Capítulo 4

Eu não sei quanto tempo levei até recuperar a consciência, mas quando eu abri os olhos, eu estava deitada no meio da rua. Havia essa garota loira, grávida, ajoelhada ao meu lado. Seus olhos denunciavam preocupação e medo, mas ela suspirou aliviada ao me ver acordando. Não havia ninguém na rua além de nós duas. Ela me ajudou a sentar. Minha cabeça doía muito, eu olhei para minhas mãos e as vi completamente raladas.

“O que aconteceu?” Eu perguntei à garota, que se aproximou mais de mim.

Com uma de suas mãos, ela tocou minha cabeça. Eu gritei em resposta ao toque, ela mordeu o lábio inferior e pediu desculpas.

“Eu sinto muito.” Ela respondeu. “Eu meio que te atropelei.”

“Meio?” Eu perguntei, levando a mão a cabeça.

Havia um inchaço enorme próximo a base do meu crânio. Doía muito ao toque.

“Venha.” Ela continuou a dizer, pegando-me pela mão e me ajudando a levantar. Eu olhei ao redor, minha bolsa havia sido arremessada a alguns metros dali. “Eu pego para você.” A garota disse, andando em direção a bolsa, enquanto eu tentava me manter em pé.

A única dor que eu sentia era a da cabeça e a das minhas mãos, provavelmente eu me protegi me apoiando no chão com elas. Eu podia andar normalmente e nada no meu corpo doía. Ela me entregou a bolsa e sorriu para mim. Havia uma mistura de culpa e preocupação em seu olhar.

“Eu estou bem.” Eu disse a ela e, sem dizer nada, ela se aproximou de mim, tocando gentilmente em minha testa.

Ela afastou seus dedos, mostrando-os em seguida para mim. Eu estava sangrando, seus dedos melados de sangue denunciavam isso.

“Eu vou te levar até um pronto-socorro.” Ela disse, me pegou pelo braço e caminhou comigo até um fusca amarelo, estacionado de forma completamente irregular no meio da rua.

Ela me ajudou a sentar no banco do passageiro, entrando no automóvel logo em seguida.

“Foi com essa máquina mortífera que você me atropelou?” Eu perguntei, ela revirou os olhos e sorriu.

“Eu já pedi desculpas.” Ela respondeu. “Eu estava com pressa, mas você já me disse que está bem.”

“É, eu estou.” Eu respondi, enquanto ela tentava colocar o cinto de segurança, mas sem sucesso, então ela apenas desistiu. “Não é perigoso andar por aí sem cinto de segurança?” Eu continuei, ela deu de ombros, ligou o carro e andou pela rua.

“Eu acho que eu já preenchi minha cota de acidente por hoje e o hospital não fica muito longe daqui.”

“É, olha, não precisa me levar até o hospital. Eu tenho certeza que eu não quebrei nada.”

“Mas você pode ter tido uma contusão ou algo do tipo.” Ela respondeu. “E você pode estar achando que não foi nada agora, mas amanhã você pode acordar morta!” Ela continuou de uma forma bem dramática, eu tive que rir.

“Eu tenho certeza que não foi nada sério.” Eu continuei. “Mas eu aceito uma carona até a minha casa.”

“Não.” Ela respondeu. “Ou eu te levo até o hospital ou eu te levo até a minha casa. Ok?”

“A sua casa?” Eu perguntei, me virando para ela.

Ela estava bem focada na estrada a sua frente, em nenhum momento se virou para mim.

“É.” Ela respondeu. “Para fazer um curativo nessa sua cabeça, uma compressa de gelo também seria o ideal e aspirinas.” Ela continuou.

Eu me encostei contra o assento do carro, eu estava precisando mesmo de algumas aspirinas.

“Tá certo.” Eu respondi, ela se virou para mim e sorriu. Eu pude ver melhor seus olhos verdes e percebi o quanto ela era nova. “Por que você estava tão apressada?”

Ela revirou os olhos, forçou um sorriso e olhou para mim de relance.

“Eu estava nessa festa estúpida na casa da minha namorada.” Ela respondeu, eu não pude esconder a surpresa. “Antes que você pergunte qualquer coisa, esse bebê não é nosso. Eu sou barriga de aluguel e foi por esse motivo que nós discutimos.”

“Por causa do bebê?” Eu perguntei.

