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17 Capítulo 17


Capítulo 17

No saguão do elevador, encostadas uma na outra, Emma e eu permanecemos em silêncio por um tempo que parecia jamais acabar. Minha última frase, carregada de uma carência que nem eu sabia explicar, ecoava em minha mente. Eu realmente estava fadada a esse amor? Eu não tinha escolha além de me jogar de cabeça em algo que claramente apenas eu estava engajada?

Havia muitas dúvidas em minha cabeça, assim como inúmeras certezas. Dentre as dúvidas, havia aquela que tomava mais espaço, que me consumia até a respiração e me tornava exausta. De onde vinha esse sentimento por Emma? E por que eu parecia não ter escolha? Se eu parasse, um segundo sequer, para refletir a respeito desse sentimento, de sua existência, de onde ele surgiu, eu me levaria a lugar algum.

Não havia um sentido para todos esses sentidos, era como se apenas o fato de sentir, por si só, já se bastasse. Era como se Emma fosse capaz de reescrever, reinventar o ato de explicar. Ela estava me fazendo ficar perdida em minha própria mente. Na verdade, ela já estava se apossando de tudo o que me representava.

As certezas, que existiam de fato, eram limitadas ao fato de que apesar de eu não saber explicar de onde e do porquê eu estava caindo de amores por Emma, eu ainda assim queria sentir tudo, até o desgosto de uma rejeição. Isso era patético, mas eu estava cansada demais para buscar uma introspecção a fim de encontrar um sentido para isso tudo.

Não havia mais luz onde estávamos. O sensor de movimento do saguão era incapaz de captar todos os movimentos internos, todos os pensamentos conturbados que haviam dentro de mim, de modo que as luzes permaneceram apagadas. Eu não ousei me mover, por medo de quebrar o toque, por medo de Emma também se mover e de novamente tudo em mim se revirar. E se quando as luzes se acendessem eu voltasse a enxergar o que havia ao meu redor?

Durante aqueles intermináveis minutos, eu temi tudo o que havia dentro e fora de mim. Eu temi meus conflitos, eu temi as dúvidas, as certezas, eu temi Emma e todo o enigma que ela representava. Entretanto, Emma se moveu, desenrolando seu braço do meu e se afastando. Senti o frio que a sua pequena distância causava em meu psicológico, pois era em meus pensamentos que eu o sentia. Novamente a carência e aquele grito interno ecoando em minha mente, que temia que todo esse apego pudesse acabar em um desastre.

“Eu não vim até aqui para ficar em silêncio.” Disse ela, tirando um pouco do fôlego que eu tentava manter.

“Então para quê veio?” Perguntei, sentando-me de frente a ela e fazendo com que o sensor captasse meus movimentos, iluminando o saguão e trazendo não apenas os olhos molhados de Emma, mas também a verdade de sua presença.

Lá estava a sua mochila, intocável, jogada próxima a ela, esperando por sua dona e pelo seu destino. Emma estava indo embora. Era de fato uma despedida e pensar nisso, mesmo que ainda fosse uma hipótese, trazia tanta coisa à tona e respondia a maior dúvida de minha mente: eu não precisava explicar os motivos pelos quais eu estava me apaixonando por ela, porque isso de fato era amor, o que tornava toda a explicação desnecessária e inexistente.

“Eu vim até aqui para me desculpar, por ter sido estúpida, por não ter sido sincera, por ter permitido que nós duas nos entregássemos a algo que nem eu e nem você estávamos prontas.” Ela respondeu, sentando-se sobre suas pernas, seus olhos fixos nos meus, banhados por lágrimas e o cenho franzido em uma angústia que me destruía mais do que suas palavras.

“Eu te perdoo.” Eu respondi, rápido demais, sentindo quase como se essas palavras não pertencessem a mim e sim aos meus sentimentos. Era como ter duas Reginas, ou mais, lutando pelo controle de meu corpo. “Se é isso que você precisa ouvir para não ir embora. Eu te perdoo, Emma.” Continuei, seu cenho franziu e sua cabeça balançou ligeiramente.

Ela parecia exausta, quebrada, arrependida, destruída, fazendo então com que toda a dor que eu havia sentido nas últimas 24 horas perdessem o sentido. Eu senti a necessidade de curá-la, de remendar todas as partes que ela havia quebrado de si mesma, mas eu entendi que isso não cabia a mim. Emma podia ter me salvado dos atentados, porém, não cabia a mim salvá-la de si mesma. Eu apenas podia dar espaço para essa cura.

“Eu não quero que você vá embora.” Eu continuei e senti meu tom de voz quase beirar ao desespero, mas não ligando, eu estava vulnerável ali, diante dela, assim como ela também estava.

“Eu não vou.” Ela respondeu, passando as mãos pelos cabelos e olhando rapidamente para a mochila jogada ao seu lado. “Anna me expulsou por alguns dias, eu tenho um lugar para ficar, mas enquanto eu estava no táxi, indo para esse lugar, eu não consegui parar de pensar em você e na dor que eu te causei e que causei a mim mesma.” Continuou, vê-la admitindo essa dor, que havia nela também, embrulhou-me o estômago. Era impossível vê-la como a Emma durona que negava sentimentos e amores a Emma egoísta que me deixou jogada em uma cama depois de uma noite incrível. “Eu não quis te deixar sozinha.” Sua voz continuou, seu olhar também continuou fixo aos meus e seus pedaços destroçados agora pareciam planar ao seu redor, tentando voltar para seus lugares de origem.

