Capítulo 6

Eu não demorei a chegar à maternidade. Andei até a recepção, onde uma enfermeira me atendeu e pediu que eu assinasse um livro de visitas, antes de me entregar um crachá indicando que eu era uma visitante. Meu celular tocou, enquanto eu estava andando pelo térreo em direção ao elevador.

“Regina?” Era Ruby do outro lado da linha. “Meu deus, onde você está? Eu estou aqui no trabalho do seu pai, com uma torta na mão!”

“Ruby, me perdoe.” Eu respondi, me encostando contra a parede e permitindo que outras pessoas entrassem no elevador que havia acabado de parar no andar. “Aconteceu um imprevisto, mas eu prometo estar aí antes das nove da manhã.” Eu continuei, sem entrar no elevador.

“O que aconteceu?” Ela quis saber.

“Não é nada grave.” Eu respondi, procurando uma forma de encurtar a história toda. “Uma amiga minha acaba de ter bebê e eu vim ver como ela está.”

“Uma amiga sua?” Eu pude sentir o tom incrédulo em sua voz. “Que amiga, Regina?”

“É uma longa história, mas eu a conheci ontem. Ela mora no nosso prédio.”

“Certo.” Ela disse em um tom seco. “Você pode me contar tudo quando chegar aqui. Por favor, não demore. Eu vou subir até o andar do seu pai.”

“Tem certeza?” Eu perguntei. “Não quer esperar até que eu chegue?”

“Não, tudo bem. Eu quero ver o seu pai. Não se preocupe, eu consigo sobreviver uma hora com a sua mãe.”

“Bem, você que sabe.”

“Compra algumas flores para sua amiga. Mulheres gostam de receber esse tipo de coisa, sabe? Quando elas ganham bebês elas, se sentem extremamente vulneráveis e carentes, pois toda atenção vai para o bebê.”

“É uma ótima ideia, meu amor. Vou comprar um buquê de rosas para ela.” Eu respondi, houve uma pausa. “Eu nunca lhe dei um buquê de rosas, não é mesmo?”

“Não!” Ela respondeu. “Coloque isso na sua lista de coisas para fazer!” Ela continuou. “Eu vou subir. O elevador acabou de chegar. Eu já te disse o quanto eu odeio elevadores? Por que diabos o seu pai não trabalha no primeiro andar?”

“Eu sei que odeia. Mas relaxa, é só um elevador.” Eu disse, tentando acalmá-la.

Enquanto eu falava com ela no telefone, eu voltei para a entrada do hospital. Havia uma floricultura do outro lado da rua. Eu atravessei e pedi à florista me fazer um belo buquê de rosas vermelhas.

“Eu vou desligar.” Eu disse. “Prometo que eu vou te levar seu buquê de flores.”

“Não tenha pressa quanto a isso. Apenas esteja aqui na hora.” Ela respondeu. “Eu te amo, Regina. Não se atrase.”

“Eu nunca me atraso. Vocês que estão bem adiantados.” Eu disse. Eu ouvi uma risada debochada dela no outro lado da linha. “Eu te amo e estarei aí em breve.”

“Eu vou te esperar.” Ela disse, desligando o celular em seguida.

Eu peguei o buquê de rosas e voltei à maternidade. Esperei até que o elevador chegasse ao meu andar e então eu a vi. Mulan. Eu a reconheci pela foto que eu havia visto. Ela estava esperando o elevador, me olhou de relance e entrou no elevador junto comigo.

Ela falava ao celular, em uma língua que eu não podia entender. Tentei não prestar atenção nela até que chegamos ao andar onde Emma estava. Mulan foi a primeira a sair, me fazendo hesitar antes de segui-la. Eu não estava certa sobre o que falaria para Emma e, por algum motivo, Mulan me intimidou. De qualquer modo, eu saí do elevador e caminhei pelo corredor, procurando o quarto que a mulher da recepção havia me dito. Mulan estava a minha frente, andando depressa em seus saltos altos

Eu tentei manter certa distância e ela encontrou o quarto primeiro. Eu parei, me encostei contra a parede e pensei em voltar. Eu não deveria estar ali, respirei fundo e olhei para o meu relógio de pulso que marcava 8:15. Eu estava bem próxima do trabalho do meu pai, poderia chegar lá em menos de dez minutos. Eu só queria ver como Emma estava. Entregar o buquê de rosas para ela e então voltar. Eu encarei a porta que Mulan havia acabado de entrar e dei meia volta. Eu definitivamente não deveria estar ali.

