Intimamente Emma
27 O fantasma de negro
Notas iniciais
Há um mês a rotina de Emma se resumia em ser despertada pelo sedutor cheiro de café da manhã. Abria os olhos antes que o frio a fizesse ter preguiça, era quando tocava o lado direito da cama e não sentia o corpo de Regina ao redor do seu. Então, se lembrava que de alguma forma ou de outra acabava sendo despertada pela mesma mulher, de formas distintas, ainda assim deliciosas. E com a alegria palpitando no peito e nos pés ela descia as escadas e se encontrava com ela, linda, charmosa, perfeita. Abria os braços e pulava para os da mulher, pensando como era possível conseguir estar tão bonita na hora em que acordava? Qual era o feitiço que dava a ela aquela luz de brilho em seus dentes e o branco dos seus olhos? Que ela ensinasse Emma o mesmo truque, sendo que talvez o truque fosse algo simples como a felicidade.
E a cena se repetiu trinta vezes. Emma sentia o rosto roçando no rosto da amada, seus braços apertando o corpo dela e sua boca trocando um beijo sereno com a dela. Nessa hora seus olhos se fechavam e as línguas levavam um minuto até estarem satisfeitas com o beijo. Testa com testa, olhos nos olhos, os sorrisos. Ali naquele momento não havia quem as dispersasse, nem se quisessem.
— Bom dia. — sussurrou Regina.
— Bom dia. — Emma respondeu. — Senti o cheiro lá de cima. O que fez hoje?
— Veja você mesma. — A mulher mostrou a Emma a mesa do café da manhã e, na verdade, não havia tanta diferença do que ela estava costumada a saborear todos os dias.
— De onde tirou seus dons para culinária?
Elas se aproximaram juntas da mesa.
— Não sou tão mal cozinheira como pensa, até que posso me virar quando quero. Sente-se e aproveite. — Regina deslizou suas mãos pelos ombros da moça, acomodando-a na cadeira, em seguida se sentou de frente.
Emma estava tão absorta no momento que custou a perceber uma diferença na rotina. Olhava os cookies, o ovo mexido e o suco pensando o que comeria primeiro hoje, porém ergueu os olhos em Regina e notou sua roupa de sair. Ela tinha tomado banho também, seus cabelos estavam úmidos e penteados para trás. Por que levou tanto tempo para perceber isso? Se perguntou.
— Hey, onde você vai? — A moça não ia tocar no café até ter a resposta.
Regina mastigava uma garfada de ovos, ficou séria, limpou a boca e respondeu:
— No centro da cidade, tenho que tratar de um assunto importante.
— Assunto importante, é? Posso saber qual?
Os olhos da moça estavam iluminados e curiosos demais para Regina revelar o que tinha em mente. Não faria isso, pois estragaria a surpresa.
— Nada demais, meu amor, é uma burocracia com os livros, coisa que você não entende por enquanto.
— Não me chame de burra. — Emma beliscou a pele da mão de Regina pousada sobre a mesa.
— Claro que não estou fazendo isso, querida, é apenas um assunto chato. Será rápido, no fim do dia quando chegar já estarei aqui te esperando. — Regina mandou um gole de suco para dentro. Tentativa falha de disfarçar.
— Eu não estou conseguindo acreditar nessa história de burocracia. Olha, se você estiver me enganando para ir atrás de algum presente para mim, vai ver o que vou fazer.
Regina sorriu, esticando a mão até uma bochecha de Emma.
— Você está certa. Para que mentir, não é? Não vou resolver burocracia alguma de livros, mas vou resolver um problema e chama-se carro. Preciso de um carro novo, mesmo que alugado. O Plymouth está com o Daniel agora e descer essas ruas até o centro de taxi não me parece confortável.
— Ah, então vai comprar outro carro?
— Vou dar uma olhada se algum modelo da loja do Gold me chama a atenção.
Emma mordeu o lábio inferior, pensando.
