Instruções

16 Capítulo 16


Capítulo 16

Meu ambiente de trabalho sempre foi o meu lugar preferido, pois eu idealizei cada centímetro daquele espaço. Era como estar dentro de um sonho. Eu me sentia bem, mesmo que eu estivesse aos pedaços. Era por isso que eu estava ali mais cedo, fazendo um trabalho que nem era meu. Auxiliei os garçons e arrumadores a organizar todas as peças, conferir pratos, talheres, limpeza do lugar, reservas feitas para a noite. Atendi ligações, descarreguei os caminhões com as frutas, verduras e mantimentos. Varri o chão e antes do meio dia do domingo, me joguei na poltrona do meu escritório e coloquei meus pés sobre a mesa. Eu estava exausta.

“Quantos energéticos você tomou ontem à noite?” Perguntou Aurora, em pé, ao lado de minha mesa.

“Eu dormi o Sábado inteiro.” Respondi a ela, que arqueou as sobrancelhas em sinal de descrença, mas eu não iria me explicar.

“Então a Sexta foi maravilhosa.” Continuou a dizer, mordendo o lábio inferior e se preparando para jogar seu corpo contra a cadeira, a fim de ouvir um relato detalhado da minha noitada.

“Tive uma sexta horrível.” Respondi e seu rosto se fechou em uma mistura de simpatia e pena. “Com uma pessoa horrível.” Continuei e ela parecia prestes a chorar, o que deu um tom tão patético a cena, que eu comecei a rir.

“Você está brincando, não é? Você não pode ter um imã tão ruim para as pessoas.”

Eu dei de ombros, nunca pensei que meus maus encontros fossem questão de más escolhas, apenas que não rolavam e ponto final. Não acho que um pente fino nas pessoas, com perguntas objetivas a fim de encontrar um par perfeito, me faria de fato encontrar a tal garota.

“Dê uma nova chance a ela.” Sugeriu Aurora, mas eu balancei a cabeça. “Qual é o problema? Ela é comprometida?”

“Só se for com a própria mente.”

“O que isso quer dizer?”

“Que nos pensamentos dela, só há espaço para ela mesma e seus problemas. O resto do mundo é descartável.”

Isso a fez refletir e eu me censurei por ser tão amarga. Ela era muito nova e inocente, ainda precisaria amadurecer muito antes de entender as maldades do mundo. Acho que o melhor que ela podia fazer (pelo menos era o que eu faria se eu tivesse a oportunidade) era dormir por centenas de anos. Até que alguém aparecesse para me despertar, com um beijo ou um balde chamado realidade, transbordando de água gelada.

Emma sumiu da minha mente nas horas seguintes. Não trabalho diretamente na cozinha, tenho chefes em treinamento em que confio e que seguem à risca minhas receitas. Além do mais, o horário do almoço aos domingos costuma ser calmo, já que as pessoas preferem os brunches aos almoços tradicionais. Preferi ficar em meu escritório, cuidando das finanças, gostava de mexer com os números, pois me distraia, na maioria das vezes.

Alguém abriu a porta, não desviei o olhar da planilha do computador, pois geralmente é algum dos meus funcionários, que faz uma pergunta curta ou anuncia algo e me deixam sozinha no instante seguinte. Porém, nenhuma voz se fez presente. Olhei para a pessoa que estava ali, para descobrir que não era nenhum de meus funcionários.

Era uma criança. Um pouco maior que Roland, de óculos arredondados, suéter de lã e cabelos bagunçados. Nossos olhos se fixaram um no outro durante o que pareceu uma vida inteira. Sua boca semiaberta, premeditando uma pergunta, me fez esperar. Porém, o garotinho, que segurava a maçaneta e parecia hipnotizado por mim, nada disse.

“Posso te ajudar?” Perguntei, tirando meus óculos de leitura. Ele percorreu seu olhar pelo escritório, que não era nada majestoso, apenas do tamanho da minha necessidade. Em seguida, seu olhar pousou na porta do banheiro que havia ali. Segui seu olhar. “É um banheiro.” Eu disse, em um tom de voz robótico, ele virou em minha direção, entrou no escritório, fechando a porta atrás de si e, sem dizer uma palavra sequer, seguiu em direção ao banheiro.

