Instruções
9 Capítulo 9
Capítulo 9
“Para aonde nós estamos indo?” Eu perguntei.
Estávamos dirigindo por pouco mais de uma hora, havíamos acabado de passar por Portland. Eu não via a hora de finalmente descobrir nosso destino final.
“O nome da cidade é Paris, mas não se anime, não é nada comparada a Paris real. É uma cidade antiga e pequena, mas serve.”
“Serve?” Eu questionei.
“É.” Ela respondeu. “Serve para descansar e esperar que o tempo de luto acabe.” Ela continuou, olhando para mim e me direcionando um sorriso.
Eu tinha exatamente quinze horas no meu tempo de luto e estranhamente eu já estava aprendendo a usá-lo de fato. Não era tão difícil, principalmente porque ela não falava muito e eu me via obrigada a ficar remoendo tudo o que eu estava sentindo.
Não demoramos até chegar na pequena cidade que ela havia falado. Realmente era bem pequena, quase não se via movimento nas ruas, o que eu estranhei muito, mas observei calada. Paramos então em uma delegacia e, sem dizer nada, Emma desceu do carro e eu a segui.
“O que estamos fazendo aqui?” Eu perguntei, enquanto a seguia para dentro da delegacia.
“Eu preciso pegar as chaves com um amigo meu.”
“As chaves?” Eu questionei.
“É, Regina. As chaves. Não vamos ficar mais em hotéis.” Ela respondeu, quando enfim entramos na delegacia.
O lugar era silencioso e parecia abandonado. Eu me questionei quais tipos de crime se cometia na pequena cidade de Paris. Nos vimos diante de uma mesa vazia, Emma olhou ao redor, procurando por alguém e, instantes depois, um homem apareceu.
“Emma!” O homem disse, enquanto se aproximava dela e a envolvia em um abraço. “Eu pensei que você já tinha desistido.” Ele continuou.
“Não, não desistimos. Mas paramos na estrada e passamos uma semana dormindo em um hotel vagabundo.” Ela respondeu.
“Isso é bem você mesmo.” Ele disse. “Agora você não precisa se preocupar, eu ajeitei o lugar que você queria. Você vai adorar.” Ele então olhou para mim. “Bem, e quem é essa?”
“Essa é Regina.” Ela disse, se aproximando de mim e me tocando gentilmente em meu braço. “Regina, esse é o Graham, o xerife local.”
“É um prazer te conhecer.” Graham falou, se aproximando de mim e estendendo sua mão.
Eu a apertei, o cumprimentei e olhei para Emma, que agora perguntava a ele onde estavam as chaves do local. Ele foi até sua mesa, tirou de lá um molho de chave e entregou a ela.
“Bem, tenham uma ótima manhã,” ele disse, assim que Emma agradeceu.
“Graham, se importa de avisar a Archie para me ligar?” Ela pediu, o homem assentiu, Emma se despediu e nós duas saímos da delegacia em direção ao carro.
“Nós vamos ficar em um pequeno apartamento.” Ela começou a dizer, enquanto caminhávamos até o quarto. “Não é muito longe daqui. Antes de vim para cá, eu pedi a Graham que alugasse-o para mim. Geralmente eu fico em um hotel quando venho, mas também nunca fico mais de dois dias.”
“Pretendemos ficar aqui por quanto tempo?” Eu quis saber, ela deu de ombros. “Você não sabe?” Eu continuei.
“Bem, eu não planejei os detalhes de tudo. Eu só queria cair fora de Nova York.”
“Então resolveu voltar para a cidade natal?” Eu questionei.
“Não é bem uma cidade natal. Eu morei aqui os três primeiros anos da minha vida, então eu fui adotada por esse casal, que quando conseguiram engravidar decidiram me devolver. Passei mais cinco anos em uma casa provisória em Portland, até que no ano seguinte ela foi fechada e todas as crianças foram realocadas. Foi assim que eu fui parar em Nova York.” Ela respondeu, enquanto dirigíamos até a casa que ficaríamos.
“Eu sinto muito.” Eu disse.
“Por favor, não sinta. Eu estou bem agora.” Ela respondeu.
Mas foi inevitável não sentir pena. Minha mãe não havia sido a pessoa mais fácil do mundo, mas ainda assim ela sempre havia sido presente. Eu nunca precisei me preocupar com nada. Eu havia tido a infância perfeita.
“Eu realmente sinto muito.” Eu disse, isso pareceu irritá-la.
