Intimamente Emma
28 O único que merece saber
Notas iniciais
Ingrid certificou-se de que ninguém havia a visto e entrou silenciosamente no sobrado. Fechou a porta sem um ruído e esperou seus olhos se acostumarem com a penumbra. A única coisa que ouvia era o som que seu peito fazia, o coração completamente acelerado ou desesperado depois de um susto que arrasara suas estruturas. Sentia as pernas ainda bambas e as canelas doerem por conta da corrida que deu até a casa do irmão. O que seria dela agora? Daniel a viu e procuraria por ela se fosse lembrar do seu rosto depois que estivesse sóbrio. Mas o que diabos ele fazia em Mary Way Village? Ingrid começava a acreditar que foi uma péssima ideia ter voltado. Se pelo menos soubesse de tudo antes. Ela respirou fundo, andou até a janela da sala, se embrenhando nas cortinas para olhar lá fora. Via o píer dali. Daniel sumiu, deve ter ido embora muito assustado após sua aparição. Ela voltou para dentro e de repente a luz se acendeu pegando-a desprevenida.
— Nós precisamos ter uma conversa, Ingrid.
O som da voz invadiu o silêncio e a perturbação de Ingrid, mas ela viu quem falava com ela. David se sentava no sofá, vestido com roupas de dormir e, segurando uma caneca com água, olhava para ela.
— Meu irmão, eu posso explicar. — tentou dizer séria, porém seu comportamento fez o irmão desconfiar.
— O que há com você? De onde está vindo?
Ela não quis mentir para ele.
— Eu estava com alguém, você não iria querer saber quem.
— Não preciso saber quem para entender que estava pagando uma bebida para você.
Ingrid levou isso como um soco no rosto, custou a olhar para o irmão.
— E você certamente está aborrecido porque ando fazendo isso há dias sem que perceba. — falou ela, cruzando seus braços no vestido escuro.
— Não sou um completo tolo, irmã. Mary me disse que você provavelmente faria uma cópia da chave do sobrado, não me surpreendeu quando soube que era verdade.
— E não quis me impedir de sair? Onde seu instinto de irmão superprotetor foi parar, David? — Ingrid disse, arrogante. Por alguns minutos seu susto sumiu.
— A minha paciência me conteve. — ele se levantou. — Nós tínhamos um trato, você se lembra?
— Claro que sim. — ela empinou o nariz.
— E por que não tomou cuidado? A essa altura, Emma já sabe que você voltou, ela deve inclusive me culpar por ter ficado calado.
— Garanto que se Emma ouviu alguma coisa, logo ela aparece aqui para conversar. Eu já me encontrei com ela. Quero dizer, eu já estive perto dela, apenas não conversamos e ela não sabe que eu estou na cidade.
David ficou em dúvida.
— Você esteve em nossa casa?
— Sim. Estive lá e não foi uma boa experiência, irmãozinho. Eu fui ver minha filha, saber como ela tem passado e se a casa está bem com ela.
— E...?
— E aí que a casa está em perfeitas condições. — Nesse momento ela pensou em contar sobre o absurdo que tinha visto naquela manhã, mas acabou falando sobre o assunto com outras palavras. — Mas eu acho que Emma está seriamente doente.
David fitou a irmã.
— Por quê? — ele a seguia com os olhos.
— Acho que Emma está se envolvendo com alguém. — Ingrid andou na direção do corredor, não ia continuar a falar sobre Emma.
— Espera, Ingrid. Emma está doente porque está se envolvendo com alguém? O que você viu para chegar a essa conclusão?
Ela parou, sentiu uma náusea repentina lembrando da filha e a mulher de Daniel Colter se beijando. Uma cena mais grotesca.
— Acho que Emma está se envolvendo com uma pessoa muito perigosa.
— Quem?
Ela ficou muito quieta.
— O que você quer dizer com isso, Ingrid?