Inclinei o corpo contra minha cadeira, a girei para ver melhor a porta, agora fechada. Segundos depois, o barulho da descarga pôde ser ouvido e então o da água da torneira. A porta se abriu, o garotinho saía de lá, fechando a porta e me encarando com um sorriso satisfeito.

“Esse restaurante é bem confuso.” Disse ele, por fim, em um tom de voz infantil. Adorável demais para ser verdade, sorri, mesmo que sua frase não tenha sido um elogio.

“Ah, é? Por que diz isso?”

“Porque o banheiro fica escondido.” Respondeu.

Eu tive que rir do pequeno garoto, que não entendia minha diversão.

“Prometo que irei pessoalmente cuidar para que o banheiro seja realocado para um lugar de melhor acesso.”

“Você pode fazer isso?”

“É claro que sim. Tem algo a mais que você queira que seja resolvido?”

“Talvez um livro grande para colocar na cadeira, para as crianças pequenas, como eu, possam alcançar a mesa.”

“Eu darei um jeito nisso.” Respondi, segurando o riso.

“Ah, se você puder conversar com a cozinheira e pedir a ela para colocar macarrão com queijo e bolo de chocolate no cardápio, seria legal. Teria mais crianças aqui dentro e não adultos velhos de terno preto.”

Ele disse em tom sério, sem esboçar nenhuma expressão em seu rosto infantil. Encantei-me com sua convicção e com as covinhas que surgiram em seu rosto. Meu restaurante não atraia de fato muitas crianças. Roland era o único cliente mirim que eu tinha, mas ali estava aquele pequeno, que em poucos segundos me roubou vários sorrisos, que eu nem lembrava que tinha, me fazendo questionar sobre as pessoas que eu resolvi me cercar.

“Eu farei isso.” Respondi e ele sorriu satisfeito. Levantei-me e o acompanhei até a porta, abrindo-a para ele e esperando-o passar por mim. Ele parou ao meu lado, me encarou fixamente, por trás de seus óculos e pareceu refletir antes de falar.

“Por que eu tenho esse sentimento que eu já te vi antes?”

“Eu não sei.” Respondi e notei que o sentimento era mútuo. “Talvez eu tenha te visto aqui antes.” Ele balançou a cabeça.

“É a primeira vez que eu almoço aqui. Você é amiga dos meus pais?”

“Eu acho difícil. Conheço poucas pessoas com filhos e só um na sua idade.” O garotinho franziu o cenho e eu fiz o mesmo, analisando os contornos de seu pequeno e perfeito rosto, havia um sentimento quase que maternal, como se em outras vidas ele tivesse me pertencido.

“Você é a Rainha!” Ele disse, sua voz escapava de seus lábios em um sussurro, como se a frase fosse um segredo do qual ele não podia compartilhar. Uma vez a frase no ar, ele tampou a boca com as suas pequenas mãos, mas era possível ver um sorriso escapando por trás de seus dedos. “Eu pensei que você fosse uma invenção da minha mãe.” Eu estava confusa demais para perguntar qualquer coisa, mas ele não parecia disposto a ir embora.

“Quem é a sua mãe?”

“Ela não é bem minha mãe.” Respondeu. “Mas eu gosto de chamá-la assim, ela fica bem irritada.” Continuou e sorriu ao compartilhar essa frase.

“Você gosta de irritá-la?” Ele fez que sim, eu me encostei no batente da porta, cruzei aos braços, ouvi o barulho do salão em movimento, vozes, barulho de talheres, pratos e passos. Foquei-me no rosto do garoto e excluí todos os sons exteriores. “Tire os óculos.” Eu pedi e ele me obedeceu. Os sons, aos poucos, se tornaram quase que imperceptíveis. Foquei meu olhar nos azul dos pequenos olhinhos do garoto, agora não mais ocultos pelos seus óculos arredondados. “Henry.” Eu disse, em voz alta, sentindo meu corpo sendo consumido por um sentimento de saudades e nostalgia. Ele sorriu, não perguntou como eu sabia seu nome, apenas disse uma frase que significou mais do que qualquer explicação.

