Capítulo 8

Nós pegamos a interestadual e dirigimos por pouco mais de uma hora, até que paramos em um pequeno hotel de beira de estrada. A viagem até ali havia sido curta e silenciosa. Emma não deixou que eu ligasse o rádio e também não puxou assunto algum. Ela ignorou minhas perguntas e só respondeu para aonde estávamos indo, quando percebeu que eu não desistiria tão fácil.

“Maine.” Ela respondeu. “Estamos indo para uma cidadezinha no Maine. Onde eu vivi os primeiros anos da minha vida.”

Uma mulher idosa nos atendeu no hotel. Nós pedimos um quarto com duas camas e depois de pegarmos a chave, nos dirigimos até o quarto. Eu percebi que Emma sentia dores, mas ela não reclamava em nenhum momento.

“Vamos voltar.” Eu disse a ela.

Estávamos subindo as escadas até o nosso quarto, que era no primeiro andar. Ela balançou a cabeça e continuou a subir em silêncio.

“Emma, você não deveria estar dirigindo. Você deveria estar em sua casa. Repousando.” Eu disse. “Você acabou de ter um bebê.”

“Eu estou bem. Eu trouxe meus remédios comigo. Vamos passar alguns dias aqui e então seguimos com a viagem quando eu me sentir melhor.”

“Ou podemos voltar.” Eu sugeri. “Estamos a menos de duas horas de Manhattan. Nós dormimos e então voltamos para casa.”

Ela parou diante da porta do nosso quarto e colocou a chave no trinco, virando-se para mim.

“Não.” Ela respondeu. “Nós precisamos ir agora ou jamais faremos essa viagem.”

Ela abriu a porta, um cheiro forte de produto de limpeza vagabundo invadiu nossos sentidos. Eu segurei a respiração, enquanto entrava no pequeno quarto do hotel e analisava melhor o local.

“Sei que não é grande coisa para uma rainha.” Ela disse, sentando sobre a cama de molas. “Mas é o hotel mais perto e eu não quero arriscar andar mais e descobrir que o próximo hotel não tem vaga.”

“Eu não sou uma rainha.” Eu respondi, notando que no quarto não havia nenhuma TV.

Eu joguei minha mochila sobre a minha cama, tirei uma muda de roupa e fui ao banheiro para me trocar. O banheiro era minúsculo, não havia divisão entre o chuveiro e o vaso sanitário. Também não havia nada para eu pendurar minhas coisas, de modo que eu tive dificuldade para me trocar e acabei demorando mais do que eu gostaria.

Quando eu saí do banheiro, encontrei Emma completamente adormecida na sua cama. Eu me deitei na minha, encarando o teto mofado e não consegui dormir logo, minha cabeça estava girando e meu coração doendo. Eu chorei a noite inteira, os raios de Sol invadiram o quarto e então, minha exaustão venceu e eu adormeci.

Eu acordei exatamente uma hora depois. Eu sabia disso, pois eu havia sido acordada. Emma estava em pé diante da cama, com um travesseiro em suas mãos. Ela havia batido em mim com ele nos últimos segundos, até eu acordar.

“O que você está fazendo?” Eu perguntei, um pouco espantada e irritada com a situação.

“Você teve sua hora de descanso.” Ela disse. “Agora você vai encarar suas vinte três horas de luto.”

“O que?!” Eu perguntei, minha voz carregada de irritação.

“Você me ouviu.” Ela respondeu. “Uma hora de descanso e vinte e três horas de luto.” Ela completou. “Tem uma lanchonete do outro lado da estrada. Eu vou até lá para tomar um café. Levante-se, coloque uma roupa e encontre-se comigo lá.”

Ela então saiu e me deixou sozinha. Eu olhei para o quarto que estava e para a cama. Eu ainda estava com sono, mas a obedeci e me levantei para me arrumar e me encontrar com ela na lanchonete. Era uma daquelas lanchonetes de beira de estrada. Extremamente precária e nada higiênica. Tomada por caminhoneiros e motociclistas de estrada. Eu me perguntei o que diabos eu estava fazendo ali, enquanto procurava por Emma.

Ela estava sentada no balcão e havia pedido panquecas e café. Eu não estava com fome, mas acabei pedindo o mesmo. A televisão do lugar estava ligada no noticiário matinal, eu não conseguia encarar as notícias, de modo que direcionei meu olhar para o balcão, olhando fixamente para uma mancha que havia ali.

“Com licença, senhora.” Emma disse, chamando a mulher que havia acabado de nos atender. “Tem como mudar de canal?” Ela pediu, a mulher assentiu e simplesmente desligou a televisão.

“Obrigada por isso.” Eu disse, Emma sorriu e voltou a comer suas panquecas.

Aquele dia foi silencioso e solitário. Emma me informou que gostaria de ficar sozinha para fazer alguns desenhos, então ela passou o dia em seu fusca com suas folhas de papel e seus lápis. Eu permaneci no nosso quarto, deitada, tentando pensar em outra coisa que não fosse meus pais ou Ruby, mas em vão. Eles simplesmente assombravam todos os meus pensamentos.

