Instruções
3 Capítulo 3
Capítulo 3
“Sua mãe me odeia.” Disse Ruby, me fazendo desviar a atenção dos meus pais e olhar para ela.
Nós estávamos sentadas no balcão da lanchonete, observando meus pais que estavam em outra mesa. O plano inicial era que nós iríamos a um restaurante e depois para o hotel do qual ficaríamos hospedados até o final da semana, que tinha sido o prazo que a equipe de mudança havia dado para trazer todas as nossas coisas. Mas o que fizemos aquela noite foi parar na lanchonete da vó de Ruby e meu pai se entupiu com waffles, sorvetes e todo o tipo de coisas que ele normalmente não comeria.
Minha mãe não mostrou o mesmo entusiasmo e pediu apenas uma xicara de chá quente e disse que não estava com fome, mas eu sabia que quando chegássemos ao hotel ela pediria algo para comer e eu seria obrigada a ouvir todo o tipo de reclamação. Eu não ligava, eu estava esperando por isso e eu estava muito feliz para ligar para o que quer que fosse que eu tivesse que ouvir da minha mãe.
“Eu estou me segurando muito para não te beijar aqui mesmo.” Disse Ruby, me fazendo corar.
O lugar estava lotado e meus pais estavam bem ali, de modo que eu não podia beijá-la. Eu me senti a pior namorada do mundo, pois estávamos juntas há horas e tudo o que trocamos foi olhares e sorrisos. Eu mal ousava tocá-la e a cada segundo ao lado dela, eu sentia a frustração tomando conta de mim.
“Eu prometo que amanhã eu volto sem meus pais.” Eu disse, ela riu e confirmou com a cabeça.
Ela era paciente e entendia muito bem minhas preocupações e receios. Nós fomos para o hotel aquela noite, minha mãe estava muito irritada para fazer qualquer comentário, de modo que quando chegamos lá, ela não trocou nenhuma palavra, apenas se trancou no quarto que dividiria com meu pai durante a semana, sem ao menos se despedir.
“Deixa sua mãe, Regina.” Meu pai disse, havíamos ficado para trás e estávamos caminhando pelo corredor do nosso andar. “Amanhã ela vai estar mais bem humorada, pois vai poder torrar meu dinheiro nessas lojas que ela tanto gosta.” Ele continuou.
Nós havíamos parado diante do meu quarto, ele me encarava com um sorriso no rosto. Não havíamos tido a chance de conversar a respeito de todas essas mudanças que estavam acontecendo. Eu não sabia se meu pai estava feliz em estar ali, se ele estava feliz em ter se mudado e se a decisão de recomeçar em outra cidade o incomodava. Antes que eu tivesse a chance de dizer ou perguntar qualquer coisa, meu pai falou.
“Sua amiga parece ser alguém muito interessante.” Disse ele. “Eu espero que um dia você se sinta à vontade em compartilhar a verdadeira história de vocês duas, mas, por ora, saiba que eu te amo e que a única coisa que eu quero é que você seja feliz.” Ele terminou de dizer e me beijou no rosto.
Ele deixou claro que já sabia sobre nós duas e que não se importava. Algo dentro de mim também dizia que minha mãe também já sabia e que ela, diferentemente do meu pai, se importava sim e não nos aceitava. Cabia a mim escolher como isso me afetaria.
Nos mudamos definitivamente para nossa casa em Nova York. Era uma bela casa em uma ótima vizinhança. A casa era muito maior do que a que tínhamos em Boston e se antes eu já me sentia uma garota privilegiada e rica, bem, morando em Nova York eu me sentia bem mais. O que era bem patético, pois tudo o que eu queria era viver uma vida calma ao lado de Ruby.
Eu comecei um curso de gastronomia meses depois e meu pai começou a trabalhar com sua nova equipe. No começo ele só reclamava, mas com o passar do tempo, ele abraçou a cidade como sua e já não mais ouvíamos reclamações. Ele se acostumou com o trânsito, com a loucura, com a multidão e eu me acostumei com a felicidade que aquela cidade me trazia.