“Por causa do dinheiro, na verdade.” Ela respondeu. “Ela começou a reclamar, dizendo que eu devia ter pedido mais dinheiro, que eu vendi meu corpo por quase nada.” Ela continuou a dizer, eu senti suas palavras tomadas por amargura. “Mas ela não entende.”

“O que ela não entende?” Eu perguntei, ela se virou novamente para mim e suspirou fundo antes de continuar.

“Eles são bem mais que meus amigos.” Ela respondeu. “Os pais do bebê. Eu os conheço há alguns anos já e eu nem deveria ter cobrado por isso. Era o sonho deles ter um filho.” Ela continuou. “Eu só aceitei o dinheiro porque era o que eu precisava para comprar minhas passagens. Eu não preciso e não quero o dinheiro deles.”

“É muito generoso de sua parte.” Eu disse e vi um sorriso surgir em seus lábios. “E se sua namorada não consegue ver isso, então o problema dela.” Eu continuei, ela não tirou os olhos da estrada.

“Eu queria que ela pensasse assim, mas não é o caso. Ela é o tipo de pessoa que prefere dinheiro às pessoas.” Ela respondeu. “Diferentemente de mim.”

“Por que vocês estão juntas, então?” Eu perguntei, ela se virou para mim rapidamente, estacionando o carro.

Minha atenção estava nela, de modo que eu não vi em qual rua havíamos entrado ou estacionado.

“Bem, porque é fácil estar com ela. Ela consegue seguir minhas instruções.” Ela respondeu.

“Suas instruções?” Eu perguntei. “E quais são elas?”

Ela não respondeu, o que ela fez foi sair do carro. Eu a segui com o olhar e então percebi onde eu estava. Nós havíamos estacionado na minha rua, a garota deu a volta no fusca e parou diante da minha porta, abrindo-a logo em seguida.

“Você mora aqui?” Eu perguntei, apontando para o meu prédio. A garota assentiu e buscou suas chaves dentro da bolsa que carregava. Ela fechou o carro e em seguida eu a acompanhei.

“Moro sim.” Ela respondeu. “Mas só até o final do ano.” Ela continuou.

“Bem, eu também moro aqui.” Eu disse, a boca dela se abriu em surpresa e ela riu logo em seguida.

“Mentira.” Foi tudo o que ela disse, enquanto abria a porta que dava acesso ao hall de entrada. Nós caminhamos até os elevadores. “Há quanto tempo você mora aqui?”

“Me mudei semana passada.” Eu respondi. “Eu moro no primeiro andar. Número 103.”

“Eu moro no oitavo andar.” Ela respondeu.

O elevador então parou e nós entramos, ela apertou o botão do oitavo andar e se encostou contra o espelho, eu pude ver sua imagem refletida nele.

“Eu nem sei seu nome.” Ela disse finalmente, me encarando com seus olhos verdes.

“Regina.” Eu respondi e um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca. “E o seu?” Eu perguntei. O elevador parou no oitavo andar e as portas se abriram.

“Emma.” Ela respondeu. “Emma Swan.” Ela continuou e saiu do elevador, eu observei a forma engraçada que ela andava e a segui.

Minha cabeça ainda latejava, minhas mãos completamente raladas estavam começando a me incomodar. Eu entrei no pequeno apartamento dela, era do mesmo tamanho do meu, a diferença era que o dela estava completamente mobiliado, com móveis simples, mas ainda assim mobiliado.

Entramos na sala e ela disse para que eu fosse até o banheiro do quarto para lavar minhas mãos. Eu a observei caminhar até a cozinha e procurar algo em um dos armários e a observei uma última vez antes de dirigir ao seu quarto. Estava escuro, de modo que eu tive que acender a luz. O que eu vi foi uma cama de casal forrada com lençóis azuis e uma cômoda grande, encostada próxima a cama, não havia muita coisa, de modo que eu me questionei para aonde ela iria no final de ano.

Eu me direcionei até o banheiro, olhei meu reflexo no espelho do pequeno armário e toquei com cautela na minha cabeça que ainda doía. Ainda havia o inchaço na base do meu crânio e havia esse machucado na minha testa. Era bem pequeno, mas estava sujo e ainda sangrava.

Eu lavei minhas mãos o máximo que eu pude, senti a ardência quando água tocou na minha pele, mas não era tão doloroso assim. Então eu a vi, pelo reflexo do espelho. Eu me virei e vi que ela tinha em suas mãos uma bolsa de gelo e um copo com água.