— Se eu não precisasse ir trabalhar iria com você, ajudaria a escolher, sabe? Quase levei aquele Fusca amarelo que fica perto da vitrine um dia. — suspirou.
— O Fusca Amarelo, sei. — Regina sabia qual era o carro desde que Emma e ela se toparam na loja de carros antigos uma vez. Não estava esperando que ela falasse dele, pelo jeito seu plano ia funcionar.
— Bem, tenha boa sorte na sua escolha e cuidado com os vizinhos. Coloque o carro na garagem, eu vou deixar a chave com você.
— Está bem.
— Aqui na frente moram os Herman, eles adoram olhar pela janela quando escutam algum barulho diferente na rua.
— Tudo bem, eu vou tomar cuidado. Se eu conseguir o carro, acho que vou aproveitar e passar no mercado, a geladeira está quase vazia. Eu quero fazer uma torta para o nosso jantar e estão faltando muitos ingredientes.
— Estava quase me esquecendo, é que eu não entro mais nessa cozinha, não é mesmo? — ironizou Swan. — Vou deixar o dinheiro para as compras.
— Emma, não se preocupe, eu cuido disso. — Regina fez um gesto com a mão.
— Por favor, não quero que pense que quero o seu dinheiro, tá? Me deixa ter alguma despesa, eu gosto de ser responsável. — Emma replicou com as duas mãos paradas no ar.
A sra. Mills meneou a cabeça.
— Tá bem, só o mercado, o resto deixa comigo se precisar. Eu devia pagar um aluguel para você, seria mais justo. Posso pagar pela garagem já que vou ocupar com um carro.
— Xiiiu! Não, senhora. Não vai me pagar nada. Mesmo que eu ganhe pouco, eu ainda ganho o suficiente para pagar as despesas da casa. Enquanto eu for dona dela, eu me viro. — Emma comeu uma coisa de cada vez na mesa e enfim olhou o relógio na parede. — Estou ficando atrasada. Eu vou indo, ainda preciso de um banho, escovar os dentes...
— Certo, nos encontramos logo mais. Vou te esperar. — Regina a acompanhou até a escada. Esperou ela se aprontar e descer em alguns minutos.
Quando Emma voltou, pronta e com sua mochila nas costas, parou na frente da mulher levando até a boca as mãos de Regina. Beijou ambas como se pedisse uma benção, mas embora o gesto parecesse algo muito meigo por parte de Emma, a Sra. Mills teve outro daqueles lampejos com Daniel e o enxergou no lugar da moça. Alguma coisa estava errada com ela. Regina se odiou por ter lembrado do marido, não o amava mais, não devia estar sentindo nada. Então, para ela o que teria sido a breve lembrança quando a moça tocou suas mãos? Regina sabia o que estava acontecendo se ficasse calma. Aquele não era um gesto de Emma, era um gesto de Daniel.
Ela recolheu as mãos devagar, olhou a moça e sentiu um tremendo alívio quando o coração voltou a bater com força. Foi apenas um susto, nada que diminuísse seu amor por Emma.
— Até mais tarde. — Emma abraçou Regina com força, recebendo o mesmo em retribuição.
— Até mais tarde, meu amor. — Regina sorriu e levou a moça até a porta.
Se trancou em seguida e tentou expulsar a sensação ruim que andava sendo se lembrar do passado.
. . .
Antes de chegar ao fim da rua e descer o caminho, o Plymouth de Regina passou por Emma na curva, estacionando rente a calçada e os degraus da mansão. Um homem estava dirigindo, mais propriamente o sr. Colter, deixando o carro lentamente com uma pose soberana de homem rico. Ele sentiu os olhos de alguém sobre seus ombros, um peso nocivo de alguém o julgando pelas costas. Virou o rosto e viu a jovem do outro lado da calçada. Tinha uma breve lembrança de quem ela era, mais pela cara invocada do que pela aparência. Regina a descreveu para ele uma vez, a vizinha que morava no fim da rua, uma moça que se chamava Emma e era órfã – até certo ponto.