Não houve um dia sequer que minha mãe não me questionasse sobre meu curso, sobre o que eu estava fazendo da minha vida e, principalmente, sobre Ruby. Eu nunca precisei dizer em voz alta que estávamos juntas. Não era algo que eu precisava dizer, nós deixávamos isso bem claro. Mas minha mãe também deixava claro que jamais nos aceitaria.
Meu pai arranjou um trabalho para ela, pois ele pensava que essa era a única forma de ela me deixar em paz, mas a autonomia de ter seu próprio dinheiro a tornou mais controladora e insuportável. Ela me ligava todos os dias durante o meu horário livre e marcava almoços em lugares distantes. O que me fazia perder algumas horas do meu dia e, como consequência, eu tinha pouco tempo com Ruby.
“Por que não almoçamos com o papai no trabalho dele?” Eu sugeri, estávamos indo para um restaurante tailandês, que era o mais distante do restaurante em que eu estava estagiando, o mais distante da escola onde eu fazia meu curso e, principalmente, mais distante de Ruby.
“Eu odeio aquele lugar e, além do mais, não se deve misturar trabalho com família.” Ela respondeu, enquanto um táxi estacionava ao nosso lado.
Nós entramos no carro e seguimos em silêncio para o restaurante. Eu a observei, ela estava muito elegante, como sempre. Seu novo trabalho exigia que ela andasse sempre arrumada, o que não era nenhum sacrifício, pois ela vivia para deixar claro para todos que ela tinha muito dinheiro.
“Eu espero que você se lembre que semana que vêm é o aniversário do seu pai.” Ela me disse, enquanto tirava da sua bolsa um pequeno espelho e retocava o batom de seus lábios.
“É, eu sei.” Eu respondi.
“Ele inventou que quer fazer uma festa no escritório. O que eu acho um absurdo, levando em conta a casa incrível que nós temos.”
“Eu acho que você deveria deixar o papai fazer o que ele bem entender.” Eu respondi, ela me encarou com seus olhos castanhos e eu senti como se ela pudesse atravessar meu corpo com aquele olhar.
“E eu deixo, não vou me intrometer nas decisões do seu pai. Mas de qualquer forma, nós vamos também dar uma festa particular na nossa casa, apenas para os amigos íntimos e importantes do seu pai. Será na sexta feira, então eu peço que você não marque nada e esteja presente.” Ela concluiu, o taxi parou no trânsito engarrafado, ela bufou irritada.
“Ruby e eu estaremos lá.” Eu respondi, ela me encarou, respirou fundo e pareceu ignorar o que eu havia dito. “Nós duas.” Eu continuei.
“Eu sei que você faz isso para me provocar e testar meus limites, Regina.” Ela disse. “Saiba que eu posso me dobrar por muito tempo antes de enfim quebrar. Eu não gosto dessa garota, eu não gosto dessa sua atitude. Eu posso engolir esse teu joguinho de querer brincar de casinha e desviar sua vida por completo. Você ainda é jovem, terá tempo o suficiente para voltar para o caminho certo. Mas saiba que essa sua amiga não vai te levar a lugar algum.”
“Ela não é minha amiga.” Eu disse e pude ver seu maxilar se contraindo, ela olhava fixamente para o trânsito a sua frente, sem se virar para mim. Eu engoli a seco, eu estava pronta para dizer em voz alta tudo o que estava atolado em meu peito. “Ela é minha namorada e você sabe disso e o que nós temos é forte o bastante para aguentar suas tentativas de nos separar.” Eu continuei, ela fechou os olhos lentamente, como se isso fosse fazer o mundo se apagar ao nosso redor. “Eu a amo mãe e nós estamos juntas.”
O táxi ainda estava parado, podíamos ouvir as buzinas, as vozes das pessoas, o barulho dos carros. A cidade estava viva do lado de fora, mas dentro daquele veículo algo morria. Uma relação de mãe e filha conturbada, complicada e doente se desfazia e eu sabia que para melhor. Eu simplesmente não podia deixar que ela me desviasse de tudo o que eu mais amava.
“Eu me esforcei muito para te dar o melhor, Regina. Eu queria que você fosse...”
“Mas eu não sou.” Eu respondi. “Eu jamais serei o que você quer que eu seja, mãe. Eu quero ser muito mais.” Ela me encarou, talvez esperando que eu dissesse algo a mais, mas eu estava cansada.
