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21 Capítulo 21


Capítulo 21

Adormeci nos braços de Emma e acordei sem ela. No primeiro momento, a ausência de seu corpo ao lado do meu pareceu estranha, mas o calor que ainda havia no seu lado da cama me bastou pelos segundos seguintes. Ainda era madrugada, eu jamais saberia o quanto tempo ela ficou comigo, ainda assim, isso me fez pensar no que ela estaria fazendo naquele exato momento. Se estaria pensando em mim, se também estaria sentindo algum vazio ao seu lado. Fechei os olhos, agarrei ao travesseiro que ela havia usado e inalei ao máximo seu perfume, pois talvez assim eu pudesse voltar a dormir.

No breve intervalo entre a vigília e o sono, eu senti um movimento ao meu lado. Abri os olhos, o sono me consumindo aos poucos quase me impediu de identificar Emma ao meu lado. Tentei não pensar a respeito, tentei voltar ao dormir, mas minha mente se esforçava para entender sua presença, pois por um instante sua ausência já parecia fazer parte de mim.

“Continua a dormir.” Ela disse, se aninhando ao meu corpo, mas aos poucos eu me senti despertando. Seus braços me envolveram e com uma de suas mãos ela acariciou meus cabelos. Lutei para permanecer com os olhos abertos, lutei para perguntar o porquê de ela não ter me abandonado. “Eu sei.” Continuou Emma, talvez entendendo minhas dúvidas. “Eu tentei te deixar. Eu cheguei a me levantar e ir até a sala. Sentei no sofá e eu senti algo que nunca tinha sentido antes.”

Meus olhos estavam fixos nos dela, mas o sono me consumia e eu não ousei lutar contra ele. Senti seus dedos nos meus fios de cabelo, senti seu hálito quente em meu rosto e, mesmo com sono, ouvi cada palavra que ela me dizia. Para Emma, o sexo era apenas mais uma troca, como um beijo, um abraço, um aperto de mão. O sexo não representava mais do que isso, não havia mais significado por trás. Não havia importância alguma. Ela poderia transar com qualquer um e jamais sentir algo que não fosse uma satisfação sexual, mas, segundo ela, havia outras formas de alcançar um prazer.

Todavia, aquela noite, ela sentiu como se o sexo entre nós duas fosse algo muito maior do que qualquer outra coisa que ela já viu ou sentiu. Ela não soube explicar e eu naquele estado não saberia entender. O que eu sei é que ela não conseguiu se distanciar, pela primeira vez o seu corpo e os seus pensamentos sentiram falta daquele contado. Dos abraços, dos beijos, da mão deslizando pelos meus cabelos ou do simples fato de olhar para mim.

Eu acordei e lá estava Emma, aninhada ao meu lado. Seus fios de cabelos dourados espalhados pelo seu rosto e a boca semiaberta. Sentei-me na cama e tentei relembrar de cada palavra que eu ouvi, mas nenhuma explicação importava mais. Emma havia escolhido voltar e ficar ao meu lado. Não contive um sorriso e me aproximei dela para um beijo. Ela se espreguiçou na cama, o rosto ainda amassado e o olhar sonolento não eram capazes de tirar a beleza de seu rosto.

“Acho que nós deveríamos dormir por mais alguns dias.” Ela disse, retribuindo o beijo e se afundando no travesseiro.

Deitei-me ao seu lado e busquei por sua mão, entrelaçando meus dedos nos dela, observando o contraste de nosso tom de pele.

“Eu acredito que não.” Respondi, beijando seus beijos e expliquei para ela que eu precisava ir para o restaurante.

Ela resmungou e permaneceu na cama quando eu me levantei. Olhei para ela uma última vez, antes de entrar no banheiro. Decorei cada traço de seu corpo e desejei que ela jamais sumisse da minha vida. Pensei no Sol, explodindo a milhares de distância e, em poucos minutos, talvez minha vida se extinguisse de mim. Isso me fez pensar no quanto somos momentâneos e que oito minutos e meio podem virar segundos se não aproveitarmos cada um deles.

Desisti da minha ducha, voltei para a cama e me aninhei novamente a Emma. Ouvi sua respiração lenta, senti seu perfume e me permiti usufruir dessa pequena eternidade ao seu lado. Não soube dizer quanto tempo dormimos, desliguei meu celular e nós duas passamos aquele dia enfiadas no meu apartamento. Comemos na varanda, coisa da qual eu nunca tinha feito e vimos a tarde indo embora.

Conversamos sobre todas as coisas e fizemos amor por horas a fio. Não lembro a última vez que senti tanto tesão por alguém, mas ela parecia insaciável e eu não conseguia simplesmente deixá-la ir. Conversamos sobre Elsa e Anna, sobre como parece que o destino estava querendo nos unir de uma forma ou de outra. Enquanto estávamos deitadas no tapete da sala, completamente nuas enroladas a um lençol, ela me contou sobre um projeto que ela havia iniciado na Califórnia.

“Se chama ‘Projeto Procurando Pela Garota.’ Anna que deu o nome.” Ela explicou, brincando com meus dedos. “E não tem nada sexual nisso.”

“Qual é a intenção do projeto então?” Eu perguntei, me virando em seu corpo e acariciando seu rosto.

“Acontece que eu estava sem inspiração alguma para escrever. Desde que eu fiz o quadro. O seu quadro. Eu não conseguia produzir mais nada. Era como se você tivesse drenado meu talento.” Ela respondeu.

“Não pareço ser uma musa assim tão eficaz.” Respondi, ela riu e se inclinou para me beijar.

