Internato
12 Capítulo 12
Alicia
Amanheci com a garganta doendo e o nariz entupido. Minha cabeça latejava. E descobri um roxo gigantesco na minha panturrilha direita – que me fez mancar. Tomei um banho quente que relaxou meu corpo e fez com que a maioria das dores diminuísse. Mas daí minha cabeça clareou o suficiente para que eu lembrasse da tarde anterior e minha cabeça voltou a latejar com força total.
Depois que saí da delegacia – e ninguém tentou me parar -, fui pra um bar qualquer lá pelos lados da Sé. Me enfiei lá no fundo e, apesar dessa nova lei, eles não tiveram problema algum em me vender bebida.
Provavelmente dei uma gorjeta alta. E lembro de ir embora de trem. Aliás, pensando bem, provavelmente eu fiquei algumas horas desacordada em algum lugar. Mas só sei que cheguei em casa. E queria não ter chego.
Engoli três aspirinas duma vez e me joguei de volta na cama. Devo ter dormido, por que só percebi que tinha passado algum tempo quando meu estomago roncou. Levantei e quase caí com uma tontura terrível, mas nada que me impedisse de fuçar nos armários.
Peguei um pacotão de Club Social, um pote de requeijão e uma colher e voltei pra cama. Depois de duas embalagens levantei pra pegar uma Coca.
Agora minha cabeça e meu estomago estavam brigando pra ver quem ia doer mais. Ok, nada insuportável. Mas quase.
Outros dois pacotinhos e metade duma garrafinha de Coca depois, bateram na minha porta. Fiz um muxoxo e me levantei devagar. Peguei minha talwar e fui pra porta.
Puxei a porta e lá estava Marcos e o desgraçado do advogado.
— Entra logo – falei de má vontade – Dessa vez eu vou terminar de comer, não to nem aí.
-x-
O advogado falou alguma coisa, provavelmente o nome. Disse que não sabia nada sobre a morte de Leon, e me deu seus pêsames. Como se isso adiantasse alguma coisa.
Voltei a comer, ofereci a eles – ok, sou órfã, ladra e tudo o mais, mas eu tenho educação, tá? – e Marcos aceitou uma bolacha. Ele não estava fardado, então ele era um cara normal agora. Eu poderia xingá-lo numa boa, sem os amiguinhos virem me encher a paciência. Mas eu xingo ele de qualquer jeito mesmo, isso não faz diferença.
— Marcos – interrompi o advogado no meio duma frase – por que voce trouxe esse cara aqui?
— Bem, acho que talvez seja uma oportunidade. Voce pode ter agora o que nunca teve. E em dois meses sua ficha é zerada. Nova vida, não é mesmo? Alicia, voce ganhou a chance de recomeçar num lugar longe, onde ninguém te conhece, e ainda por cima rica.
— E se eu não quiser isso Marcos? Eu to bem assim. Tenho tudo o que preciso aqui. Se eu quiser, arranjo mais dinheiro. E eu tenho bastante dinheiro guardado. Posso viver o resto da vida sem roubar.
— Sabe, eu conheço muita gente que rouba por necessidade. Mas voce não precisa. Voce podia viver de boa com o Galdi, mas preferia ir pra rua. Agora, voce tem a chance de ir pra Dubai e ainda assim quer ficar aqui.
— É o que eu conheço, Marcos. Essa é a minha vida! É assim que eu sou, é assim que as coisas funcionam pra mim!
— Alicia – começou o advogado – sua mãe lhe garante tudo o que puder sonhar. Tudo de material que voce deseje, é só estalar os dedos e pronto, dezenas de criados vão correndo te atender. Ela quer voce. Ela pediu que eu te dissesse que sente sua falta. Que lembra do seu choro e tem uma foto sua na carteira. Que sonha com voce. E que teve vontade de largar tudo várias vezes pra vir te procurar.
— Difícil de acreditar.
— Mas é a verdade. Eu lhe peço que vá. Como Marcos disse, em dois meses voce estará livre. Livre do passado, e se quiser, livre da sua mãe. Em dois meses, basta inventar algo ou simplesmente dizer que quer viajar e sumir do mapa. Pode usar o dinheiro que conseguiu aqui, ou torrar a fortuna que ela herdou.
Franzi os lábios. Internamente, eu sempre quis conhece-la. Nada dessa história de perguntar por que ela me deixou ou coisa do tipo. Não ligo. Só queria olhar pra cara dela, uma vez, e dizer obrigado. Eu prefiro a vida que eu levei a dessas garotinhas mimadas que via por aí.
Daí eu nunca mais queria vê-la.
— Alicia – Marcos disse pousando a mão em meu ombro -, voce precisa sair daqui.
Olhei em seus olhos.
— Olha – continuou -, voce precisa ao menos tentar seguir em frente. Voces dois sabiam dos riscos. Ele não vai conseguir estar em paz até voce superar isso.
— Eu não quero esquecer.
— Ninguém disse nada sobre esquecer. Disse sobre superar. Lembre-se dele, sim. Mas de forma sadia. Essa espiral de autodestruição só faz mal a voce mesma.
Respirei fundo. Infelizmente, ele tinha razão.
Olhei nos olhos de Marcos. Ele acha que isso vai ser uma coisa boa pra mim. E eu confio nele.
Sabe aqueles vinte segundos de coragem insana?
— Então... – disse olhando pro advogado – onde eu assino pra ir embora?
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