“Meu papai me contou uma vez, que meu nome pertenceu a um grande Rei.” Eu sorri, ignorando as lágrimas e baguncei seus cabelos mais do que já estavam.

Eu conseguia ver nitidamente em minha mente, Emma com ele em seus braços, há seis anos. Naquela época, eu sentia o mundo ao meu redor, coberto por cinzas e aqueles dois estranhos trouxeram cores para os meus olhos. Eu não estaria aqui se eles dois não existissem, eu tinha plena consciência disso. Havia algo em Henry, uma luz, uma calma, algo fora desse mundo e mais perto do céu.

Não sou religiosa. Não tenho uma crença sequer, mas sei entender avisos e sinais e algo estava me fazendo, constantemente, voltar para Emma. Esse garoto em minha frente era a obra prima que Emma, uma vez, decidiu compartilhar com o mundo.

Arrumei seus fios de cabelos, desci meus dedos até suas bochechas e queixo e me inclinei em sua direção para um beijo. Eu não podia odiá-la, assim como não podia aceitar que ela era só destruição. Deveria haver algo dentro dela, tão grande e tão forte como Henry, mas eu sinceramente não sabia se eu era a pessoa certa a desvendar o que quer que houvesse dentro dela.

Segurei a mão de Henry, sem sequer perceber, seguimos em direção a mesa de seus pais, que logo me reconheceram. Recebi abraços e um carinho de pessoas que mal me conheciam, mas que estavam ligadas a mim graças a Henry. Eu não sabia que pessoas poderiam criar elos assim tão forte, mas talvez seja essa a magia das crianças. Eles possuem esse poder de unir as pessoas, queiram elas ou não.

Lá estávamos nós, David, Killian, Henry e eu, sentados na mesa de meu próprio restaurante, eles mal conseguiam acreditar em todas as minhas conquistas. Eu não as compartilhava com ninguém, sempre pensei que tudo o que eu criei e lutei, pertenciam apenas a mim, mas compartilhar a felicidade, parecia muito mais gostoso. Pedi que um dos ajudantes levasse Henry até a cozinha e ensinassem a ele como se preparava a massa do espaguete, ele ficou eufórico e nos deixou a sós por algum tempo, o que possibilitou uma conversa de adulto entre nós três.

“Sabe, eu sempre tive curiosidade de saber como você ficou, depois do que aconteceu entre você e Emma no Maine.” Disse David, de forma cautelosa, como se temesse tocar em alguma ferida.

“Então vocês sabem o que aconteceu entre a gente?” Perguntei e David assentiu, explicando que Emma ligou para eles, em prantos, pedindo que um dos dois fosse buscá-la.

“Eu fui imediatamente.” Começou David. “Peguei meu carro e só parei de dirigir quando cheguei na pequena cidade do Maine. Emma estava arrasada, a encontrei no apartamento que vocês passaram alguns dias. Ela estava em um canto do ateliê, com suas mãos completamente sangrando, ela havia pintado a noite inteira, até cansar, até sangrar. Ela não falava nada que fizesse sentido. Peguei suas coisas, coloquei no carro e voltei para Manhattan com ela. Durante alguns dias, ela se manteve no nosso sofá da sala, sem comer, sem sequer conversar.” Completou David.

Uma angústia me corroeu por dentro, não imaginava que ela sequer pudesse ter sofrido tanto assim. Senti pena dela, me senti culpada, desejei que as coisas tivessem sido diferentes, mas agora já era tarde demais e não poderia ter acontecido de outra forma.

“O que a fez voltar a realidade?” Eu perguntei, querendo que chegasse na parte da história em que ela desse uma reviravolta e mudasse.

“Um dia ela simplesmente levantou. Ligou para seu amigo Graham, pediu que ele mandasse o fusca, que havia ficado no Maine. Pediu também que buscássemos suas coisas no apartamento e devolveu as passagens para Europa. Ligou para Mulan e disse que elas haviam acabado, toda a conversa durou no mínimo dois minutos. Ela sequer respirou. Assim que o carro chegou, ela o vendeu e vendeu todas as suas artes, a ajudei com isso. Criamos um perfil no Ebay, tiramos fotos de tudo o que ela havia produzido. Dentre todas as obras, havia uma que ela gostava de chamar de ‘A Rainha’.”

