Instruções

19 Capítulo 19


Capítulo 19

Estacionei meu carro na rua de Emma, desci do automóvel e caminhei pela calçada que uma vez foi tomada por pétalas de rosas vermelhas. Olhei agora para o asfalto cinza e para a falta de cor que ali havia. Caminhei por onde antes havia cor e vida e senti falta das pétalas, do vermelho e do perfume daquele dia. Na janela, onde Emma estava aquela noite, não era possível ver nada, além das cortinas que o vento levava para dentro e para fora.

Toquei a campainha de seu andar, esperei que alguém atendesse o interfone e anunciei minha presença. Era a voz de Anna, que respondeu que Emma não estava, mas pediu que eu subisse para que anotasse o endereço de onde ela se encontrava. Obedeci, entrei no elevador e trouxe de volta as memórias daquela noite, inclusive aquelas que eu preferia esquecer.

Já no andar de Emma, segui até o seu apartamento, sendo recebida por Anna, que mandou eu entrar e esperar um momento. Sentei no sofá, pensei nas luzes do Norte que Emma me mostrou e fui surpreendida por uma pessoa que saiu do quarto.

“Regina Mills?” Olhei para a pessoa que, para minha surpresa, era Elsa. Levantei-me para cumprimentá-la. “O que faz aqui?”

“Ahh...” Eu comecei a dizer, juntando os pontos, enquanto Anna se aproximava com um pedaço de papel em mãos.

“Ela é uma das garotas do projeto de Emma.” Respondeu Anna, rapidamente. Elsa olhou para mim, o cenho franzido e depois para Anna, ela não parecia entender nada. Eu estava tão confusa quanto ela.

“Eu não sabia que Emma havia recomeçado o projeto.” Respondeu Elsa, voltando a si, mas ainda com um olhar um pouco confuso. “Bem, Nova York parece ser muito pequena mesmo. Anna, essa é a chef de cozinha do restaurante onde daremos nosso jantar de noivado.”

“Ai, meu deus.” Anna respondeu, suas bochechas corando enquanto ela me fitava. “Eu não acredito que Emma dormiu com a nossa chef!” Continuou e girou, se jogando no sofá, as mãos em frente ao rosto.

Eu permaneci onde estava, confusa demais para responder ou perguntar qualquer coisa. Elsa sorriu para mim e não parecia nada constrangida, ao contrário de sua noiva que parecia querer abrir um buraco e sumir da face da terra.

“Eu realmente não sei do que vocês duas estão falando quando se referem a tal projeto, mas, na verdade, Emma e eu nos conhecemos de longa data.”

Anna me encarou, o cenho franzido, como se tentasse ver algo em meu semblante que ultrapassasse a minha pele ou coisa do tipo. Eu não me mexi, deixei que me analisasse, até que ela se levantou, caminhou em minha direção e sua boca se abriu, duas, três vezes, até que sua mão veio em direção ao meu rosto e parou poucos centímetros.

“Ai, meu deus, a Rainha.” Ela disse e seu rosto se tornou tão branco que eu pensei que ela fosse desmaiar ali mesmo.

“Não pode ser.” Elsa disse, baixinho, me olhando e dessa vez eu quis abrir um buraco e desparecer.

“É a segunda vez que eu ouço falar dessa Rainha e estou começando a ficar incomodada por não saber mais a respeito.” Eu disse, Elsa olhou para Anna e as suas assentiram.

“Acredito que isso seja com você.” Elsa disse, se virando para Anna e se aproximando dela para um beijo, despedindo-se logo em seguida. Eu fiquei ali, parada no meio da sala, Anna abraçava a si mesma e olhava para mim com uma espécie de devoção e choque.

“Você quer que eu vá embora?” Perguntei, olhando para o papel com o endereço onde Emma estava e desejando que ela respondesse que sim, pois eu sentia como se nada ali fizesse sentindo, nem eu mesma.

“Eu não sei.” Respondeu, pausadamente, ainda parecendo distante. Ela andou pela sala, se jogou no sofá e desviou o olhar de minha direção. “Eu não pensava que existia de fato alguém por trás do quadro.” Continuou. “Quer dizer, não depois do que Emma me disse, mas bem, ela não revela tanto assim.”