“Olha, é sério, não precisa pedir desculpas.” Ela respondeu. “Não é como se a culpa tivesse sido sua. Eu já superei tudo.” Ela continuou.
Entretanto, isso só fez com que eu me perguntasse, se o fato dela ser tão fechada e distante, era resultado de uma infância negligenciada. Nós paramos em frente ao pequeno apartamento, descemos e pegamos nossas malas. Não havia porteiro, apenas um interfone. Ela tinha a chave da entrada, nós entramos e seguimos por um corredor estreito, subindo em seguida um pequeno lance de escadas.
O apartamento era amplo e dividido apenas com a ajuda dos móveis. Em um espaço do apartamento havia um quarto, separado com a ajuda de uma cortina. Ali, havia apenas uma cama de casal e uma cômoda grande. Havia poucos móveis, um sofá grande, duas poltronas pequenas e uma TV pequena encostada contra a parede. A cozinha era dividida com a ajuda de um balcão, onde havia bancos altos para que pudéssemos sentar. Havia também essa escada, que dava acesso a um pequeno cômodo. Eu subi a escadas e me vi diante de um único quarto, separado por nenhuma parede. Era como estar em uma casa da árvore ou algo do tipo.
“Aqui é o meu estúdio.” Emma disse, me fazendo virar para encará-la. Não havia nada ali. “Marcos virá aqui amanhã montar uma mesa para que eu possa desenhar.” Ela continuou. “Você não se importa em ficar sozinha enquanto eu estiver aqui em cima, não é?”
Eu me importava. Eu estava cansada de ficar sozinha nos últimos dias. Então eu me lembrei da noite passada, me lembrei de ter caído no sono com meu corpo colado no dela. Isso era errado. Querer ela ao meu lado era errado, pois eu apenas a estaria usando para preencher um vazio ou para enganar meu coração. Eu concordei com o pedido dela e disse que não a incomodaria enquanto ela estivesse alí.
Nós passamos a manhã naquele apartamento, eu tirei minhas roupas da mochila e separei as roupas limpas das sujas, as guardei na gaveta da cômoda e deixei algumas vazias para ela. Andamos um pouco pela cidade, ela me mostrou onde eu poderia lavar minha roupa, onde eu poderia comprar comida, almoçar e etc.
Almoçamos em um pequeno restaurante local. Todo mundo parecia conhecer Emma. O almoço novamente foi silencioso e eu aproveitava esses momentos para pensar em todas as coisas que eu teria que resolver quando voltasse para Nova York. Minha cabeça parecia explodir quando eu pensava nesse tipo de coisa, então, depois do almoço, quando nós chegamos em casa, eu peguei minhas roupas sujas e sai do apartamento, dizendo a Emma que eu iria até a lavanderia.
Eu realmente fiz isso, fui até a lavandeira, coloquei minhas roupas para lavar e, enquanto a máquina trabalhava, eu fui até a rua e liguei meu celular, que até então estava desligado. Ouvi meus recados na caixa postal, alguns parentes, alguns amigos do meu curso de gastronomia, o advogado do meu pai e a vó de Ruby.
Eu liguei primeiramente para ela, disse onde eu estava e que estava bem. Ela não fez muitas perguntas, parecia bem triste, eu quase pensei em voltar, mas ela insistiu que eu ficasse onde eu estava, que eu estaria melhor com a minha amiga do que de volta aquela cidade. Eu concordei, desejei melhoras e disse a ela que estava com saudades e que voltaria a ligar em breve.
Em seguida, eu liguei para o advogado do meu pai, Sr. Gold, que estava verdadeiramente preocupado comigo. Eu disse a ele para não se preocupar, disse que eu ficaria incomunicável por alguns dias, mas que assim que eu estivesse melhor eu ligaria para ele. Não houve muitas perguntas também, acho que todos entendiam os motivos pelos quais eu havia saído da cidade.
Assim que minhas roupas saíram da secadora, eu as peguei e passei em um mercado, comprei vários ingredientes para preparar um jantar para mim e Emma e voltei para o apartamento. Eu a encontrei dormindo no sofá, a cobri com uma manta que havia no encosto e fui até a cozinha preparar o jantar.
Enquanto eu me concentrava no que eu estava fazendo, eu permiti que meus pensamentos fossem tomados pela tristeza que eu estava sentindo. Eu me vi afundando em lágrimas e dor, deixei que elas me dominassem. Eu estava no meu tempo de luto e não havia muito o que fazer.