Ela não dizia nada, estava parada olhando para ele com uma raiva sem tamanho nos olhos. Emma fez questão de ver bem o rosto dele, tirou suas próprias conclusões e teve ainda mais certeza de que odiava aquele homem. Daniel vestia-se bem, roupas de alfaiataria, peças caras que a jovem só tinha visto igual na TV, mas ela não ligava para o luxo que ela não tinha e ele proporcionou a Regina por tanto tempo. Emma só conseguia se lembrar do mal que ele fez a Regina. Se não estivesse ficando atrasada, ela iria falar umas coisas feias para o pintor.
— Bom dia. — Daniel abriu a boca e disse, devolvendo a Emma um olhar inquisidor.
— Bom dia, senhor. Como tem passado? — fez a pergunta empinando o rosto para mostrar a única coisa que tinha a mais que ele, dignidade.
— Bem, tenho passado bem, na medida do possível. E a senhorita? — Daniel olhou para o fim da rua. — Você mora naquela última casa, não é? Minha esposa, Regina, deve conhecê-la.
— Eu vou bem, incrivelmente bem. — Swan se adiantou. — E sim, eu moro naquela casa no fim da rua. A Regina? A mulher que escreve livros? Oh, sim, eu a conheço muito bem. — soou simpática, embora estivesse fazendo um jogo com ele.
Daniel assentiu. Tirou alguma coisa do banco de trás do carro e o fechou.
— Ela me falou alguma coisa sobre você faz algum tempo. — ele pensou em perguntar para Emma se ela sabia por onde a mulher andava, chegou a sentir um frio na barriga de ansiedade e antes que a sensação o deixasse mal, questionou. — Moça, posso perguntar algo?
Emma estava parada há dois minutos olhando para ele, se saísse correndo ia pegar mal, então não tinha porquê recusar saber o que ele queria.
— Sim. — Emma esperou.
— A Regina por um acaso tem contato com você?
Emma respirou fundo.
— A Regina? Não. Não, senhor. Na verdade, há alguns dias que não vejo ela na cidade. — Mentiu e gostou de ter mentido quando viu a decepção nos olhos dele.
— Que pena. Você trabalha naquele hotel, não é? Ela estaria hospedada ali?
— Se a sra. Mills estivesse hospedada no Hotel Hopper eu com certeza saberia, senhor. Sinto muito não ter essa informação.
— Agradeço de qualquer forma. — Daniel se direcionou para as escadas e antes de cruzar a porta Emma ainda estava olhando. Ele acenou respeitosamente e entrou.
Um calafrio percorreu a espinha de Emma e, por um momento, a moça duvidou que um dia Daniel esteve doente ao ponto de quase não andar. Provavelmente ele teria mentido para Regina. Por isso Emma o odiava tanto. Ela não deixou que o encontro com esse homem abalasse seu humor tão estável enquanto soubesse que Regina estava morando em sua casa. Enfiou os fones de ouvido nas orelhas, ligou o iPod velho e foi embora.
. . .
No meio da manhã, Regina pedira um taxi até a loja de carros usados do sr. Gold, situação um bocado surpresa para o vendedor que teve um sobressalto assim que ouviu a sineta da porta tocar e viu quem entrou. Gold largou um documento que estava lendo só para atender a mulher tão ilustre.
— Mas que agradável surpresa na minha loja. A que devo a honra, sra. Colter? — Ele veio estendendo a mão, Regina apertou de pronto.
— Bom dia. Não acho que seja necessário me chamar de “senhora”, ainda mais com esse sobrenome, vamos fazer negócios apenas nos tratando por “você”. O que acha? — disse Regina de bom grado.
