Instruções

10 Capítulo 10


Capítulo 10

Ela me disse que estávamos indo para Augusta, a capital de Maine, seria pouco mais de uma hora de viagem. Ela ligou o rádio que ainda era daqueles de fita cassete. Eu perguntei qual fita havia ali dentro e ela me respondeu que era um mix tape com as melhores músicas de Frank Sinatra.

“Não querendo parecer rude.” Eu disse. “Mas você não parece fazer o tipo que escuta Frank Sinatra.” Eu continuei, ela desviou o olhar da estrada e sorriu para mim.

“Bem, eu não sou. David e Killian gravaram essa fita para mim. Eles acreditavam que faria bem ao bebê. Então, durante os meses que eu estive grávida, eu só ouvia essas músicas.” Ela respondeu. “Você gosta?” Eu fiz que sim e ela mudou da estação de rádio para que a fita pudesse ser ouvida.

Eu me encostei a janela e novamente me afundei em meus pensamentos. Eu havia me acostumado a não tentar puxar assunto com ela, de modo que quando estávamos sozinhas, eu simplesmente me calava. Por um minuto, eu esqueci que ela estava ali e comecei a cantar junto com a música, quando me dei conta, eu me virei para ela, que estava rindo alto.

“O que foi?” Eu perguntei.

“Sua voz é muito ruim!” Ela disse, ainda rindo.

“Bem, eu não sou nenhuma cantora profissional!” Eu respondi irritada.

“E jamais será, pelo jeito.” Ela continuou, ainda rindo alto e então procurou minha mão e apertou meus dedos gentilmente. “Me desculpa, eu não quis parecer grosseira. Por favor, continue a cantar.” Ela disse e voltou a segurar o volante com as duas mãos.

Eu voltei a cantar, só para não dar o gostinho a ela de me silenciar e seguimos a viagem até Augusta, ao som da minha voz e de Frank Sinatra.

“Para aonde nós estamos indo?” Eu perguntei e ela respirou fundo, como se minha pergunta a tivesse irritado. “Meu deus.” Eu continuei, a fazendo se virar para mim. “Você é muito chata e Mulan é um poço de paciência.”

“Você não a conhece.” Ela disse, rapidamente.

“Bem, mas eu conheço você e eu quase estou perdendo a paciência.”

“Não.” Ela respondeu. “Você não me conhece. Você apenas conhece alguém quando você e a pessoa decidem passar o resto da vida juntos.” Ela continuou.

“Nesse caso, então eu não conheço ninguém.”

“Exatamente.” Ela disse.

Eu olhei em sua direção, até quando eu me veria presa a ela? Eu não sabia dizer naquele momento, mas, por enquanto, eu estava afundada nela até o pescoço e definitivamente eu não poderia me desafundar com facilidade.

“Você não sente falta dela?” Eu perguntei, ela fez que não com a cabeça. “Nem um pouco? Nem quando acorda e sou eu quem estou do seu lado e não ela?” Eu continuei.

“Nós nunca dormimos juntas.” Ela respondeu.

“O que isso quer dizer?”

“Quer dizer que depois do sexo cada uma vai para sua casa ou dormimos em lugares separados, se estivermos na mesma casa.”

“Isso é sério? Você nunca passou uma noite com a sua namorada?” Eu questionei, um pouco incrédula com essa declaração, ela se virou para mim, confusa com o que eu havia acabado de perguntar.

“Parece tão absurdo assim?” Ela perguntou.

“Sim, parece!” Eu respondi. “Acho que é a coisa mais estranha que você já me disse sobre você. Eu não consigo imaginar o relacionamento de vocês. É muito bizarro.”

“Bem, mas é assim que nós duas damos certo.”

“Eu realmente não acho que vocês dão certo, mas a vida é de vocês.” Eu disse. “Só que é estranho, ok? Tendo em vista que nós duas dormimos juntas nos últimos dias.”

“É, mas só dormimos juntas.” Emma respondeu, me olhando, rapidamente. “Não é como se tivesse acontecido algo entre a gente.”

