada pela minha ex-mulher, Regina, a minha surpresa é tão grande quanto a sua. Apesar disso, estou feliz por saber que tenho uma filha e que ela é você.

— O senhor não me conhece, nunca prestou atenção direito em mim, mas eu sei o que o senhor fez para Regina. É um pouco difícil engolir que sou filha de um homem que enganou a própria esposa e que fez muito mal a ela. — Emma se deixou levar pela ansiedade.

— Parece que Regina e você são próximas.

— Muito. Nós duas somos como unha e carne hoje em dia.

— Lamento ofendê-la com o meu passado, o da sua mãe e pela sua amizade com Regina. Eu escolhi ela para ser minha esposa, nós fomos felizes, acredito que tenha feito ela feliz por muito anos. Quando escolhemos vir morar nesta cidade, jamais imaginaria que aqui vivia a minha filha e a minha Beija-Flor. — Daniel pausou para respirar. — Eu fui apaixonado pela sua mãe, decerto que fui, mas também me apaixonei por Regina e não achei correto que vivesse uma vida dupla.

— Podia ter sido justo com a Regina antes de se casar com ela. — Emma comentou com veemência.

— Eu tentei. — disse Daniel, olhando para ela com seriedade.

— Não, você escondeu as cartas da Ingrid, você ignorou o fato da Regina sempre estar ao seu lado e cuidar da sua saúde, poderia ter pedido perdão para ela antes do casamento ter se tornado um inferno na vida dela.

Daniel não compreendia a defesa de Emma. Não estavam ali para conversarem sobre Regina.

— O que minha ex-mulher disse a você?

— Não importa, esquece isso, o senhor não vai entender. — Emma e ele se calaram por um tempo.

Daniel se lembrava vagamente do momento em que ela entrou na mansão na manhã do dia anterior. Ela falara coisas sobre Regina, o divórcio... Se lembrava dela esbravejando com Ingrid ao saber da verdade. “Isso tudo porque me envolvi com a mulher dele?” Então aquelas acusações todas só deviam ter um fundamento. Emma era a pessoa com quem Regina estava se relacionando e ele finalmente estava se dando conta disso.

— Você e Regina... — Daniel teve que engolir seco, franziu a testa. — Ontem quando esteve aqui você queria defender a Regina, hoje permanece defendendo.

Emma não tinha mais a necessidade de esconder nada de ninguém, nem mesmo dele.

— Acho que o senhor já consegue supor o que há entre nós duas. Eu sei que isso é bizarro, que aconteceram muitas coincidências, mas se nada disso tivesse ocorrido, jamais eu teria me envolvido com ela.

Daniel ficou insolitamente calado, absorvendo todas as informações que viravam sua cabeça pelo avesso. O clima entre ele e a filha se tornou algo singular. Nos olhos dela havia triunfo, orgulho e astúcia. Ele via uma Emma disposta a enfrenta-lo para ganhar o coração de Regina. Porém, Daniel não queria guerrear com a filha recém descoberta, não iria batalhar contra ela pela mulher que já não o amava mais.

Com o silêncio que se fez entre eles, o pintor chamou a empregada e pediu que esta servisse a janta. Ainda tiveram apetite para a comida e nada falaram durante todo o jantar. Belle e Graham estavam a postos ao lado da parede esperando qualquer ordem quando Daniel deu uma última garfada com uma milagrosa força que levava ele a segurar os talheres sozinho desta vez. Ele reuniu forças para empurrar o último punhado de comida no garfo para dentro da garganta, mas se distraiu contemplando a beleza da filha, vendo nela semelhança com Ingrid quando mais jovem. A única diferença dela era seus cabelos escuros escorridos e teve vontade de perguntar por que ela os pintava, pois tinha certeza de que ela os pintava. Foi nesse instante que a comida voltou na garganta e ele engasgou.

Emma se levantou prontamente ao vê-lo grunhir desesperado com a comida entalada.

— Hey, calma! Solte isso, vamos, tem que tossir.

Ela bateu nas costas dele e puxou o guardanapo de pano à boca do homem, forçando-o para frente. Daniel tossiu duas vezes com força e o bolo de carne despencou de volta da boca dele.

— Estou bem... Não se preocupe comigo. — disse em seguida, rouco com a garganta ferida.

