Intimamente Emma
41 A culpada
Notas iniciais
Uma cena de horror e Emma diante do pai morto, um pai que ela mal teve chance de conhecer, o homem que foi casado com o amor da sua vida. Ela jamais diria a ele o quanto o amava, sequer teria a oportunidade de aprender a amá-lo. Terem o matado era o ato inimaginável mais cruel feito com ela, muito diferente do que até Belle pudesse imaginar em suas teorias mirabolantes sobre o patrão.
O cheiro do sangue escorrido do peito dele deixava a garota com náuseas, uma dor de cabeça sem limite e o nó embargado na garganta. Ela não estava mais aguentando olhar para o corpo dele estendido no chão feito um peso morto e aqueles olhos esbugalhados quase cinzas sem vida alguma. Uma imagem que ia carregar pelo resto da vida. Emma tampou os próprios olhos com as mãos. Queria abrir a boca e gritar, mas quando conseguiu não escutava a voz urrando a dor da perda.
— Coitado dele! Coitado!
Alguém entrou no recinto e tirou a moça lá de dentro, dizendo coisas que ela só compreendeu depois, do lado de fora da casa.
— Senhorita, não pode ficar aí dentro, este local é uma cena de crime, não pode ficar aí. — disse o policial que a conduziu e a sentou num dos degraus da escada sob a entrada da casa.
Agora Emma entendia o rosto agoniado de Belle quando ela chegou, a desconfiança explicita na cara de Graham e a comoção do oficial que tomava os depoimentos de ambos.
Depois que a fizeram beber um copo de água com açúcar, os policiais trancaram o atelier, proibindo qualquer pessoa de entrar antes da perícia. Algum tempo mais tarde, não se sabe quanto, uma equipe com coletes azul escuro e logotipo trouxeram malas, luvas, câmeras e coisas que Emma nunca viu igual nem em série de televisão. Eles passaram por ela como vultos e quando saíram cochichavam algo como: “A queima-roupa”.
Emma segurava o copo vazio, pensando no pai morto e a expressão dos olhos dele. O mesmo policial que a trouxe para fora se aproximou novamente.
— Mais calma? — ele perguntou com cuidado. Ela assentiu, mas não levantou o rosto. — Posso fazer algumas perguntas referentes a vítima?
— Pode. — a voz dela veio bem do fundo.
— O que a senhorita era da vítima? — começou o policial da forma mais sutil possível.
— Filha.
— Quando foi a última vez em que esteve na presença dele?
— Ontem, a noite.
— Se recorda o horário precisamente?
— Perto das oito, fiquei quase uma hora conversando com ele e quando fui embora ele ainda estava vivo.
O policial assentiu como se tivesse acabado de confirmar o álibi da moça. O que Emma lhe disse era exatamente o que a empregada e o enfermeiro haviam comentado pouco antes dela surgir. Ele se afastou e Emma olhou na direção da rua. Alguns vizinhos, antes invisíveis no bairro, agora se espremiam na linha que separava a esquina da casa e a fita de isolamento.
A garota perdera a noção do tempo que passou sentada na escada, mas viu o momento exato em que um carro fúnebre veio buscar o corpo do pai. Dois homens altos entraram na mansão e ela se levantou. Percebeu que estava tonta e fraca, se lembrava do cheiro do sangue. Agora queria ir embora para casa, mas não iria tão cedo antes da polícia terminar a conversa que queria ter com ela. Belle e Graham já haviam saído em um carro com um policial e os outros esperavam a remoção do corpo.
— A senhorita deve ir conosco. — disse um deles.
Uma mão apertou a de Emma para lhe dar apoio. Regina estava ali tão assustada que calada ficou até ver a maca coberta com o corpo do ex-marido ser trazida. Foi tudo tão de repente que Emma desconfiou se estava tendo um delírio. Regina a virou suavemente. Tomou a ponta do queixo com os dedos e ergueu o rosto da moça em direção ao seu.
— Foi ela, Regina. Tenho certeza...
— É verdade? É ele morto ali? — questionou a sra. Mills em um misto de horror e dúvida.
— Sim. É ele, morto. Foi ela, Regina, foi ela... — Emma repetiu e tampou o rosto com as mãos outra vez, se escondendo no abraço apertado da mulher.