— Sim, como não? Da forma como desejar. — Gold sabia que ela e Daniel tinham se separado, poderia perguntar alguma coisa relacionada, mas ela havia falado em fazer negócio, não perderia tempo em ganhar dinheiro. — E eu posso ser útil em algum serviço?
— Vim comprar um carro. — A escritora foi direto ao ponto. — Aquele. — apontou para o lindo Fusca amarelo da vitrine.
Gold ficou abismado com a escolha. Olhou para o carro e depois novamente para Regina.
— Tem certeza? Olha, minha cara, com todo o respeito, existem carros mais aptos ao seu gosto nesta loja. Sinta-se livre para escolher, tenho opções tão baratas quanto, porém de melhor qualidade.
— Não quero outro modelo, Gold. Quero aquele! — Regina foi exigente.
O sr. Gold entendeu a escolha e não iria se opor, afinal, era mais vantajoso Regina deixar a loja com um carro qualquer e ele com os bolsos cheios, do que ela sem carro e ele com os bolsos vazios. Foi preparar a papelada da venda o mais depressa possível.
. . .
A noite estava caindo completamente quando Emma voltou para casa. Ficou até mais tarde no hotel limpando um quarto extra para receber a mais e chegara exausta, presenciando um cheiro ótimo de alguma massa sendo preparada. Devia ser a torta que Regina falou de manhã, pensou. Emma deixou a mochila sobre o sofá na sala e andou até a cozinha, chamando por Regina, mas ela não estava por lá.
— Regina? Cadê você?
O cheiro de torta infestava a casa toda. Emma viu a comida no forno e estava quase pronta. Olhou para os lados, procurou a mulher no quintal, ela também não estava lá.
— Emma, na garagem... Venha aqui. — Chamou Regina de longe, com voz abafada pela distância.
Emma abriu a porta que existia entre o corredor e a cozinha e passou para fora, encontrando Regina finalmente.
— Até que enfim te achei. O que está fazendo aí? É o seu carro novo? — Perguntou a jovem, tentando identificar a sombra metálica ao lado da mulher parada bem no meio da garagem, mas estava escuro.
— Acenda a luz, meu bem. — pediu Regina.
A garota puxou um fio no alto ao seu lado e uma lâmpada amarela iluminou o recinto empoeirado e mal usado. Ela tomou um susto.
— Oh, meu Deus! — disse boquiaberta.
— O que acha? Gostou dele? — Regina estava apoiada de braços cruzados ao Fusca amarelo estacionado e sorria tentando se conter com a surpresa que causara em Emma. — É lindo, não é? Gold disse que muitas pessoas tentaram levar ele, mas ninguém queria pagar o valor certo. Um dia ele teve que tirar da vitrine para pintar. Você chegou a comentar que estava de olho nesse carro, não foi?
— Si-sim! Sim, eu quis muito comprar esse carro, eu me apaixonei por ele. Eu tinha metade do dinheiro e aquele velho tarado não quis me vender porque estava interessado em outro tipo de pagamento. — Emma desceu os degrauzinhos da entrada e andou até o Fusca, encantada. — Se eu fosse com você iria sugerir esse, com certeza. Que bom que você o comprou, meu amor. — Passou a mão na pintura brilhante do carro como se fosse seu, depois pulou nos braços de Regina.
— É, comprei e não quis nem olhar outro modelo. Quando bati o olho eu sabia que era esse que eu devia trazer.
— Escolheu o certo, ele é perfeito! — Emma enrolou os braços em volta da mulher e a beijou animada. — Quero pedir uma coisa. O carro é seu, mas eu posso dar uma voltinha nele de vez em quando? Posso? Juro que vou ser cuidadosa, eu tenho habilitação, tirei há dois anos. Me deixa andar só um pouquinho nele.
A voz manhosa de Emma fazia Regina querer apertá-la.
Ela ficou com um ar de mistério no rosto, esperou um pouco para falar.
— E quem disse que o carro é meu?
