Instruções
5 Capítulo 5
Capítulo 5
Nós conversamos por mais algum tempo, ela queria que eu ficasse até que a minha dor de cabeça e o inchaço passassem. Segundo ela, eu poderia morrer durante o sono. O que eu achei bem exagerado da parte dela, tendo em vista que realmente não foi nada grave.
Ela quis saber mais sobre mim, saber o que eu fazia, como era meu relacionamento com Ruby e quais eram meus planos para o futuro. Eu respondi todas as suas perguntas e ela parecia verdadeiramente interessada, mas eventualmente, entre uma pergunta e outra, sem tom de voz se tornava preocupado e ela começava a perguntar como eu estava me sentindo.
Eu estava cansada e disse isso a ela, pois já passava da meia noite e eu apenas queria me jogar na minha cama e dormir. Eu teria que estar com a minha família daqui a poucas horas, por causa do café da manhã do aniversário do meu pai. Eu disse isso a Emma, que pareceu um pouco chateada.
“Para alguém que não se apega, você se apegou muito a mim em poucas horas.” Eu disse, ela revirou os olhos e sorriu.
“Você agora me vê como uma Dama de Gelo ou algo do tipo, não é mesmo?” Ela me questionou. “Não é assim. Eu não sou assim. Eu apenas não sou do tipo carente que sente a falta ou a necessidade de alguém. Eu apenas consigo lidar com o fim de um relacionamento sem sofrer. Eu aprendi com os anos a viver na solidão, sem necessariamente me sentir sozinha.” Ela continuou.
“Uau.” Eu disse, em um tom de voz carregado de sarcasmo. Ela me deu um sorriso torto. “Você devia escrever livros de autoajuda.” Eu continuei, ela soltou uma risada e pediu que eu a esperasse por alguns minutos.
Ela se levantou e foi até o seu quarto. Eu esperei por ela, contando os minutos para eu poder me jogar na minha cama e dormir. Ela então voltou, trazendo em mãos um livro grande de capa preta.
“Meu livro de autoajuda.” Ela disse, me entregando.
Eu a encarei, talvez esperando algum tipo de instrução ou explicação, mas ela não disse nada. Então, eu abri o livro, que não possuía nome. Não era um livro, era um portfólio. Um portfólio com as artes dela. O primeiro desenho era de uma garota negra, alta, que segurava nas mãos uma bola de vôlei. Seus cabelos afros, completamente cacheados, estavam amarrados por uma faixa amarela.
A garota do desenho tinha belos olhos castanhos escuros, que pareciam capazes de me ver, seus lábios carnudos, entreabertos, foram pintados por um vermelho tão intenso, que eu não evitei o desejo de tocá-los, pareciam muito reais. Ela usava um uniforme esportivo e estava em pé diante de um campo tomado por dentes-de-leões, que pareciam balançar junto ao vento. Era um desenho perfeito, a pele negra da garota brilhava junto com o sol que a contornava. No canto inferior direito, havia a assinatura de Emma e uma data.
“Essa é a Rose.” Emma disse. “Eu tinha acabado de entrar nessa nova escola. Eu era uma caloura e ela uma veterana. Ela jogava no time de vôlei da escola e eu era a estudante estranha, que morava em uma casa temporária. Ninguém queria saber de mim. Eu não tinha amigos, eu era péssima na escola e odiava cada minuto ali dentro. Então eu passei a me esconder na quadra durante os horários vagos e desenhava. Foi assim que eu a conheci. Eu estava na arquibancada, desenhando e o time de garotas entrou para treinar. Eu não ouvi elas entrando, estava muito focada no que eu estava fazendo. A bola me atingiu, derrubando meu desenho. Eu olhei para as garotas, que estavam rindo de mim e quis abrir um buraco para me esconder. Rose era a única que não estava rindo. Ela mandou todas as meninas se calarem e foi em minha direção. Ela me ajudou a pegar meus papéis e segurou um em suas mãos.”
“Qual era o desenho?” Eu quis saber, ela deu de ombros.