“Se tivesse acontecido, você teria me expulsado para o sofá?” Eu perguntei.

“Exatamente.” Ela respondeu, rindo.

“Qual é teu problema com isso? Por que não podem simplesmente dormir juntas?”

“Eu demoro a dormir.” Ela disse. “Depois do sexo.” Ela continuou. “Então, eu prefiro ficar sozinha.”

“Você prefere ficar sozinha ao estar com a mulher que –” Eu parei de falar no meio da frase e entendi então que ela preferia ficar sozinha, pois ela se amava mais do que amava Mulan, aliás, eu não sabia dizer se ela amava Mulan de alguma forma.

“Eu prefiro estar sozinha.” Ela repetiu.

“É, eu já havia percebido isso.” Eu não fiz nenhum outro comentário. Nós dirigimos por pouco mais de meia hora e paramos diante de um casarão. Ela estacionou o carro e nós descemos.

“Quem mora aqui?” Eu perguntei, enquanto várias vozes e risadas de crianças puderam ser ouvidas.

“Aqui é um orfanato para meninas.” Emma respondeu. “Eu achei esse lugar quando estava me procurando.” Ela continuou.

“Quando você estava se procurando?” Eu perguntei. “Quando você estava procurando respostas sobre sua família biológica?”

“Não.” Ela respondeu, rapidamente. “Eu nunca quis saber deles. Nunca procurei saber. “Me procurar” é um termo que eu uso quando eu me perco.”

“Oh.” Eu disse, sem saber o que acrescentar em seguida.

“Me procurar implica que previamente eu me perdi, entende?” Ela perguntou.

Eu não entendia. Emma estava virando uma espécie de jogo na minha mente e a cada minuto surgia regras novas e mais opções no tabuleiro. Quanto mais eu me aprofundava nela, mais confusa eu ficava.

Ela parou diante da porta do casarão e tocou a campainha que havia ali. Em poucos segundos, a porta foi aberta e uma garotinha, bem pequena, de cabelos castanhos amarrados em uma trança e óculos de aros arredondados, apareceu.

“Emma!” Ela gritou e correu até os braços de Emma, que se abaixou para abraçá-la e beijá-la. “O que aconteceu com o bebê que estava na sua barriga?” A garotinha perguntou.

“Ele nasceu e eu entreguei ele aos pais novos dele. Você lembra que eu havia dito que ele não era meu? Que eu o estava guardando para um casal bem especial?” Emma continuou e a garotinha assentiu e se virou para mim.

“Quem é a moça?” Ela perguntou, na voz mais doce possível.

“Essa é Regina.” Emma respondeu, se levantando e caminhando em minha direção. “Regina, essa é Teresa.” Ela continuou.

Eu me ajoelhei para cumprimentar a garotinha e então nós entramos naquele local. Uma senhora gorda, bem simpática e falante nos recebeu, fez inúmeras perguntas pra Emma, que escolheu responder apenas as que eram convenientes para ela. Então, ela nos deixou a sós e Emma andou livremente comigo pelo local. Era um orfanato só para meninas, como ela havia me explicado antes, as idades delas variavam de dias de vida até os treze anos, então, as que não eram adotadas seguiam para outro lugar.

Ela me levou até o berçário, onde as cuidadoras conversaram com a gente, explicou a situação dos bebês que haviam ali e nos deixaram pegar eles no colo. Eram bebês muito pequenos e haviam cinco no total. Todos eles haviam sido abandonados pelos pais assim que nasceram e ninguém sabia a história real deles.

Visitamos as outras alas e eu conheci as crianças maiores. Emma aparentemente era bem conhecida ali e todos pareciam confiar nela. As crianças a adoravam e Emma tinha de fato um dom com elas. Era difícil para eu imaginar que aquela garota ali, ajoelhada com as crianças, brincando com elas e as fazendo rir, guardava dentro de si inúmeros problemas de relacionamento.