Emma sentiu como se o estômago tivesse congelado, assim como em todas as vezes que se espantava. Fitou Regina desconfiada e se afastou entendendo tudo.
— É... É meu? — Apontou para si mesma, piscando muitas vezes.
— Sim, é seu. Todo seu. — Regina sorriu, entregando a verdade.
Emma tomou ar e balançou a cabeça tantas vezes que ficou tonta. Partiu para cima da mulher, batendo de leve em seu busto, rindo abobada.
— Não acredito que você fez isso comigo, sua... Sua... — disse entre os dentes em um tom cômico.
— Fiz e faço de novo se você reclamar mais. É seu, Emma, o carro que tanto queria e merecia. Vai ser nele que vamos fugir dessa cidade. — Regina falou enquanto segurava os pulsos da jovem.
A ideia agradou Emma e rápido ela rebateu a Regina um olhar sedutor.
— Vamos fugir nesse carro e jamais veremos de novo quem tenha morado ou tenha passado por aqui.
— Falta pouco, meu amor. Muito pouco. — Regina fez que sim.
Pensou em como seria a fuga delas. Quando seria esse dia. Em qual circunstancia acabariam indo embora de Mary Way Village. Torcia para que nada as impedisse, nem um contratempo, Daniel ou até mesmo a saudade que Emma sentiria dos tios. Devia conversar com ela sobre esse assunto uma hora. Não sabia como Emma se sentiria tão desligada da única parte da família que sobrou. Não havia como pensar nisso nesse momento, e assim deixou Emma admirar o presente se desligando dos eventuais problemas. Emma faria bom uso dele.
Mais tarde naquela mesma noite, Belle procurou o patrão para se despedir após o jantar. Daniel se arrumava no quarto do andar de cima, só que não para dormir. A empregada o viu terminando de ajeitar a gola de uma camisa cor de vinho sobre o corpo, em seguida esfregando um perfume na pele do pescoço. Quase não teve coragem de bater na porta para falar com ele, talvez fosse atrapalhar, mas já estava ali, não queria ter subido as escadas em vão. Deu dois toques na porta e um passo à frente no quarto, parando bem ao lado de um criado mudo. Passaram-se alguns segundos até ela reparar nos comprimidos sobre o guardanapo ao lado da cama de Daniel, ele não estava se medicando.
— Desculpe incomodá-lo, senhor, eu vim apenas saber se necessita de mais alguma coisa.
— Não, Belle, pode ir, não preciso de nada. — Daniel se virou para ela.
Belle assentiu, ia saindo do quarto, mas aqueles remédios apodrecendo ao lado da cama a incomodou.
— Senhor, não tem tomado os seus remédios? — perguntou de uma vez, temendo a resposta que ia receber.
Daniel respirou fundo e soltou o ar por entre os lábios. Buscou a parte de cima do terno sobre a cama e pendurou no ombro.
— Não são mais necessários.
Belle ficou surpresa.
— Não preciso tomar mais remédio algum, estou curado da doença.
Ele deu a volta na cama, se aproximando.
— Senhor, posso lhe perguntar só mais uma coisa?
— Obviamente você acabou de me perguntar. — sorriu ele de canto. — Mas pode perguntar mais uma coisa.
Belle recuou.
— Onde o senhor está indo assim tão arrumado, bonito?
— Vou ao Rabbit Hole, aquele clube na entrada da cidade. Meu advogado me convidou para conhecer algumas pessoas, vou aproveitar para conversar com ele sobre o divórcio da Regina. — Daniel ajeitou o relógio de pulso por baixo da roupa.
— Sinto muito que ela e o senhor tenham decidido se separar. — falou Belle em um falso tom de lamento.
— Também sinto muito, Belle. Jamais quis que isso acontecesse. — Daniel checou o horário. — Bom, tenho que ir. Você aceita uma carona até o centro da cidade?
Belle não recusou.