“A Rainha?”

“Ela nunca explicou a história, mas era assim que a chamava.” Killian respondeu.

“Enfim, havia algo na Rainha que a hipnotizava. Ela tinha que ter a imagem por perto, por isso eu estranhei quando ela decidiu que também a venderia, mas assim que cadastrou a imagem, ela cobrou 500 mil dólares. Eu sabia que ninguém pagaria esse valor por algo produzido por uma artista do subúrbio de Manhattan. Era uma forma de auto sabotagem. Emma não queria se livrar da Rainha. Entretanto, dois dias depois, alguém deu um lance na imagem.”

“Quem?” Eu perguntei, inclinada na direção de David, ouvindo atentamente a história, meu coração disparava e eu sentia que ele iria parar a qualquer segundo, se a história fosse interrompida.

“Uma tal de Anna.” Respondeu David, continuando sua história. “Essa é a melhor parte da história, mas é muito pessoal para que eu conte para você. Emma já te encontrou? Porque eu disse para que ela te procurasse. Emma deve muito a você. Segundo ela, a Rainha só existe porque você a inspirou a criá-la. Sem a imagem, ela jamais teria encontrado Anna e consequentemente sua mãe.”

“Emma encontrou sua mãe?” Eu perguntei, não havia barulho externo ou interno. Meu coração havia parado.

“Ah, sim. É uma longa e incrível história. Vocês deveriam se reencontrar. Você sabe que ela está na cidade, não é mesmo?”

“É, eu sei. Eu estive com ela na Sexta.” Eu respondi e eles se entreolharam, como se soubessem algo que eu não sabia. Engoli a seco e tive medo de perguntar, mas meu olhar disse tudo e David começou a falar.

“Então você é a garota que a fez chorar o sábado inteiro?” Perguntou David, não havia censura em sua voz, ele pareceu divertido até.

Eu a fiz chorar?!” Perguntei, com uma indignação no tom de voz, querendo despejar tudo o que havia acontecido e dizer a eles que Emma era uma egoísta e que não merecia sequer tocar em meus lábios. Senti a fúria tomar o meu corpo, meu rosto se aqueceu e David tocou em minha mão, me acalmando imediatamente.

“Emma tem sérios problemas. Isso é um fato, mas ela tem inúmeras qualidades que superam todos eles. Eu não sei o que aconteceu entre vocês duas, mas eu vou repetir o que eu disse a Emma: não exija mais do que as pessoas podem dar.” Eu dei risada, uma mistura de nervosismo e irritação.

“O que você quis dizer? Eu não dei a Emma o suficiente?” Perguntei, me sentindo invadida e atingida. Ele ainda segurava minhas mãos.

“Não, muito pelo contrário. Como eu disse antes, eu não sei o que aconteceu entre vocês duas, mas Emma estava aflita demais e se culpando por uma personalidade que ela possui e que é inerente a suas escolhas. Ela é o que é. Parece uma frase estúpida, mas é essa a verdade. Ela não pode se forçar e ser outra coisa. Emma é isso, essa inconstância. Ela é como uma onda. Bonita demais quando a vemos de longe. Incontrolável e perigosa quando subestimada. ”

“Eu não sei se eu quero me aproximar. Eu não sei se eu quero me afogar.” Respondi, senti as lágrimas quentes, senti a saudade do meu corpo no dela. Senti o quanto ele estava certo. Ela tinha dado tudo de si e aquilo era Emma, sem máscaras, nua e completamente minha durante aquelas horas que fomos uma só. Eu não podia exigir mais do que o que ela me deu. Aquilo era tudo.

“Quem disse que você vai se afogar?” Perguntou ele. “Existem outras alternativas.”