Eu abri a porta do táxi e desci do automóvel, olhei para a cidade ao meu redor, para todas as pessoas vivendo suas vidas e deixei que minha mãe fosse embora. Enquanto eu andava pelas ruas de Nova York, eu me lembrava das palavras que Ruby havia me dito antes de eu me mudar ‘Sua vida inteira está prestes a começar aqui.’ Eu acreditava nessa frase, eu acreditava nessa cidade, de modo que eu estava pronta para abrir mão de todos aqueles que me impediam de ser eu mesma.
Eu encontrei meu pai no escritório dele aquela tarde e anunciei que estava saindo de casa e que simplesmente não podia continuar debaixo do teto da minha mãe. Eu pude ver em seus olhos o quanto estava triste, mas ele entendia meu lado e entendia que eu precisava de todo o espaço necessário para enfim ganhar voo.
Nós almoçamos no escritório dele, que tinha uma vista incrível da cidade. Era apenas prédios e arranha-céus, mas por algum motivo aquela vista me acalmou. Nova York era a cidade mais louca e agitada que eu já havia conhecido e todas as pessoas que eu esbarrava pela rua pareciam ter algo mágico. Mágica e louca, era assim que eu descrevia a cidade que abriu as portas para minha felicidade.
Eu me virei para o meu pai, ele estava trabalhando em um de seus contratos, acho que ele já tinha esquecido que eu estava ali. No escritório dele, havia um retrato do meu avô, do qual eu nunca conheci, mas sabia todas as histórias dele, de modo que eu me sentia bem íntima dele de alguma forma.
“Pai?” Eu o chamei, ele abaixou os óculos de leitura e me encarou. “Qual é o seu maior arrependimento?”
Ele sorriu com a minha pergunta, encarou o contrato a sua frente e enfim me respondeu:
“Meu maior arrependimento foi não ter me esforçado o suficiente para entender seu avô.” Ele respondeu, eu franzi o cenho e sentei-me ao seu lado. “Eu digo isso porque ele tinha essa coisa de sempre comemorar o aniversário dele no trabalho. O que eu achava um absurdo e sempre o criticava por isso. Eu nunca fui em nenhum de seus aniversários e jamais soube o quanto isso o magoou, só descobri em seu leito de morte.”
Meu avô havia tido uma grave doença e apesar de todo o tratamento, o corpo dele não conseguiu lutar e ele morreu no hospital, coincidentemente, no mesmo dia em que ele nasceu. Meu pai estava lá, segurando a mão dele. Eu nasceria dois anos depois da sua morte.
“Eu descobri no dia em que ele morreu o motivo pelo qual ele sempre celebrava seu aniversário no trabalho.” Ele me encarou, sorriu e tentou não chorar. “Ele fazia isso porque ele era muito grato a todos que o ajudaram durante o ano e esse era o maior presente que ele podia pedir: a lealdade de seus empregados.” Ele concluiu. “Ele me revelou isso em seu leito de morte e eu pedi perdão pela minha ausência, ele apenas sorriu, tocou em meu rosto com seus dedos fracos e disse que eu sempre estive presente e então ele se foi.”
Meu pai concluiu a história e me encarou, eu entendi então o motivo pelo qual ele escolhera celebrar seu aniversário no escritório esse ano.
“Eu tenho que me esforçar mais para entendê-la, não é?” Eu perguntei, ele soltou uma risada e buscou pela minha mão, me fazendo sorrir. “Quer dizer, ela tem seus motivos para ser como é.”
“Sua mãe batalhou muito para ter tudo o que ela tem hoje, Regina.” Ele respondeu. “Você sabe bem disso.”
Era verdade, minha mãe sempre foi muito pobre, mas muito esforçada, conseguiu uma bolsa em uma das melhores universidades porque batalhou muito por isso e foi lá que ela conheceu o meu pai. Foi lá também que ela engravidou de mim e, mesmo grávida, conseguiu concluir o curso. Ela trabalhou alguns anos como advogada, mas eu era muito pequena e, segundo ela, as babás não eram confiáveis, de modo que ela largou tudo para cuidar de mim. Ela jamais jogou isso na minha cara, jamais eu a ouvi dizer que havia cometido algum erro no passado, assim como também nunca a escutei dizer que ela se orgulhava do que havia feito e talvez isso fosse algo que eu nunca saberia.