— Por que não pergunta para ela?
Ele balançou a cabeça e andou até ela, virando a mesma para si.
— Não invente coisas sobre Emma. Ela pode não ser minha filha, mas eu a amo como se fosse. Quis te esperar hoje para dizer uma coisa importante, irmã. Mary e eu conversamos e chegamos a uma conclusão sobre o seu comportamento. Eu sinto muito, você precisa ir embora daqui.
Ingrid ergueu o rosto para o irmão ameaçando romper em lágrimas.
— Vocês vão ter coragem de me expulsar daqui?
— Não estamos expulsando ninguém, nós apenas concordamos que talvez seja preciso arranjar um novo lugar para morar. E tem mais, se não for conversar logo com Emma, nós mesmos iremos contar que você voltou.
— Eu não acredito que vão ter coragem de fazer isso comigo! — disse ela indignada.
— É para o seu bem. Se você voltou tem que ter consciência de que não pode viver conosco chegando tarde das suas saídas noturnas.
Ingrid empurrou o irmão e se afastou dele corredor a dentro até o quarto de hóspedes onde abriu os armários e gavetas e tirou tudo para enfurnar numa mala. Estava decidida a ir embora depois do desaforo que sentiu com o que ele lhe dissera.
— Se está incomodado com as minhas saídas noturnas que me dissesse ao invés de me punir. — falou ela, aborrecida. Foi arrumando tudo de qualquer jeito dentro da mala, nem sabia para onde iria, só estava decidida a não ficar mais no sobrado.
— Não queremos que vá embora agora, Ingrid, você tem tempo para encontrar um lugar. — dizia ele vindo atrás.
— Eu não quero ter tempo para achar um lugar. Se até o meu irmão está incomodado comigo, que eu deixe ele em paz, afinal, ele prefere dar ouvidos a esposa que odeia a cunhada do que a própria irmã. — Ela fechou a mala e tentou passar por ele na porta. — Saia da minha frente, irmãozinho.
— Ingrid, ouça...
— Não quero ouvir nada, você já disse tudo.
Ingrid o empurrou novamente e saiu, parando antes na porta do quarto de Mary para lhe dizer uma coisa.
— Pronto, querida, conseguiu o que queria. Passar bem. — e saiu colocando os saltos de volta nos pés, indo embora, batendo a porta do sobrado com força.
. . .
— Hotel Hopper, em que posso ser útil? — Archie falava ao telefone quando ela chegou, esbaforida, descabelada, o vestido todo torto no corpo. Ele teve a terrível impressão de que ela apanhou na rua.
Ingrid entrou no hotel com a única mala e parou no balcão, arrumando os cabelos, tentando manter a postura.
Archie terminou sua conversa ao telefone e olhou para ela muito surpreso, mais pelo estado lastimável dela do que pela aparição.
— Sim, senhor. Estarei esperando, agradecido. Boa noite. — O homem bateu o telefone e deu a volta no balcão. — Minha nossa! Ingrid! O que aconteceu? — Pegou a mala olhando-a, precisava fazer alguma coisa por ela. — Venha comigo, sente-se aqui, por favor. De onde você veio?
Fez ela se sentar na sala da recepção e guardou sua mala, voltando para ampará-la. O talento de Ingrid permitia que ela fingisse muito bem, portanto não era difícil chorar com facilidade. Ela o fez. Apertou os olhos com a ponta dos dedos e encarou o chão com semblante perdido.
— Do sobrado. — tentou dizer, mas a voz estava baixa e embargada.
— De onde? O que aconteceu? Parece até que você foi atacada. — Ele se sentou bem na frente dela. Tocou suas mãos, esfregando as duas entre as dele para aquecê-las. — Por favor, me diga que não foi isso que aconteceu.
Ingrid estava boquiaberta, dizendo coisas inaudíveis. Tudo fazia parte da interpretação.
