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11 Capítulo 11


Capítulo 11

Eu acordei na manhã seguinte, encontrei Emma sentada no sofá. Ela se levantou assim que eu apareci na sala, me encarou, pedindo desculpas e dizendo o quanto ela era idiota e o quanto se arrependia por ter feito um pedido tão estúpido. Eu escolhi não responder e comecei a arrumar minhas coisas.

“Eu vou te levar até a sua casa.” Ela me disse.

“Não.” Eu respondi. “Não. Não será necessário.” Eu continuei. “Eu tenho meus cartões, vou usá-lo para pagar uma passagem de ônibus de volta a Manhattan.”

“Eu faço questão de te levar de volta. Fui eu que te arrastei até aqui.” Ela disse, segurando meu pulso e fazendo com que eu soltasse a alça da mochila que eu estava segurando.

“Mas fui eu que escolhi ser arrastada.” Eu respondi. Encarando seus olhos verdes tomados por lágrimas e culpa. “Então eu mesma vou sair daqui.” Eu continuei, ela soltou meu pulso e eu terminei de arrumar minhas coisas.

Eu aceitei a carona dela até a rodoviária mais próxima. Nossa viagem até lá foi mais silenciosa que o habitual, se é que isso era possível. Dez horas de luto eu teria aquele dia e eu estava a fim de aproveitar até o último minuto desse tempo.

Depois que eu comprei minhas passagens, eu me sentei em um banco, para esperar que meu ônibus saísse. Emma se sentou ao meu lado. Eu evitava olhá-la, pois ela parecia tão quebrada e tão arrependida que eu tive medo de ignorar o que eu estava sentindo e perdoá-la.

“Eu sinto muito.” Ela disse.

“Não sinta.” Eu respondi. “Você é assim, não é mesmo?” Eu continuei. “Você é tóxica. Eu não sei porque me deixei ser enfeitiçada por você.”

“Não seja tão dura comigo.” Ela respondeu e eu fechei os olhos, me segurando para não encará-la. “Você esquece que eu sou a pessoa que mais sofre com o meu veneno.”

Eu me virei para ela. Eu nunca tinha escutado frase mais egocêntrica em toda minha vida, minha raiva por ela só aumentou.

“Ah, é, Emma?” Eu perguntei, soltando uma risada de deboche. “Você permite que as pessoas entrem na sua vida e transforma suas relações com todos a sua volta em algo tóxico e doentio. E ainda tem a capacidade de dizer que é você quem mais sofre? Me diga o porquê você acha isso.” Eu continuei, minha voz carregada de raiva.

“Porque ao contrário de você, eu não posso fugir de quem eu sou.” Ela respondeu. “Eu não posso fugir de mim mesma.”

Eu me silenciei diante de sua resposta, seu olhar entregava todas as emoções que ela se esforçava em conter, mas que ainda assim achavam uma forma de escapar virando lágrimas em seus olhos.

“Eu não quero que você me odeie.” Ela disse. “Deixe que eu faço isso por nós duas.”

Ela se levantou, colocou as duas mãos dentro do bolso da jaqueta de couro envelhecido que estava usando e olhou para o céu por alguns instantes. Eu acompanhei seu olhar. Era uma manhã bonita. O céu estava límpido e havia poucas nuvens para atrapalhar a visão. Ela olhou para mim novamente e me desejou uma boa viagem.

“Você tem um dom incrível, Emma.” Eu disse, antes que ela se afastasse.

“Eu sei.” Ela respondeu. “Foi minha arte que me salvou ao longo desses anos.”

Nós olhamos uma para outra. Eu senti como se aquela troca de olhares fosse poderosa o bastante para dizer apenas com um olhar todas as coisas que nós duas estávamos escolhendo silenciar.

“Emma, saiba que uma parte de mim realmente gostaria que eu fosse capaz de ficar na sua vida.” Eu disse, assumindo o que eu estava sentindo naquele momento. “Mas acho que esse é o problema com as musas inspiradoras.” Eu continuei. “Elas vão embora em algum ponto da história.”

Ela sorriu com a minha afirmação, olhou para o chão e arrastou a ponta do pé na areia, fazendo um risco no chão.

