Intimamente Emma
42 Missão cumprida
Notas iniciais
Cumprindo com o que prometeu aos tios, Emma foi procurar Ingrid naquela tarde, dois dias após o crime. Regina estacionou o carro nas proximidades da pensão e fitou Emma, que colocava nos bolsos da calça o saquinho plástico da perícia para guardar os fios de cabelo que conseguisse da mãe. Era no mínimo muito estranho pensar que estava disposta a incriminar Ingrid, a própria mãe, alguém que deveria defender, porém, a questão era muito mais pessoal para a moça do que parecia. Nada tiraria da cabeça dela que precisava colocar Swan atrás das grades, sem dó, sem piedade e qualquer pena que pudesse surgir na conversa que pretendia ter com a mulher nos minutos seguintes.
Emma levantou o rosto e deu sua mão a Regina, beijando os dedos da mulher entrelaçados aos seus e pedindo que ficasse tranquila. A convicção no olhar da moça provava tudo o que a escritora precisava saber naquele momento. Emma era forte, ainda mais do que a garota que conheceu há vários meses. Era sua Emma, a garota que estava vendo se transformar em uma mulher decidida e disposta a abraçar a felicidade com ela quando todos os problemas acabassem. Ingrid era todos os problemas que faltavam serem resolvidos e, na verdade, Regina queria estar com Emma, presenciando a história que a mulher contaria a filha. Não apenas pelas amostras de DNA da mãe Emma estava ali, era pela verdade, por compreender da boca da própria Ingrid quem ela era.
Regina olhava aqueles olhos verdes e respirava o ar entre elas, mais calma, quase esquecendo a tarefa triste que seria cuidar da burocracia com o transporte do corpo de Daniel para a Califórnia. Emma estava cansada, ela conseguia enxergar, mas nem por isso ia desistir.
— Eu tô indo, tá? Vai ficar tudo bem. — disse a moça.
— Sei que vai, confio em você. — a mulher se aproximou com o rosto e beijou a testa dela, mas não havia mais porquê se preocuparem com as demonstrações de afeto estando em público. Todo mundo já sabia, a cidade inteira tinha ouvido um boato que se confirmou semanas mais tarde e agora elas não precisavam se esconder dos outros e Emma sabia.
— Por que não me beija na boca se estamos livres agora? — a moça perguntou.
— Livres?
— Sim, você e eu livres para nos beijarmos aqui sem se importar se alguém vai ver. Todo mundo já sabe. Do que tem medo?
— Eu não sabia que todos já... — Regina parou para refletir.
— Depois que nos viram na delegacia as suspeitas das pessoas se confirmaram. — comentou Emma.
Mills riu levemente, um pouco surpresa pelo o que demonstrava.
— Quer dizer que não precisamos mais tomar cuidado? Hum... Gosto disso.
Emma riu com uma doçura implacável, roubando os temores de Regina e a puxando pela gola da blusa para selar sua boca firmemente.
— Eu te amo, tá? Quando eu acabar aqui vou direto para a delegacia, nos encontramos lá.
— Tá bem.
Se falaram após o beijo e Emma desceu do fusca, caminhando pela calçada. Regina acompanhou com o olhar e a chamou antes que ela alcançasse a pensão.
— Emma!
A moça parou e olhou para trás.
— Tenha cuidado.
Mills saiu com o carro e Emma teve tempo para assentir, compreendendo a preocupação dela.
. . .
Meia hora mais tarde, Ingrid voltou ao quarto da pensão, encontrando a filha mexendo em suas coisas. Não era o que queria ver, por isso, quando fechou a porta, levou um susto grande, mas nem seu barulho pareceu incomodar os planos de Emma, estava tudo pensado.
— Não faço ideia de como tanta coisa coube nessa mala tão pequena. — começou Emma.
— Quem deixou que entrasse aqui? — Ingrid olhava a filha, indignada.
— A dona da pensão, ela sabe que sou sua filha, foi muito gentil abrindo a porta do quarto para mim. — Emma devolvia as roupas da mão para dentro da mala enquanto falava.
— Ora, muito engenhosa. — Ingrid largou o molho de chaves sobre um móvel e tirou o casaco do corpo, tentando não se exaltar. — Quer conversar? Adivinhei?
Emma finalmente olhou para a mãe. Fechou a mala, deu a volta na beirada da cama e se sentou nela.
— É, preciso conversar com você sobre o meu pai.
Ingrid sentiu a boca do estômago gelar e de repente se sentiu aflita. Virou o rosto, os olhos arderam e um nó subiu a garganta.
— Eu sinto muito pelo o que houve. — sua voz foi curta e baixa.