“Sua mãe te ama, Regina.” Ele disse. “Do jeito dela.” Ele continuou.
“É, talvez ela ame.” Eu continuei. “Mas eu acredito que nesse momento, nós duas precisamos dessa distância e desse espaço uma da outra.”
Ele assentiu e me deu algum dinheiro para que eu ficasse em um hotel até o fim da semana. Era um hotel barato perto da lanchonete da vó de Ruby, havia apenas um quarto e um pequeno banheiro, mas meu plano era achar um pequeno apartamento até o final da semana. Ruby havia insistido que eu fosse ficar com ela, mas acontece que ela morava com a avó e eu não queria invadir a privacidade das duas.
“Eu não acredito que você se livrou das garras daquela mulher.” Ruby disse, assim que nós entramos no pequeno quarto.
Eu fechei a porta atrás de mim e a observei caminhar pelo quarto, enquanto ela lentamente tirava o sobretudo vermelho que estava usando e o deixava cair pelo chão.
“Eu também não acredito.” Eu respondi. “Mas bem, eu não acho que ela saiba ainda. Eu só avisei ao meu pai, voltei em casa para pegar algumas roupas e vim direto pra cá.” Eu completei.
Ela se sentou sobre o colchão da cama, me fitou de cima a baixo e quando seu olhar subiu novamente, encarando meus olhos, ela mordeu lentamente seus lábios, deixando explicito o que estava esperando que eu fizesse. Eu caminhei até ela, assim que eu me aproximei, se deitou sobre o colchão e eu me apoiei sobre as minhas mãos, enquanto ela desabotoava minha camisa de seda.
“Foi por isso que eu te convidei para morar aqui.” Ela disse, assim que desabotoou o último botão.
Eu me virei, deitando de costas e permitindo que ela ficasse por cima. Ela me beijou delicadamente nos lábios, criando um caminho pelo meu pescoço até chegar aos meus seios.
“Eu queria ter você só para mim.” Ela continuou, descendo seus beijos até a minha barriga.
Eu fechei meus olhos, senti seus lábios úmidos contra a minha barriga, senti seus longos cabelos tocando a minha pele e seus dedos caminhando por entre o fecho da calça jeans que eu estava usando.
Nós fizemos amor naquela cama de hotel e aquela noite definitivamente foi uma das melhores das nossas vidas. Eu acordei no meio da madrugada, com ela completamente nua ao meu lado, encostada contra o meu corpo. Eu passei meus dedos sobre os seus cabelos negros, permitindo que eu tivesse acesso ao seu pescoço. Ela se encolheu ao sentir meus beijos e se virou para mim.
“Eu pensei que você estivesse dormindo.” Ela me disse, contornando meus lábios com a ponta de seus dedos, antes de me beijar.
“Eu não consegui.” Eu disse. “Acho que você me acordou totalmente.” Eu continuei, ela riu e se aninhou mais junto a mim. “Ou talvez seja todo esse sentimento de liberdade e felicidade.”
“Isso não deveria ser bom?” Ela me questionou.
“Sim, deveria sim. É que eu nunca senti isso e não estou sabendo o que fazer com tudo o que sinto.”
Ela sorriu e me beijou, fazendo com que eu me calasse. Em seguida, ela se afastou, permitindo que eu visse seus olhos.
“Não tem nada de errado em ser feliz.” Foi o que ela me disse. “Apenas seja feliz, não se questione tanto.”
Ela me beijou uma última vez, eu a vi fechar os olhos e adormecer diante de mim. Naquela noite, eu me permiti ter aquela felicidade que eu tanto achava motivos para não pegar com todas as minhas forças. No decorrer da semana, nós duas procuramos junta um apartamento para mim e encontramos um por um ótimo preço e próximo também onde Ruby morava.