Os homens e a maca com o peso morto de Daniel deixaram a mansão no carro de perícia, ameaçando passar por quem quer que estivesse na frente. Três horas haviam se passado desde a descoberta chocante do corpo do pintor.
. . .
Àquela altura a cidade inteira já havia escutado pelo rádio e pelas más línguas o que ocorrera na mansão da rua st. Barbara Bay. Na delegacia de polícia, quando Emma chegou, Belle deixava uma sala onde Graham entrara em seguida. Ela correu até Emma e a abraçou, menos tensa e emocionada. Se afastou da amiga brevemente, olhando para ela e Regina ali ao lado, tinha algo a dizer.
— Eu sinto muito, Emma.
A moça fez que sim em meio a um suspiro, um soluço reprimido do choro de outrora.
— Sei quem fez isso e vou contar tudo aos policiais.
— Sua mãe?
— Tenho certeza, Belle, só pode ter sido ela.
— Se foi, ela apareceu depois que Graham e eu deixamos a mansão ontem.
— Que outra pessoa teria interesse em ver o Daniel morto? Ela fez isso porque tinha ódio dele, ainda mais depois dele saber a verdade.
Belle levou as unhas até os lábios e começou a roê-las. Ainda vestia o uniforme de empregada quando resolveu se sentar para esperar o namorado.
— Graham está lá dentro e vão perguntar a ele o que ele pensa sobre o assassino, quem era o Daniel e quando fomos embora.
— Foi você quem viu o corpo primeiro? — Regina perguntou.
— Foi sim. Cheguei com a cópia da chave que tenho, mas estranhei quando vi a porta encostada, por isso eu chamei o sr. Colter pensando que ele estava acordado, foi aí que eu vi o atelier aberto e o corpo no chão. Graham chegou depois, ele viu outros detalhes porque tem sangue frio e entrou por mais tempo. Meu Deus, os olhos dele... Os olhos do Daniel, eu nunca vou esquecer o jeito como eles estavam, parecia vivo. Não aguentei ficar olhando.
— Tive a mesma sensação. — disse Emma, divagando. — Achei que estivesse vivo quando olhei pela primeira vez, depois sem vida, depois de novo era como se suplicasse.
— Não fica lembrando, não faz bem. — Regina aproximou Emma de si, as rugas na testa mostravam sua perturbação quanto aquilo. O ex-marido morto, assassinado, ainda era difícil absorver tamanha crueldade. Nem quando desejava a morte dele, pensou em algo assim, não seria capaz de matar ninguém, a não ser que fosse em seus livros e contos fictícios. Mas a arte imitava a vida, e lá estava a escritora tendo um vislumbre de uma de suas histórias contadas, tinha escrito algo do tipo não havia tanto tempo assim.
Menos de meia hora depois, Graham deixou a sala do xerife. Ele não parecia bem, estava pálido e assustado. Também vestia suas roupas de trabalho, a calça e a camisa branca. Belle se levantou de pronto até ele.
— O que queriam saber? — questionou ela ansiosa.
— As mesmas coisas que perguntaram na mansão e me mostraram algumas fotos. Nossa, o senhor Colter estava horrível nelas, pior do que de verdade.
— Graham, Emma está aqui, mais cuidado quando fala. — Belle beliscou o braço dele.
— Ah, me desculpe, Emma. — disse o rapaz vendo a moça.
O silêncio pairou por tempo suficiente para um filme rodar na cabeça de Emma. Quantas vezes viu Daniel na vida? Quantas palavras trocaram sem saberem que eram pai e filha? Emma se lembrou vagamente do dia em que o encontrou na porta da mansão e ele ainda andava. Mas ela também pensou em como seria sua reação se nunca tivessem descoberto a verdade e ele fosse apenas o ex-marido de Regina. Talvez ela não sentisse tanto quanto estava naquele momento. Como podia sentir falta de alguém que nunca conviveu consigo? Se perguntava nos braços de Regina, que não sentia menos do que ela, uma dor de perda semelhante a pena. A escritora repousava o olhar sobre os cabelos castanhos da moça e achava que tudo teria sido diferente se não tivesse instigado Ingrid a abrir a boca. Em partes, Regina estava acreditando numa culpa sobre o que tinha acontecido ao ex-marido, por outro lado ela não estava tão certa se o que sentia era pena ou tristeza. Uma hora Daniel morreria, se não pela doença seria de qualquer outra forma, só que ter sido assassinado do jeito que foi parecia muito cruel até mesmo para o maior dos inimigos.