Nós jantamos no mesmo lugar. Não conversamos muito e a cada momento eu deseja voltar para minha casa e então eu me tocava que, na verdade, eu queria mesmo era voltar ao passado. Quando a noite caiu, Emma voltou para o quarto, com seus desenhos em mãos. Ela os guardou em uma pasta, impedindo que eu pudesse vê-los e entrou no banheiro para um banho.

Era como se eu não estivesse ali. Ela simplesmente ignorava minha presença. Eu me senti um fantasma e comecei a me questionar o do porquê eu havia deixado aquela garota me arrastar para aquele lugar. Meus questionamentos então morriam rapidamente, pois de alguma forma ela me trazia uma segurança.

Ela saiu do banheiro, me desejou boa noite e se deitou. Eu estava exausta e até então não havia chorado mais, mas ao me deitar, a tristeza novamente se fez presente e eu chorei até que meu choro embalasse meu sono. Novamente eu fui acordada por ela, me batendo inúmeras vezes com seu travesseiro. Eu acordei extremamente irritada e com uma dor de cabeça terrível.

“Duas horas de descanso.” Ela disse. “Vinte e duas horas de luto.” Ela concluiu e me deixou sozinha.

Eu resolvi tomar um banho e colocar um novo conjunto de roupas limpas. Havia alguns comprimidos de Emma sobre a única mesinha que havia ali. Eu tomei alguns e encontrei com ela na mesma lanchonete do dia anterior. Nós tomamos novamente nosso café da manhã em silêncio e Emma se trancou em seu carro com os desenhos dela.

Eu passei outro dia solitário. Relembrando de tudo aquilo que eu não teria mais em minha vida. Minha cabeça doeu durante todo aquele dia, eu não acreditava que eu tivesse mais lágrimas para chorar. Emma voltou à noite, depois que jantamos na lanchonete e simplesmente dormiu, sem dizer nenhuma palavra. Eu não chorei aquela noite, mas também não consegui dormir com facilidade e, quando peguei no sono, fui então acordada novamente por ela e seu travesseiro.

“Três horas de descanso.” Ela disse. “Vinte e uma hora de luto.” Ela continuou e novamente eu a vi sair do quarto.

Nós passamos sete dias naquele hotel. Naquela última noite, depois que jantamos e eu tomei meu banho, ela anunciou que nós pegaríamos a estrada no dia seguinte. Ela estava sentada na cama, eu havia tido exatamente sete horas de descanso naquele dia. Eu me sentei e a encarei. A pasta que ela havia trazido consigo estava cheia de desenhos. Depois de alguns segundos afundadas em um silêncio constrangedor, eu finalmente falei algo.

“Obrigada.”

Ela ergueu as sobrancelhas e perguntou o motivo pelo qual eu havia agradecido.

“Por ter me trazido até aqui. Para o meio do nada e longe de tudo. Por ter criado uma barreira de proteção e impedido que eu ouvisse ou visse qualquer notícia sobre os atentados. Por ter permitido que eu sofresse e não ter me impedido de chorar.” Eu disse, ela assentiu e se deitou, sem dizer mais nada.

Eu ainda tinha certa dificuldade para dormir, mas eu acabava me entregando ao sono certa hora da noite. Emma não precisou me acordar no dia seguinte, eu tive minhas oito horas de descanso e estava pronta para as minhas dezesseis horas de luto.

Nós dirigimos durante quatro horas e meia, novamente outra viagem baseada em silêncio, mas eu já havia me acostumado com ele. Eu já estava acostumada em ouvir meus próprios pensamentos ao invés da voz dela. O segundo hotel que ficamos era melhor que o primeiro. Não cheira tão mal, havia serviço de quarto e uma lanchonete no próprio prédio. Nós pedimos um quarto com duas camas, mas não havia nenhum, o único disponível era um quarto com apenas uma cama de solteiro.

“Nós podemos voltar para a estrada e procurar um segundo hotel.” Eu disse, mas ao invés de me ouvir, ela resolveu reservar o quarto de qualquer forma e pediu para que mandassem um colchão extra.

“Eu não vou te deixar dormir no chão.” Eu disse a ela, enquanto nos dirigíamos até o nosso quarto.

“Eu sei que não.” Ela respondeu. “Você que dormirá.” Ela continuou, se virando para mim e sorrindo.

Nós dormimos naquele quarto de hotel. Emma na cama de solteiro e eu no colchão no chão. Eu passei algumas horas encarando o teto, tentando dormir, enquanto pensava na vitória de não ter chorado nas últimas horas. O quarto estava escuro e silencioso e eu gostava disso. Emma se mexeu na cama e acendeu o abajur que havia na mesinha do outro lado. Ela deitou de barriga para baixo na cama e se esticou um pouco para fora, de modo que pudesse me ver.