“Me deixe ver suas mãos.” Ela disse, enquanto colocava a bolsa de gelo e o copo com água na pia do banheiro.

Eu virei a palma das minhas mãos para que ela as pegasse, Emma observou atentamente e procurou no armário do banheiro um spray, expirando nas feridas, logo em seguida. Não doeu muito, mas ficou uma sensação gelada por alguns instantes. Em seguida, ela tirou do mesmo armário um frasco de aspirina, me entregou dois comprimidos e me deu o copo com água para que eu as tomasse.

“Você está bem?” Ela quis saber, buscando um pequeno pedaço de algodão e limpando a ferida da minha testa.

Ela nem pediu licença, apenas se aproximou de mim, fazendo com que eu me encostasse contra a pia do banheiro. A única barreira que havia entre nós duas era a barriga dela. Ela estava bem concentrada no que estava fazendo, em nenhum momento desviou o olhar da minha testa para que seus olhos se encontrassem com os meus.

Ela colocou um band-aid na minha testa e em seguida pegou a bolsa de gelo e a colocou gentilmente sobre o inchaço da minha cabeça. Eu reclamei de dor no primeiro contato, ela pediu desculpas, mas não moveu nenhum músculo.

Nós ficamos em silêncio, minha cabeça ainda doía um pouco, acho que ela sabia disso, pois se aproximou mais de mim, com a mão livre, acariciou gentilmente o meu braço, como se isso fosse fazer a dor passar.

“Você devia me deixar te levar a um hospital.” Ela disse, meu olhar se cruzou com o dela. “É sério, se for algo realmente grave, eu vou me sentir culpada pelo resto da vida.” Ela continuou, eu fiz que não e toquei na mão dela que segurava a bolsa de gelo e ela se afastou.

“Eu vou ficar bem, Emma. Eu prometo.” Eu respondi.

Ela ainda permaneceu ali, parada na minha frente, enquanto eu segurava a bolsa de gelo contra a minha cabeça.

“Eu sinto muito.” Ela respondeu. “Eu não queria ter te machucado.” Ela continuou.

“Eu sei que não foi por querer.” Eu respondi. “Só prometa que não me machucará novamente.” Eu continuei e um sorriso triste surgiu em seus lábios, eu me vi tentando entender o que aquele sorriso significava. “O que foi?” Eu perguntei.

“Não é nada.” Ela disse, saindo em seguida do banheiro. Eu a observei partir e me virei para o espelho, encarando o curativo que ela havia feito na minha testa e então a segui.

Eu a encontrei na pequena cozinha, ela estava colocando água em uma panela e a colocando para esquentar.

“É um chá.” Ela disse, antes que eu tivesse a chance de perguntar qualquer coisa. “Vai te ajudar a dormir e amenizar a dor.” Ela continuou.

Eu andei até ela, ainda segurando a bolsa de gelo no inchaço da cabeça. Eu parei diante da geladeira, havia uma única foto ali, presa por vários imãs. Emma estava fantasiada de princesa na foto, ao lado de uma garota asiática, fantasiada de rainha. Ao lado das duas haviam dois homens, um deles fantasiado de Capitão Gancho e o outro fantasiado de Rei. Os quatro pareciam felizes, eu me aproximei, observando de perto as pessoas na foto.

“Essa é a minha namorada.” Emma disse, eu me virei para encará-la. “Mulan.”

Ela então se aproximou de mim e tirou a foto da geladeira, me entregando logo em seguida.

“Ela é muito bonita.” Eu disse, encarando a foto em minhas mãos.

“Ela é sim.” Emma concordou. “Ela é modelo.” Ela continuou. “E esses dois aqui, são os pais do bebê. Killian e David.”

“Oh...” Eu disse, um pouco espantada com a revelação.

Ela riu de mim, enquanto eu colocava de volta a foto na geladeira.

“Você deve tá um pouco assustada, não é mesmo? Você estava apenas andando pela rua, querendo voltar para casa e então uma doida em um fusca amarelo te atropela e te leva para um “mundo” cheio de gays fantasiados de personagens de contos de fada.” Ela disse, rindo logo em seguida.

“Não estou nada assustada.” Eu respondi. “Quer dizer, levando em conta que eu também sou gay.”