— Sente?! Você sabe o que aconteceu?
— Todo mundo está dizendo.
— Regina está cuidando de tudo para que o corpo seja levado a San Francisco, lá ele terá um enterro digno.
— E pensar que não tive tempo para me despedir. Quero tanto quanto você saber quem fez aquilo.
O cinismo de Ingrid incomodou a moça.
— Nenhum de nós teve. Sinto muito pela sua perda, mãe, eu entendi que ele foi o grande amor da sua vida.
— Foi e para sempre será. — ela se virou, com os olhos em chamas olhou a filha. Secou as lágrimas que quase caiam e ficou de pé perto da janela do quarto. — Veio para saber quem ele era, não é?
Emma sacudiu a cabeça positivamente.
— E também para entender melhor essa história toda entre vocês. Como isso começou, como foi que se sentiu quando ele te deixou?
— Ah, querida, são tantos detalhes... Seu pai e eu fomos muito apaixonados um pelo outro, eu poderia criar um livro contando o que vivemos. O que digo é que há coisas que ele levou com ele para a morte, mas que estão comigo também, essas coisas são as promessas que fizemos, toda a ansiedade em ficar com ele... — Ingrid precisou parar para respirar, era apenas mais um detalhe na interpretação. — Fui feliz enquanto o amava, por isso o odiei quando ele me mandou aquela carta.
— E por isso me odeia, porque sou o que restou dele em você.
Ingrid sentiu o tom da voz de Emma a desafiar, pensou rápido consigo mesma sobre a visita da filha, o interesse repentino em saber do pai e tudo o que viveram. Se conhecia Emma, nem que por muito pouco, havia algo velado na fala da garota. Ela mudou de súbito, as lágrimas já haviam secado, sequer descido as bochechas. Se aproximou dela, se sentou de frente, numa cadeira de penteadeira ali mesmo.
— Eu não acredito que tenha vindo aqui apenas para saber do seu pai.
— Tem razão, eu não estou aqui para saber dele. — Emma continuou rápido. — Quais são as desculpas? Ele te deixou e você se revoltou, pensou em abortar, mas era muito caro? Os que vieram depois não queriam sustentar o filho de outro homem? Ficou mal falada na cidade porque apareceu grávida e solteira, tinha de arranjar um trouxa para fazer o papel de salvador da sua promiscuidade?
— Eu não acredito no que fizeram com você! — soltou Ingrid.
— O que você fez comigo. — Emma rebateu.
— O que é que você quer, menina?
— Quero saber tudo o que vem escondendo de mim esses anos todos.
— E para que quer saber?
— Pra ver se eu te perdoo. — disse Emma medindo Ingrid, bastante impertinente.
Ingrid fez exatamente o mesmo, medindo a filha com os olhos, não gostando do que via.
— Odeio essa cor no seu cabelo, a propósito. — falou a mulher com desdém. — Me lembra uma puta de beira de estrada.
Emma ficou quieta por algum tempo. Aquilo foi tão frio e cruel, e, ainda que viesse de Ingrid, a moça não esperava tamanha raiva.
Pensou e remoeu:
“É assim que ela ganha as discussões, sendo baixa, usando o nível mais baixo para ofender. Será que vou conseguir? Eu preciso tentar... Mas e se eu não suportar? Ela não pode me vencer! Se controla, Emma... Eu não vou chorar... Não posso chorar... Aguenta firme.”
— Por que você me abandonou?
A loira engoliu em seco, cara a cara com Emma, respondeu:
— Não queria te criar, nunca quis, aquela vida estava me matando.
— Por que prometia que sempre voltaria?
— Porque era o que eu acabava fazendo quando algo dava errado e até que eu gostava da sua felicidade quando me via.
Emma cerrou os punhos, se conteve, tinha de prosseguir.
— Onde conheceu o Daniel?
— Em um café onde eu trabalhava em San Francisco, ele me convidou para sentar. — Um sorriso nostálgico se criou no rosto dela. — Ele voltou no dia seguinte, eu aceitei o convite e passamos a tomar café juntos todos os dias no mesmo horário. Dos café passou a me pagar os petiscos, depois os cigarros quando descobriu que eu fumava e depois os drinks. Daniel era um cavalheiro. Se perguntar a Regina, ela vai concordar. Seu pai era um homem bonito, sedutor, gostava de falar manso e sabia muito bem como tratar uma mulher. Não foi difícil me envolver com ele.
— Mentirosa. Só se envolveu com ele porque ele tinha dinheiro.