“É.” Ela respondeu. “Elas fazem parte da história da arte e não da história do artista.” Ela continuou.

Houve novamente o silêncio entre nós duas e a troca de olhares que com o tempo se tornava cada vez mais intensa e reveladora.

“Você vai consegui terminar sem mim.” Eu disse, me referindo ao seu projeto e ela apenas sorriu.

Era um sorriso cheio de tristeza e dor, que deixava explícito algo que ela jamais diria em voz alta: Ela não conseguiria terminar sem a minha ajuda.

“Boa sorte, Regina.” Ela disse e eu senti uma vontade imensa de abraçá-la, de dizer que eu sabia que a raiva que eu estava sentindo sumiria em breve e que talvez algum dia eu pudesse confiar nela novamente. “Você tem um dom incrível também.” Ela continuou. “Permita também que sua arte te salve.”

Aquela foi a última frase que eu ouvi de Emma. Eu entrei naquele ônibus aquela manhã, voltei para Nova York e nunca mais ouvi notícias dela. Passaram-se seis anos desde aquele dia. Eu segui o conselho dela e permiti que minha arte me salvasse.

Primeiro eu tive que aprender a lidar com a minha perda, o que pareceu impossível de fazer sozinha. Então eu me vi obrigada a seguir o conselho que Emma havia me dado e busquei uma ajuda profissional, que me aconselhou a voltar para Boston e recomeçar minha vida em uma cidade que eu já conhecia e que não me trazia tantas memórias ruins.

Entretanto, eu odiava Boston. Eu nunca tive a chance de ser eu mesma naquela cidade. Não importava o quão privilegiada minha vida tivesse sido, eu sempre me senti presa a todas as expectativas que minha mãe havia criado para mim. Então eu resolvi continuar em Nova York, aceitei o fato de que eu teria que aprender a senti minha dor até que chegasse o dia que eu deixasse de senti-la. Aprendi a viver com o vazio que havia sido criado dentro de mim e aprendi também a preenchê-lo com todas as coisas que ainda haviam me restado na vida.

Eu fiz todos os cursos que eu pude fazer. Eu viajei para todos os lugares que eu quis viajar e me especializei em culinária francesa. Eu vendi todas as propriedades que estavam no nome dos meus pais e comprei um apartamento para mim em um ótimo bairro de Manhattan. Eu abri um restaurante no mesmo bairro com o dinheiro da herança e, dentro de dois anos, ele entrou na lista dos melhores restaurantes da cidade.

Por um tempo eu consegui manter o contato com a avó de Ruby e tentei ajudá-la o máximo que eu pude, mas morar em Nova York se tornou muito difícil para ela, de modo que ela se mudou e foi morar em uma cidade do litoral. Com o tempo nós perdemos o contato uma com a outra.

Nunca consegui engatar um relacionamento sério. Meu último relacionamento mais duradouro nos últimos seis anos havia durado pouco mais de seis meses. Terminamos naturalmente, pois queríamos coisas diferentes. Eu estava muito focada no meu trabalho e ela focada em um futuro que eu não poderia dar a ela. Nos mantemos amigas até que os sentimentos ainda contidos se mostraram presentes e ela se afastou como se jamais tivesse existido algo entre nós.

“Você precisa começar a sair com alguém novamente.” Disse Marian, esposa de Robin, que eu havia conhecido alguns anos atrás em Paris.

Robin era inglês, havia se formado em uma boa faculdade da Inglaterra e assim que se formou mudou-se para América com a esposa. Eles tinham um filho juntos, Roland, que era uma graça e havia acabado de completar cinco anos. Apesar de eu ter conhecido Robin primeiro, eu tinha mais intimidade com a mulher dele, tendo em vista que ele era um completo babaca, na maioria das vezes.

“Você fala isso como se eu estivesse morando em uma caverna nos últimos meses.” Eu respondi.

Eles estavam almoçando no meu restaurante, como sempre faziam aos domingos. Eu havia me juntado a eles, pois já havíamos fechado o expediente do almoço e estávamos apenas esperando que os últimos clientes saíssem para começarmos a organizar o local para o horário da janta.