— O meu irmão... Ele... Sabe, ele me expulsou de casa. — fez que sim repetidas vezes.
Ela parecia nervosa para Archie, ainda assim linda de uma forma que o deixava embasbacado só de ver seu rosto. Tentava acalmar e esquentar aquelas mãos e dedinhos suaves, tendo uma vaga lembrança da última vez em que esteve tão próximo assim da sua adorada Ingrid.
— Por que ele fez isso?
— A mulher dele o convenceu a me expulsar, eu tenho certeza que foi ideia dela. Ela me odeia, Archie. — Ingrid veio embaraçando as palavras. Archie não entendeu meia dúzia.
— Fique calma. — Deu leves batidinhas em seus dedos e foi buscar um pouco d’água para ela. — Tome um pouco disso.
Ingrid bebeu tudo em um gole longo. Fingia tremer sem fôlego.
— Graças a Deus encontrei o seu hotel, caso contrário eu ficaria na rua.
— De jeito nenhum, jamais permitiria que você passasse uma noite na rua. — Ele disse muito preocupado com ela. Ajeitou os óculos no rosto e permaneceu perto, de frente. — Acho que não posso dizer para Emma que você está aqui.
— Não! Ela não sabe que voltei. Tenho que ficar escondida por um tempo até ter coragem para conversar. — ela procurou as mãos dele dessa vez.
— A essa altura sua filha já deve saber que você está na cidade, Ingrid. — comentou Archie.
— Ela pode saber, mas ela está morrendo de raiva de mim por tudo o que aconteceu. Olhe, preciso da sua ajuda novamente, sei que ela trabalha aqui, ela é uma boa menina.
— Uma boa funcionária, eu só a empreguei porque é sua filha. Às vezes ela é um pouco atrapalhada, mas nada que a impeça de trabalhar direito o restante do tempo.
— Ótimo, então você pode me ajudar mais uma vez. — ela engoliu em seco.
— Claro, o que estiver ao meu alcance. — ele se prontificou.
— Me hospede aqui esta noite, só esta noite, Archie. Amanhã vou procurar um apartamento, uma casa, qualquer canto onde eu possa ficar, eu juro. — seu pedido soava inocente, só que no fundo tinha uma outra finalidade.
— Óbvio que você pode se hospedar aqui hoje, e fique o tempo que precisar. Não se preocupe.
Ela parou e tocou o rosto dele com calma, fez um carinho leve e deixou um selo sobre a bochecha.
— Obrigada, meu amigo tão querido. Eu estou te devendo muitos favores. Creio que eu esteja abusando da sua boa vontade. — falou, suspirante.
— Uma ajuda que dou a você é um favor que faço para mim. Eu te... — Archie parou de falar quando percebeu que estava indo longe demais por impulso da emoção. Ele não diria nenhuma novidade, mas sabia que falando o que sentia entregaria os pontos. — Fique quantos dias necessitar, Ingrid. Não vou cobrar.
— Oh, nunca conseguirei expressar minha gratidão.
— Estará fazendo enquanto confiar em mim. Agora suba e tome um banho, troque essa roupa e durma. Você me parece cansada. Deixe que com Emma eu me entendo amanhã e depois para ela não saber de nada.
— Só enquanto eu não ter coragem para conversar com ela. Sugiro que dê alguns dias de folga. — Ingrid piscou.
— Certo, gosto da ideia.
Ele a ajudou com a mala e os dois subiram juntos. Escolheu para Ingrid o quarto doze no fim do corredor do terceiro andar.
Ingrid o conhecia o suficiente para saber que ele cairia em sua história. Aproveitaria a ocasião para ganhar tempo. Ficou pensando nisso depois que se deitou. Havia sido uma noite e tanto; Um encontro que não deu certo; Daniel; depois ter sido expulsa da casa do irmão, sendo que tomou a atitude de sair por orgulho além de estar farta de Mary. A cunhada era um estorvo em sua vida e pela forma como David a defendia podia sentir o cheiro do problema se aproximando enquanto estivesse vivendo no sobrado, ainda que visse o casal tão pouco. Ingrid dormiu, mas o sono não foi nem um pouco tranquilo.