“Eu apenas desenhava, não ligava muito para o que eu estava desenhando. Mas eu tinha essa característica de jamais pintar meus desenhos. Eram todos pretos e brancos. Um pouco sombrios, mas representavam o que eu estava sentindo. Rose elogiou meu desenho aquele dia e me desafiou a colorir eles. Foi o que eu fiz quando eu cheguei em casa. Eu colori todos os meus desenhos e mostrei a ela na semana seguinte. Ela me disse algo interessante aquele dia. Ela me disse: “Você precisa aprender a usar sua arte para algo bom. Um dia talvez ela salve alguém. Então, coloque todas as cores que puder nelas. Coloque seu nome. Se orgulhe do que você é capaz de criar.”
Emma sorriu ao dizer essa frase, ela parecia tão distante, talvez sentisse falta da garota. Talvez houvesse mais coisas por trás dessa história, eu quis saber e então perguntei a ela.
“Ela meio que virou minha obsessão naquele ano. Enfrentar uma escola nova, sem amigos e voltar para uma casa onde ninguém te quer ou liga para sua existência foi bem difícil. Todas as vezes que eu me sentia para baixo ou triste, eu desenhava uma rosa no meu pulso. Às vezes eu chegava em casa com os dois pulsos tomados por rosas. Ninguém perguntava o significado delas, ninguém queria saber. Aquele seria o último ano letivo de Rose. Eles faziam esse livro do ano com a foto dos veteranos, nós comprávamos e pedíamos para eles assinarem. Eu não tinha dinheiro para comprar o livro, então, enquanto todos estavam pedindo seus ‘autógrafos’, eu me escondi na quadra vazia da escola e peguei minha caneta. Eu estava pronta para desenhar uma rosa no meu pulso, quando alguém me chamou pelo nome.”
“Era ela? Rose?” Eu perguntei, interrompendo a história.
“Era ela sim.” Ela respondeu. “Ela quis saber o motivo pelo qual eu não havia levado meu livro para assinar e eu expliquei a ela que eu não tinha como comprar um. Ela pareceu bem incomodada com isso e eu disse que não tinha problema, que eu não ligava tanto assim. Ela se sentou ao meu lado e, sem pedir licença, pegou a caneta que eu tinha em mãos e desenhou no meu pulso uma rosa. Então, ela me encarou e perguntou se eu tinha alguma caneta colorida, eu fiz que não com a cabeça. Ela pegou meu pulso e levou em direção aos seus lábios pintados de vermelho e o beijou. Eu senti minhas bochechas corarem e minha respiração ficou descompassada. Eu tinha 13 anos e ela 17. Antes de se levantar, ela me beijou. Foi um beijo rápido. Um selinho. Mas ainda assim meu primeiro beijo.” Ela concluiu e me mostrou seu pulso.
“Eu fiz essa tatuagem alguns anos depois.” Ela disse. “Em homenagem a ela.”
Então eu pude ver a tatuagem que ela tinha no pulso. Era o contorno de uma pequena rosa.
“Por que não mandou colorir?” Eu perguntei.
“Eu não sei.” Ela respondeu. “Talvez porque eu ainda sinta que esteja faltando alguma cor na minha vida.” Ela continuou. “Lily surgiu no ano seguinte a isso. Foi minha primeira amiga naquele colégio. Eu me aproximei dela porque ela deu uma brecha e nós começamos a namorar, pois eu achei conveniente. Ela tinha inúmeros problemas em casa e acho que eu queria salvá-la, mas acabei arrastando-a para um relacionamento nada saudável.”
“Por que você está me contando todas essas coisas?” Eu perguntei, enquanto folheava seu portfolio, havia desenhos belíssimos ali.
Ela tinha uma qualidade impressionante como artista. Eu me perguntei se ela conseguia se expressar devidamente trabalhando para um jornal, mas guardei meus pensamentos para mim.
“Eu não sei.” Ela respondeu. “Talvez porque você seja uma amizade por conveniência. Esses tipos de amizade raramente aparecem para mim, então eu estou aproveitando para me abrir. Tendo em vista que não nos veremos mais.”
“Amizade por conveniência?” Eu perguntei.
“É. Você sabe. Existem três formas de se fazer amigos. É o que eu chamo de regra dos 3 ‘Cs’.”
Eu soltei uma risada longa e olhei para ela com um olhar meio incrédulo. Emma era de longe a pessoa mais interessante, contraditória e enigmática que eu havia conhecido. Ela tinha essa sensibilidade que deixava explícita em seus desenhos. Ela tinha esse coração mole e bom, que eu podia sentir pela forma que ela se referia ao bebê que carregava ou aos seus amigos. Mas tinha esse lado recluso e fechado, que não permitia que se envolvesse completamente em um relacionamento amoroso. Porém, ali estava ela, se abrindo da forma mais íntima com uma pessoa que havia acabado de conhecer.