Se olharam.

Graham se aproximou, mas Daniel fez outro sinal para ele entender que estava bem agora.

— Não se preocupe, Graham, estou bem, minha filha me ajudou. — ao dizer isso, ele viu a filha servindo água da jarra sobre a mesa em um copo para beber.

— Tome, tem que beber para aliviar. Acho que o senhor comeu muito depressa.

Daniel segurou o copo sozinho e bebeu toda a água olhando para Emma.

— Obrigado, Emma.

Ela deu a ele um meio sorriso e voltou a se sentar, satisfeita por ter ajudado. Notou que não conseguiu evitar a solidariedade para com o pai. Não sentia raiva dele, não estava mais triste, porque ele tinha defeitos, mas não era como Ingrid e parecia arrependido do que havia feito no passado muito mais do que ela.

Belle recolheu os pratos e talheres da mesa com a ajuda de Graham, deixando pai e filha a sós na sala de jantar em mais um momento. Emma pensou que o assunto entre eles estava encerrado, mas para Daniel ainda precisavam acertar um último detalhe.

— Acho que devo ir embora. — disse ela.

— Entendo seu desconforto e lamento mais uma vez colocá-la nessa situação, mas antes, Emma, gostaria de lhe oferecer um presente. — Daniel falou e esperou o enfermeiro voltar. — Vá até o atelier e traga o quadro da menina, o que está exposto sobre um cavalete. — pediu ao rapaz.

Graham saiu e nesse instante Emma arregalou suas esmeraldas para o pintor. Então ele voltou com a pintura em uma moldura dourada fina e mostrou a Emma.

— Fiz este quadro há quase quinze anos e até ontem não tinha certeza de quem se tratava a menina que desenhei nele. O que você acha?

A pintura era uma linda paisagem de um bosque perdido imensamente verde nos mais variados tons e ao fundo ela, a menina que parecia consigo, só que era loira e menor, pequenina, uma criança pura. Emma quis tocar o quadro, sentir a tinta, tocar o rosto da menina desenhado com perfeição.

— Sou eu? — perguntou, em seguida o olhou.

— Parece que sim. Eu pinto sobre os mais variados assuntos, quase sempre o que eu sonho ou o que surge na mente de súbito. Essa menina talvez fosse a filha que sempre desejei ter. Pode ficar com esse quadro, ele é meu presente a você, Emma.

Ela segurou o quadro das mãos de Graham e o olhou bem de perto. O gesto a deixou emocionada, não se sentia no direito de aceitar e nem de recusar.

— Obrigada, mas eu não posso aceitar, embora eu queria muito.

— Por favor, aceite. Nunca poderei ser o pai que você precisava, ainda assim gostaria que me enxergasse toda vez que olhasse para esse quadro.

— Tudo bem, acho que vou leva-lo comigo então.

— Faz bem.

A moça se ergueu, colocou o quadro abaixo do braço e se despediu.

— Tenho que ir, está tarde, sabe? Eu agradeço o convite para o jantar e se o senhor está preocupado se vou perdoá-lo, não se sinta assim. Regina me disse que o senhor acaba sendo tão inocente quanto eu nessa história e nós dois fomos vítimas das mentiras da Ingrid. Ela também pensa que se o senhor soubesse de mim antes, eu nunca teria vivido desamparada, concordo com ela especialmente agora.

— Diga a ela que agradeço as conclusões bondosas ao meu respeito, ela me conhece nesse sentido.

— Sim, em relação a isso ela sabe muito.

— Emma, eu gostaria que voltasse mais vezes. Não precisa me chamar de pai nunca, apenas volte para conhecer as minhas pinturas, passe algumas horas comigo e me traga notícias da Regina. Eu ainda a amo e a respeito.

— Está bem, eu vou pensar sobre isso.

— Outra coisa... Não pretendo mais me casar com sua mãe, terminei tudo o que havia entre nós depois dos transtornos de ontem. Você não correrá o risco de se encontrar com ela se viver aqui outras vezes.

— Hum... Bom saber. — gemeu Emma. — Bem, então, até qualquer dia.

— Até qualquer dia, minha filha. — Daniel sussurrou e Emma se foi para casa.

. . .

Regina lia seus próprios textos quando Emma voltou com o quadro sob o braço esquerdo. Ela viu Emma trazendo a moldura e pendurando no lugar de uma foto da avó na parede.