Emma recebeu a ligação de Archie pela manhã, achando muito estranho ele ter lhe dado férias justamente na época do ano em que o hotel vive cheio. Desligou o telefone de casa olhando o aparelho com estranheza. Estava pronta para sair quando atendeu o telefonema. Não que isso fosse ruim, ela ia gostar das férias e até receber por elas segundo o dono do hotel, só que havia algo suspeito por trás disso que Emma não decifrava.
— Algum problema? — Regina perguntou da mesa.
— Não. O Archie me ligou para dizer que eu estou oficialmente de férias por tempo indeterminado.
— Isso é verdade?
— Sim. Ele não parecia estar mentindo do outro lado da linha. — Emma veio até ela. — Bom, de férias e sem precisar ir trabalhar, mesmo assim recebendo. Archie não é de fazer isso.
Regina bebeu um gole de chocolate quente de uma caneca e a pousou sobre a mesa antes de se virar para Emma.
— Você está pensando que ele teve algum problema?
— Deve ter ficado louco. Uma coisa é ele me demitir, a outra é me colocar de férias e pagar por elas. — Emma prendeu os lábios, sua desconfiança andou duas casas e ela refletiu.
— É, isso está estranho. — Regina disse.
— Eu vou ver o que aconteceu. — Swan voltou para buscar sua mochila.
— Meu amor, por que não procura ver isso amanhã? Aproveita o dia de folga para me ajudar, o que acha? Vamos terminar esse capítulo. Estou tão perto de finalizar Intimamente.
Emma se virou para ela e voltou o caminho todo, parando ao lado, colocando suas próprias mechas de cabelo escuro para trás.
— Até ajudaria se me deixasse ler, fica fazendo suspense e me deixa ver apenas as cenas picantes.
— Não são tantas. Se eu deixar que leia tudo vou estragar a surpresa. Agora sente aí, me ajude com algumas palavras, preciso recitar uma nova poesia nesse capítulo. — Regina se colocou de volta no lugar e voltou a digitar.
— Está mesmo empenhada em me tornar uma poeta, hein? — Emma se sentou em seu colo.
— Poetiza. — corrigiu. — Simples, você tem talento. — ela sorriu e abraçou a amante pela cintura.
De repente elas ouviram um barulho de carro estacionando. Se olharam e Emma foi andando até a janela ver quem era. David tinha acabado de estacionar a caminhonete e batido a porta do carro.
— Ai, mas que droga é o David.
Regina se pôs de pé e pegou suas coisas da mesa.
— Eu vou para a cozinha.
Emma assentiu, esperando ela sair de cena.
Antes que o tio pudesse tocar a campainha ela abriu a porta pegando-o desprevenido.
— Você me viu chegando? — perguntou ele.
— Ah sim, eu vi quando estacionou. — disse ela, mostrando o caminho da sala.
David entrou. Estava com pressa antes de chegar, se aliviou quando viu a jovem.
— Vim correndo antes que você saísse de casa. A propósito, não está na hora de ir para o Hotel?
— Sim, sim. Eu deveria estar a caminho, acontece que o Archie me deu férias. — explicou ela, dando uma espiada no portal da cozinha, não dava para ver ninguém dali. Regina devia estar bem escondida.
— Hum, menos mal, não estou atrapalhando. Como você está? — ele deu um abraço nela, selando sua testa, reparando. Emma não era mais uma menina, ele devia trata-la como uma mulher agora.
— Estou bem. — Emma fez que sim muitas vezes. Cruzou os braços, jogou os cabelos para trás e esperou pelo tio.
— É bom saber, minha filha. — ele não perdia a mania de chama-la de filha.