“Regra dos 3 ‘Cs’?” Eu perguntei.
“Sim.” Ela respondeu. “As pessoas entram nas nossas vidas de inúmeras maneiras. Algumas delas ficam, mas não significam que necessariamente você cria vínculos fortes e verdadeiros. Você pode começar uma amizade com alguém por conveniência. Você está numa fila de supermercado, a pessoa tem algo que você quer, como um jornal, as horas ou qualquer outra coisa que seja. Então vocês começam a conversar e se abrem, pois sabem que depois que chegar a vez da pessoa na fila, ela irá sumir. Você nunca mais a verá. Tem também aquelas pessoas que você faz amizade por convivência. Você não tem nada a ver com a pessoa, ela trabalha no mesmo lugar que você, estuda no mesmo lugar, etc. Eventualmente vocês conversam sobre coisas rápidas e desinteressantes, até que vira uma amizade de fato.”
“Qual é o último ‘C’?”
“Amigos por coincidência. Sem nenhum vínculo com nenhum local especifico que você frequente e sem vínculo algum com ninguém que você conheça. Essas pessoas simplesmente surgem. Como David apareceu na minha vida.”
“Eu não entendi.” Eu disse. “Claramente eu sou o tipo de amizade por coincidência.” Eu concluí.
Ela abriu a boca para dizer algo e eu esperei por essa resposta.
“Qual é o problema?” Eu quis saber.
“Não.” Ela respondeu. “Amizades por coincidência geralmente se transformam em algo a mais. Algo mais profundo. Com raízes e sentimentos. Entende?”
Eu não entendia. Eu definitivamente não a entendia. O sono já me consumia e eu estava a ponto de entrar em exaustão, mas ali estava aquela garota a minha frente me instigando a tal ponto de que eu não conseguia pensar em outra coisa além do fato de que queria conhecê-la por completo.
“Eu acho melhor você ir para casa, Regina.” Ela disse enfim.
Eu assenti e me levantei do sofá em que estávamos. Entreguei a ela o portfólio e encarei seus olhos verdes por alguns instantes.
“Como você sabe a diferença entre amigos por conveniência e por coincidência?” Eu perguntei, pois simplesmente não conseguia deixar isso para lá.
“Geralmente, as amizades por coincidência aparecem de volta na sua vida da mesma forma que entraram.” Ela respondeu.
“Eu vou ter que ser atropelada por você novamente?” Eu perguntei. “Se eu quiser te manter na minha vida?”
Ela riu da minha pergunta e se levantou comigo para me acompanhar até a porta.
“Boa noite, Regina.” Ela me disse, abrindo a porta para mim.
“Boa noite, Emma.” Eu respondi de volta e me virei para ela. “Foi um prazer te conhecer.” Eu continuei e ela sorriu em resposta e fechou a porta assim que eu atravessei.
Eu encarei o número do seu apartamento. ‘815’. Caminhei até o elevador e me direcionei até o meu apartamento. Eu nem tirei minha roupa, apenas me joguei no colchão de casal e peguei no sono nos minutos seguintes. Eu acordei poucas horas depois com meu celular tocando.
Eu me levantei, ainda sonolenta e procurei pela minha bolsa que havia ficado no balcão da cozinha. Olhei para o relógio do visor que marcava um pouco mais de seis horas. Minha cabeça não doía mais, o inchaço havia ido embora, minhas mãos ainda estavam ásperas devido aos machucados que eu ganhei na queda, mas não fora nada grave. Era Ruby que estava me ligando, eu a atendi.
“Você está bem? Eu te liguei algumas vezes ontem à noite.” Ela disse, em um tom de voz preocupado.
“Me desculpa, meu amor. Eu tive uma noite bem confusa.” Eu respondi.
“Eu aposto que sim. Você parecia bem cansada quando saiu daqui.” Ela continuou, eu achei melhor não contar para ela ao telefone o que havia acontecido. “Você não faz ideia de quem acabou de sair daqui da lanchonete!”
“Woody Allen?” Eu perguntei.
“Não! Por que diabos eu ligaria para te falar isso?”