— O que é isso? — Regina disse.

— Presente do Daniel. Sou eu, ele disse.

A sra. Mills tocou nos ombros da moça por trás, reconheceu a pintura e disse:

— Esse é um quadro antigo do Daniel, me lembro quando pintou, mas nunca notei que se parece com você se fosse loira.

— Uhum, ele me disse que deve ter uns quinze anos que pintou isso. — Emma se virou para a mulher e suspirou. — Achei que seria mais complicado de lidar com ele. Acho que está arrependido.

— Depois de tudo, na pele dele, quem não estaria? O que ele queria afinal? — Regina colocou os cabelos de Emma para trás das orelhas dela.

— Conversar, dizer que lamentava a ausência dele na minha vida, mas acabei revelando que nós duas temos um caso e ele não reagiu, ele não condenou, ele não disse nada.

— E você achou que ele diria algo? — Regina se preocupou por um instante.

— Achei. Menos mal que ele não tenha dito algo. Ele me pediu que eu voltasse, que passasse um tempo com ele de vez em quando e que queria notícias suas, então eu entendi porque ele não disse nada. Ele ainda te ama.

— Fique tranquila, meu amor, Daniel não pode fazer nada contra nós. — alertou a escritora.

— Eu sei que ele não vai fazer nada, tenho certeza.

— O pior já passou.

Emma deu a mão para a mulher e foi trazendo ela para as escadas.

— Sabe de uma coisa? Eu sinto pena dele, do estado dele, entende? Ele fez coisas erradas com você e com a minha mãe, mesmo assim não parece que ele mereça estar tão doente.

— Nunca se sabe pelo o que Daniel está realmente pagando. — concluiu Regina.

Elas apagaram as luzes do andar de baixo e subiram.



De manhãzinha Emma saiu para o trabalho no carro se deparando com uma movimentação estranha na esquina da rua. Duas viaturas da polícia estavam estacionadas na frente da mansão de Daniel, um cordão isolava a entrada de alguns policiais tomando depoimento de Belle, que estava chorando copiosamente amparada por Graham, perto da porta escancarada da mansão. Emma sentiu um calafrio estranho apertar o peito e desceu do carro sem se permitir pensar qualquer coisa. Uma sensação de perda a invadiu, sabia que algo grave acabara de acontecer.

Ela correu até a amiga, passando pelo isolamento, os policiais e os degraus da entrada.

— O que aconteceu?!

Os policiais, Belle e Graham olharam para ela. Algo sinistro pairou dos olhos da empregada para os da jovem.

— A senhorita não pode entrar, essa é uma cena de crime. — um policial disse, puxando Emma pelo braço.

— Do que está falando? Como assim cena de crime? Belle, o que houve aqui? — dizia tentando se livrar do oficial.

Belle colocou as mãos na boca e virou o rosto desolada, o que deixou Emma muito assustada.

Por um instinto ela decidiu entrar na mansão pela porta aberta. Se soltou do policial e seguiu hall a dentro. Seu coração acelerou de tal forma a deixa-la sem ar. A sensação de perda aumentava, ela ofegava. Então ela viu e seu coração se apertou tão forte quanto um grito. Daniel no atelier, estirado no chão envolto a uma poça de lama vermelha.

Emma parou com o choque, parou com a dor do peito. Só podia estar tendo um pesadelo. A cabeça dela tonteou, ela precisou se apoiar na porta do recinto, não era sonho afinal. Seu estômago deu um giro, o cheiro do sangue invadiu suas narinas a ponto de fazê-la enjoar. Sua respiração foi enfraquecendo. Com a mente girando de pânico, Emma percebeu o que houve. Se aproximou do pai estirado no chão, nem ouvia seus passos só o coração batendo sem parar. E ela o viu. Era ele. Era Daniel largado no chão frio do atelier sobre a poça do próprio sangue. Os olhos azuis quase cinza, sem vida e os lábios entreabertos dele tiraram um grito da moça.

Daniel estava morto.

Notas finais
Quem será que fez isso, não é? Aposto que vocês tem uma suspeita perfeita. Agradeço desde já qualquer manifestação sobre a fanfic. Um abraço forte, fiquem bem e até o próximo capítulo.