— Não, não, querida, eu soube do dinheiro e da família influente dele muito depois, ele já havia começado a flertar com a sua namorada. — Ingrid lançou um sorriso irônico.
— Mas acreditou que ia ser rica se casando com ele, nunca chegou a amá-lo.
— O que é que você sabe sobre amor, meu benzinho? É uma criança, não saia por aí com tantas convicções sobre esse assunto. — ela ria na cara da filha balançando a cabeça.
— Então diz, você o amou de verdade? — Emma estava perdendo a paciência.
Ingrid virou os olhos.
— Sim, mas ele só se interessou por mim porque eu era atraente. Tivemos uma relação corpo a corpo, sexual demais. Seu pai queria o sexo, eu dava e por isso nos entendemos por tanto tempo.
— Era verdade que queria ser famosa?
— Sim. — outro sorriso nostálgico da parte dela. — Eu daria uma boa atriz, não acha?
— Sem sombra de dúvida, mamãe. — Emma dizia, séria. — O Daniel com o dinheiro dele podia financiar o seu sonho... Era isso que ele prometia, não era?
A mulher coçou a nuca, pareceu perturbada.
— Ele me prometeu muitas coisas, tantas só para me convencer a dormir com ele e encontra-lo por onde quer que ele fosse. — As memórias voltavam e Ingrid se deixou influenciar. — Seu pai não era um santo, Emma, ele mentiu e me enganou.
— Imagino mesmo que ele não era santo, mas você aceitou continuar atrás dele depois do casamento. Já vinha fazendo isso com os outros e continuou provocando homens para ter o dinheiro deles. Você nunca mudou, você só piorou quando foi largada pelo meu pai, era sua forma de se vingar de todos os homens porque um deles não te amava. Tenho uma coisa para dizer, mãe, meu pai nunca te amou, ele se apaixonou por você e sabe que existe diferença entre amor e paixão?
— Oh, você vai me dizer isso agora?! — Ingrid ironizou.
— Estou perguntando, sabe que existe diferença entre as duas coisas?
— Que se danem as duas coisas. — Incomodada ela olhou para o teto, os lados, desviou de Emma, mas não havia como escapar da sensação ruim que começou a invadi-la com a constatação da filha.
— Foi assim que o seu ódio por mim começou. Sobrei na sua vida, uma lembrança constante do Daniel que você precisava cuidar.
Ingrid não conseguia mais fitar Emma, a garota tinha finalmente atingido a mãe no meio do peito e da alma. Ingrid suspirou, fechou os olhos e a cor de seu rosto sumiu. Quando voltou a si, olhava para a mala no chão, o quarto ao redor. Era um mero quarto de pensão, um lugar familiar, parecido com os que viveu pelas cidades onde passou no Maine, porém era sua realidade demasiada triste. Vivia como cigana, sem casa, sem uma definição na vida e arruinando as pessoas porque conheceu os vícios e o prazer em ser daquele jeito. Talvez ela estivesse se arrependendo de uma parte dessa vida.
— Para que continuar? Isso só vai te magoar. — disse, chorosa. Emma não respondia, esperava. Sem alternativa, ela continuou. — Imagine-se no meu lugar, pelo menos um pouco, o quão inexperiente eu era, o quão sonhadora eu fui e o quão injustos os homens foram comigo. Eu apenas queria ser famosa, viajar, ter dinheiro... Eu queria, queria, queria o mundo aos meus pés, e ver todos aqueles homens prometendo o que não tinham me alimentava, mas só as ilusões era pouquíssimo e eu fui embora. Seu pai me fez acreditar nele, me fez adorá-lo, me devolveu uma esperança que eu já estava perdendo e de repente eu estava grávida, sozinha, abandonada. A minha vida acabou ali, você consegue entender que eu jamais seria a mãe que você merecia? Voltei para cá sabendo o que diriam de mim e aguentei até onde eu podia, você nasceu, os seus avós me aceitaram de volta e como num passe de mágica eu estava dentro da casa deles de novo. Você no meu colo, pedindo e querendo carinho, crescendo... Não dava, eu não conseguia mais... — Ela limpou o choro, fungou. Emma conseguia ver os olhos claros da mãe procurando um canto para sossegarem. — Eu estava acostumada a ser livre, a viver sem ninguém me impondo regras, ninguém me pedindo, me cobrando, então ali estava você pedindo para que eu contasse uma história antes de dormir, puxando os meus cabelos e correndo atrás de mim o dia todo, eu mal conseguia aguentar a sua voz me chamando: Mamãe... Mamãe... E a cada vez que eu te olhava segurando aquele coelho de pelúcia que a sua avó fez, eu lembrava de mim, eu lembrava da menina que eu fui, correndo na floricultura, brincando entre as flores, cheia de sonhos, criando cenas de filmes na minha mente. Era como ver uma Ingrid que nunca daria certo, era o meu reflexo, garota. Você cresceu mais um pouco, no entanto não era mais a Ingrid do passado que eu via, seus olhos estavam daquele mesmo jeito, a forma como ele me olhava, você era o seu pai. Tudo, tudo, tudo voltava, todo o meu fracasso por causa dele. Eu fiquei desesperada, eu precisava ir embora daquela casa.