Naquele momento, não parecia haver nenhuma outra. Os três tiveram que ir embora, dei um abraço apertado no pequeno Henry e senti que havia ganhado um melhor amigo. Fiquei no restaurante até o expediente acabar, eu estava exausta quando cheguei em casa, mal falei com o porteiro, que estava dormindo com o jornal aberto em seu rosto. Dentro do elevador, enquanto os números passavam depressa pelo display, eu pensei em Emma, em sua força de remexer tudo o que eu havia deixado afundar em mim.

Porém, desliguei logo meus pensamentos, eu não precisava pensar nela. Eu não precisava sequer cogitar me afundar em Emma, que estava muito distante agora e se dependesse de mim, ela ficaria onde estava. O universo podia jogar os seus dados, se ele quisesse, mas eu me desviaria de todas a jogadas e de todas ciladas. Emma não mais me atingiria e eu não mais me afogaria.

Quando as portas se abriram no meu andar, lá estava Emma, deitada no chão de minha porta, usando uma mochila como travesseiro. Eu parei, com as chaves na mão, sem saber como reagir. Olhei para o elevador que agora descia, como se me dissesse que eu não tinha para onde fugir. Eu teria que aceitar as alternativas.

Dei alguns passos incertos em sua direção, me ajoelhei ao seu lado, seus olhos fechados, seu rosto completamente molhado – talvez por lágrimas – e sua boca, tão convidativa e tão perto. Por que ela tinha esse imã? Por que ela não sumia para bem longe de mim? Porque eu a queria por perto e porque uma parte de mim estava disposta a aceitar que eu era capaz de nadar contra a maré e flutuar, nesse mar enorme chamado – não mais ‘minha mente’ – mas sim Emma.

Aceitar essa condição e flutuar em Emma, seria viver constantemente com a cabeça para fora da água, para que eu não perdesse o ar, para que eu não morresse dentro dela. Parecia demais para mim. Parecia sufocante, mas parecia a única alternativa. Seus olhos estavam fechados, mas eu os imaginei aberto para mim. Oceanos gigantes de um verde sereno. Assim que eles abrissem e encarassem os meus, castanhos e melancólicos, eu estaria sem saída.

Flutuar, ainda assim, era melhor que afogar. Era melhor que perder o ar ou a vida. Pois pode parecer dramático ou exagerado demais, mas agora ao lado dela, eu não conseguia me imaginar vivendo sem ela. Flutuar, era melhor do que nadar, pois eu jamais me cansaria e viveria contemplando o céu. Viveria seguindo seu fluxo, deixando que ela me levasse, em seu tempo e em suas costas. Dando a mim, exatamente o que ela poderia oferecer.

Ela abriu os olhos e se sentou, abriu a boca, provavelmente para se explicar, mas eu já havia tido tempo o suficiente de explicar a mim mesma tudo o que eu precisava saber. Eu não queria mais do que seu toque no momento, eu não queria mais do que o silêncio e o entendimento mútuo que se seguiria com ele. Ela se sentou, dando espaço para mim ao seu lado, não ousei perguntar sobre a mochila, tive medo de que ela estivesse ali para um pedido de desculpas e uma despedida.

Sentei-me ao seu lado e ela se encostou em meu ombro. Seu braço passou por debaixo do meu, entrelaçando seus dedos aos meus. Por um segundo, me senti fazendo parte de algo maior do que mim mesma. Por um segundo, me senti um pequeno rio, solitário e calmo, incansavelmente em busca de uma bifurcação, para me levar ao mar, a fim de me tornar mais forte.

Talvez fosse essa a alternativa. Ser forte. Talvez essa seja a única alternativa para tudo. Seja forte, Regina. Levei sua mão até meus lábios, a beijei e não precisei ver seu rosto para sentir um sorriso, não precisei ver seus milhares de pedaços para entender que ela era tão frágil quanto eu. Seja forte, Emma. Eu teria dito a ela, mas não foi o que disse.

“Eu não quero me apaixonar por você.” Sussurrei, mal reconhecendo o som da minha própria voz, que parecia distante e abafada pelo o que o meu coração gritava. Virei-me para ela, vi seus olhos vermelhos, denunciando o choro e a noite mal dormida.

“Então não se apaixone.”

“Eu não acho que eu tenha alternativa.”