Emma observou a mulher e o silêncio entre elas e pela primeira vez aquilo a incomodou.
— Fale alguma coisa, Regina, por favor, fale. O que está pensando? Pode gritar comigo, chorar, falar tudo, só fale comigo um pouco. Estou preocupada com você. — sussurrou a moça. — Ele era seu marido, não é possível que você não esteja sentindo nada.
— Estou bem, Emma. Realmente não sei descrever como me sinto. — respondeu Mills, elas se afastaram do abraço, mas se fitavam com muita intimidade.
— Você não viu como ele estava, não é? Foi horrível.
— Não gostaria de ver, é como se não houvesse direitos a mim. Ele foi parte da minha vida, foi o homem com quem decidi viver e que amei em algum momento, contudo deixei de amá-lo na mesma velocidade. Viver os últimos anos com ele foi um fardo e imagino que ele tenha se decepcionado quando soube que eu desejei sua morte algumas vezes. — desabafou ela.
— Uma das últimas coisas que ele me disse foi que queria notícias suas, pois tinha respeito por você. Ele ainda te amava. Aquilo com a minha mãe era só uma saída para a solidão que devia estar temendo. Perdoe ele, mas se perdoe também.
— Não tive tempo de me despedir da maneira correta com ele. — Regina baixou a cabeça.
— Ninguém teve. — Emma suspirou.
— Como é que isso foi acontecer? — era uma pergunta e afirmação.
— Não se culpe, a minha mãe fez isso.
— Ela poderia ter escolhido me matar, por que não eu no lugar dele?
Emma engoliu em seco angustiada.
— Porque ela não podia mais te enfrentar, se esqueceu que Ingrid Swan é covarde? Ela escolheu mata-lo porque ele estava doente. E, talvez, porque... Porque se te matasse me mataria junto. Eu literalmente sou capaz de morrer por você. Se ela fizesse isso com você, eu me matava na mesma hora.
Regina meneou a cabeça.
— Emma, não diga uma coisa dessas.
— Mas é a verdade e espero que entenda que vai ser assim daqui em diante. Se acontecer alguma coisa com você, eu não respondo por mim.
— O seu amor é tão grande a esse ponto? — perguntou Mills.
— Muito maior do que pensa, e nós já conversamos muito sobre isso. — Emma estendeu uma mão ao rosto da escritora e limpou uma lágrima suja de maquiagem. — Eu sei que você passou a odiar o Daniel, muito mais depois de descobrir a traição, mas a morte dele pode significar que não era para ser, ele nunca seria um pai para mim, nunca um marido perfeito para você.
— Acho que tem razão, meu amor. — disse Regina, admirando as palavras dela. — Muito me surpreende a sua maturidade em perceber essas sutilezas.
Emma tornou a abraça-la confortavelmente, respirando aquele perfume de mulher. Precisava dizer que havia aprendido muito com ela, com o amor, com a forma como se sentia amada.
— Quem me ensinou o que eu sei foi você. — dizia Emma, abafada pelo abraço.
Belle e Graham deram as mãos sentados um ao lado do outro em manifestação de apoio mútuo. Ela olhou para a amiga amparada por Regina, e, vice versa, esperando alguma ordem da mulher para voltar a mansão já que com a morte do sr. Colter, Regina voltava a ter algum direito sobre a mansão. Não houve, porém, tempo para Regina se lembrar desse detalhe; um segundo após, o xerife apareceu de dentro do escritório, reconhecido pelo distintivo em formato de estrela pregado no peito da camisa.
— Emma Swan, gostaríamos de tomar o seu depoimento. — disse o homem e Emma precisou se desfazer do conforto de Regina para se levantar.
Dentro da sala, Emma ficou sozinha com o policial que fez perguntas a ela na mansão e o Xerife. Foi ele quem adiantou os fatos para ajudar a moça.
— Killian, ela disse ser filha da vítima. Ficou muito impressionada quando viu o corpo. — disse o homem parado de braços cruzados ao lado da mesa do Xerife. Só então Emma viu um distintivo de assistente preso ao cinto dele.
