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20 Capítulo 20


Capítulo 20

Tudo em Emma era uma contradição de sentimentos e sentidos. Enquanto eu a beijava, ainda no elevador, eu sentia sua mão fria percorrendo minhas costas e seu hálito quente em meu pescoço, assim que quebramos o beijo. Sentia sua ansiedade, pela forma que ela me olhava, uma ansiedade da qual eu não podia confirmar se era baseada em um desejo de estar comigo aquela noite ou de ir embora. Eu sentia tudo, sua vontade de ir e a de ficar, seus beijos carregados de desejo e ao mesmo tempo beijos que prenunciavam uma despedida.

Ela poderia me beijar a qualquer instante e se distanciar, mentalmente ou fisicamente e talvez eu não soubesse qual de suas partes havia me abandonado primeiro. Eu sabia o risco que estava correndo. Permitir que ela errasse significaria permitir também que eu me deixasse ser usada como uma folha de rascunho e talvez desse romance não saísse um belo esboço, apenas rabiscos em uma folha em branco, mas eu estava cansada do vazio.

Entramos no meu apartamento, os abajures com seus tons melancólicos iluminavam a sala e nada ali parecia mais denso do que tudo o que cercava Emma, enquanto eu a levava até o meu quarto. Não era permitido pensar em todas as outras mulheres que eu havia trazido ali, pois eu iria comparar e me certificar que Emma estava fadada ao fracasso. Tantos jantares, seguidos de conversas pré-selecionadas, beijos mornos que evoluíam para algo que clamava para uma transa entre quatro paredes.

Minha última namorada odiava meus lençóis de seda. Segundo ela, o algodão serrando por entre suas pernas era o que a excitava e eu me certificava de que não houvesse nenhum tecido do qual poderia apagar nosso fogo. Segurei-me tanto aos objetos menores, que não percebi que enquanto eu dobrava e guardava os lençóis de seda, eu também estava me guardando e me mantendo cada vez mais distante dela.

Emma não parecia ligar para as sedas, algodões, luzes acesas ou o frio causado pelo ar condicionado ligado. Ela simplesmente sentou sobre o colchão, as pernas abertas, permitindo que eu me aproximasse, suas mãos subindo pela minha bunda em direção a minha cintura e me puxando para si, beijando minha barriga, por cima da minha blusa. Fechei os olhos, passei minhas mãos pelos seus cabelos, entrelaçando os fios em meus dedos, os puxando de modo a afastá-la de meu corpo e inclinar o seu rosto para encarar os meus olhos.

“Você não passará a noite comigo, não é mesmo?” Eu perguntei, vendo-a morder seus lábios e negar com a cabeça. Eu quis questionar o motivo, quis suplicar, mas se ouvisse mais uma frase de seus lábios, provavelmente eu desistiria de tudo. “Mas você gostaria de passar a noite comigo?” Continuei e não consegui segurar o que estava preso em meu peito.

“Sim, eu quero.” Ela respondeu, deslizando para trás, de modo a me dar espaço para sentar sobre suas pernas. “Eu quero muito.” Continuou e isso foi o suficiente.

Eu ignorei todos os pontinhos de insegurança que piscavam em minha mente, permiti que seus beijos me levassem a um torpor do qual eu não gostaria de sair por um bom tempo. Senti seus lábios em meus seios, ainda por cima da blusa e fechei os olhos, deixando-a tomar conta do meu corpo e dos meus desejos. Imaginei-me sendo preenchida por inúmeros pontos, a cada beijo que recebia em meu corpo, em meus seios, em meus lábios. Inúmeros pontos que ela conectaria no final, mas que no momento estavam soltos, esperando um sentido.

Seus dedos ágeis desabotoaram minha blusa, tirando-a em seguida e se concentrando na minha pele, agora exposta. Era impossível não me entregar a urgência que meu corpo tinha de sentir o dela. Eu me mexia em seu colo, sentindo meu interior pulsar a cada segundo, chegava a ser ridículo o quanto um toque era capaz de me acender dessa maneira. Contudo, mais ridículo seria se eu não ouvisse essa urgência e me deixasse levar por uma insegurança que, ao contrário de Emma, não me satisfaria.