Eu era de fato uma amiga de conveniência. Era conveniente para ela me ajudar, me dando alguns comprimidos e fazendo meu curativo, pois, afinal, ela havia sido responsável pelo meu pseudo-atropelamento. Ela não queria se sentir culpada, queria se certificar que eu ficasse bem, por isso as conversas, por isso queria que eu ficasse em seu apartamento. Ela não estava realmente interessada em uma amizade. Tudo era conveniência.

O som do elevador chegando ao andar onde eu estava me despertou. Eu olhei para as rosas em minhas mãos. Pensei em deixá-las na recepção com um cartão. Era o suficiente. Emma estava bem e estava acompanhada. Eu não era mais conveniente para ela.

“Pode segurar o elevador para mim, por favor?” Disse uma voz feminina. Era Mulan.

Eu segurei o elevador para ela e nós duas entramos. Estávamos sozinhas lá dentro. Eu a observei melhor. Ela definitivamente era muito mais elegante e definitivamente mil vezes mais bonita pessoalmente. Ela ainda falava ao telefone.

“Ela não quer me ver!” Ela disse, em um tom de voz irritado, para a pessoa do outro lado da linha. “Ela disse que não quer me ver. Que precisa entrar no ‘tempo de reclusão’ e que não me quer por perto! Você acredita nisso?”

Eu fingi não ouvir e fingi não entender, mas eu sabia que ela estava falando de Emma.

“Eu não posso mais aguentar isso, mas também não quero terminar com ela agora. Ela está bem vulnerável e, além do mais, ela já comprou as passagens para Londres.” Ela continuou a dizer. “Eu sei que não estamos indo a lugar algum, mas eu gosto disso, ok? Eu gosto da falta de amarras e a falta de apegos. É conveniente para nós duas.”

Novamente essa palavra que nas últimas horas eu havia aprendido a odiar. Será que tudo nessa vida tinha que ser na base do interesse? O elevador parou no térreo. Nós duas saímos. Em nenhum momento ela se virou para mim.

Eu parei onde estava e a observei caminhar a passos rápidos em direção a saída. Eu encarei o elevador e, sem pensar duas vezes, voltei para ele. Apertei o botão do último andar. Senti as flores que eu segurava em minhas mãos, o cheiro delas agora impregnava o pequeno cubículo. Não demorou muito para que eu chegasse novamente ao andar do quarto de Emma.

O quarto dela era o último. Eu me direcionei até ele e parei diante da porta. Havia um vidro e através dele eu pude ver Emma, em pé, parada diante da janela. Eu bati gentilmente a porta com os nós dos dedos. Ela se virou para me encarar, seu semblante era frio e triste, mas ao me ver, sorriu. Ela tinha em mãos um caderno de desenho e um lápis.

“O que você está fazendo aqui?” Ela perguntou, enquanto eu me aproximava.

“Eu vim ver como você estava e te trouxe isso.” Eu respondi, mostrando a ela o buquê de flores que eu tinha em mãos. Ela sorriu e agradeceu, dizendo que elas eram lindas. Eu coloquei as flores sobre a cama e me dirigi até ela.

Ela estava sozinha, o que eu estranhei e abri a boca para questioná-la, mas antes que eu tivesse a chance, ela me respondeu que estava sozinha porque queria. Os pais do bebê estavam com ele em outro quarto.

“Você quer que eu vá embora?” Perguntei.

Eu estava ao lado dela, encarando o desenho que ela estava fazendo. Era a vista da cidade a sua frente. Com seus prédios altos e janelas. Nada além de prédios e janelas.

“Você pode ficar.” Ela respondeu, enquanto continuava o desenho. Ela estava silenciosa e concentrada, ela parecia bem distante de onde verdadeiramente estávamos.

“Você está bem?” Eu perguntei. Ela assentiu, passou um dos dedos sobre o desenho, ajudando a dar um efeito de sombra nos prédios e olhou para a janela, como se buscasse inspiração. “Você não deveria estar deitada?”