— De acordo com o depoimento do enfermeiro e da empregada, a senhorita foi a última pessoa a ter contato com o sr. Daniel Colter na noite de ontem. Imagino que tenha sido muito desagradável se deparar com o corpo do seu pai hoje de manhã, o que a senhorita pode nos dizer? — perguntou o Xerife, erguendo uma das sobrancelhas para ela.
— Não tenho muito mais o que dizer, senhor. — Emma murmurou. — Mas eu sei quem fez isso.
O Xerife e o policial trocaram um olhar.
— O que a senhorita sabe?
Emma ergueu os olhos e respirou fundo.
— Há dois dias descobri que Daniel Colter na verdade era meu pai. Na noite de ontem ele me convidou para um jantar com a finalidade de nos conhecermos. Fui embora da mansão pouco depois das nove horas. Regina Mills pode confirmar que eu estive em casa durante toda a madrugada. — ela parou um pouco e fitou os dois homens. — Se havia uma pessoa que gostaria de ver Daniel Colter morto, essa pessoa é a minha mãe, Ingrid Swan. Foi a Ingrid que matou ele.
— Como a senhorita tem tanta certeza de que Ingrid Swan tem a ver com o caso? — o Xerife coçou o queixo.
— Minha mãe e esse homem estavam noivos, ele pretendia se casar com ela assim que o divórcio fosse confirmado, mas o fato dela ter me escondido dele durante tantos anos fez ele mudar de ideia. Antes que eu deixasse a mansão ontem, ele me revelou que não havia mais nada entre os dois. Eu conheço a Ingrid, pouco, mas suficiente para ter convicção no que estou falando aqui. Foi ela. Tudo o que houve de ruim na vida das pessoas que se envolveram com ela foi culpa dela.
O Xerife retirou algumas fotos de um envelope e espalhou sobre a mesa.
— Posso pedir que se aproxime? Essas são algumas imagens que a perícia fez esta manhã. Como pode ver, um revolver foi encontrado ao lado do corpo, é provavelmente a arma usada contra Daniel. A senhorita saberia dizer se Ingrid Swan por um acaso tem algum revolver em sua própria?
— Não, senhor. — Emma esticou o pescoço e viu a sequência de fotos instantâneas do corpo de Daniel. Graham estava certo, Daniel parecia ainda pior do que foi encontrado. Emma voltou a ter náuseas e caiu sentada sobre a cadeira novamente, segurando o estômago para o café da manhã não voltar todo. — Coitado. — repetiu em baixo tom.
— A senhorita tem a devida noção do quão grave essa acusação pode se tornar?
— É claro que eu tenho. Pergunte o que for, nada me tira da cabeça que foi ela a culpada pela morte do Daniel. — frisou Emma.
— Necessitamos de uma prova contundente para prendê-la.
— Estou disposta a conseguir algo para vocês. — disse Emma, se prontificando.
. . .
Era uma história longa que não tinha como ser resumida e que quem começou a contar foi Regina. Os tios de Emma deitavam um olhar pesaroso a moça por tudo o que eles sabiam que ela havia passado e devia estar sentindo. David e Mary mal tocaram nas xícaras com um chá feito por Emma por estarem mais atentos ao que mais parecia um roteiro de cinema. Chegaram no meio da manhã, depois que Emma tomara a decisão de ligar e convidá-los para uma conversa. A moça não conseguiu ter um bom sono, era fechar seus olhos e ver o cadáver do pai estirado no chão. Quando conseguiu pegar no sono não cochilou mais que duas horas com a ideia de conversar com as únicas pessoas em quem confiava na cidade. Finalmente, Emma confirmaria quem era a pessoa por quem estava apaixonada, a mulher de que havia dito e a razão para tantas coisas terem ocorrido de repente na família. Foi um choque, especialmente para Mary, saber que Emma foi fruto de uma traição, mas era ainda pior pensar na coincidência que colocou a sobrinha diante de Regina. Parecia complicado demais para a dona da floricultura aceitar que tudo o que estava ouvindo era verdade. David, por outro lado, estava preocupado com a irmã ou decepcionado como ele mesmo aparentava.
Quando chegaram, um pouco sem jeito, cumprimentaram Regina, sabendo da convivência com a sobrinha e respeitando a mulher que, segundo Emma, representava tudo para ela. Foi com o mesmo respeito que os dois ouviram a história até o presente momento.