Eu não respondi, pois não parecia que ela estivesse falando comigo e sim conversando com um fantasma ali na sala. Seu olhar veio em minha direção, ela se encostou contra o sofá, respirou fundo, imaginei se ela temia respirar o ar de Nova York, como muitos temiam.

“Foi graças ao quadro da Rainha que eu encontrei Emma pela internet. Na verdade, um investigador particular. Não havia vestígio algum dela, só quando ela fez o cadastro no site.” Ela disse, eu assenti, temendo que qualquer pergunta a fizesse parar de falar. “Eu já estava procurando-a por algum tempo, mas era como se ela não existisse. Por fim, lá estava seu perfil no ebay, batia com o pouco que eu tinha sobre ela. Eu dei o lance no quadro, pois era a única forma de obter contato e conseguir seu endereço. Eu teria que secar toda minha conta bancária para conseguir pagar o quadro, mas, de qualquer forma, eu só precisava entrar em contato pessoalmente com ela. Na semana seguinte, eu estava pegando um voo da Califórnia para cá, parecia tudo surreal demais.”

“Por que você estava procurando-a?”

“Era meu dever. Eu não podia deixar que ela morresse sem rever a filha.”

“A mãe dela?” Eu perguntei, sentando-me enfim no sofá ao lado dela. Ela assentiu, se virou para mim, tirou a mexa ruiva de frente dos olhos e continuou a falar.

“Ela te contou sobre ela?” Eu neguei com a cabeça, mas Anna não parecia querer esconder nada. “Ela te contou sobre mim?”

“Vocês são amigas. Você a ajudou com o livro.” Eu respondi. “Você trabalhava na mesma escola que ela fazia serviços voluntários. É tudo o que eu sei.”

“Você sabe mentiras.” Ela respondeu. “Bem, a parte da escola é verdade. Emma trabalhou alguns meses na mesma escola que eu dava aulas. Ela dava aulas de pintura para as crianças e eu ajudava com suas ideias. Emma passou por um bloqueio criativo e tanto, enquanto esteve na Califórnia. Sua mãe e eu a tiramos desse estado.”

“Então, você a conheceu pois estava procurando-a. Eu entendi essa parte. Você conhecia a mãe dela? Foi isso?”

“Ah, não, a história é bem mais complicada que isso.”

“Você quer me contar?” Eu perguntei, temendo estar sendo intrometida demais, mas Anna não me poupou de nenhum detalhe de sua história com Emma e de como de fato elas se conheceram.

Emma teve um passado muito mais sombrio do que eu suspeitava e Anna, de certa forma, a salvou desse passado, lhe dando um novo futuro. A mãe de Anna era caloura e estudava em uma universidade comunitária de uma cidadezinha da Califórnia. Seu nome era Vita e ela tinha apenas 18 anos quando conheceu o pai de Emma, que alguns anos depois casaria com a mãe de Anna e se tornaria então seu padrasto.

Vita, mãe de Emma, e seu pai, que era muitos anos mais velho, se envolveram de uma forma romântica e extremamente problemática. Anna não soube me contar os detalhes, só sabia o que seu padrasto havia lhe contado, o que não era muito. Acontece que Vita tinha seus problemas familiares e psicológicos. Ela morava com uma tia, que não era lá uma boa pessoa e lhe expulsou de casa assim que descobriu a gravidez precoce da menina.

O pai de Emma, por outro lado, também não ficou do seu lado e exigiu que Vita abortasse a criança, pois a última coisa que ele queria era um bebê e gastos que atrapalhariam sua carreira em ascensão. Vita não concordou e lutou para ficar com a criança, mas durante sua gravidez todos os seus problemas psicológicos se intensificaram e sua saúde mental, já tão abalada, piorou nos meses seguintes.

Ela precisou ser internada, sua tia consentiu essa intervenção e permitiu que o pai de Emma arcasse com todos os gastos. Era o plano perfeito para ele, pois, uma vez a garota em uma clínica psiquiátrica, ele poderia fazer com que ela abortasse a criança e saísse de sua vida. Entretanto, mesmo com todo suborno, nenhum médico se atreveu a interromper uma gravidez já tão avançada.