Ele a deixou próximo ao Anita’s. Belle vivia em um apartamento menos de um quarteirão a frente e, como aquele era o caminho que ele tomaria, não teve problemas em parar por perto.
Seguiu o caminho até o limite da cidade. O Rabbit Hole era um bar bem frequentado nos dias que antecediam os fins de semana. Não havia diferenças gritantes dos demais bares onde esteve um dia, Daniel pensou que tinha exagerado na forma de se vestir, embora ele pudesse atrair olhares e precisava se sentir atraído pelo menos um pouco para uma hora se conformar que havia perdido Regina. Se sentou no bar e pediu Gim. Quando Isaac chegou, ele deslizou um segundo copo pelo balcão do bar.
— Eu acreditei quando me disse que teria uma moça sentada ao seu lado no momento em que eu chegasse. — disse o advogado.
— Blefei. — Daniel falou baixo, bebendo um novo gole do copo.
Isaac olhou ao redor. O clube estava cheio, algumas pessoas espalhadas nas mesas, em maioria jovens. Ele se sentou ao lado do cliente, agora um colega. Depois de alguns goles e uma conversa sobre desilusões amorosas, Isaac olhava para seu copo vazio e muito alto falava:
— Como pode ter certeza de que ela tem outro?
— Eu vi nos olhos dela, Isaac. Eu juro que eu vi. — Daniel balbuciou, apontando os olhos com os dedos. — Essa mulher está apaixonada, e não é pouco. Ela pediu o divórcio porque quer ir embora com o outro. Se eu descobrir quem é, eu juro para você que mato ele. — Encostou a cabeça sobre os braços largados no balcão do bar, começando a chorar copiosamente, extremamente carregado de emoções alcoólicas.
— Ora, mas o que é isso, rapaz? Não se preocupe. Para que você quer que ela volte se pode arranjar uma dessas garotas sonhadoras que venderiam até a alma para levar a vida que ela tinha com você? Hein? Hãn? O que me diz? Eu conheço algumas que estão fresquinhas. Se precisar eu peço a lista do Gold, ele sabe como chamar essas moças como ninguém na cidade. — Isaac batia nas costas de Daniel.
— Não, eu não quero uma garota, eu quero ela, a minha mulher. Se mesmo assim eu não pudesse ter a Regina de volta, só uma pessoa poderia estar no lugar dela. — Daniel ergueu o rosto, olhou o advogado com olhos marejados.
— Aham, então o amigo tinha uma substituta nas horas vagas, foi isso que entendi?
— É, eu tinha uma substituta. E ela era boa, Isaac, ela era um vulcão. Era quente, era excitante, era atraente.
— Então onde ela está agora?
Daniel balançou a cabeça, deixou um par de lágrimas escorrer pelo rosto.
— Morta.
Ele balançou seu copo de um jeito e de outro observando o nível da bebida.
Isaac engoliu em seco e decidiu que era hora de ir embora, ia procurar uma garota em outro bar.
— É, meu amigo, você ganhou. — ele deu novamente aquele tapinha nas costas de Daniel e pagou o que bebeu antes de deixar o cliente se lamentando sozinho.
Daniel só deixou o bar quando a cabeça latejou e seu inconsciente sugeriu que fosse andar um pouco pela praia. Largou o dinheiro em cima do balcão e saiu do bar, demorando pouco para achar o carro.
A orla não estava longe da entrada da cidade. Duas curvas e via a extensão de Mary Way Village inteira. Deixou o carro no recuo com a sorte de não haver ninguém cruzando a avenida naquele horário. A praia era um lugar deserto e Daniel não se lembrava como chegara ali pelo seu estado. Consegui andar, dirigiu, embora os pensamentos estivessem embaraçados e sombrios. Ele andou. Pensou em caminhar na areia, mas não sabia como chegar nela, talvez fosse melhor ficar ali mesmo, contemplando a beleza da água escura de onde estava. Então avistou o píer, os bancos chumbados na madeira e um mirante, foi até eles. Vendo o mar de perto, os pelos na nuca dele ficaram em pé. Estava muito próximo da água e o efeito das bebidas dava vertigem. Daniel tocou na madeira do píer e se segurou, respirando profundamente. O cheiro da maresia o trouxe a realidade quebrando a barreira do álcool no organismo dele. Talvez fosse sua imaginação, talvez não, mas achou que ouviu um sussurro, como se alguém soubesse que ele estava ali.