— Como está minha tia? A Zelena? Tá tudo bem na loja?
— Todos muito bem, sua tia mandou um beijo. Vim ver se precisa de alguma coisa, não tive uma boa noite de sono. Acho que ando dormindo pouco e isso tem me causado muitas paranoias. Acordei com a sensação de que precisava te ver.
Um brilho incomum nos olhos dele a preocupou.
— Tio, o que aconteceu? Por que está assim? — Ela mostrou os braços a ele solidariamente. — Quer me contar alguma coisa?
David apenas abraçou a sobrinha. Passou uns cinco minutos sem dizer nada, e esse silêncio incomodou Emma.
— Vai me contar ou não?
— Não é nada. Eu precisava ver você. — David se afastou de Emma, virando-se aos poucos. — Ahm, Emma, você sabe que tenho você como minha filha, não sabe?
A moça sabia disso tanto que assentiu.
— Eu sei, tio. — Emma sentia algo de errado com David, pegou no pulso dele e sem querer viu a pulsação acelerada. — Tem alguma coisa que o senhor quer me dizer?
Ele não soube expor o que queria. Pensou em Mary lhe dizendo para contar sobre Ingrid. Depois pensou em Ingrid gritando: “Acho que Emma está se envolvendo com uma pessoa muito perigosa.” e na forma como ela deixou o sobrado. Pensou ainda onde a irmã estaria, e seu amor por Emma não o permitiu fazer o que Mary pediu para ele concluir.
— Não. — disse David. — Não tenho nada, filha.
Disse a ela que se cuidasse e o procurasse caso tivesse algum problema, então se foi com a mesma pressa que o fez chegar.
Emma jurava que seu tio lhe diria algo importante, embora fosse comum suas visitas repentinas de dez minutos só para saber se ela estava bem.
Regina ouviu tudo, voltou para a sala quando escutou o carro saindo da frente da casa.
— Acho que seu tio está preocupado com você.
— Isso não é nenhuma novidade. — Emma a viu, ainda parada no meio da sala. — Mas hoje ele parecia diferente. Meu tio ia me dizer alguma coisa e não teve coragem. O que as pessoas estão me escondendo, Regina?
A escritora sugeriu uma vaga ideia.
— Talvez seja a hora de conversar com ele sobre nós.
Emma segurou as mãos e estalou cada dedo, um por um num gesto inquieto.
— A única pessoa que merece saber sobre nós duas é ele. Meu tio sabe que mudei. Ele merece saber o que pretendo futuramente.
Na mesa do café da manhã, Daniel não tocara em nada do banquete preparado por Belle. O jornal do dia permanecia intacto ao seu lado direito, e o pintor só tinha olhos para um furo na toalha de mesa que ele costumava esconder com o pires da xícara favorita. Belle se acostumou com o comportamento de zumbi do patrão e tinha ordens para começar a recolher o café da manhã quando se aproximasse das dez horas, muito porém, antes disso Daniel a surpreendeu levantando da mesa bruscamente e essa foi a única forma de derramar o leite que ele gostava de beber sobre a xícara.
— Senhor, não vai se alimentar? — ela perguntou, indo limpar a sujeira.
— Outra hora. — ele disse.
— Então vou guardar o que sobrou. — ela começou a recolher toda a comida.
— Faça o que quiser com as sobras. E não precisa me esperar para o almoço, eu tenho que ir a um lugar. — Daniel parou no hall de entrada da mansão vestindo um sobretudo escuro antes pendido num cabide. Tinha varado a noite depois do susto. E não se deu um minuto de sossego desde que ficou sóbrio após uma exagerada dose de café velho que achou de madrugada, por isso nem tocou em nada na mesa do café.
Belle veio atrás dele correndo.
— Mas, senhor, o que digo caso liguem?
— Diga que não volto até resolver um assunto importante. Sem previsão. — ele saiu batendo a porta, deixando a empregada desentendida.