Vita conseguiu seguir com a gravidez, mas a cada dia que se passava, sua sanidade lhe deixava pouco a pouco. O padrasto de Anna fez de tudo para que sua saúde piorasse, lhe internou em uma clínica que não lhe dava toda a assistência, garantia que os remédios não fossem administrados segundo as prescrições dos médicos e conseguiu subornar todos os cuidadores, a fim de que Vita se perdesse dentro de sua própria mente.

Nos últimos meses, antes de Emma finalmente nascer, ele a tirou do sanatório, a levou para um lugar que nem mesmo ele sabia. O plano era se livrar da criança, vendê-la ou abandoná-la em qualquer lugar que fosse. Porém, uma noite, enquanto os dois estavam hospedados em um hotel barato de beira de estrada, Vita conseguiu fugir e correu durante toda a noite, até parar no posto de gasolina, onde deu à luz a Emma.

Ela tentou pedir ajuda, tentou caminhar até a estrada e pedir socorro, mas era tarde da noite. Não havia ninguém no posto ou na estrada e o pai de Emma conseguiu alcançá-la, levando-a de volta para o hotel e fugindo dali, deixando Emma para trás. Vita teve sérias infecções devido ao parto e sua saúde mental simplesmente se esgotou depois desse episódio. Ela passou a viver em um estado catatônico, o que para o pai de Emma foi sua salvação, pois ela jamais contou sobre o bebê.

Anos depois, ele se casou com a mãe de Anna e seu segredo sombrio viveu por anos escondido. Até que um dia, a mãe de Anna resolveu mexer nos documentos do marido, encontrando inúmeras contas do hospital onde Vita ainda estava internada. Anna e sua mãe passaram a investigar por conta própria, uma vez descoberto o hospital, foi difícil para ele esconder todo o resto.

A mãe de Anna não pensou duas vezes antes de denunciar o marido, o que acarretou em uma investigação que não levou apenas o homem para a cadeia, mas também todos aqueles que trabalhavam na clínica psiquiátrica e aceitaram suborno para ficarem calados. A investigação levou alguns anos, Anna perdeu sua mãe nesse meio tempo, mas não parou de lutar para que todos os envolvidos pagassem pelo o que fizeram.

Com o dinheiro de sua mãe e o dinheiro do padrasto, Anna seguiu sua busca pela filha de Vita. Tudo o que ela sabia era o que seu padrasto havia contado para as autoridades e ela chegou a cogitar que tudo fosse mentira. Um golpe para que sua pena fosse diminuída, mas ela acabou descobrindo que de fato tudo era verdade e sua busca se intensificou.

Nesse mesmo tempo, ela garantiu que Vita tivesse o melhor acompanhamento possível e todo o dinheiro que o pai tinha era destinado aos cuidados dela. Quando enfim Anna encontrou Emma, Vita já tinha tido uma melhora significativa de seu estado, mas, segundo os médicos, talvez ela jamais volte a ser quem foi um dia.

“Ela é uma artista.” Disse Anna. “Assim como Emma, mas, bem, ela não possui muita técnica. Eu realmente acredito que ela coloque toda a sua lucidez restante nos quadros que produz.”

“Como Emma recebeu você e toda essa história?”

“Ela não acreditou logo de cara.” Anna respondeu. “Ela negou tudo e não quis me ver durante uns dias, mas depois ligou no hotel onde eu me hospedei quando vim para cá procurá-la e pediu que eu explicasse tudo novamente. Enfim, ela aceitou minha proposta de voltar comigo para Califórnia e fazer os exames de DNA. Emma era a peça que faltava para que seu pai fosse definitivamente colocado atrás das grades para sempre.”

“Eles chegaram a se encontrar?”

“Sim, ela precisou depor na corte. Precisou contar sua história, levar seus registros de todas as casas de adoção que ela passou. Depois disso, nenhum juiz ou júri ficaria do lado daquele monstro. Ele perdeu tudo, sua fortuna, sua carreira, sua liberdade, mas nada disso chega aos pés do que foi tirado de Vita e de Emma. Prisão perpetua é pouco para aquele homem. Ele deveria ser atirado de volta ao inferno.”

“Você viveu com ele por alguns anos. Nunca suspeitou que ele escondia algo assim?”