A boca dela se abriu e ficou assim por alguns instantes. Ela sorriu em seguida e respondeu um: “Bem, eu deveria saber, não é mesmo?”

“Deveria?” Eu perguntei, enquanto ela caminhava até a pia da cozinha e pegava uma xícara de chá limpa.

“É, quer dizer, acho que eu deveria, mas eu sou péssima nisso, de qualquer forma. Eu demorei a perceber que Mulan queria algo comigo.” Ela continuou.

Eu a observei pegar uma caixinha de chá e tirar de lá um sachê, ela o colocou na xícara limpa e pegou a água que estava no fogo, despejando na xícara e me entregando-o em seguida. Eu senti o calor do objeto nas minhas mãos e segui Emma até a sua sala. Sentamo-nos em seu sofá, ela esticou os pés sobre a mesinha de centro e acariciou sua barriga.

“Você está com quantos meses?” Eu perguntei, assim que me sentei ao seu lado.

“Eu estou nas últimas semanas do terceiro trimestre. Ele deve nascer a qualquer momento.” Ela me respondeu.

“Você está nervosa?” Eu perguntei, ela negou com a cabeça e disse que estava se preparando para isso durante os últimos meses. “É muita coragem da sua parte.” Eu continuei.

Ela se ajeitou no sofá, apoiou um dos cotovelos sobre o encosto e me fitou.

“Eles significam muito para mim, sabe?” Ela respondeu. “Killian e David.”

“Eu imagino que sim.”

“Eu sou órfã. Sempre fui. Eu fugi do sistema quando eu tinha 15 anos e a primeira pessoa que eu conheci foi David.” Ela respondeu. “Ele é policial e me encontrou dormindo em um galpão abandonado. Ao invés de me levar de volta para o abrigo onde eu morava, ele me levou para casa dele. Na época, ele era casado com essa mulher, mas bem, eles estavam em crise. Você deve imaginar o porquê.” Ela continuou e fez um gesto com a mão que denunciava tudo o que ela não queria dizer com palavras. “Enfim, eu passei a morar com eles durante um tempo. Eles pegaram minha guarda provisória, mas então ela descobriu que ele tinha uma vida dupla, se é que você me entende. Foi um choque para ela, descobrir que o marido tinha um caso com o vendedor de frutos do mar!” Ela deu uma pausa e simplesmente começou a rir, eu a acompanhei na risada.

“Ai meu deus, por que você está me contando isso?” Eu perguntei finalmente, quando ela estava vermelha de tanto rir.

“Eu sei, me desculpa, mas é muito engraçado. Nós hoje rimos disso, mas nossa, a pobre Mary, que era a esposa de David, ficou tão abalada que simplesmente saiu do estado. Eu nem sei onde ela está agora, ela me manda uns telegramas de vez em quando, mas nossa relação meio que esfriou. Pois eu fiquei do lado dele.” Ela continuou. “Enfim, eles estão juntos desde então, isso já faz 4 anos. David me ajudou a arrumar esse emprego como estagiária no The New York Times.”

“Nossa.” Eu disse, um pouco espantada e por algum motivo orgulhosa dela. Eu dei um gole no meu chá, sentindo meu corpo todo se aquecer com a bebida.

“Pois é.” Ela continuou. “Era apenas um trabalho como estagiária. Eu servia café e tudo mais. Até que o chefão de lá viu meu portfólio. Eu desenho, sabe? E modéstia à parte, eu sou até boa nisso. Então ele me deu essa coluna onde eu faço pequenos textos e uma ilustração, deu tão certo que agora é um trabalho de verdade.”

“Meus parabéns.” Eu respondi e sorri para ela.

Ela pareceu verdadeiramente agradecida pelos elogios, então sorriu de volta para mim.

“David me deu muita oportunidade. Eu não estaria aqui se não fosse por ele, por isso, quando ele me perguntou no começo do ano se eu topava ser a barriga de aluguel dele, eu não tive como dizer não. Era minha chance de agradecer por tudo.”

Eu a encarei por alguns segundos, meu chá estava quase acabando. Nós ficamos em silêncio por um tempo. Eu fiz as contas, Emma devia ter 19 anos então. Era uma decisão muito importante para alguém tão nova, mas eu entendia seus motivos.

“Você disse que o dinheiro que eles te pagaram te ajudariam a pagar umas passagens, para aonde você vai?” Eu perguntei.