“Mas você deixou.” Eu disse, sentindo-me amarga por admitir isso em voz alta, pois agora era mais real e mais doloroso. “Entretanto, eu não devia esperar isso de você, não é mesmo? Você já fazia isso antes e eu já sabia disso, eu deveria saber melhor. Eu deveria saber que você não me veria como alguém especial e sim como mais uma de suas transas.”

“Não é verdade, Regina.” Disse ela. “Você não foi mais uma de minhas transas e é por isso que eu estou aqui, te pedindo desculpas e me arrependendo de uma ação egoísta. Eu não deveria ter ido com você para a cama, pois eu sabia que você procurava algo que eu não estava pronta para te oferecer. Eu não sei lidar com isso, Regina. Não sei lidar com sentimentos, não sei amar como todas as outras pessoas fazem. Eu tenho muito medo de tudo isso. Eu não sei ao certo do que. Da rejeição, talvez? De amar com todo meu coração e vê-lo destroçado por alguém que um dia jurou me amar para sempre. Sabe quando as pessoas dizem que uma mãe ama um filho incondicionalmente? Eu não sei o que é amar alguém dessa forma, assim como eu também não sei como é ser amada incondicionalmente. Minha mãe, anos atrás, negou esse amor e até hoje eu sofro essa falta. Eu sei melhor agora, pelo menos eu tento saber ou buscar entender melhor agora, mas não há um dia sequer que eu não pense que a única pessoa que realmente deveria me amar, escolheu me abandonar. O que impediria o resto do mundo de fazer o mesmo?”

“Eu não vou te abandonar.” Eu respondi, mas soube no instante seguinte que não era essa a resposta que ela queria, pois a pergunta era ‘Por que minha mãe me abandonou?

Recapitulei a conversa que eu tive com David, lembrei-me do fato de que a mãe de Emma havia voltado para a vida dela. Imaginei que as dores voltaram também, que as dúvidas, que as perguntas jamais respondidas e toda amargura do abandono estavam ali em Emma e, na verdade, aparentemente sempre estiveram.

David havia me dito também que não podíamos exigir mais do que as pessoas podiam nos dar e naquele momento tudo o que eu podia dar a Emma era meu perdão e Emma, por sua vez, podia me dar seu mais sincero arrependimento. Eu busquei pela sua mão, que veio fácil, que veio seguida de um abraço e de um choro carregado de uma carência que Emma, assim como eu, havia dentro de si.

Por um instante, sentir essa necessidade de ter alguém e algo para nos trazer segurança não pareceu errado. Principalmente porque a necessidade era sincera, não apenas fruto de uma negação constante de sentimento. Acima de tudo, era uma necessidade de sentir algo que por anos havia sido negado e que agora era ofertado da forma mais sincera possível.

Durante anos eu busquei alguém para amar, alguém para tirar Ruby de meus pensamentos, alguém que eliminasse os cinzas, os vermelhos e todas as cores que eu associava a dor que eu havia sofrido no passado. Agora eu sei melhor, eu não preciso das cores para preencher nada, não é questão de sentir vazia ou de eliminar outros sentidos e pessoas. É algo além disso, é algo que transpassa a explicação. É algo como Emma, complexo demais e confuso demais para ficar tão nítido ao olhar. O que mais eu podia oferecer a Emma além de perdão? Além do conforto de um abraço?

“Me dê uma segunda chance.” Ela disse ao meu ouvindo, eu sabia do que se tratava, eu sabia também que eu podia dar a ela isso, mas escolhi me afastar um segundo, encarar seus olhos tomados por lágrimas e respondê-la.

“Não hoje, Emma. Só quando você estiver pronta.”

Não era essa resposta que ela buscava, mas era o que eu podia dar. Era tudo o que eu tinha a oferecer e pelo sorriso dela, isso foi o bastante. Ela se levantou, com a minha ajuda, colocou a mochila nas costas e se dirigiu ao elevador, enquanto esperávamos naquele silêncio que consumia as palavras que nenhuma das duas ousava pronunciar.

Eu então entendi algo. Entender não poderia ser o tema da noite. Mas ali, ao lado dela, enquanto os números do visor do elevador anunciavam sua chegada, eu percebi que se eu quisesse algo com ela, se eu quisesse de fato sentir esse amor e permitir que ela o sentisse, eu teria que ser não apenas honesta com ela, mas comigo mesma. E, principalmente, com o momento em que estávamos.

E naquele momento, nós ainda estávamos no escuro e nossos sensores de movimento não eram capazes de entender que ainda estávamos em estase por toda a dor que ainda havia em nós duas. Nós precisávamos dos passos curtos, dos arrependimentos, de uma cura que viria em assumir a distância de que, naquele momento, nós precisávamos. O elevador chegou, a porta se abriu, Emma entrou e despediu-se de mim com um aceno.

“Segura para mim essa segunda chance.” Ela disse, apertando o botão do andar e sorrindo antes de ser ocultada pelas portas automáticas.

Eu não precisava segurar nada para Emma, pois tudo em mim já pertencia a ela. Eu ainda estava tendo problemas para entender os motivos pelos quais tudo parecia girar ao redor dela. Todavia, eu conseguia ver esses inúmeros pontos de interrogações, orbitando ao meu redor e se desfazendo à medida que eu assumia para mim mesma que Emma não foi feita para ser explicada, mas sim para ser sentida. De modo que eu não podia parar de desejar nossa segunda chance, para senti-la novamente em mim.