Pegou o carro na garagem e dirigiu até a praia. Se tinha sonhado ia saber agora de qualquer maneira. Por isso, parou no exato lugar onde se lembrava que tudo havia acontecido. Procurou em todos os cantos do píer, cada centímetro, desejando ter um binóculo para olhar o restante da orla, atrás de encontrar a mulher vestida de negro.
Era um dia normal como qualquer outro na cidade, especialmente no comércio da orla. Tudo funcionava, as pessoas circulavam nas calçadas, lojas, na beira da praia, mas ninguém era ela. Daniel parou no apoio do píer e tentou se lembrar de como tudo aconteceu. Ele estivera bêbado ali, exatamente nesse lugar, parado, não viu coisa com coisa, mas a mulher ele tinha certeza de ter enxergado. Se foi sonho pareceu-lhe muito perfeito. Ele não queria acreditar, porém tudo indicava que viveu uma belíssima ilusão na noite anterior.
Contar para alguém sobre o sonho parecia uma boa ideia. Então ele se dirigiu ao escritório de Isaac Heller na esperança do advogado compreender sua frustração.
Foi recebido com as mesmas palminhas no ombro que o homem costumava dar em qualquer cliente ou colega seu. Entendeu que Daniel não dormira bem ou sequer havia dormido pela cara dele.
— Sente-se aí, Daniel. Deixe-me adivinhar, você passou a noite pensando no divórcio? Olha, eu devo sugerir que procure uma terapia. Eu conheço uma pessoa perfeita para esse serviço, se você quiser o contato dela...
— Eu vim porque ontem me ocorreu uma coisa. — Daniel desembuchou.
Isaac se sentou atrás da mesa e fechou o terno, procurando uma posição confortável na cadeira. Quando Daniel falou, ele checou se ainda parecia sóbrio.
— O que foi, Daniel? Até parece que você viu um fantasma. — Isaac juntou as sobrancelhas grossas.
— E foi o que eu vi, uma fantasma. Eu tenho certeza de que era uma fantasma. — começou a falar sem pausas. — Quando você foi embora do bar, eu dirigi até a praia. Era muito tarde, não havia ninguém andando na rua, e ao me dar conta eu estava no píer quase me jogando lá de cima direto para a água. Logo que pensei em vomitar, alguém tocou o meu ombro e eu vi. Era ela, com toda certeza era ela.
— Ela quem?
— Uma mulher, Isaac. Uma mulher muito parecida com outra. — os olhos de Daniel pararam aficionados.
— Cacete, Daniel! O que foi que você bebeu depois que eu fui embora ontem?
— Sei que não estou sendo objetivo. Estou confuso se foi sonho ou real, mas tudo parecia tão verdadeiro. — ele continuava com o olhar parado. — Eu vi ela, uma mulher muito bonita, era loira e estava vestida com um vestido de festa escuro. Eu tentei alcança-la, mas ela correu, ficou assustada quando toquei nela e perguntei como podia ser tão parecida com... — ele parou. Lembrou que ninguém além dele sabia o nome do seu passado.
Isaac colocou uma mão sobre o queixo e coçou. Pediu para Daniel lhe contar mais sobre a misteriosa mulher.
— Loira, olhos de que cor?
— Azuis. São os olhos mais azuis que já vi. — Com o impulso da emoção, Daniel continuou. — Tem um nariz longo, porém muito delicado. A boca é fina, bem desenhada, cor de rosa muito claro como se ninguém tivesse beijado antes. E o que eu mais gosto nela são os cabelos, loiros e perfumados. Ela só me deixava tocá-los quando fazíamos amor. Parece um anjo, Isaac, um anjo encarnado em um ser humano.
A expressão no rosto de Isaac se definia entre impaciência e a curiosidade. Se não soubesse que seu cliente havia bebido na noite anterior, chamaria ele de louco.
— Então essa mulher foi muito importante para você.