“Não. Muito menos minha mãe. Ela adoeceu depois que soube de toda a verdade. Jamais voltou a ser a mesma. Esse homem é como uma praga maldita, destrói tudo. Eu gostaria de ter sabido melhor, de ter impedido o casamento da minha mãe com ele. Contudo, se ele não tivesse acontecido, Vita jamais teria sido libertada. Emma jamais recuperaria sua mãe.” Ela terminou de falar, me afundei em meus pensamentos.

Pensar em tudo o que Vita viveu durante todos esses anos, imaginá-la tendo que deixar a filha para trás era algo que eu sequer conseguia imaginar. Emma jamais teve chance de ter uma família, isso foi negado a ela desde o primeiro momento que seu pai soube de sua existência. Anna estava certa. Ele era um monstro. Eu não conseguia sequer pensar na dor que foi para Emma encarar frente a frente aquele demônio e contar a todas aquelas pessoas sua história, sabendo que fora esse mesmo monstro que a ajudou a construir sua vida carregada de abandono e dor.

Emma passou a morar na casa de Anna, até que as duas conseguiram vender a residência e achar algo para as duas. Emma passou a fazer pequenos trabalhos, até que toda a história de seu livro surgiu e Anna lhe ajudou a construí-la. Anos depois, quando enfim Emma conseguiu que uma editora publicasse seu livro, as duas decidiram voltar a Nova York. Foi durante uma das reuniões com os editores do livro que Anna conheceu Elsa, que estava de viagem para a filial na Califórnia.

“Como Emma e Vita se relacionam?”

“É complicado. Vita nunca está de verdade em algum lugar, sua mente não trabalha como a nossa. Ela não reage como uma pessoa normal. Não conversa, não interage, não cria vínculos. Foi difícil para Emma decidir se aproximar dela e mais difícil ainda aceitar que o relacionamento das duas seria uma via de mão única.” Anna explicou.

Talvez essa seja a parte que mais doí, pois o que Emma recebeu foram os restos de sua mãe. Restos que jamais poderiam ser montados e construídos de volta. Vita estava perdida para Emma. Eu me perguntei o que havia restado de fato e se isso o que Emma tinha era suficiente para preencher todo uma vida de vazio. Um movimento na porta do apartamento nos tirou a atenção, eu me virei e encarei Emma, que entrava na sala e nos encarava de volta.

“Hey.” Ela me disse, eu sorri de volta, permitindo que a sua voz retirasse de mim as perguntas que eu não deveria estar fazendo. “Eu vim buscar algumas roupas.” Continuou e olhou para Anna, indo até o quarto que as duas dividiam.

Eu me virei para Anna, que parecia cansada demais depois de me contar tudo isso. Ela se levantou seguiu Emma até o quarto e me deixou ali sozinha. Elas voltaram minutos depois, Emma agora com uma bolsa a tira colo e seu olhar parado sobre mim, não havia um sorriso em seus olhos ou em seus lábios.

“Eu não queria que você soubesse de tudo isso.” Ela disse, em um tom de extrema decepção.

“Eu não esperava saber disso tudo. Além do mais, você não tem do que se envergonhar.” Eu respondi.

Ela revirou os olhos, passou por mim e foi em direção a porta, Anna me encarou, parecia se sentir verdadeiramente mal por ter me contato tudo aquilo. Eu não esperei um pedido de desculpas, pois não parecia que a ocasião requeria um. Eu me levantei segui Emma e a alcancei antes que ela tivesse a chance de entrar no elevador.

Acompanhei-la no cubículo apertado, ela estava calada, segurando a bolsa, o olhar fixo nos botões do elevador e o semblante sério. Não parecia a Emma que eu tinha em mente, me aproximei, respondendo um impulso que parecia me mover, segurei sua mão e apertei contra a minha. Ela sorriu para mim e lágrimas desceram de seus olhos.

“Não gosto da parte da minha história que lembra um conto de terror.” Ela me disse.

“Todos nós temos esse capítulo em nossas vidas.” Eu respondi.

“Não podemos cortá-lo ou esquecê-lo, não é mesmo?”

“Eu acredito que não.”

“O que fazemos, então?”

Eu dei de ombros, eu não sabia a resposta para as perguntas mais simples, quanto mais as perguntas complexas como essa.

“O que você está fazendo agora?” Eu perguntei. “Tentando esquecer ou tentando ignorar?”