Eu me mudei para lá e Ruby passou a morar comigo, tudo o que tínhamos naquela casa era um colchão de casal no único quarto do apartamento e uma geladeira. Mas passávamos tanto tempo na rua e fazíamos todas as refeições na lanchonete da vó de Ruby, que não ligamos para a falta de móveis. Meu pai foi nos visitar naquela segunda feira, ele trouxe cafés e pãezinhos doces e ficou bem chocado por não termos uma mesa.
“Eu mesmo vou comprar todos os móveis.” Ele disse, olhando para o vazio que era nossa sala. “Agora mesmo.” Ele continuou. “Eu vou sair daqui e ir comprar esses móveis. Meu deus, Regina, eu não deixei você sair de casa para morar em um quadrado com nenhum móvel!” Ele concluiu e Ruby caiu em uma risada.
“Sr. Mills, o único móvel que nós precisamos está no quarto.” Ela respondeu a ele, se referindo ao colchão de casal.
Eu quis morrer com essa observação e devo ter corado, porque o meu pai olhou para mim espantado e simplesmente começou a rir enquanto tocava em meu ombro.
“Eu acredito que sim, mas pode deixar que esse será meu presente a vocês duas.” Ele continuou. “Não se esqueçam, eu quero vocês duas no meu aniversário amanhã.”
“Eu não acho que seja uma boa ideia, pai.” Eu disse. “Quer dizer, mamãe deve estar uma fera comigo.”
“Sua mãe por si só já é uma fera.” Ele respondeu. “Mas vamos fazer o seguinte. Regina, você me apareça para tomarmos um café no meu escritório. Sua mãe vai estar lá e será uma chance de vocês duas conversarem. E você, Ruby, pode aparecer mais tarde.” Ele continuou e se despediu de nós duas.
Eu encarei Ruby assim que meu pai saiu, ela estava comendo um dos pãezinhos doce.
“Então...” Eu comecei a dizer. “O que você acha? Acha que devemos ir?” Eu continuei.
“Eu acho que você deveria ir, Regina. Eu não sou muito fã da sua mãe e ela claramente me odeia, mas eu não vejo motivo para nossa relação atrapalhar a convivência de vocês duas. Além do mais, você está bem agora. Nós estamos bem agora, não se afaste tanto dela assim.” Ela disse, me beijando com sua boca melada de creme.
Depois do meu curso, eu passei na lanchonete da vovó. O lugar estava cheio e com uma funcionária a menos. Eu me ofereci para ajudar a servir as mesas, mas Ruby insistiu que eu fosse para a casa descansar. Já era tarde da noite quando eu resolvi ir para casa, como era perto, eu fui a pé. Eu parei em um cruzamento, o sinal estava fechado para os pedestres, meu celular tocou e eu o atendi. Era Ruby.
“Hey, vê só. Eu vou ter que dormir aqui, esse lugar está uma zona, eu preciso organizá-lo com a vovó, tem problema?” Ela perguntou.
“Não, é claro que não.” Eu respondi. “Você quer que eu volte para dormir com você ai?” Eu perguntei.
“Não, tudo bem. Eu acho que você deveria aproveitar que está sozinha e pegar um táxi para a casa dos seus pais. O que acha disso?” Ela perguntou, eu revirei os olhos, enquanto encarava o sinal fechado, esperando ele ficar verde para mim.
“Eu acho que eu vou seguir seu conselho.” Eu respondi.
“Ótimo! Boa noite, eu amo você, tenha cuidado.” Ela disse, eu respondi que a amava de volta e me preparei para atravessar a rua.
Em um minuto, eu estava no meio da rua tentando chegar ao outro lado e no minuto seguinte, um carrinho amarelo, desgovernado, atravessou o cruzamento e me atingiu em cheio. Tudo o que eu ouvi foi a buzina fraca, o barulho do carro freando contra o asfalto e a silhueta de uma mulher grávida.
Minha visão estava muito embaçada e o mundo girava, eu a vi se ajoelhando diante de mim, tive tempo de ver seus cabelos loiros caindo pelos ombros e sua barriga proeminente. Eu me esforcei para ficar acordada, mas foi impossível, eu simplesmente apaguei no asfalto sentindo aquela mulher estranha segurando minha mão, enquanto me dizia que tudo ficaria bem.
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