Talvez de fato eu não a conhecesse e talvez eu devesse não me esforçar para que isso acontecesse. Podia ser que simplesmente chegasse o dia em que eu acordasse e todos os segredos de Emma fizessem ser entendidos como num passe de mágica. Nós passamos o dia ali, com aquelas crianças, jogamos bola com as mais velhas. Nos dividimos em time e eu descobri que Emma era uma péssima perdedora. Então, algumas horas antes do almoço ser servido, Emma perguntou se eu queria ajudar as cozinheiras e eu não pensei duas vezes antes de dizer sim.

Segundo uma das meninas, aquele havia sido a melhor refeição que ela havia feito e eu me senti verdadeiramente orgulhosa de mim mesma. Nós almoçamos com elas e só saímos dali quando a noite caiu. Emma novamente ligou o rádio e o toca fitas começou a tocar Frank Sinatra. Eu notei que, desde que eu havia chegado aquele orfanato, eu não havia pensado nenhuma vez em meus pais ou em Ruby e agradeci a Emma por isso.

“Agradeça as crianças.” Emma respondeu e eu desliguei o rádio, pois eu queria ouvir a voz dela.

“Me conta a sua história.” Eu perguntei.

“Minha história?”

“É, de como você foi parar no sistema de adoção.”

“Eles me encontraram dentro de um banheiro público, em um posto de gasolina de beira de estrada, não muito longe daqui.” Ela respondeu, secamente. “Eu estava toda melada de sangue e restos de parto.” Ela continuou. “Eles acham que minha mãe me teve ali mesmo naquele banheiro, os funcionários do posto não ajudaram muito na investigação. Ninguém lembra de ter visto uma mulher grávida ali aquele dia.”

“Eu sinto muito.” Eu disse.

“Não sinta.” Ela respondeu. “Por anos eu desejei que minha vida fosse diferente, que minha mãe tivesse sido corajosa o suficiente para ter me abortado ou que tivesse procurado um lar para mim ao invés de simplesmente ter me abandonado em um banheiro público.” Continuou, eu me senti pior por ela. “Mas bem, pelo menos ela teve a coragem de me abandonar e não resolveu me criar. Eu fico imaginado que tipo de lar eu teria tido.”

Ela concluiu e eu respirei fundo, tocando em seu joelho e o apertando de leve. Ela se virou para mim e sorriu.

“Não se sinta mal por mim, Regina. Eu não penso sobre tudo o que eu fui, não mais, eu só ligo para o que eu sou hoje e para o que eu quero ser. Eu sei que eu sou uma órfã. Eu sempre serei uma órfã, não estou tentando fugir dessa minha sina, mas eu fiz amigos maravilhosos ao longo da vida que são como uma família para mim e isso me basta.”

“Eu entendo.” Eu respondi. “Eu não tenho muitos amigos.” Eu continuei. “Eu espero que eu faça alguns e que façam com que eu me sinta parte de uma família novamente.”

“Por enquanto você tem a mim.” Ela disse, pegando minha mão e entrelaçando seus dedos nos meus. “Pode me usar como a sua família.”

Eu sorri para ela, agradeci e nós seguimos a viagem. Paramos em um restaurante, jantamos e Emma fez questão de pararmos em uma locadora de vídeos, onde nós alugamos um VHS de uma comedia romântica qualquer. Paramos também em um mercado, compramos pipoca, alguns doces e Emma insistiu em pegar algumas bebidas, mas por sorte o RG falso dela foi descoberto e voltamos com algumas garrafas de suco, o que a deixou bem irritada.

Nós chegamos ao apartamento, enquanto eu tomava banho, ela preparava alguns lanches para nós duas. Colocamos o filme e depois dos trinta minutos iniciais, ela simplesmente se levantou e seguiu para o banheiro, me deixando sozinha. Por algum motivo eu fiquei bem irritada com ela. Ela voltou muito tempo depois, o filme já havia acabado. Ela havia ido tomar um banho, muito demorado por sinal e usava agora um short de pano bem curto e uma camiseta xadrez de manga longa. Ela se jogou no sofá e perguntou se o filme tinha sido bom.

“Você é inacreditável.” Eu disse.