— Agora preciso provar ao Xerife que a minha mãe é culpada. A única coisa que vai me deixar em paz é vê-la presa. — disse Emma, procurando os olhos de Regina.
— Se sua mãe fez isso ela tem que pagar, filha. — falou David. — Mas o que levaria ela a assassinar o seu pai?
— Vingança. Ele desistiu dela, ele pediu para ela sair da vida dele. — Regina disse, de pé ao lado de Emma.
— Minha opinião é a seguinte, se a Ingrid foi capaz de fazer estragos na vida de tantas pessoas, havia uma razão. Daniel pode ter sido só um estopim para o restante de problemas que ela causou. Também acredito que foi ela quem o matou. — Mary se manifestou enfim.
— E se seu pai tivesse algum inimigo por conta dela, filha? Entende o que eu digo? Ele pode não ter morrido por causa dela, mas, por ela. — David juntou as mãos para explicar.
— Não, tio, não acredito que o Daniel tenha brigado com alguém por causa da minha mãe, ninguém sabia do envolvimento dos dois, até a Regina foi descobrir somente quando ele mesmo contou. — gesticulou a moça.
— David, sempre alertei sobre o que sua irmã era capaz. Sinto muito, Emma está certa. — Mary apertou a coxa do marido.
David precisou concordar com todas as opiniões. Ele olhou para a sobrinha e Regina e fez que sim.
— O que podemos fazer então para Ingrid ser presa e pagar pelo crime que cometeu?
— Os crimes, porque ela não cometeu um só, se eu pudesse teria colocado ela na cadeia antes. — Emma resmungou.
Regina pousou uma mão sobre o ombro dela, dizendo:
— Deixa esse rancor um pouco de lado e diz o que você tem em mente.
— Antes do Daniel morrer eu queria conversar com ela, deixar bem claro que não guardava mais mágoas, então pensei em ir atrás dela, a gente conversava e eu conseguia um fio de cabelo pro Xerife.
— Você diz uma amostra de DNA? — Mary perguntou.
— Uhum. — gemeu Emma, assentindo em seguida.
David e a esposa concordaram.
— É, parece o certo a fazer. Quando vai a pensão?
— Estou pensando em ir hoje de tarde.
— Vou leva-la. — Regina disse.
— Eu posso fazer isso se quiserem. — David sugeriu.
— Não há necessidade, David, eu preciso ir ao centro da cidade para resolver a situação do corpo de Daniel. Sendo a única espécie de parente dele nessa região, fico responsável pelo transporte do corpo até São Francisco e a família dele.
— Sendo assim, se houver algum problema sabe onde nos achar, filha e você também, Regina. — David sorriu para a sobrinha e Mary também. — Cuidado com a sua mãe e boa sorte.
Emma abriu um sorriso doce e raro naqueles dias de tormenta. Ela olhou para cima vendo Regina, suspirou e completou:
— Sorte eu já tenho. — se agarrou ao braço da amada e ficou ali aproveitando um pouco de calma que surgia e que ela tanto almejava há meses.
Mary e David admiraram as duas com semblantes de ternura, como se entendessem como era estarem apaixonados um dia e, sim, disso eles entendiam.
Cauteloso, o sr. Gold entrou na sala do prefeito dois dias depois, sem saber exatamente como daria a notícia. Ele tinha um jornal em mãos e estendeu ao amigo, mostrando uma manchete com os seguintes dizeres: “Crime em Blue Hill. Assassinado o famoso pintor.”
Leopold se ergueu da poltrona e abriu a reportagem com imenso assombro.
— Então é verdade.
Gold não parecia bem, rodando feito um peru no curral enquanto coçava a cabeça atrás do ninho que formava seus cabelos compridos.
— Parece que sim. Não há uma alma viva nessa cidade que não esteja comentando.
— Mas que loucura... Como será que Regina deve estar se sentindo? — balbuciou o prefeito lendo a matéria que pouco esclarecia o que de fato ocorreu. O homem olhou para o amigo e teve que perguntar: — Não foi você, foi?
O vereador parou e estreitou os olhos.
— É claro que não, Leopold. Mas desconfio quem tenha sido.