“Eu concordo com ela.” Robin disse, se intrometendo na conversa. “Você pode não estar vivendo em uma caverna, mas sua vagina está.”

“Ai, meu deus.” Marian disse, olhando irritada para o marido e depois para o filho deles que estava muito entretido com a sua comida para prestar atenção ao que estávamos conversando. “Faça um favor para nós duas e vá para o bar um momento.” Ela continuou. “E leve Roland com você.”

Ele a obedeceu, como um bom pau-mandado que ele era e nos deixou sozinhas.

“Me desculpe, ele é um tremendo idiota as vezes.” Ela disse, eu dei risada e concordei.

“Não precisa se desculpar pelo seu marido.” Eu respondi. “E olha, não é como se eu estivesse meses sem um bom sexo, ok? Meus relacionamentos só não duram.” Eu continuei.

“Ok, então que tal se eu te apresentar uma amiga?” Ela começou a falar, realmente empolgada, enquanto mexia em sua bolsa.

“Ah, não, por favor, não. Aurora já está bancando a cupido também e até agora ela só tem encontrado mulheres detestáveis.”

Aurora era uma das estagiárias que trabalhava comigo na cozinha. Quando ela não estava fazendo perguntas sobre algo referente a culinária, estava me fazendo perguntas sobre minha vida intima, o que eu achava bem invasiva, até que um dos meus ajudantes apontou que talvez ela tivesse uma queda por mim. O que eu comprovei ser apenas um boato, Aurora não queria nada comigo, ela era apenas do tipo intrometida que gostava de entrar na vida dos outros.

Eu deixei que ela brincasse de cupido por um tempo. Ela marcou alguns encontros às cegas para mim e apenas um deles se tornou interessante o suficiente para irmos para um segundo encontro e então eu descobri que a garota era uma tremenda furada e a cortei da vaga de suposta candidata ao meu coração. Eu também cortei Aurora do cargo de cupido o que a deixou extremamente frustrada e desde então ela vem tentando encontrar “a parceira perfeita” para mim.

“Você vai gostar dessa.” Marian disse, anotando um nome e um número de telefone nas costas da minha mão.

“Úrsula?” Eu perguntei, lendo o nome em voz alta.

“Ela é incrível.” Marian começou a dizer, sua voz saltando de excitação. “Ela faz aula de dança comigo na academia e é de longe a pessoa mais divertida que eu conheço.”

“Humm.” Eu disse, encarando o número anotado na palma da minha mão. “Úrsula como no desenho da pequena sereia?” Eu continuei.

“É, Regina.” Ela respondeu em um tom sarcástico. “Exatamente a mesma Úrsula, inclusive ela tem oito tentáculos e você precisa ver o volume que eles fazem quando ela tenta escondê-los na sua calça legging.” Ela continuou e nós duas rimos da piada. “Vai ligar para ela, não é mesmo?”

“Vou sim, prometo ligar.” Eu respondi. “Eu nunca digo não a mulheres.” Eu continuei, agradeci o número e nos despedimos logo em seguida.

Todos os últimos clientes haviam indo embora e eu estava na cozinha, anotando os ingredientes que precisavam ser comprados, quando Aurora adentrou correndo.

“Eu achei a garota perfeita.” Ela disse, animada.

Eu revirei os olhos e disse que não estava interessada e voltei a atenção ao que estava fazendo.

“Por favor, Regina. Dê uma chance a ela.” Ela continuou, quase em um tom de suplica. “Ela é linda!” Ela continuou.

Eu a encarei e esperei que ela dissesse algo a mais.

“Linda e?” Eu perguntei.

“E o quê?”

“Linda e mais o quê?”

“Nossa.” Ela disse em um tom de desdém. “Ser bonita não é o suficiente para você?” Ela perguntou, irritada.

“Da última vez que você disse apenas que a garota era bonita, eu tive um encontro com uma stripper que me cobrou 200 dólares no final da noite e ainda me fez levá-la para um lugar muito suspeito no Brooklyn.”