Emma vagou com o olhar, se perdeu nas palavras da mãe.
— Meu Deus...
— Na primeira vez fui embora por um ano. Você não se lembra, era muito pequena, mas não questione quantas vezes eu fui embora, me pergunte por que eu voltei. Por que acha que eu preferi voltar para casa todas as vezes, hein?
Ela não pôde evitar o tom de súplica em sua voz. Emma ofegava, repetindo mentalmente: “Não posso chorar, eu não vou chorar pela Ingrid. Não terei pena, não terei remorso.”
— Eu sabia o que estava fazendo a você, Emma. Eu sentia pena desde o dia em que voltei e você estava me esperando sentada sobre as escadas na entrada da casa. — Ingrid parou os olhos sobre a filha enfim, vibrava com o impacto de cada cena lembrada em palavras. Mirou a filha, pálida e torturada pelas atrocidades voltando à tona. — Você me viu e me reconheceu. Era como se estivesse me esperando a vida toda.
— Sempre te esperei, mãe, eu sempre estava lá para você, mesmo sabendo que você iria embora outras vezes, que enganaria a vovó, roubaria nosso dinheiro e que quando eu crescesse o tempo de espera seria ainda maior.
— Eu sinto muito, Emma, meu bebezinho... Sinto tanto... — disse Ingrid se atirando nos pés da filha, escalando as pernas da moça, caindo sobre seu colo. E, resmungando de remorso, segurou o rosto da filha, abaixou a cabeça e chorou nos braços dela. A chance de Emma estava acontecendo. Tinha a cabeça da mãe debaixo do queixo, conseguia ver um mar de cabelos dourados soltos. Ingrid cheirava bem, ainda a mesma colônia que usava quando vivia em Blue Hill com a família, e seus cabelos tinham aquele brilho natural até nas sombras, como podia? Pensava a jovem. Tantas pessoas merecendo aquela beleza e ela a usando para propagar maldade por aí. Não era justo. Pensando no que devia fazer, Emma continuou, descendo e subindo as mãos pelo cabelo da mãe até que dois fios se soltaram dos demais enroscando em seus dedos. Emma tinha de ser calma para não partir aquelas linhas finas.
— Parei de esperar quando Regina apareceu e me mostrou como era se sentir amada. Antes dela eu só queria que voltasse e me defendesse do que os outros diziam. Você me deixou uma herança ruim, mamãe, a má fama. É isso o que pensam de mim, que sou como você e que vou roubar os homens dessa cidade, mas eu não sou assim. — dizia a moça com cautela, acarinhando a cabeça da mãe.
— Pensei que fosse ficar bem sem mim, que não precisava de uma mãe como eu...
— Pensou errado.
— Tudo... Tudo o que te contaram é mentira. Deixei seu pai pensar que eu estava morta, voltei para esta cidade e conheci aquele homem. Quando ele foi embora, o prefeito me ajudou a sair daqui também e quando eu voltei tudo estava uma merda, me obrigando a ir e voltar muitas vezes, mas até hoje a fama persiste porque eu não soube revertê-la.
— Era só me defender, era apenas isso que precisava fazer para mudar a opinião das pessoas. — lamentou, Emma. — Não tinha a ver com você, tinha a ver comigo. Você foi covarde porque não tinha a ver com você. Tudo na sua vida se resume a você, nunca foi por mim. Nunca se importou com os meus sentimentos, com a falta que faria na minha vida, nunca nem pensou nas consequências da sua ausência. — Emma suspirou profundamente. — Você disse que se enxergava em mim, agora o que é que enxerga? A mulher que deu errado? A fugitiva? A cigana? Não. Você olha para mim e não gosta do que vê porque sabe que estou superando a falta que você fez. Esse é o preço, mãe, o preço do egoísmo.
Ingrid se levantou, saiu de perto para procurar um lenço ou o que estivesse por perto para limpar o rosto do choro. Emma ainda tinha os fios de cabelo presos aos dedos, pôde guarda-los sem que a mãe percebesse.