“Obrigada.” Ela respondeu, com um sorriso, pegando um pouco da pipoca que ainda havia ali.

“Não foi um elogio.” Eu disse, irritada.

“Não foi?” Ela perguntou, um pouco confusa.

“Não, Emma. Não foi. Foi muito rude da sua parte me deixar sozinha.” Eu respondi. “Nós estávamos vendo um filme. Meu deus, qual é o seu problema?”

“Era um filme chato e eu fiquei entediada.” Ela respondeu. “Além do mais, eu estava com calor.”

“Ainda assim, por que não me avisou? A gente poderia fazer outra coisa.” Eu disse, ela bufou e revirou os olhos, o que me deixou mais irritada. “Você faz isso com Mulan?”

“Se eu ganhar uma moeda a cada vez que você fala o nome dela, eu já estaria rica.” Ela respondeu. “E sim, quando o filme está chato, eu simplesmente vou embora.”

“E ela não se importa?”

“Eu não sei.” Ela respondeu, dando de ombros.

“Você é a pior namorada do mundo.” Eu respondi. “Eu espero que na sua viagem para Europa, vocês tenham a chance de ir até Paris e ela te empurre da Torre Eiffel.”

Ela riu, uma risada longa e divertida, mas eu estava muito irritada para me juntar a risada.

“Meu deus, por que você se importa tanto com isso?” Ela perguntou. “Nosso relacionamento não é baseado em romance. Eu pensei que já tinha sido clara. Eu não sou esse tipo de garota, você deveria se importar menos.”

“Mas eu não consigo.” Eu respondi. “Eu não consigo imaginar na minha cabeça o relacionamento de vocês duas. E, desculpa, mas você não parece fazer o tipo de garota fria sem coração. O que você fala e o que você faz são extremamente contraditórios. Eu vejo a paixão que você tem pelo seus desenhos. Eu vejo a paixão que você tem com as crianças. E, apesar de nós duas não sermos assim tão íntimas, eu sei que você sente algo por mim. Quer dizer, eu tenho certeza que você sente algo.”

“Você tem certeza?” Ela perguntou, ignorando todo o resto que eu havia falado e apenas focado na última frase.

“Você não está só me mantendo por perto porque eu sou uma musa inspiradora ou algo do tipo. Existem vários motivos por trás e um deles é porque você gosta de mim."

Ela me encarou, houve um silêncio perturbador entre nós, eu não sabia mais o que dizer. Ela estava sentada, com um espaço vazio do sofá entre nós duas. Seu cotovelo estava apoiado contra o encosto do sofá e ela repousava sua cabeça em sua mão.

“E você, Regina?” Ela perguntou finalmente, quebrando o silêncio. “Você gosta de mim também?”

Eu gostava. Eu realmente gostava dela. Eu não sabia exatamente dizer o que me encantava nela. Talvez fosse esses milhões de pedaços que a formava. Ela não era uma única coisa, ela era várias. Várias peças de algo maior e mais complexo. Eu insistia em montá-la, mas nenhuma das peças se encaixava.

“Eu também gosto de você.” Eu disse. “E eu realmente queria te aceitar como você é, mas eu não posso parar de pensar que sua dificuldade em relacionamentos seja um problema. Um problema que talvez você pudesse tentar resolver.” Eu continuei.

Novamente houve aquele silêncio entre nós duas. Era como se eu pudesse ouvir os pensamentos dela se movendo em sua mente a fim de montar alguma frase complexa o suficiente para que eu adicionasse mais uma peça ao “quebra-cabeças Emma”.

“O que você quer eu faça?” Ela perguntou.

“Eu não sei.” Eu respondi. “Aprenda a se entregar totalmente a ela. Que mal pode fazer?”

“Você se preocupa muito com isso, sabia?” Ela perguntou. “Nem todo mundo coloca o amor como prioridade. Esse lance de que você tem que ter alguém na vida, de que você tem que se apaixonar e viver um grande amor é coisa de contos de fadas. Eu prefiro viver minha vida focada no tema aventura.” Ela continuou. “É muito mais emocionante. Você devia tentar, sabia? Você devia fazer como eu.”