“Londres.” Ela respondeu. “Mulan vai morar lá por dois anos, pelo menos é esse o plano, então eu vou ficar com ela lá. Eu sei, é bem exagerado se mudar do país por causa de uma garota.”

“Não, não parece.” Eu respondi. “Eu fiz o mesmo, mas no meu caso eu vim de Boston para Nova York.” Eu continuei.

“Ai, meu deus.” Ela disse, se arrastando um pouco no sofá para ficar próxima a mim. “Por uma garota?” Ela quis saber, eu assenti, ela riu, antes de continuar a falar. “Sabe, as vezes eu me pego desejando não gosta de garotas, mas ai eu lembro o quanto elas são boas e então eu me esqueço.” Nós duas rimos desse comentário, ela quis saber como estava a minha cabeça.

“Dói menos.” Eu respondi. “Tenho certeza que amanhã eu estarei melhor.”

“Eu espero que sim.” Ela respondeu.

“Você não vai sentir saudades de Nova York?” Eu perguntei.

“Vou. Vou sim, mas eu preciso disso, sabe? Eu preciso passar algum tempo com ela. Foi um ano bem conturbado para nossa relação.” Ela continuou.

“Eu imagino que tenha sido. Deve ter sido difícil para ela seguir suas ‘regras’.” Eu comentei, ela franziu o cenho, me encarou com espanto por alguns segundos.

“Regras?” Ela quis saber.

“É, você disse antes. Sobre algumas regras...”

“Não.” Ela disse balançando a cabeça. “Eu disse ‘instruções’, não são regras.” Ela continuou, revirando os olhos.

“Oh, me desculpe.”

“Você quer saber quais são?”

“Eu não sei. Eu quero?”

Ela me fitou por alguns segundos, seus olhos percorreram meu corpo, eu devo admitir que isso me incomodou e me deixou inquieta. Ela demorou algum tempo para começar a falar.

“Sabe quando nós compramos algo novo e vem com um manual de instruções?” Ela perguntou, eu assenti. “Então, eu namorei essa garota. Foi minha primeira namorada. Acho que nós ficamos juntas por pouco mais 3 anos, eu era bem nova na época. Terminou muito mal, teve lágrimas e alguns palavrões que eu nunca tinha escutado na vida.”

“Ai meu deus, o que você fez?”

“Nada.” Ela respondeu. “Eu simplesmente não a amava da mesma forma. Então, antes de ela ir embora de vez da minha vida, ela escreveu essa carta enorme e ridícula e a entregou para mim, dizendo que era meu ‘manual de instruções’.” Ela continuou e então se levantou e caminhou até o móvel onde a TV se encontrava e trouxe de lá uma pequena pasta amarela e a entregou para mim.

Eu encarei a pasta em minhas mãos, era transparente de modo que eu podia ver algumas folhas ali dentro.

“Vá em frente.” Ela disse. “Leia meu manual de instruções.” Eu a obedeci e tirei de lá algumas folhas de cadernos.

Todas as folhas estavam escritas a mão, em uma caligrafia caprichada, eu a encarei, esperando por alguma observação ou algo do tipo e então comecei a ler. Era a carta mais devastadora e triste que eu já havia lido, a garota havia escrito tudo o que havia sentido durante os anos que havia namorado com Emma.

Ela havia descrito com detalhes o quão incrível e intenso havia sido esses anos. O que ela havia sentido no primeiro beijo. O quanto o sexo era incrível. Na carta, ela dizia que havia sido a primeira vez das duas e que ela dificilmente esqueceria. Eu parei algumas vezes, para observar Emma, que estava bem ao meu lado, com uma expressão impassível em seu rosto.

A carta terminava com a garota descrevendo o quanto ela se sentiu sozinha nos últimos meses em que elas estiveram juntas, no quanto Emma era difícil e inacessível, no quanto ela simplesmente não conseguia se abrir para o amor das duas. Em todos os parágrafos a garota dizia o quanto a amou e o quanto demoraria para esquecê-la, havia um trecho em que ela reclamava por nunca ter recebido um ‘eu te amo’ de volta. No último parágrafo, a garota pedia para que Emma jamais fizesse com outra pessoa o que havia feito com ela. E deixava algumas instruções, direcionadas para as próximas namoradas de Emma.