Ela balançou a cabeça, estávamos no térreo, mas nenhuma de nós duas ousou sair do elevador. Permanecemos paradas, segurando uma a mão da outra. O mundo não estava desabando a nossa frente como aconteceu há seis anos, ele permanecia o mesmo. Imutável, mas ainda assim sombrio.

“Eu tento continuar a fazer o que ainda me resta. E só me resta a arte.” Ela respondeu.

“E quanto a sua mãe? Ela também restou disso tudo.” Eu respondi.

Ela se virou, a porta do elevador aberta para nós duas, a saída tão próxima e tão real, poderíamos soltar a mão uma da outra e andar pelas ruas livre de nossa cidade. Poderíamos virar em ruas diferentes, esquecer o terror que vivemos juntas, ignorar os demônios que cada uma carregava em si, mas era impossível, pertencíamos, mesmo que indiretamente, uma ao pesadelo da outra.

“Minha mãe também faz parte da arte que resta em mim.” Ela respondeu. “Vamos.” Continuou e apertou minha mão, me tirando daquele lugar apertado. Seguimos pela saída do prédio, eu lhe mostrei o meu carro e ela não pensou duas vezes antes de entrar nele.

“Para aonde eu devo ir?” Eu perguntei, colocando a chave na ignição, ela deu de ombros, se encostou no banco, a bolsa em frente ao corpo e o olhar fixo na rua.

“Eu não sei.” Ela respondeu. “Para onde você iria depois daqui?”

“Para o endereço que Anna me deu do lugar onde você estava.” Eu respondi, olhando para ela, minhas mãos no volante, suando de nervosismo. Ela sorriu para mim, se virou novamente para a rua e balançou a cabeça.

“Não.” Ela respondeu. “O lugar é uma bagunça, tintas, folhas, quadros espalhados, não tem um lugar decente para dormir, um sofá apenas e várias caixas de pizza pelo chão.”

“Parece o lugar perfeito.” Eu respondi, ela riu, ajeitou a bolsa no colo, olhou para mim novamente. “Onde você gostaria de ir?”

“Para nenhum lugar específico.” Ela respondeu, eu liguei o carro e nós duas dirigimos em silêncio pelas ruas da cidade.

O vazio das ruas tornou o passeio fácil. Emma parecia distante, os dois pés sob o porta luvas, o olhar fixo sempre a sua frente. Nem o rádio eu ousei ligar. Havia algo naquele silêncio, algo que nós duas estávamos digerindo. Eu fui a primeira a falar algo, depois de quase uma hora dirigindo em círculo.

“Eu andei pensando no que há de errado conosco.” Ela me olhou de relance, o cenho franzido e em seguida voltou a atenção para a rua. “Nós começamos ao contrario.” Eu continuei, vi um sorriso no canto de seu lábio, continuei a falar. “Além do mais, eu nunca lhe dei minhas instruções.” Eu continuei. “Apenas eu sabia como você funcionava e você nunca sequer fez ideia de como eu era.”

“Na verdade, eu sei sim.” Ela respondeu. “Eu sou uma artista, Regina. Você se esquece disso, mas nós vemos o mundo e as pessoas de outra forma. Nós vemos pontos, onde vocês, pessoas normais, veem frases inteiras. Nós pegamos esses pontos e os juntamos e deixamos que eles criem suas histórias. Não compramos aquilo que vocês nos ofertam, porque geralmente vocês vão dizer o que há de bom, de perfeito, não o que há por debaixo da superfície. Nós, os artistas, queremos o que há por debaixo, queremos o real e, assim, com os pontos conectados, criamos nossa arte e mostramos ela ao mundo, a fim de fazer uma conexão com outros que pensam como nós.”

Eu a olhei de relance, voltei a atenção a estrada, tentei criar essa conexão, tentei ver o que havia por debaixo da frase de Emma. Para isso, ignorei sua frase, ignorei sua história e inventei uma, com todos os pontos que me foram dados.

“Você o odeia?” Eu perguntei. “O seu pai?”

“Ele não é meu pai. Ele nunca foi e não será um teste de laboratório que lhe dará esse título. Não depois de tudo o que ele fez. É impossível entendê-lo. É impossível lhe dar razão.”

“Então você o odeia.” Eu disse.

“Com todas as minhas forças.”