Naquela hora, Ingrid tinha sido deixada na entrada do píer por um homem qualquer com quem havia combinado de sair. Vestia-se como uma alma obscura pertencente a noite, toda de preto, num vestido feito sob medida para o corpo dela. Aquilo parecia-se com uma réplica do vestido de Mortícia Addams, e era muito simples se visto de dia, porém vestiu bem a mulher. Ela cortou os cabelos naquele mesmo dia, eles caiam mais cheios sobre os ombros dela, porém não adiantara de nada se arrumar toda, mal aproveitou a noite com o homem com quem saiu, porque o tal recebeu uma ligação da esposa e teve de voltar para casa. Não era a primeira vez que isso acontecia com Ingrid, nem a primeira vez que ela ficara sem molhar a boca e se sentia frustrada. Para ela ainda era cedo, dava tempo de fazer outra vítima.
Por instinto, ela olhou para trás e viu ele sem reconhece-lo. Achou que era um bêbado bem vestido vomitando no mar, mas alguma coisa mandou que ela fosse conferir. Seus saltos foram fazendo barulho enquanto chegava no homem apoiado ao píer, ela sentiu o cheiro de álcool, não mais forte que o perfume dele. Estendeu a mão até o ombro no terno e ele virou.
Teve de levar as mãos à boca para não gritar. Seu coração se apertou dentro do peito diante do que ela estava vendo.
Era Daniel.
Petrificada, Ingrid arregalou os olhos claros para ele que finalmente a enxergou.
Daniel acordou de outro devaneio alcoólico e abriu os olhos tanto quanto a loira parada em sua frente. Não podia ser, não tinha como ser, mas ela estava ali. Ingrid em carne e osso, ele a conhecia, o nome dela veio na mente assim que reconheceu seu rosto. Tamanho foi o susto que Daniel quase perdeu o equilíbrio, quase caiu lá em baixo na água, sorte sua ainda haver o apoio que segurou com firmeza nos mínimos segundos de lucidez que estava tendo.
— Você! É você! Ou estou tendo uma visão ou você ainda existe! — Ele disse trêmulo, assustado como se um fantasma estivesse na sua frente.
Ela não conseguia pronunciar nada, nem uma sílaba. Tentou fugir, mas o salto do sapato ficou preso em uma das fendas no chão e ela tropeçou.
Daniel tentou puxá-la, segurou seu braço só que caiu no chão junto dela. Tonto, ele levantou antes a puxando e tentando ver seu rosto de qualquer maneira. Ingrid se debatia, mas estava presa nas mãos do pintor.
— Como você se parece com ela! Como podem duas pessoas serem tão parecidas? Você é igual a ela... — ele dizia, desesperado, apertando os braços de Ingrid.
— Me larga! Me solta, por favor. Eu não sou quem o senhor está pensando. — ela pediu com pavor. — Eu vou gritar se você não me soltar. Me larga!
— Até a sua voz é igual a dela... Isso não é possível.
— Me solte, pelo o amor de Deus! Eu não sou essa pessoa... Eu vou chamar a polícia!
Daniel não tinha medo da polícia, nem estava preocupado, simplesmente livrou os braços de Ingrid e deixou ela correr com os saltos na mão para longe. Ele colocou a mão na testa e viu ela sumir como um vulto. Olhou em volta, não havia nada, ninguém além dele para testemunhar o que ele havia acabado de ver. Se era verdade ele não tinha certeza.
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