— Foi. — Daniel concordou.
— Acontece que eu conheço uma pessoa muito parecida com essa mulher do sonho, meu amigo e, realmente, ela é um anjo encarnado. Chama-se Beth, voltou há algumas semanas para a cidade. Que tal um encontro entre vocês? O que me diz?
— Beth? Você acha que pode se tratar da mesma pessoa.
— Isso eu não sei, você mesmo não sabe se o que viu foi sonho ou real. Bom, acho que você precisa relaxar um pouco. Uma mulher bonita fazendo companhia pode ajudar. A Beth adora ajudar homens como você se pagar uns poucos drinques para ela. Vou conseguir o contato dela com o Gold. — Isaac se levantou da mesa. — Você conhece o Gold que trabalha na prefeitura, não conhece?
— O da loja de carros? — Daniel o acompanhou com o olhar.
— Esse mesmo. Ele é o único que tem contato com a Beth.
Uma ansiedade estanha tomou conta de Daniel.
— Isaac, não diga meu nome quando marcar o encontro com essa tal de Beth.
O advogado parou ao ponto de questionar o cliente, mas pouco interessado em saber o motivo ele desistiu.
— Como desejar.
Ele foi ao telefone no canto da sala e telefonou para o sr. Gold, mas o dono da loja de carros antigos não garantiu que um encontro com “Beth” acontecesse tão depressa.
Num dia do final da semana, Regina acordou no meio da tarde se deparando com as sombras que tocavam o teto da sala. Foram as primeiras coisas que ela enxergou ao despertar de um longo cochilo. Seu corpo doía um pouco devido a posição em que Emma a deixou deitada no sofá e, quando se sentou, sentia-se ainda mais cansada do que antes de dormir no colo da moça. Por falar em moça, ela não estava por ali. Regina chamou por ela umas duas vezes, mas tudo o que teve de resposta foi o eco da própria voz.
A sra. Mills se levantou sonolenta, bocejante, andando na direção da janela para abrir as cortinas que Emma fechou antes de sair, concluiu Regina. Nenhum sinal de vida na rua da casa, nenhum sinal de nada. Os vizinhos de Emma eram esquisitos, e o que sabia-se deles era que em maioria foram pessoas importantes na cidade, mas não eram tantos assim, talvez por isso aquela rua parecesse um deserto em determinadas horas do dia. Regina não se preocupou muito, no fundo dava graças por não ter ninguém bisbilhotando a casa de Emma.
E onde teria ido a moça sem avisar? Mills pensou muitas coisas; o mercado; o hotel; a floricultura; Os três lugares mais prováveis. Ela viu o celular de Emma sobre o móvel. Ou a moça esqueceu ou deixou de propósito para não ser encontrada. Emma não deixou apenas o celular em casa, tinha um papel destacado de bloco embaixo dele. Regina o pegou e leu.
“Vou até a floricultura conversar com o meu tio.
Volto a noite. Não se preocupe.
Eu te amo!
Sua Emma.”
Regina perdeu o ar. O estomago se revirou como presságio de receio. Ela soube o que Emma foi fazer, teve certeza de que decidiu contar do romance entre elas.
. . .
Mary preparou uma fornada de cookies para Emma decidindo por isso ao vê-la quando chegou na loja. Elas esperavam David chegar de uma entrega, mas a moça não tocara a boca no café feito pela tia e Mary notou uma tristeza brotar no rosto de Emma em silêncio.
— Querida, o café está ruim?
Emma ergueu os olhos para a tia.
— Não, de jeito nenhum, tia. Eu só me sinto sem sede. Obrigada. — devolveu a xícara ao pires sobre a mesinha de centro entre elas.
Assim que fez isso, David entrou pela porta, como sempre apressado ao saber de Emma. Zelena disse para ele que a sobrinha o esperava em casa e achou a moça muito séria.