“Me fechar para o amor?”

“Você acha que é isso que eu estou fazendo?” Ela perguntou. “Você acha que eu estou me fechando para o amor?”

“Eu não acho. É o que você demonstra.”

“Não, não é isso o que eu estou fazendo. Eu estou aberta para tudo, só não acontece. Entenda isso, Regina e pare de tentar me mudar.”

“Eu não estou tentando te mudar.”

“Está sim, ok? Se você realmente quer que eu mude, se você realmente quer que eu me “abra” para o amor.” Ela disse, fazendo umas aspas no ar com os dedos quando disse ‘abra’. “Se você realmente quer isso, você não tentaria me mudar. Você me inspiraria a mudar.” Ela deu uma pausa. Ela não parecia zangada ou algo do tipo, parecia triste. “Se é que você sabe a diferença.”

Eu não sabia. Eu não sabia a diferença entre tentar mudá-la e inspirá-la a mudar. Então eu pedi desculpas. Basicamente nossa relação era baseada em desculpas e tentativas fracassadas da minha parte em tentar entendê-la.

“A diferença é que você tenta me mudar para que eu me encaixe no que você acredita que eu deva ser. Você quer que eu seja a garota exemplar que você criou em sua mente. Você quer que eu seja a amante exemplar para Mulan. A namorada perfeita. Você faz isso porque é o que você quer, sem se preocupar com o que eu quero.” Ela respondeu. “Me inspirar a mudar é dar espaço e meios para que eu me torne o que é melhor para mim mesma, não para você.”

“Mas eu quero que você mude por você, eu quero que você aceite o amor e todas as suas consequências, porque eu realmente acredito que isso te fará uma pessoa mais feliz. Amar alguém só nos adiciona algo, Emma. Não nos diminui.”

“Entendo.” Ela respondeu. “Certo. Eu posso fazer isso.” Ela continuou. “Eu posso amar alguém. É isso o que você quer, não é mesmo?”

“Talvez.” Eu respondi. Um pouco incerta dessa conversa.

“Não. Me diga com certeza. É isso o que você quer, não é?”

“É isso o que eu quero.” Eu respondi, ela se levantou e caminhou até o seu estúdio no primeiro andar, voltando minutos depois com aquela mesma pasta que havia me mostrado no primeiro dia que nós nos conhecemos. “Você trouxe a carta de Lily contigo?” Eu a questionei.

Ela foi até a cozinha, enquanto eu abria a pasta, encarando os papéis em minhas mãos e voltou trazendo um isqueiro.

“É logico que eu a trouxe comigo. Eu não posso andar por ai sem meu manual de instruções, não é mesmo?” Ela pegou a carta das minhas mãos e acendeu o isqueiro. “É isso o que você realmente quer, não é mesmo?” Ela perguntou novamente.

Eu assenti e a vi colocar fogo na carta de Lily. O papel queimou rápido, eu observei as chamas vermelhas dançarem e consumir completamente aquele papel. Ela se levantou com o que restava do papel em chamas e o levou até a pia da cozinha, abrindo a torneira para que a água apagasse as últimas chamas. Eu esperei que ela retornasse.

“Se sente mais leve?” Eu perguntei.

“Aham, cem por cento mais leve.” Ela respondeu em um tom de voz tomado por ironia.

“Eu estou falando sério, Emma.” Eu disse.

“Certo.” Ela disse, mas não havia nenhum tom de confiança em sua voz.

“Agora você está livre para se apaixonar por Mulan.”

Ela franziu o cenho, seu olhar era de pura confusão.

“Eu não vou me apaixonar por ela, Regina.” Ela respondeu em um tom de voz confiante. “Não era esse o combinado.”

Eu me ajeitei no sofá, sem acreditar no que eu estava ouvindo.

“O combinado era que eu amasse alguém e é isso o que eu vou fazer.” Ela respondeu.

“Você vai trair Mulan?” Eu perguntei, me sentindo extremamente irritada com o rumo que a conversa havia tomado.