“Ok, mas essa garota vale a pena. Eu tenho certeza.”

“Além do mais, Marian já me passou o número de uma amiga dela e estou pensamento seriamente em dar uma chance.”

Isso irritou muito Aurora que bateu os pés no chão, como uma criança mimada que era, e insistiu que eu desse uma chance a garota que ela havia me arrumado.

“Certo, você ganhou.” Eu disse. “Passe meu número a essa garota.”

“Ou você mesma poderia passar para ela.” Respondeu, com um sorriso nos lábios. “Ela está lá fora, esperando para falar com você.”

“Como é?”

“Eu não sei nome dela.” Aurora disse rapidamente. “Começa com ‘E’ ou algo do tipo, eu não prestei muita atenção no que ela estava falando. Meu cérebro estava criando cenários perfeitos onde vocês duas terminavam juntas.”

Aurora tinha isso de sonhar alto demais e uma das frases que eu mais ouvia dos meus funcionários era: “Acorda, Aurora!” Já que, na maioria das vezes, Aurora parecia estar no mundo da Lua.

“O que ela está fazendo aqui?” Eu perguntei. “Nós estamos fechados.”

“Ah, eu não sei realmente. Ela disse que gostaria de falar pessoalmente com a dona do restaurante. Ela trabalha para um jornal, revista, algo do tipo. Eu não lembro direito.”

“Como ela é?” Eu quis saber.

“Linda!” Ela respondeu prontamente.

“Não, Aurora. Como ela é fisicamente. Ela é loira?”

“Ah, é sim.” Ela respondeu.

Imediatamente eu me lembrei de Emma, larguei tudo o que estava fazendo e fui até a entrada do restaurante, onde uma mulher me aguardava. Ela estava de costas, sentada em um dos bancos do balcão do bar que nós tínhamos. Seus cabelos longos e loiros caiam em suas costas. Eu me aproximei e senti meu coração acelerar da forma mais estranha possível.

“Emma?” Eu perguntei e a mulher se virou e meu coração desacelerou, completamente frustrado, pois não era a Emma.

“Emma?” Ela repetiu, um pouco confusa. “Meu nome é Elsa.” Ela continuou e então se apresentou a mim.

Ela trabalhava para uma editora e era responsável pela edição de uma revista gastronômica. Eles haviam feito uma reportagem sobre os melhores restaurantes da região, meses atrás, e era por isso que estava ali. Ela havia ficado encantada com a reportagem que haviam feito e tinha interesse de reserva o restaurante para o seu jantar de noivado.

Nós não costumávamos fazer isso, mas eu aceitei o desafio e ela reservou a data do jantar e deixou o número de todos os profissionais que estavam responsáveis por seu jantar de noivado. Músicos, fotógrafos, decoradores, floristas e tudo mais. Parecia mais que ela estava marcando o casamento em si e não o jantar.

Eu a deixei com Aurora, que ficou frustradíssima em saber que Elsa era noiva, para que as duas resolvessem todos os detalhes daquele jantar. Saí do restaurante e fui até o meu apartamento. Já fazia algum tempo que eu não pensava em Emma, mas ali estava ela de volta aos meus pensamentos da forma mais avassaladora possível. Eu tomei um banho gelado e tentei não pensar nela, o que foi impossível.

Eu jamais havia tido notícias dela e jamais havia procurado também. Eu escolhi fazer com que Emma se tornasse um fantasma nos meus pensamentos, mas esse é o problema dos fantasmas, eles não assombram casas e sim pessoas. De modo que não importava aonde eu fosse, Emma acharia uma forma de me encontrar.

Eu me joguei na minha cama e olhei para minha mão, onde o telefone de Úrsula havia sido anotado, não havia mais nada anotado ali, a água do banho que eu havia acabado de tomar apagou tudo. Eu resolvi ligar para Marian, para pedir novamente o número dela.

“Hey, Marian, o quão ocupada você está agora?” Eu perguntei.

“No momento? Nada ocupada.” Ela respondeu do outro lado da linha, parecendo frustrada.

“Aconteceu alguma coisa?” Eu perguntei.