“Você não deveria estar em outro lugar?” Ela perguntou, de forma seca e olhou para mim. Seus olhos verdes fitavam os meus, eu me senti violada por aquele olhar.

“Não.” Eu respondi. “Eu não deveria estar em nenhum lugar além desse.” Ela sorriu com a minha resposta e abaixou o olhar para o desenho que estava fazendo.

“Eu estou no que eu gosto de chamar de ‘tempo de reclusão’.” Ela disse, encarando a folha em suas mãos.

“O que isso significa?” Eu quis saber.

Olhei então para o desenho dela. Para os prédios altos e cinzas, pois a única cor que ela tinha era do grafite de seu lápis de desenhar. Em seguida, me virei para a janela e para a vista exclusiva que nós tínhamos. Havia prédios, o céu azul e limpo e as nuvens claras. Era bem pacífico e silencioso ali em cima, nada igual ao que acontecia quando estávamos em terra firme. Onde tudo não passava de transito pesado, pessoas com pressa e barulhos de carros com suas buzinas barulhentas.

“Eu não sou uma artista muito boa.” Ela disse. “Eu não consigo produzir nada se alguém estiver ao meu lado. Eu simplesmente não consigo.” Ela continuou. “Eu só consigo ser eu mesma na solidão dos meus pensamentos. Por isso eu estou assim.”

“Silenciosa e solitária?” Eu perguntei.

“Silenciosa e sozinha.” Ela respondeu. “Jamais solitária.” Ela continuou e deu alguns toques finais aos seus desenhos. “Acredito que é por isso que eu não consigo me envolver com alguém. Eu não posso me dar o luxo de ter alguém consumindo meus pensamentos.” Ela me encarou. “Pense em algo que você ama muito.”

Eu pensei. Eu pensei no quanto eu amava cozinhar. No quanto eu adorava pesquisar sobre novas receitas. Sobre o quanto eu gostava de me aventurar em novos sabores e novos sentidos.

“Agora imagine que você não pode ser capaz de ser isso, enquanto você estiver emocionalmente dependente de sua namorada.” Ela continuou.

Eu franzi o cenho, tentando entender aonde ela gostaria de chegar com isso.

“Eu acredito que eu consiga fazer os dois. Eu acredito que eu possa manter minhas duas paixões. Inclusive, eu amo as duas agora. Eu amo a culinária e amo Ruby. Eu não acho que amar uma me impeça de amar a outra.” Eu disse, de forma defensiva.

Ela não disse nada, apenas voltou ao desenho. Em poucos segundos, eu a vi se afundar em silêncio.

“Como foi?” Eu perguntei. “O parto?”

“Foi a experiência mais dolorosa e emocionante da minha vida.” Ela respondeu, desviando o olhar do desenho e encarando a paisagem a sua frente. “Você precisa vê-lo, ele é lindo. Eles me deixaram segurá-lo por alguns minutos e ele parou de chorar assim que eu o envolvi em meus braços.”

“Como você se sentiu?” Eu perguntei novamente. “Quando os pais deles o seguraram?”

“Eu senti que eu tinha feito a obra de arte mais linda do mundo e que havia tido a chance de presentear o mundo com alguém que vai ser muito amado.” Ela respondeu, sorrindo, sem dar atenção ao desenho ou a mim.

“Ele nasceu no mesmo dia que meu pai.” Eu disse, ela se virou para mim.

“Ah, então era lá que você deveria estar, não é mesmo?” Ela perguntou. “Com a sua família.”

Nós nos encaramos por breves segundos, ela estava certa, eu deveria estar lá com eles. Eu respirei fundo, olhei para a vista a minha frente, enquanto me perguntava o do porquê eu estava ali.

“Eu não acredito que eu entrei na sua vida por conveniência.” Eu disse. “Quer dizer, não faz sentido algum. Eu definitivamente estava naquela rua por pura coincidência e então você apareceu.” Eu disse, ela ainda estava me encarando e havia esse sorriso irônico em seus lábios.

“Então é isso, não é mesmo?” Ela perguntou. “É por isso que você está aqui. Você não aceita a posição que eu te coloquei na minha vida, mas saiba que eu não tenho controle algum sobre isso.” Ela continuou.

“Não tem?” Eu perguntei.