“Eu não sei.” Eu respondi, completamente sonolenta. “Certo, quem estava ai na lanchonete?”
“Sua mãe! Ela acabou de sair daqui!” Ela respondeu.
“E o que ela queria?!” Eu perguntei.
“Ela queria uma torta doce de maça para o café da manhã do seu pai.” Ela respondeu. “E também queria me convidar para tomar café da manhã com vocês!” Ela continuou.
“Mentira!” Eu disse, em um grito.
“Verdade. Você acredita nisso?!” Ela perguntou. “Parece milagre de Natal adiantado e olha que estamos em Setembro!”
“É, talvez seja um plano maligno dela. Eu não iria se eu fosse você.” Eu respondi, enquanto caminhava até o banheiro para lavar o rosto e ver o machucado da minha testa.
“Eu estou falando sério. Você acha que eu deveria ir? Vai ser algo muito íntimo, quer dizer é uma coisa de família. Eu não me encaixo.”
“Você é mais que uma família para mim, Ruby. Se você quiser ir, eu te apoio. Eu estarei lá também, mas você vai ter que estar pronta para minha mãe. Você sabe o quanto ela consegue ser difícil.” Eu disse.
“É, eu sei. Bem, eu quero quebrar essa barreira entre sua mãe e eu.” Ela respondeu. “E eu adoro o seu pai. Talvez seja uma boa ideia.” Ela continuou.
“Então te vejo em algumas horas?” Eu perguntei. “Ou você vai voltar para casa e se arrumar aqui?”
“Não. Não, eu vou direto daqui. Te encontro lá, pode ser?”
“Claro. Te amo, Ruby. Se cuida.” Eu respondi.
“Também te amo. Não esqueça o presente do seu pai!”
“Não vou esquecer.” Eu disse, antes de desligar o celular.
Eu entrei no chuveiro para um banho quente e me arrumei para ir para o trabalho do meu pai. Eu peguei minha bolsa, o presente que eu havia comprado para ele no dia anterior e saí do meu apartamento. Geralmente eu pegava as escadas, pois eu morava no primeiro andar, mas ali estava o elevador, parado no meu andar.
Eu entrei e ao invés de apertar o térreo, eu apertei o número ‘8’ e em poucos segundos, eu me vi no andar de Emma. Eu encarei o corredor e a porta do apartamento dela. Caminhei até a porta e toquei a campainha e esperei. Ninguém respondeu. Eu insisti e novamente não houve resposta.
Eu senti uma ansiedade correr em meu corpo, uma espécie de preocupação e medo. Eu forcei a porta, tentando abri-la, mas estava trancada. Eu comecei a gritar por Emma. Uma porta abriu, mas não era a dela. Era a porta do apartamento ao lado. Uma mulher baixinha, usando uma camisola até os pés me encarou.
“Não adianta insistir.” Disse a mulher com uma voz calma. “Ela não está aí. Eu a vi sair mais cedo com dois homens. Parece que ela foi ter o bebê.”
“Você sabe para qual hospital ela foi?”
“Ah, para o St. Luke’s, se eu não tiver ouvido mal.” Ela respondeu. “Mas isso já faz algumas horas. Meu marido tinha acabado de chegar do plantão dele.”
“Quantas horas exatamente?”
“Eram duas da manhã.” Ela me respondeu.
“Obrigada.”
Eu observei a mulher voltar para o seu apartamento. Eu então me acalmei, por saber que Emma estava bem e peguei o elevador de volta para o térreo. Eu estava parada na calçada, encarando as ruas movimentadas de Nova York e procurando por um táxi. Eu acenei para um que havia acabado de passar, ele estacionou ao meu lado e eu entrei. O homem me perguntou para aonde eu queria ir e, sem pensar duas vezes, eu disse a ele o endereço do hospital em que Emma estava.
Eu não sei dizer o que me levou a fazer aquilo, mas algo dentro de mim exigia isso. Eu precisava vê-la. Pois talvez ela estivesse certa, talvez nós jamais nos veríamos novamente e eu não sabia dizer o motivo pelo qual isso me incomodava tanto. Talvez eu apenas quisesse provar que ela estava errada. Talvez eu quisesse provar que eu era de fato uma amizade por coincidência e não por conveniência. Ou talvez existisse outro ‘C’ nessa teoria. Um ‘C’ de caminhos e talvez todos os meus caminhos estivessem me levando a ela.
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