“Hey.” Emma disse, tocando gentilmente em meu ombro e me fazendo virar para encará-la.
“Desculpa, meu choro te acordou?” Eu perguntei, enxugando minhas lágrimas.
“Não, na verdade foi o cheiro desse negócio aí.” Ela respondeu, apontando para a panela que eu estava mexendo.
“É uma sopa de cebola.” Eu respondi.
“Não me surpreende que você esteja chorando então.” Ela respondeu, me fazendo rir e então encostou seus dedos em minha bochecha, enxugando minhas últimas lágrimas. “Eu vou atrás de um bom vinho para gente.” Ela disse, se virando para sair.
“Como você consegue comprar bebidas?” Eu perguntei, ela deu de ombros e me olhou um pouco confusa. “Nós não temos idade para beber.” Eu continuei, fazendo ela se virar para mim novamente. “Ou comprar bebida.”
“Bem, eu também não tinha idade para ser barriga de aluguel.” Ela respondeu. “Acredite, nós precisamos encher a cara hoje.” Ela continuou e, sem dizer mais nada, ela saiu, voltando pouco tempo depois com uma garrafa de vinho.
Nós jantamos e tomamos sozinhas a garrafa de vinho, quando eu menos percebi eu estava sentindo minha cabeça girar e eu já não falava muita coisa com sentido. Ela me ajudou a ir para a cama, eu lembro de ter chorado e de ter desabafado o quanto eu me sentia culpada por Ruby estar naquele prédio e do quanto eu fui idiota por ter brigado e saído de casa, sendo assim eu estaria com eles naquele dia.
Emma não disse nada, pelo menos eu não lembro de ela ter dito alguma coisa. Eu vomitei inúmeras vezes e sujei completamente o banheiro do apartamento. Eu não lembro exatamente como e que horas eu fui dormir, de modo que quando eu acordei, minha cabeça girava e eu não sabia ao certo o quanto tempo eu havia dormido.
Eu tomei alguns remédios que Emma havia deixado para mim no balcão da cozinha, tomei um banho gelado, tentei comer alguma e jurei nunca mais beber na minha vida. Emma parecia muito bem, parecia que não havia tomado um copo sequer de álcool. Eu a odiei por um momento e depois que troquei de roupa e comi algo, eu simplesmente me joguei de volta naquela cama.
“Isso é um mal uso do seu tempo de luto.” Emma disse, rindo, enquanto me dava uma xicara de chá.
Eu a odiei mais ainda, mas aceitei a bebida e tentei voltar a dormir. Eu acordei com um barulho de furadeira e descobri que era o tal de Marcos que havia chegado para montar os móveis para Emma. Eu fui até a cozinha, para preparar algo para o almoço. Algumas horas depois, o homem foi embora e Emma me chamou para ver como o lugar havia ficado. Havia uma grande mesa, onde ela poderia desenhar, um painel onde ela poderia colocar seus desenhos, uma cadeira giratória e uma pequena cômoda com duas gavetas.
“Ficou muito bonito.” Eu disse a ela. “Vai se afundar nos seus desenhos agora?” Eu perguntei, ela fez que sim e me expulsou dali.
Eu não me importei, voltei para o almoço que eu estava preparando e para os meus pensamentos sombrios. Eu almocei sozinha, Emma simplesmente não desceu, então eu fiz um prato para ela e coloquei no topo da escada. Passei o resto do dia assistindo programas aleatórios e evitando os noticiários na pequena televisão. Eu preparei o jantar e novamente não tive a companhia de Emma, então quando o sono chegou eu fui para a cama de casal e rapidamente peguei no sono.
Eu senti quando Emma se juntou a mim, nossos corpos estavam separados um do outro, mas ainda assim eu podia senti-la ali ao meu lado. Seu perfume era bem característico. Eu não ousei me virar para vê-la, apenas voltei a dormir. Quando acordei pela manhã, ela não estava mais ao meu lado. Havia um cheiro de café forte no ar. Eu segui o cheiro e encontrei uma pequena garrafa térmica na mesa, torradas, pãezinhos doces e creme de queijo. Havia também um bilhetinho, que dizia: ‘Aproveite suas 13 horas de luto!’