“Não, não tenho.” Ela respondeu. “Não vamos forçar nada, Regina.” Ela continuou. “Se o acaso ou as nossas escolhas nos quiseram aqui ou agora, não importa. Isso realmente não importa.”

Ela se aproximou de mim e me encarou, antes de procurar pela minha mão. Nossos dedos se entrelaçaram um ao outro. Com a outra mão livre, ela segurou o desenho que estava fazendo e o levou em direção ao peito.

“O que você está fazendo?” Eu perguntei.

“Tem algo diferente em você, Regina.” Ela disse. “Eu sinto, mas não sei o que é. Você consegue ver algo em mim. Eu sei disso. Você consegue sentir algo em mim.” Ela continuou.

Eu olhei para ela, temendo onde essa conversa poderia dar.

“Mas você estragou completamente meu ‘tempo de reclusão’.” Ela continuou, com um sorriso no canto do lábio. “Me ajuda a achar o timing perfeito agora?”

Eu assenti, sem saber ao certo ao que ela estava se referindo. Ela pediu que eu fechasse os olhos. Eu olhei para a paisagem a minha frente e pisquei algumas vezes, antes de fechar por completo os olhos.

“Consegue apagar tudo ao seu redor?” Ela perguntou. “Objeto por objeto. Cores por cores. Consegue apagar e esquecer tudo o que está sentindo ou ouvindo agora? Corte uma por uma as cordas que te prendem aqui.” Ela continuou. “Consegue se sentir à deriva? Consegue se sentir solta no ar? É assim que eu me sinto.”

Eu não conseguia. Eu não conseguia entendê-la. Mas eu tentei. Eu apaguei todas as paredes que me circulavam. Apaguei os móveis, apaguei o chão sob meus pés, eliminei o cheiro de lavanda que o quarto tinha. Eliminei o perfume de Emma. Eliminei sua voz. Tudo o que restou foi o céu azulado que eu havia encarado segundos atrás. Tudo o que restou foi a sensação da mão dela segurando a minha, seu calor contra os meus dedos.

Eu me senti livre. Me senti flutuando. Eu não saberia dizer agora como eu me coloquei naquele estado. Tudo era branco e vazio ao meu redor. A voz dela foi voltando, enquanto ela me dizia para imaginar aos poucos todas as cores possíveis diante dos meus olhos. Foi o que eu fiz. Ela me pediu para criar um cenário e o que vi foram os prédios, sendo completamente tomado por todas as cores do arco íris.

“Abra os olhos agora.” Ela disse.

Eu abri e olhei para o desenho que ela havia feito. Era como se eu pudesse vê-los completamente coloridos. Eu a encarei.

“Eu não sei o que você sentiu.” Ela disse. “Mas eu me sinto vazia as vezes. Eu me sinto uma página em branco. Há dias em que apenas o sexo ou a companhia de Mulan é suficiente para preencher esse vazio e há dias em que apenas minha arte me salva. Entende?”

Eu não entendia, mas assenti para ela.

“Eu passo a maior parte do tempo tentando alimentar meu desejo de me expressar, sem que isso atrapalhe tudo o que eu ainda quero ser. Mas acredito que chegará o dia em que eu vou ter que apenas desistir de qualquer contato humano e deixar que minha mente tome conta de mim.” Ela continuou a dizer. “Eu não posso correr para sempre de quem eu sou, não é mesmo?”

Eu não podia responder isso, pois eu não sabia quem de fato ela era. Ou o que ela era. Ela era um mistério ou algo além disso.

“Onde você deveria estar agora, Regina?” Ela insistiu com a pergunta.

“Eu deveria estar tomando café com meus pais e minha namorada.” Eu respondi. “No trabalho do meu pai. Você adoraria a vista do escritório dele. Ele trabalha no último andar do World Trade Center.” Eu continuei.

“Quem sabe um dia você possa me levar lá.” Ela respondeu, voltando ao seu desenho, mas sua atenção foi desviada para o que acontecia diante de nossos olhos.

Houve um estrondo e houve fumaça, então o céu, antes azulado, se tornou cinza, manchando completamente aquele 11 de Setembro. Nós duas nos encaramos e nossas mãos rapidamente buscaram conforto no contato uma com a outra. Não sabíamos o que estava acontecendo lá fora, mas eu podia sentir que algo dentro de mim morria, dando espaço a um completo vazio.