“Não, não é nada sério.” Ela respondeu. “Quer dizer, nós tínhamos esses ingressos para um musical e Roland ficaria com uma babá, mas o babaca do seu amigo esqueceu de contatar a agencia de babás e agora não conseguimos ninguém de última hora.”

“Meu amigo Robin, conhecido também como seu esposo Robin é realmente bem babaca.” Eu disse e ouvi a risada dela do outro lado da linha. “E existe uma agência de babás?”

“É logico que existe!” Ela respondeu, surpresa com o meu questionamento. “De qualquer forma não importa mais, nós teríamos que sair dentro de uma hora ou jamais chegaríamos a tempo.”

“Eu não sabia que a Broadaway era tão longe.”

“Não é na Broadway. É uma apresentação de uma amiga minha do teatro em Nova Jersey.”

“Quantas atividades você faz, pelo amor de deus?”

“Inúmeras. Eu tenho que manter minha mente saudável se eu quiser continuar com Robin. Ele me tira do sério.”

Eu dei uma risada longa, disse a ela que eu poderia ficar com o garoto e eles poderiam ir ao musical.

“Você tem certeza?” Ela perguntou.

“Absoluta. Você sabe que eu adoro o garoto. Eu estou na minha casa, pode trazê-lo.”

Ela agradeceu e eu desliguei o telefone, percebendo em seguida que eu havia esquecido totalmente de pedir o número de Úrsula. Marian apareceu uma hora depois com o pequeno Roland, que estava em uma fase complicadíssima da vida dele da qual ele acreditava ser um personagem de contos de fadas.

“Quem é você hoje, Roland?” Eu perguntei, assim que ele entrou em meu apartamento.

Marian havia feito uma lista enorme de todos os números de emergência, todos as comidas que ele não podia comer e todas as que podia. Por incrível que pareça, a lista de coisas que ele podia comer era menor que a lista das comidas que ele estava proibido de comer.

“Hoje eu sou o Pinóquio.” Ele respondeu, animado, correu até o meu sofá totalmente branco e começou a pular nele. Eu virei os olhos e fui até ele, tirando-o de lá.

“Bem, Pinóquio, que história é essa que você está proibido de comer as melhores coisas da vida?” Eu perguntei, o garoto sorriu e respondeu que a mãe dele não deixava, pois fazia mal para os dentes. “O que não é um problema para você, já que você é um boneco de madeira, não é mesmo?” Ele riu e concordou inúmeras vezes com a cabeça.

Eu olhei para o relógio, ainda não havia passado das seis da tarde e olhei para o garotinho a minha frente, que parecia estar a ponto de explodir com tanta energia acumulada.

“O que acha de irmos até o Central Park?” Eu perguntei.

“À noite?!” Ele perguntou, seus olhos se alargaram em uma mistura de animação e medo.

“À noite.” Eu respondi, me ajoelhando diante dele. “O que acha da ideia?”

“Eu nunca estive na floresta à noite.”

“Não é uma floresta, garoto.” Eu respondi. “É o Central Park.”

“Então eu acho que não tem perigo algum.” Ele respondeu, meio incerto, mas concordando no final das contas.

Nós pegamos um táxi e fomos até o parque. Era verão e estava um dia bem quente, havia muitas pessoas ali, correndo, andando de bicicleta, namorando na grama. Eu fui até o parque infantil com ele e o garoto correu até os brinquedos como se tivesse passado a vida inteira enjaulado. Depois de algum tempo brincando, eu achei melhor irmos para casa antes que ficasse escuro e deserto demais.

Ele pediu um sorvete, eu não sabia se era uma decisão muito sabia dar doce àquela hora, mas ele fez a carinha mais irresistível do mundo e então eu me vi diante do carrinho de sorvete. Ele pediu um de casquinha com duas bolas, o que parecia bem exagerado para uma criança tão pequena.

“Não acha que está muito tarde para dar sorvete ao seu filho?”

“Ah, não se preocupe. Ele não é meu filho.” Eu respondi, para a voz que havia acabado de surgir atrás de mim e minha voz simplesmente se silenciou, quando eu vi Emma, ali, parada bem ao meu lado.