“Eu estava cheia de conflitos internos para responder.” Continuou. “É claro que eu não teria cabeça para produzir nada. Enfim, Anna disse que eu deveria sair por ai procurando uma garota que me fizesse sentir o que você um dia fez.”

Senti meu estomago revirar, a ideia de que Emma pudesse ter uma outra musa que não fosse eu, de algum modo, me fazia sentir ciúmes e inveja de todas essas garotas que passaram pela sua vida.

“Você saia por ai procurando qualquer garota?” Eu perguntei.

“Não exatamente. Não qualquer garota, alguma que chamasse a atenção, por algum motivo ou que simplesmente falasse diretamente comigo. Foi assim que eu conheci Ingrid.”

“A tia de Elsa? Ela é uma de suas garotas?”

“Não exatamente, conheci ela em um café. Ela estava na cidade para uma reunião na editora. Ela havia feito um pedido, mas na hora de pagar havia esquecido a carteira. Eu estava atrás dela na fila, me ofereci para pagar e ela aceitou. Sentamos em uma mesinha, conversamos, enquanto ela me falava sobre a sua vida, eu senti a necessidade de desenhar qualquer coisa. Então, eu a desenhei no copo de café. Ela ficou tão feliz e surpresa com o meu talento. Nem foi lá grande coisa, mas ela me deu seu cartão e disse que ficaria até o fim da semana e que eu deveria passar na filial antes que ela fosse embora. Eu fui, ela me apresentou algumas pessoas e eu contei a eles sobre a ideia do livro. Acredite, eu jamais teria conseguido esse contrato sem a ajuda de Ingrid.”

“Ela parece ser alguém bem influente.”

“Ela é. Ela consegue exatamente tudo o que quer. Inclusive me fazer usar um vestido ridículo que mal cabe em mim, mas já nos acertamos quanto ao vestido. Pelo menos eu acho que sim. Ela disse que tentará ajustá-lo para o meu tamanho.”

“Você parece ter muita influência sobre ela.” Eu disse, não percebendo o quanto minha voz foi carregada de ciúmes sem fundamento.

“O que isso quer dizer?” Perguntou Emma, olhando bem para mim.

“Nada, só estou dizendo. Eu só a conheci uma vez e ela foi bem direta. Me deu uma lista de coisas que queria para o casamento de Elsa. Eu fico imaginando o quão bem você a conhece para exercer tamanho poder.”

“Eu a conheço o suficiente. Isso tudo é fachada. Ela precisa do casamento perfeito. Se a sua sobrinha lésbica decide não apenas se casar, como também dizer para todo o mundo, tudo tem que ser perfeito. Ingrid vive de fachada. Ela precisa mostrar que tudo ao seu redor é perfeito.”

“Fale das outras garotas.” Eu disse, querendo fugir rapidamente do assunto Ingrid.

“As garotas do projeto? Não tem muito o que falar. Às vezes eu mal sabia seus nomes. Eu olhava para alguma garota interessante, sentia a necessidade de desenhar e eu simplesmente desenhava. Era uma vontade que surgia do nada e ia embora com a mesma rapidez. Eu sempre estava atrás de alguma garota. As vezes acontecia de eu precisar delas por mais tempo. Então, eu ia atrás.”

“Você ia atrás das garotas? Não acha um pouco doentio?” Eu perguntei, fazendo-a rir.

“Não. Quer dizer, acho que não. Eu explicava a elas, pelo menos para aquelas que queriam saber e elas achavam incrível poder ser musa por algum tempo. Eu tinha esse pequeno estúdio onde eu desenhava, levei algumas garotas até lá. Elas ficavam andando pelo lugar, conversando, bebendo alguma coisa, enquanto eu criava. Era divertido, quando eu não precisava mais delas, elas iam embora. Teve um dia que eu percebi que eu já não precisava de nenhum sentimento externo, eu estava curada do meu bloqueio.”

“Ai você parou de procurar as garotas?” Perguntei, olhando para ela que fitava o teto, enquanto acariciava minhas mãos. “O quão chato ficou seu processo criativo?”

“Nossa, bem entediante.” Ela respondeu, rindo. “Mas bem mais produtivo. Eu tenho um estúdio aqui também, talvez eu te leve até lá.”

“Então eu posso voltar a ser sua musa?” Eu perguntei.

“Você nunca deixou de ser, Regina.” Respondeu e se aproximou para um beijo, senti o gosto dos seus lábios e o tecido do tapete sobre minhas costas nuas, quando ela me levou gentilmente ao chão.

Nenhum assunto mais foi tocado aquela tarde, todos os assuntos se silenciaram nos beijos e nos perdemos no contato de nossos corpos. Eu não conseguia me sentir como sua musa. Para dizer a verdade, eu sequer sabia o que isso significava. Porém, eu me sentia como sua garota, sentia como se ela tivesse me encontrado e me sentia, em parte, como uma obra de arte em suas mãos.

O Sol não mais explodiu aquele dia, não senti o frio que a ausência de seu corpo causava em mim. Todavia, eu sentia, a cada vez que minha pele roçava na sua, que talvez a qualquer momento ela fosse embora e eu ficaria à deriva no Universo. Um Universo imenso, vazio e solitário, mas que me empurrava para ela todas as vezes que eu mais precisava. Então, eu ignorei todas as inseguranças que ainda restavam em mim e deixei que a noite seguisse. Deixei que ela me escolhesse entre tantas outras garotas ou que me deixasse livre, embora eu já estivesse completamente presa a ela.