— Emma — ele fechou a porta e foi até ela, recebendo um abraço firme, não carente. — Está tudo bem? Veio falar comigo? — ele acolheu o rosto dela entre as mãos.
— Vim falar com você sim, tio, um assunto muito sério. — disse ela em voz diferente, um tom acima do normal.
David compreendeu que devia ficar sozinho com a sobrinha. Olhou para a esposa sentada e meneou a cabeça feito um sinal para ela se retirar.
Mary não se incomodava. Recolheu as xícaras, deixando uma apenas para David e se recolheu para dentro da casa.
Eles se sentaram um de frente para o outro e David esperou com toda a paciência que Emma começasse. Deu todo o espaço para ela se sentir confortável. Ele imaginava que Emma fosse falar que já sabia da mãe. Só que Emma era uma moça diferente, ou diria mulher? Por fora, calma, adulta, controlada.
Antes de falar, ela prendeu os lábios e inspirou, então encontrou o jeito certo de dizer sua grande novidade. Conscientemente, claramente, cumprindo uma missão, Emma começou a falar.
— Faz alguns meses, conheci uma pessoa em Blue Hill. Essa pessoa morava na rua da minha casa, mas antes disso ela se hospedou no Hotel Hooper. — Emma procurou os olhos de David. — Sem querer encontrei um papel com coisas escritas, ele pertencia a essa pessoa. Alguns dias depois, eu descobri que algumas coisas que estavam escritas no papel eram sobre mim. A pessoa que escreveu sobre mim estava perto o tempo inteiro e me aproximei dela.
David ouvia a história da sobrinha com cautela.
— A forma como ficamos amigas é um pouco embaraçada, porém tudo foi tomando um rumo e eu descobri que estava me apaixonando por tudo o que ela escrevia. Essa pessoa e eu passamos a nos encontrar esporadicamente, até que eu e minha enorme boca nos entregamos e eu me declarei. — Emma abriu um sorriso sonhador, era bom se lembrar de como tudo iniciara. — Eu senti vergonha quando contei do meu amor por ela e fugi, desapareci por dias até ela me encontrar e acontecer uma coisa linda entre nós. Depois com medo, ela fugiu de mim, mas não por muito tempo, sabe? Foi numa tarde meio fria, meio ensolarada do começo do inverno que eu me entreguei a ela, desde então, estamos apaixonadas. Estou me envolvendo com uma mulher, tio. Eu estou apaixonada por uma mulher.
Emma parou de falar olhando David imaculado no sofá. David não tremia sequer um musculo da face, e seus olhos azuis miravam Emma de uma forma neutra.
A moça teve medo, uma impressão de tê-lo decepcionado. Sabia que não seria fácil. Ela baixou o olhar e sentiu um gosto amargo na boca. Achou que não devia ter contado daquele jeito. Estava ao ponto de se arrepender. Mas se não fosse assim, não seria de outro jeito.
Só uma frase vinha a mente de David: “Emma está se envolvendo com uma pessoa perigosa.” Portanto, Ingrid sabia mais que ele. Algo não estava coerente na história de Emma e a palavra que Ingrid usou ao se referir a pessoa com quem Emma se envolvia. David não queria que Emma saísse de casa pensando que ele a odiava por amar uma mulher. Ele ficou confuso.
— Isso é verdade, Emma? — perguntou.
— Nunca fui tão verdadeira. — ela respondeu com certeza, não o fitava.
David se pôs de pé e abriu os braços. A moça, sentada, olhou para cima, para o tio. Ela também levantou. Emma viu que ele estava lutando bravamente para não chorar, por isso ela também sentiu vontade de chorar. Quando o nó quase fechou-lhe a garganta Emma o abraçou, sentindo a emoção dele. Ele permitiu que as lágrimas descessem, enquanto Emma afagava suas costas em meio ao abraço na forma mais consoladora, e aquela era uma rara e primeira ocasião para isso acontecer.
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