“Hey.” Ela disse sussurrando, como se houvesse alguém ali que pudesse nos ouvir. “Como você está?”

“Estou bem.” Eu respondi. “Estou aproveitando minhas horas de luto.” Eu continuei e ela sorriu. “Eu nunca uso todas as horas.”

“Eu também não as usaria.” Ela disse. “Você está se sentindo solitária?”

“Um pouco.” Eu respondi. “Você é muito calada, mas acho que eu não teria assunto e, além do mais, eu não devo ser uma boa companhia.”

“Você é a melhor companhia que eu tive em anos.” Ela disse, isso me pegou de surpresa. “Eu não costumo ser produtiva e muito menos criativa, quando estou ao lado de alguém.”

“É por isso que você se esconde em seu carro para desenhar?” Eu perguntei.

“Exatamente.” Ela respondeu. “E também porque eu posso apoiar o caderno de desenho no volante.” Ela continuou, um sorriso surgiu em seus lábios. “Eu gostaria de ser mais presente e gostaria também de te ajudar a passar por essa fase, mas eu não sei fazer isso e você tem que aprender sozinha a separar suas memórias ruins das boas.”

“Eu não sei se consigo fazer isso.”

“Não sabe agora.” Ela disse. “Mas quando chegar ao fim você verá que sempre soube.”

“Ao fim?” Eu perguntei. “Ao fim do meu tempo de luto ou ao fim do tempo de descanso?”

“Nenhum dos dois vai acabar.” Ela respondeu, se inclinando mais sobre a cama, seus cabelos caiam em seu rosto.

“Não vão?” Eu a questionei. “Eu imaginei que chegaria uma hora que eu teria vinte e quatro horas de descanso e nenhuma de luto.”

“Não.” Ela respondeu, rindo. “Eu estava pensando em te dar alguns minutos de luto durante o dia.” Ela continuou. “Seis minutos? Que tal? Seis minutos para você chorar, se lamentar, lembrar dos seus pais e da sua namorada e então você teria o resto do dia para viver. Parece bom?” Ela perguntou.

“Parece impossível.” Eu respondi. “Quando eu estou acordada eu não consigo pensar em mais nada além deles.”

“Isso vai passar, Regina.” Ela respondeu. “Tudo passa.” Ela continuou. “Deve estar frio aí embaixo. Você quer vir aqui para cima?”

Eu a encarei por alguns segundos, me perguntando se essa pergunta era séria. Ela então se arrastou na cama e, sem pensar muito a respeito, eu me levantei e me vi dividindo uma cama de solteiro apertada com ela. Ela estava de costas para mim, seus cabelos loiros em contato com meu rosto. Nós ficamos em silêncio, até que ela voltou a falar novamente.

“Sabe o porquê eu estou aqui com você?” Perguntou, sem se virar para mim. Eu respondi que não e ela continuou a falar. “Eu estou aqui para fugir de Mulan. Para fugir de qualquer sentimento que eu possa estar começando a sentir por ela.”

“Por que você simplesmente não se permite sentir?” Eu perguntei, ela se virou na cama, de modo a ficar de frente para mim.

“Porque eu não quero.” Ela respondeu, sem hesitação, sem pensar duas vezes, sem se questionar.

“Eu não entendo.” Eu respondi, encarando seus olhos verdes. A luz do abajur ainda estava acesa. “Você diz escolher não amá-la, mas ainda vai para Londres com ela.”

“Bem, eu gosto dela e morar na Europa vai ser conveniente para mim.”

“É claro que é conveniente.” Eu respondi. “Se não fosse conveniente, você não faria, não é mesmo?”

Ela sorriu para mim. Um sorriso cheio de segundas intenções.

“Eu vou ter a chance de passar dois anos fora. Sem precisar trabalhar e podendo me focar em um projeto antigo que eu sempre quis fazer.” Ela respondeu.

“Ela concorda com isso?” Eu perguntei. “Mulan concorda em ser um segundo plano na sua vida?”

“É claro que sim.” Ela respondeu. “Ela sabe que tem um lugar em meus pensamentos e sabe também que jamais terá um lugar em meu coração. Eu te disse, ela segue minhas instruções e, além do mais, ela nunca esteve em primeiro plano na minha vida. Então, ela não pode reclamar do que nunca teve.” Ela se virou na cama, apagando a luz do abajur.

Eu fiquei ali em silêncio. No escuro. Tentando acalmar meus pensamentos e pegar no sono. Eu senti Emma se mexer na cama e encostar totalmente seu corpo junto ao meu. Eu não ousei me mover. Era estranho tê-la ali tão perto, mas ao invés de pedir que ela se afastasse um pouco ou ao invés de eu me levantar e ir para o meu colchão no chão, eu apenas fechei meus olhos e fingi que ela era Ruby e que eu acordaria na manhã seguinte e o mundo não estaria mais de ponta cabeça.