Eu ri do bilhete e da forma mórbida que ele havia sido escrito. Eu aproveitei, aproveitei o café que ela havia preparado, que era surpreendentemente bom, aproveitei também os pãezinhos com o creme de queijo, comi algumas torradas e aproveitei esse tempo para me afundar em minha solidão. Eu tomei meu banho, me arrumei, encarei as escadas que dava acesso aquele primeiro andar onde Emma estava e pensei em subir até lá, mas decidi que eu devia respeitar seu espaço.
Eu estava entediada, ali era silencioso demais e os programas de televisão muito chatos. Então eu resolvi sair, resolvi conhecer um pouco a cidade e ver o que tinha mais para ser visto, mas assim que eu coloquei meus pés na rua, eu fui abordada por um homem. Ele era calvo e ruivo, tinha um rosto simpático e tinha ao seu lado um cachorro dálmata.
“Regina?” Ele perguntou. Eu hesitei um pouco antes de responder. “Emma me ligou, dizendo para que eu me encontrasse com você aqui.” Ele continuou. “Você é Regina Mills, certo?”
“Sou.” Eu respondi, um pouco incerta. “E você quem é?”
“Bem, eu sou o Dr. Hopper. Archie Hooper.” Ele respondeu. “Estou aqui para que possamos conversar. Será que você gostaria de me acompanhar até o meu consultório?”
Eu o encarei por alguns segundos, tentando assimilar o que havia acabado de ouvir.
“Que tipo de doutor você é?”
“Eu sou psicólogo.” Ele respondeu rapidamente e, sem pensar duas vezes, eu voltei para o prédio, deixando o homem ali sozinho.
Eu acho que eu nunca subi tão rápido um lance de escadas, quando eu dei por mim, eu estava dentro do apartamento, subindo aquelas escadas do estúdio de Emma. Eu estava furiosa com ela.
“Um terapeuta?!” Eu gritei, assim que coloquei os meus pés naquele lugar, ela me encarou confusa. “Você contratou um terapeuta para mim?”
“Eu não contratei ninguém. Ele vai fazer de graça.” Ela respondeu, olhando fixamente para mim.
“É sério isso?” Eu perguntei, controlando minha voz, mas falhando, eu estava falando aos berros. Ela me olhava confusa. “É sério que você chamou alguém para conversar sobre o que eu estou sentindo? Logo você que vem me ignorando nos últimos dias, que faz com que eu me sinta completamente sozinha e isolada? Eu não entendo, Emma. Eu realmente não te entendo.”
Eu havia gritado com ela e assim que me calei eu percebi quão estúpida e injusta eu havia sido. Ela me olhava fixamente, sentada em sua cadeira giratória, havia algumas folhas de papel desenhadas diante dela.
“Desculpa, eu não queria gritar com você.” Eu disse, antes que ela tivesse a chance de falar qualquer coisa.
“Mas você gritou.” Ela respondeu, calmamente. “Eu chamei Archie pois você precisa conversar com alguém que realmente possa te ajudar.” Ela continuou. “Eu não posso fazer isso. Eu posso te ouvir, te manter distraída ou algo do tipo, mas eu não posso te ajudar. Eu não sei o que é perder alguém. Eu nunca tive ninguém na vida para saber o que é perder alguém.”
Eu me senti a pessoa mais idiota da face da terra. Eu quis sumir dali. Eu quis esquecer que eu havia gritado com ela.
“Eu não sou boa com relacionamentos.” Ela continuou. “Qualquer tipo de relacionamento. Eu realmente me admiro quando alguém demonstra gostar de mim. Eu não acho que eu mereça ter ninguém ao meu lado. Eu prefiro meus pensamentos, eu prefiro o papel e a minha arte a qualquer tipo de convívio com as pessoas.”
“Então por que nós estamos aqui? Por que eu estou aqui com você?”
Ela me encarou por vários segundos, eu me esforcei para criar alguma teoria que fizesse sentido. Eu não me encaixava na vida dela. Ela era muito complicada para que eu pudesse entendê-la. Eu não sabia mais se eu gostava dela. Eu estava odiando a distância, estava odiando a solidão e me sentia cada vez mais afundada nessa tristeza e as vezes parecia que o tempo de luto estava aumentando.
Ela me estendeu a folha que havia a sua frente. Eu a segurei, nela estava desenhada uma mulher, usando uma roupa bem justa de couro e uma máscara que tampava seus olhos. Ela era uma espécie de heroína ou algo do tipo. Eu olhei para ela, esperando uma resposta.