Meu sutiã foi jogado ao chão e isso pareceu ser tudo o que ela precisava para seguir em frente. No minuto seguinte, eu estava sobre seu corpo, toda aquela contradição de sentidos ali, em um só corpo, o doce, o amargo, o quente e o frio. Tudo isso em Emma, tudo isso em cada beijo, toque, frases ditas uma no ouvido da outra, mas no final, quando atingíamos o clímax, não havia nenhuma contradição. Só havia nós duas, conectando algo que, durante toda a preliminar, parecia solto, parecia aleatório, mas que nos levava a um grande momento que fazia parecer existir só para nós duas.

Ela deitou sobre mim, seu rosto, completamente suado, em meu pescoço. Nossa respiração era tudo menos compassada, estávamos exaustas, suadas, ainda tentando nos recuperar, mas ao mesmo tempo desejando estar para sempre nesse estado. Ela inclinou seu rosto, para que lhe encarrasse, desci meus dedos pelo seu rosto, até seus lábios e os beijei. Ali estava o doce e o amargo. Em uma mistura agridoce tão perfeita, que eu provavelmente poderia tentar reproduzi-la na cozinha, mas falharia. Pois era um gosto que pertencia apenas a Emma e, ao mesmo tempo, a mim.

“Você sabe o que aconteceria se o Sol explodisse nesse exato momento?” Ela perguntou, eu neguei com a cabeça, sua mão agora em meu rosto e seu olhar sem ousar desviar do meu. “Nós demoraríamos oito minutos e meio para sentir nada além do frio da morte.”

“Faz parecer uma eternidade.” Eu respondi, fazendo-a rir.

“O que você faria com oito minutos e meio de vida?” Ela perguntou, se movendo e se aconchegando em meu corpo.

Eu olhei para o teto, lembrando-me dos meus minutos de luto e dos meus minutos de descanso. Fechei meus olhos, tentando acalmar todos os sentimentos que vinham ao pensar nos mortos que eu ainda carregava comigo e retornei a abri meus olhos, pois eu tinha a resposta para essa pergunta, bem ali nos meus braços, bem ali na minha frente.

“Eu sentiria cada raio de Sol, até o último segundo. Deixaria que o frio tomasse conta de mim, me sentindo grata por ter conhecido, pelo menos por oito minutos e meio, o calor do Sol.”

Ela sorriu, beijou-me os lábios, tocou em meu rosto e se aninhou mais ao meu corpo. Eu entendi que ela ficaria comigo por mais oito minutos e meio e então eu estaria sozinha, sentindo o frio que a ausência de seu corpo causaria em minha cama. Fechei meus olhos, senti seu corpo se juntando ao meu, senti todos os seus perfumes, todos os seus gostos ainda na ponta da minha língua, abracei-a o máximo que eu pude.

Se ela tivesse que ir, que fosse sabendo que eu a queria por perto. Se ela tivesse que ficar, que ficasse sabendo que eu a deixaria decidir qual seria o melhor dia para isso. Eu não poderia forçá-la, moldá-la para as minhas vontades e desejos. Ela já estava me oferecendo tudo o que podia e isso incluía seus últimos raios de Sol.

Entrelacei meus dedos em seus cabelos dourados, senti o perfume que eles exalavam. Eu sabia que faltava pouco agora, ela a qualquer momento levantaria e me deixaria a deriva. Todavia, eu não me sentia sem uma âncora. Eu não me sentia abandonada. Eu me sentia ancorada em um porto seguro, quente, estável e que me dava a liberdade para ir e vir, quando eu quisesse.

Emma não estava ancorada naquele porto. Ela era o porto, preso as margens de um mar fluido e turbulento, como suas emoções. Violento e impreciso, como suas ações. Todo um mar capaz de me trazer todos os tipos de reações, mas que ainda assim eu queria estar perto, porque, por algum motivo, eu me sentia forte ao seu lado, eu me sentia capaz de navegar por e através dela.

Ou talvez eu apenas estivesse cega o suficiente e não conseguia me dar conta de que, talvez, depois do horizonte eu encontraria um Cabo das Tormentas. Durante aqueles oito minutos e meio, eu me desliguei para as consequências de mantê-la em minha vida. Eu me desliguei de todas as perguntas que eu ainda tinha em minha mente. Eu me desliguei do frio, que viria em breve e me prendi ao sabor agridoce que eu ainda mantinha em meus lábios e que eu jamais poderia associar a mais alguém, além dela.