“Quanto a sua mãe? O que você sente em relação a ela?”

“Eu não sei. Quer dizer, minha mãe não vive nesse mundo. Ela faz parte dos outros artistas, aqueles que criam conexões, que as compartilham, mas que ninguém os entendem. Enquanto ela tenta se comunicar, eu tento entendê-la. Às vezes, eu a encaro e tento procurar por alguma sanidade em seu olhar. Tento procurar a mulher real por trás de toda a loucura que ela carrega em seus olhos ou em seus atos, mas tudo o que eu vejo é alguém que se dopou a ponto de não sentir mais nada.”

Estacionei o carro, em frente ao meu apartamento, esperei que Emma pedisse para que eu desse meia volta e a levasse de volta para a sua casa. Todavia, ao invés disso, ela se virou para mim, um sorriso no rosto, os braços abraçando sua bolsa.

“Eu não voltei para pegar roupa alguma.” Ela disse. “Elsa me ligou e disse que você estava lá.” Continuou. “Eu pensei então em todos esses mecanismos que eu crio em volta de mim, toda essa carapaça, toda essa dor que eu uso para me defender de uma dor maior. É tão mais fácil não sentir nada, ignorar o que sente, jogar a culpa em uma mãe que não teve escolha alguma, mas ao mesmo tempo é o que me mata.”

Eu podia ouvir minha respiração e os raríssimos carros que passavam pela rua deserta. Eu podia ouvir minha própria mente trabalhando, tentando entendê-la, tentando ficar ao mesmo nível que ela, sem quebrar no processo.

“Eu não sou metade do que você precisa, eu não sou metade do que você quer e eu provavelmente vou te afundar comigo, se você escolher entrar na minha vida.” Emma continuou a dizer. “Eu tenho muito medo de um dia perceber que eu já não mais consigo compartilhar minhas conexões com outra pessoa, nenhuma sequer. Ninguém entende os quadros que minha mãe produz. Nenhum deles faz sentido. Contudo, todo mundo entende quando ela sorri de verdade, quando é sincero seu olhar. Todo mundo entende suas verdadeiras emoções, inclusive as más. Ela apenas parou de sentir o mundo a sua volta, mas não parou de fazer parte dele.”

Enquanto Emma falava, eu me afundava em sua voz, em suas palavras, na dor implícita que havia em cada frase. Ela passou por tanta coisa, sobreviveu a tantas guerras particulares. Se havia alguém que merecesse o nome de guerreira, esse alguém era ela. Nós somos todos sobreviventes. Nenhum mais do que os outros. Todos sobreviventes dessa guerra diária chamada viver. Enquanto uns tentam se armar até os dentes para sobreviver aos dias ruins, ali estava Emma, se desarmando totalmente a fim de buscar dias melhores.

“Tudo o que me resta hoje é a minha arte e o que eu sinto por você, que até hoje eu não sei definir. Eu sei que você quer me dar minha segunda chance quando eu estiver pronta, mas eu tenho certeza que a única forma disso acontecer é me permitir errar. Eu preciso derrubar todas as minhas defesas, me tornar vulnerável, correr o risco de sentir todas as dores do mundo e assumir certas partes de mim das quais eu nunca me imaginei dizendo em voz alta. Se você permitir que eu faça isso ao seu lado, eu quero que você saiba que eu não vou poder prometer nada além do que eu tenho a te oferecer hoje, que não passa desse ser errante que eu sou.” Concluiu ela.

“Sua arte está inclusiva nesse pacote?” Eu perguntei, recebendo um sorriso e um aceno em resposta. “Então eu acho que eu posso te ajudar a conectar os pontos que te faltam.” Eu respondi, inclinando-me em sua direção, nossos lábios se tocaram, criando a conexão que faltava entre nós duas.

Enquanto eu a beijava, eu me vi perguntando o que podíamos compartilhar com o mundo através desses pontos conectados, mas assim que eu senti suas mãos correndo pelo meu pescoço e sua língua faminta buscando muito mais que meus lábios, eu compreendi que, naquele momento, meu mundo era ela e seria só dela se eu me permitisse. Temi, por um segundo, a falta de estabilidade que esse relacionamento poderia trazer, mas no segundo seguinte, eu já estava conectada demais a ela para me desconectar assim tão facilmente.