“Eu nunca acreditei nesse lance de musa inspiradora.” Ela respondeu. “Sempre achei estupidez, assim como não acreditava em bloqueio criativo.” Ela continuou. “Quer dizer, como pode existir bloqueio criativo? Se você se diz um artista, essa é a sua profissão, nada poderia te impedir de exercê-la. Você não chega no consultório de um médico e ele desmarca sua consulta porque simplesmente não consegue trabalhar pois está em um bloqueio. Não é mesmo?”
“Eu não sei do que você está falando.” Eu respondi.
“Bem, acontece que desde que eu engravidei eu não consegui criar nada bom. Tudo o que eu fiz nos últimos meses foram os meus trabalhos do jornal, que são basicamente o que eles me mandam fazer. Eu não tenho muito o que pensar, eu simplesmente faço. Mas eu não gosto deles, são meu ganha pão, mas não são meus. Você viu meu portfolio, modéstia à parte, mas eu sou fantástica. Eu sou realmente muito boa, mas então eu parei. Eu parei de ser boa, eu parei de desenhar. Era por isso que eu estava indo para a Europa. Eu iria me trancar em um apartamento, como estou fazendo agora e trabalhar nessa história em quadrinhos que estava em minha mente já há algum tempo.”
Eu encarei o desenho em minhas mãos. Ele era perfeito, era como se fosse uma fotografia. Seus traços eram extremamente realísticos. Ela era linda, me perguntei qual era a história por trás daquele desenho.
“Então, você apareceu aquela noite.” Ela continuou a dizer. “Assim que você foi embora, eu peguei minhas folhas, meus lápis e desenhei. As contrações vieram, mas eu não conseguia largar a folha ou o lápis.” Ela deu uma pausa e respirou fundo. “Sabe, fazia meses que eu não sentia o que senti. Você foi como uma musa para mim e, como eu já disse, eu não acreditava em musas. Mas bem, eu também não acreditava em bloqueio criativo até sentir na pele um. Por isso eu fui atrás de você. Era o plano perfeito. Eu poderia fugir de Mulan, eu poderia te ter ao meu lado e poderia voltar a produzir como fazia antes.”
“Você está me usando?” Eu perguntei.
“Não estou te usando.” Ela respondeu, parecendo verdadeiramente ofendida. “Estou usando os sentimentos que você aflora em mim. Eu não sabia que você estava se sentindo sozinha ou solitária. Eu realmente não sabia.” Ela continuou. “Quer dizer, Mulan sabe lidar muito bem com a minha ausência.”
“Eu não sou ela. Eu não pedi para ser trazida para cá. Eu apenas fiz o que você me pediu. Você me pediu para confiar em você e eu confiei. Eu também não aceitei suas instruções, então eu não sou obrigada a aceitar sua ausência ou sua indiferença.” Eu respondi.
“O que você quer que eu faça?” Ela perguntou.
Eu olhei para baixo, levei minha mão a cabeça e pensei um pouco. Então olhei para ela novamente.
“Eu supostamente deveria ter 11 horas de descanso hoje.” Eu respondi. “Eu realmente não sei quanto tempo eu dormir, mas eu duvido que tenha sido 11 horas.”
“Aonde você quer chegar?”
“Eu quero que você passe as horas que deveriam ser de ‘descanso’ comigo. Eu quero que você me ajude a não pensar neles.” Eu respondi, ela juntou uma mão na outra e se inclinou contra a cadeira.
“Como você quer que eu faça isso?” Ela perguntou e eu não fazia a menor ideia de como ela poderia me ajudar.
“Eu não sei.” Eu respondi. “Você que é a criativa aqui.” Eu continuei.
Ela deslizou na cadeira em que estava, me olhou fixamente e levou suas duas mãos até a boca.
“Então eu posso pensar no que eu quiser?” Ela perguntou. “Em qualquer coisa para preencher essas horas vagas?” Eu assenti. “Ok.” Ela continuou. “Você confia em mim, Regina?”
Eu confiava. Eu confiava cegamente nela. Eu só não entendia de onde vinha essa confiança, provavelmente era resultado da carência que eu estava sentindo. Eu respondi que confiava. Ela sorriu, um sorriso torto, que criava uma covinha no canto da sua bochecha. Era explícita as segundas intenções em seu sorriso. Emma então se levantou e caminhou em minha direção, parando diante de mim.
“Bem, então vamos compensar essas horas.” Ela me disse, antes de pegar minha mão e me arrastar para fora do apartamento.
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