Quando Ingrid tornou-se a filha, mordeu os lábios que tremiam para baixo e disse:
— Se eu pudesse voltar no tempo, eu teria consertado tudo.
Emma se pôs de pé e caminhou poucos passos até a mãe.
— Então diz que você se arrepende de tudo o que fez, não apenas a mim, aos outros. Diz que você daria a sua vida em troca da vida do Daniel, só para reparar o que você fez. — Emma não obteve resposta da mãe. Calada e frágil, novamente atingida, Ingrid não possuía mais a capacidade de falar, nem de dizer que se arrependia. Seu orgulho estava tão acima que não a permitia. Seu rosto voltou a corar, os olhos secavam e Emma cansou de esperar. — Eu perdoo você, mas perdoar não significa esquecer. Nunca vou esquecer o que fez a mim e ao Daniel. — Swan disse, rouca. Deu as costas e saiu do quarto sem mais nem menos.
Veio caminhando pelo corredor como se caminhasse para a liberdade. Missão cumprida. Mas Emma parou de repente sentindo vontade de olhar para trás. Não devia. Sua mão apertou o saquinho com os fios de cabelo dentro do bolso. Por que estava fazendo aquilo? Ela quase se arrependeu. Mas e se foi mesmo Ingrid a responsável pela morte de Daniel? Ela já não sabia se ele merecia que encontrassem seu assassino.
Foi tudo egoísmo, atos covardes e irreparáveis. Emma compreendia a mãe agora, compreendia que aquela mulher não sabia amar nada além de si mesma. Uma tremenda azarada. Muita coisa para absorver e refletir. Quando Emma fosse para casa, tentaria não sentir pena da mãe, tinha prometido a si mesma, afinal.
Emma parou para pensar um instante, chegando a conclusão de que se sua mãe tivesse mudado e se arrependido, não teria matado o homem que amava. Ela assentiu para si mesma e deixou a pensão.
. . .
Uma hora depois Emma entregou os cabelos de Ingrid ao policial assistente na delegacia. O Xerife Jones havia saído para atender uma ocorrência fora da cidade e não voltaria tão cedo. A moça esperava para falar com ele pessoalmente, porém, mudou de ideia quando viu que ia demorar.
O rapaz saiu de dentro do escritório e falou a ela:
— Killian vai demorar a voltar, ele acabou de ligar avisando. Não se preocupe com a amostra que a senhorita coletou, eu mesmo levarei para a análise amanhã cedo no laboratório da cidade vizinha.
— Tá bem, eu entendo. Não era nada demais, eu só queria saber se precisam de mais alguma ajuda no caso do Daniel. — ela falou.
O policial coçou o pescoço, cruzou os braços.
— Na verdade não, Emma, não por enquanto. Apenas teremos que conversar de novo se não for confirmado que sua mãe atirou nele. Por um acaso pensou em mais algum suspeito?
— Não, ninguém além dela teria motivos fortes para mata-lo.
— Bom, se achar que sabe de alguma outra coisa, estamos à disposição para ouvi-la. — o policial estendeu a mão para Emma e a apertou firme.
— Obrigada. — ela disse o cumprimentando.
Enquanto caminhava para fora da delegacia e tentava avisar Regina pelo celular, Emma acabou tombando com a escritora no momento em que virou o corredor da saída. Um tanto cansada, Mills soltou um grande suspiro de alívio ao ver Emma.
— Desculpe, meu amor, eu demorei mais do que devia. O corpo do Daniel será levado amanhã à San Francisco.
A moça fez que sim.
— Você irá para o enterro?
— Não. — Regina meneou a cabeça. — Não quero ouvir as perguntas que vão me fazer e se eu for à San Francisco minha mãe vai querer que eu fique um tempo.
— A família dele já sabe que estavam separados?
— Parece que sim. Ele andou conversando por e-mail com um dos primos, mas a família Colter nunca foi imensa, serão poucas pessoas nesse enterro. Vou ligar para minha casa explicando o que aconteceu e pedir que a mamãe compareça.
Emma sorriu levemente, tímida. Alisou o braço de Regina por cima do blazer dela e a confortava.
— Como foi com a Ingrid? — Regina perguntou.
— É, foi o que eu esperava e até mais um pouco. Ela fez o show dela, mas acredito que tenha me contado a verdade dessa vez. Consegui os fios de cabelo, já estão com o policial assistente.
— Quer falar sobre o que conversaram?
— Estou tentando me convencer das coisas que ela contou. — Emma deu o braço a Regina e caminhou com ela para fora. — Acho que agora tenho mais certeza ainda de que foi ela. A Ingrid foi quem matou o Daniel, e ela é quem eu vou matar também.
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