Internato

11 Capítulo 11


Alicia

Eu tava de boa em casa. Largada na cama, ouvindo musica, comendo miojo e lendo um livro qualquer que eu peguei na biblioteca. Essa minha ‘paz’ foi interrompida por batidas na porta.

Marquei a página em que estava, coloquei meu miojo no chão e fui silenciosamente até a porta. No caminho peguei uma de minhas laminas.

Encostei na porta e com a lamina pronta, girei a maçaneta devagar.

Era só o Marcos.

— Alicia! – ele disse como um pai ao me ver com minha talwar curta – Já não disse pra você ao menos atender a porta desarmada?

— Certo delegado – comecei sarcástica – mas você sabe quem eu conheço. Não é melhor eu estar prevenida? Ah, por que a escolta? – apontei para os outros dois policiais que o seguiam – O que eu fiz dessa vez?

— Todo mundo sabe o que você fez, Alicia. Mas não é o caso.

— Então por que a visita?

— Tem gente te procurando. Lá do Rio.

Gelei.

— Policia ou bandido?

— Policia.

— No que diabos colocaram meu nome?! Eu saí de lá com cinco anos! E todo mundo sabe que eu não voltei e nunca colocaria meus pés lá de novo!

— Calma garota! Eu sei que não. Mas tem gente te procurando.

— Eles tem mandado ou coisa do tipo?

— Não, mas eles tem um advogado. Ele tá em São Paulo. Não me deixaram ver direito, mas parece coisa de particular.

— Voce disse que era a policia.

— É, mas esse particular tá do lado da policia.

— To fudida – murmurei

-x-

Dessa vez não fui pra minha cela. Fui direto pra sala de interrogatório. Infelizmente, não pude levar nada. Eu sabia das regras: não podia entrar com nenhum objeto solto. Pelo menos, desta vez, não tiraram meu relógio ou o lenço. Primeira vez que não entro numa delegacia como suspeita.

Fiquei um bom tempo naquela salinha esperando o tal do advogado. Estava quase dormindo quando a porta abriu e um ser que não se parecia com um advogado entrou seguido por Marcos. Ele era de uma altura mediana e me lembrava aquela carinha do Matrix, o ‘policial’ fodão e quase invencível gerado pala matriz. Trazia uma maleta preta típica de advogados e propicias para subornos.

Ele se sentou, estendeu a mão num cumprimento mas não disse seu nome.

— Então Alicia. Voce tem alguma ideia de por que estamos aqui?

— Na verdade não. Normalmente quando venho parar aqui, eu pelo menos sei o motivo. Só sei que você é do Rio e que eu não tenho nada a ver com ninguém de lá.

Ele deu uma risada curta.

— Bem, nas verdade você tem. Voce nasceu lá, certo?

— Foi. Passei cinco anos num orfanato lá, fui mandada para um inferno que chamavam de orfanato no interior de São Paulo e desde os treze vivo na capital. Não tenho mais nada a ver com nenhum carioca.

— Na verdade, você deve saber que sua mão lhe registrou e assumiu antes de te entregar. – acenei com a cabeça

— Infelizmente, ela me deu seu sobrenome difícil de pronunciar.

— Abher é um belo nome.

— Mas é alemão, difícil de escrever e de falar.

— Existem piores.

— Claro, mas duvido que seja para discutir isso que você esteja aqui.

— Realmente, não é por isso. Bem, sua mãe, que agora é a Sra. Kalil, se tornou viúva recentemente. Herdou toda a fortuna do marido, e esta a procura da única filha que teve: você.

O encarei por um segundo.

— Voce tá querendo dizer, que a mulher que me abandonou com seis dias, veio me procurar agora, faltando três meses para eu completar dezoito?

— Na verdade, faz quase três. Te rastreamos até São Paulo faz pouco mais de dois anos. Mas seu rastro desapareceu junto daquele garoto... Leon, certo? Descobrimos que vocês tinham vindo pra capital, mas entre te encontrar rapidamente e resolver todos os papéis necessários para te levar embora do país, preferimos resolver a papelada.

Uma lágrima estupida escorreu do canto do meu olho.

— Voces me acharam faz dois anos?

— Sim – ele disse com um sorriso – e te digo: está tudo pronto para te levar para Dubai. Voce e seu amigo, só preciso de vocês para fazer seus passaportes e sua mãe os está esperando!

— Chegou tarde demais – disse e me levantei, indo direto para o vidro filmado. Encarei meu reflexo.

— Foi alguma coisa que eu disse? – ele perguntou igual a um idiota pro Marcos.

Antes que ele pudesse responder eu soltei, ainda encarando o vidro preto:

— Voce chegou tarde demais. Não me interessa ir.

— Mas pense: uma vida de princesa, bem no meio do deserto. Todos os luxos que lhe foram negados, uma mãe rica e cheia de remorso. Tudo o que você sempre sonhou está ao seu alcance! Uma vida nova pra você e pro seu amigo!

Permaneci calada.

— Olhe Alicia, talvez você não deseje mais isso. Mas pense no seu amigo. Voce acha que ele não merece?

Respirei fundo, toquei meu pingente enquanto algumas lagrimas ainda mais estupidas escorreram.

— Ele mereceria. Se estivesse vivo.

Saí da sala batendo a porta.