As instruções eram as seguintes: ‘Não se envolva profundamente com ela, pois ela jamais conseguirá se envolver da mesma forma.’; ‘Aproveite cada instante ao lado dela, aproveite todos os instantes que ela se abrir para você. Pois serão momentos raros, ela se afastará eventualmente.’; ‘Se apaixone por sua conta e risco, mas tenha em mente que seu amor será unilateral e jamais retribuído.’; ‘Diga que a ama, se você quiser. Diga que você é completamente dela, se você quiser. Diga o quanto ela significa para você, se você quiser. Mas jamais espere que ela te queira da mesma forma.’.

Eu encarei Emma, ela estava bem próxima a mim, de modo que também estava lendo a carta comigo. Havia uma última instrução que dizia: ‘Se sua vida cruzar com a dela e ela se abrir o suficiente para te deixar entrar. Entre. Não resista à tentação de conhecê-la. Não resista a tentação de amá-la. Eu não pensarei menos de você. Amá-la foi a melhor experiência da minha vida e não terá um dia sequer que eu não desejarei poder sentir novamente o que eu sinto por ela agora.’

Na assinatura da carta havia apenas o nome da garota: ‘Lily’

Eu dobrei a carta e a guardei dentro da pasta e a segurei por alguns segundos. Eu não soube o que dizer. Eu pude sentir a dor da garota daquela carta, eu pude sentir o impacto de Emma na vida dela e eu sabia que havia coisas ali que eu não poderia esquecer, nem se eu tentasse.

“Eu não namorei ninguém depois dela.” Ela respondeu. “Quer dizer, todas as garotas que entravam na minha vida e insistiam em ficar, eu fazia exatamente isso que eu estou fazendo agora. Eu dava logo a elas o meu ‘manual de instruções’ e então elas desapareciam. Mulan foi a única que ficou. Nós havíamos acabado de voltar de uma festa, era nosso terceiro encontro. Eu me sentei com ela aqui e ela me disse ‘Eu acho que eu definitivamente posso estar começando a gostar de você’, eu apenas me levantei e dei a ela essa carta. Sabe o que ela disse depois de ler?”

“Eu não faço a mínima ideia.”

“Bem, ela disse que gostaria de correr o risco.” Ela continuou. “Ela estava um pouco bêbada, então provavelmente foi isso, mas de qualquer modo, ela ficou. E nós estamos juntas há quase um ano.”

“Por que você faz isso?” Eu quis saber. “Por que você simplesmente não consegue amar alguém?”

“Eu consigo.” Ela respondeu em um tom irritado. “Eu apenas escolho não amar.”

“Ninguém escolhe não amar alguém.” Eu respondi, ela riu e me encarou em silêncio, eu senti minha cabeça girar por tudo o que eu tinha ouvido e lido nos últimos minutos. “Você simplesmente se apaixona.” Eu continuei.

“Não funciona assim comigo.” Ela respondeu.

“Mas por quê?”

Ela franziu o cenho, eu nunca vi alguém tão confusa quanto ela estava ao ouvir minha pergunta.

“Olha, eu sei amar, ok? Eu amo meus amigos e eu amo Mulan de certa forma. Eu também amei Lily, mas do meu jeito, não do jeito que ela esperava que eu amasse e foi esse o problema entre nós duas. Eu não me vejo com alguém para sempre, eu simplesmente não me vejo. Eu deixo esse tipo de amor para os contos de fadas e para os romances água com açúcar.” Ela respondeu. “Eu concordo com essas instruções.” Ela continuou. “É muita responsabilidade amar alguém dessa forma. É muita responsabilidade carregar o coração de outra pessoa dentro do peito, pois eu sei que a qualquer momento eu vou quebrá-lo.”

“Tem certeza que é esse o problema, Emma?” Eu perguntei.

“O que você quer dizer com isso?”

“Por que eu estou escutando você me dizer que tem medo de quebrar o coração de outra pessoa, e eu fico aqui me perguntando se você faz isso por medo de ter o seu quebrado.”

“Eu não posso quebrar algo que eu não tenho.” Ela respondeu e pegou a pasta em minhas mãos.

Eu a observei caminhar pela sala, para guardar a pasta que ela tinha em mãos. Eu me perguntei como ela havia se transformado nisso e se havia alguma esperança para ela, mas talvez Emma estivesse certa em se fechar para amor e talvez essa barriga de aluguel fosse a sua única chance de sentir um coração de verdade batendo dentro de si.