O Prefeito não conseguia crer ainda e precisou ler a manchete de jornal mais umas cinco vezes. Ia perguntar a Gold o que sabia, mas algo o deteve antes do tempo. Alguém entrou com tudo pela porta dupla da sala, sendo perseguida pela secretária.
— Leopold, preciso falar com você! — Ingrid chegou com uma pressa inconsequente.
Gold fez a secretária voltar, assegurando-lhe que estava tudo bem com a presença da Swan na sala do prefeito, porém Ingrid tinha algo extremamente particular para confessar.
Ela escorou na mesa e ofegou. Leopold entendeu que algo ruim tinha acontecido.
— A sós, por favor. — Ingrid virou o rosto por cima do ombro olhando Gold, que não fez objeção em deixa-la a sós com o amigo. Quando ele fechou a porta, Swan desabou na cadeira de frente da mesa. — Aconteceu uma tragédia! Preciso deixar a cidade nesse momento, antes que me envolvam nessa história.
— Do que é que você está falando? — Perguntou o homem, dando a volta na mesa.
— Não posso explicar agora, eu tenho que ir, eu devo sair daqui nesse instante, mas preciso de ajuda. Me empreste uma quantia, não precisa ser muito, só me ajude agora e prometo compensá-lo depois. — pediu Ingrid e Leopold franziu o cenho.
— Jamais recusaria ajuda-la, Ingrid.
— Então fará isso por mim?!
— Apenas explique o que aconteceu e eu farei o que for necessário por você.
Ela gargalhou com ironia, depressa.
— Não, não, querido, é mais complicado do que pensa. — Com a mão trêmula agarrou o braço dele. — Foi tão gentil comigo, por que simplesmente não me ajuda agora e pergunta depois? Talvez eu nunca mais volte para cá, é caso de vida ou morte.
— Não compreendo. — ele também a tocou. — O que foi que você fez?
Ingrid tremia, os olhos estavam vidrados e quentes, prestes a virarem cascatas de lágrimas arrependidas.
— Pelo o amor de Deus, me ajuda! — suplicou num fio de voz, se agarrando no terno no homem.
Seus olhos brilhando de medo caíram sobre o jornal esticado na mesa. Ela viu a foto da mansão e a escrita ao contrário. Se apavorou.
Leopold White percebeu, ele viu quando Ingrid se afastou dois passos para trás e enlouqueceu.
— Foi você? — ele a segurou pelo braço outra vez. — Ingrid, foi você quem fez isso?
Ela abanou a cabeça, fez que não seguidamente.
— Não! — gritou. — Não! Não! Eu juro que não.
Houve uma batida na porta e os dois se sobressaltaram.
— Ingrid Swan — eles viraram o rosto para ver quem entrava na sala. Dois homens, o Xerife e assistente. — Com a sua licença, Prefeito, devemos cumprir uma ordem. A senhora deve vir conosco.
Leopold fez questão de apaziguar a dupla, mas era tarde para mudar a opinião dos investigadores.
— Senhores, asseguro-lhes que esta dama é inocente.
— Não... Não... Não deixe eles me levarem, Leopold! Faça alguma coisa! — Não havia mais para onde correr. Ingrid olhou para todos os lados, estava pensando se conseguiria fugir. Olhou para trás, havia a janela, mas era alto demais.
— Senhora, acalme-se. — disse o Xerife, se aproximando, o prefeito apenas acompanhou com o olhar. — Infelizmente a senhora deve vir conosco até a delegacia. Está presa sob a acusação de assassinato de Daniel Colter.
— Mas o que é isso? Eu não dei permissão para o Xerife prender alguém dentro da minha sala. Este é um local privado, Jones. — reclamou Leopold.
— Estou apenas cumprindo com a lei, Prefeito. — O Xerife Jones puxou as algemas de dentro da jaqueta e prendeu as mãos da mulher para trás.
— Leopold, faça algo pelo o amor de Deus! — berrou Ingrid, sendo levada. — Não deixe, Leo, eles não podem me levar, não fui eu... — quase empurrada ela ia, se debatia, o olhar se perdia e aquela cena toda chamava a atenção da prefeitura inteira.
Leopold quase acreditou nela, nos gritos e na suplica afirmação de inocência e, embora ele tivesse a impressão contrária, precisava fazer algo para ajudá-la.
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