“Eu não vou trair ninguém. Nós não temos esse tipo de relacionamento, eu estou cansada de dizer isso a você.”

“Eu desisto.” Eu disse, me levantando do sofá e caminhando até a cozinha. “Eu desisto de você.” Eu continuei.

Ela me seguiu. Eu me servi de um copo de água gelada e desejei que eu tivesse conseguido comprar a bebida alcoólica.

“Regina, entenda, não force nada entre Mulan e eu. Não daria certo. Eu topo esse teu jogo-”

“Não é um jogo.” Eu respondi, irritada.

“Certo.” Ela respondeu, revirando os olhos. “Mas você tem que saber que é um desafio e tanto para alguém como eu.”

Eu coloquei meu copo sobre o balcão, cruzei meus braços em frente ao corpo e a encarei, enquanto contava de 1 a 10 em uma tentativa de me acalmar.

“Veja bem.” Ela começou a dizer, se aproximando de mim. “Esqueça Mulan, ela está a milhas de distância de mim, tanto física quanto emocional e nós vamos ficar assim por quanto tempo for necessário.” Ela continuou. “Se você quiser que eu aceite seus termos, você terá que aceitar os meus.”

“E quais são seus termos?” Eu perguntei, ainda irritada.

“Permita-me que eu me apaixone por você.” Ela disse, da forma mais simples possível.

Eu abri a boca e a encarei. De repente toda minha irritação passou, porque eu não conseguia acredita que ela estava me pedindo isso.

“Você bebeu?” Foi tudo o que eu disse, ela balançou a cabeça e se aproximou mais de mim. Eu dei um passo para trás, evitando qualquer tipo de contato mais íntimo.

“Não. Eu não bebi e nem estou louca. É o plano perfeito. Você me ensina a te amar. Me ensina a ser boa nesse lance de relacionamento e eu te ajudo com toda essa sua carência.”

“Não!” Eu respondi, sentindo uma mistura de sentimentos tomando conta de mim. “Você está ouvindo o que você está me pedindo? Isso é impossível.”

“Isso é perfeito.” Ela respondeu. “E super conveniente para nós duas.”

“Super inconveniente isso sim!”

“Não, Regina. Pense bem, você está completamente fechada para qualquer tipo de relacionamento agora. Você está afundada em dor-”

“Eu estou afundada em raiva no momento, ok? Como você ousa pedir uma coisa dessa?!”

Ela levou as mãos nos olhos e depois de alguns segundos voltou a me encarar.

“Eu não queria te ofender, ok? Mas veja, você precisa de alguém agora. Eu não quero que você esqueça a Ruby e não quero que você se apaixone por mim. Não, eu não quero. Isso é a última coisa que eu quero.”

“Então o que você quer?”

“Eu quero que você me use nos próximos dias e que me ajude a sentir algo a mais por você. Você pode ver ela em mim, se quiser.”

“Eu não quero. Eu não quero por milhões de motivos e o principal deles é porque você não é ela e nunca será.”

“Eu não quero ser.” Ela respondeu, prontamente.

“Ótimo.” Eu respondi. “Então, esquece isso.”

“Eu não queimei aquela carta para nada.”

“Você a queimou porque você quis! Não era isso que eu tinha em mente, não foi isso que sugeri a você! Você simplesmente desvirtuou tudo o que eu disse e escolheu o que era mais conveniente para você. Já chega, Emma. Amanhã de manhã eu voltarei a Nova York.” Eu disse e me afastei dela, ela não me seguiu.

Eu fui até o quarto, fechei completamente a cortina de modo que não pudesse vê-la e me joguei na cama. Afundando meu rosto em meu travesseiro. Era a primeira vez que eu me peguei sentindo algo mais intenso do que toda a tristeza que eu estava sentindo nos últimos dias. Eu me senti traída aquela noite. Eu me senti violada. Eu chorei de raiva aquela noite. Parte da mim odiava Emma por ter me feito aquela proposta e a outra parte me odiava por querer aceitá-la.